Saudações de Tomoeda!!!
O capítulo da vez é diferente, pelo menos para mim. É a primeira vez que uso o recurso do flash-back tantas vezes e a primeira vez que insiro música na trama também. Não sei qual será a reação de vocês perante essas novidades, mas o fato é que eu estou bastante satisfeita com o resultado.
A maioria das recordações apresentadas aqui foram tiradas diretamente da história original, excetos as lembranças do Shaoran em Hong Kong. Foi cansativo digitar algumas partes mantendo o mangá aberto ao mesmo tempo em que digitava, mas valeu! Para quem só viu o anime, acho que vai dar para perceber algumas diferenças entre o final das duas versões. A descoberta dos sentimentos de Shaoran e Sakura um pelo outro é melhor trabalhada nos quadrinhos e por isso mesmo é mais fofa, o que não tira o mérito do Episódio 57 – O elevador quebrado, um dos meus prediletos da série de TV. Isso me deixou tentada a inserir mais trechos do mangá aqui, mas me segurei. Escrever o capítulo já cansou bastante do jeito que ele ficou.
Divirtam-se e boa leitura!
Akane Fuu
Atualizado em 29/11/2009
O lobo e a cerejeira
Cap. 12 – Dúvidas
O sol entrava calmo por entre as folhas das árvores balançadas pela brisa, mas aquele adolescente vestido com roupas chinesas não estava ali para apreciar a bela paisagem. De espada em punho, Shaoran corria pelo bosque sem se importar com os pequenos ramos e galhos que batiam contra seu corpo, deixando vergões vermelhos especialmente em seu rosto. Tudo o que tinha em mente era alcançar e vencer seu inimigo.
Parou por um breve instante em uma clareira que surgiu na sua frente. Sem deixar de olhar com atenção toda sua volta, ele se concentrou na busca daquela presença. Não conseguiu localizá-la, mas apesar disso fico satisfeito e deu um breve sorriso. Contudo, o sorriso morreu quando percebeu um estranho movimento atrás de si. Ao se virar, notou inúmeros galhos longos e flexíveis como cordas virem velozmente em sua direção, não só daquele lado mas de todo o entorno da clareira. Em um movimento rápido, segurou a espada com firmeza e girou o corpo no mesmo lugar em que estava, cortando todos em um único golpe.
Um vulto correu por trás dos arbustos próximos enquanto o descendente de Clow agia, mas Shaoran percebeu o movimento pelo canto do olho e seguiu a pessoa logo que foi possível. Ele correu o máximo que podia, vencendo a distância que o separava de seu alvo a cada novo passo. O vulto saltava e desviava durante o percurso na tentativa vã de ganhar tempo e despistá-lo, mas suas esperanças terminaram ao chegar a um ponto do bosque em que três grandes árvores fechavam todo o caminho a sua frente. Os galhos altos e entrelaçados entre si não permitiam uma fuga pelo ar e o pouco espaço livre entre os troncos era totalmente permeado por arbustos compactos, alguns até mesmo espinhosos, que tomariam muito tempo para serem atravessados.
Logo sentiu-se tenso ao perceber o jovem chinês surgir às suas costas, ofegante e a poucos metros de distância. Shaoran respirou fundo para se recompor da corrida e sorriu com certa prepotência diante do alvo alcançado. Encurralada, Sakura se virou para o colega e contraiu os lábios, frustrada. Queria tempo para emboscá-lo com suas cartas, mas agora teria que enfrentá-lo cara-a-cara. Empunhando o báculo transformado pela Carta Espada, Sakura ficou imóvel estudando o inimigo enquanto Shaoran fazia o mesmo. Foi o rapaz quem tomou a iniciativa, avançando com velocidade contra ela. A Card Captor bloqueou bem o golpe e o som das lâminas se chocando reverberou nos troncos em volta deles. No segundo seguinte, porém, o chinês recuou de leve e tentou aplicar um chute lateral enquanto a menina ainda se concentrava nas espadas.
Sakura desviou por um triz, girando o corpo de modo a voltar sua espada novamente na direção de Shaoran, mas ele se virou também, amparou a lâmina dela segurando sua própria espada como se fosse um bastão e a empurrou através da espada com tanta força que Sakura se viu forçada a jogar sua espada para o alto e saltar, dando uma pirueta de costas no ar e caindo alguns metros a frente dele, a tempo de pegar a espada como se fosse seu antigo bastão de líder de torcida.
_ Para uma iniciante em artes marciais, sua esquiva já melhorou bastante, Sakura. – disse o rapaz.
Ela agradeceu com um sorriso e o confronto recomeçou como se aquele breve instante de conversa não tivesse existido. Sakura estava se saindo bem a princípio, mas Shaoran ainda era visivelmente superior a ela, pois conseguia usar sua magia e a espada simultaneamente, intercalados com seus conhecimentos de artes marciais, enquanto a sucessora de Clow não. Por isso, não demorou muito para que ele conseguisse jogá-la contra uma das grandes árvores, fazendo a Card Captor soltar a espada durante o impacto.
_ Acabou, Sakura... – disse o mago chinês num tom de voz frio e ameaçador.
Elevando sua espada, Shaoran desceu a lâmina sobre a amiga. Sakura se encolheu e gritou, cruzando instintivamente os braços na frente do corpo como proteção, enquanto sua imagem se desfazia no ar, dando lugar a uma carta cor-de-rosa. Com destreza o descendente de Clow agarrou a carta e sentiu ela se debater fortemente entre seus dedos como uma borboleta desesperada presa em uma rede.
_ Acabou, Sakura... – ele repetiu alto, dessa vez em seu tom sério e normal – A idéia de me cansar perseguindo uma falsa Sakura foi boa, mas não me importa se você usou a Carta Espelhou ou a Carta Ilusão, eu sempre sei quando é você ou uma de suas cartas.
Do galho alto da árvore em que se encontrava, a verdadeira Sakura pressionou as costas contra o tronco áspero, profundamente assustada. As mãos sobre a boca mostravam que ela teve que fazer um enorme esforço para segurar o grito de pânico que lhe veio a garganta ao ver sua própria imagem quase ser cortada em duas pela espada do amigo chinês.
_ Deixe-me ver... – começou Shaoran, como se debatesse um assunto banal com a vegetação ao seu redor – Você está usando a Carta Escudo para ajudá-la a esconder completamente sua presença mágica mesmo durante o uso das cartas. Está usando a Carta Silêncio para convocar sua magia sem palavras. Usou a Ilusão para me fazer seguir a Sakura errada e deve ter usado a Salto para se esconder em um ponto onde você pudesse me ver sem ser vista... Sim, de fato foi uma boa estratégia, mas agora é melhor sair de onde está e me enfrentar de verdade!
Ainda paralisada de horror em seu esconderijo, Sakura só voltou a si ao ver uma carta rosada flutuando em sua direção. Segurou a Carta Ilusão com alívio, vendo-a intacta, e a abraçou com força.
_ Não queria estragar este belo reencontro, Sakura, mas a fidelidade de suas cartas também pode ser usada contra você, sabia?
Shaoran havia se aproximado silenciosamente seguindo a carta que deixou escapar de propósito e já estava parado bem embaixo do galho onde a sucessora de Clow se encontrava. Kero, que estava em outra árvore ali perto, sentiu seu sangue ferver de raiva ao vê-lo e desceu voando até ficar cara-a cara com o mago chinês antes que a Card Captor tomasse qualquer atitude em sua defesa.
_ COMO VOCÊ TEVE CORAGEM DE FAZER AQUILO, MOLEQUE? E SE FOSSE A VERDADEIRA SAKURA???
_ Acontece que eu SABIA que não era a Sakura, Kerberus! – o adolescente respondeu com irritação, tampando os ouvidos para amenizar os gritos do pequeno guardião – E mesmo sendo a carta, eu jamais iria cortá-la de verdade! Além de controlar o meu golpe, eu fiz uma magia para anular o gume da minha espada. Ela não seria capaz de cortar nem os pudins com os quais você entope essa sua boca grande!
O comentário sarcástico só enfureceu Kero ainda mais, fazendo com que ele assumisse sua verdadeira forma.
_ Pois essa boca grande aqui tem dentes bem afiados e gospe fogo, moleque. Que tal experimentar?
_ Pare com isso, Kero-chan! – Sakura pediu, pulando para o solo no espaço entre eles.
_ Sakura! Esse moleque é maluco! Se não fosse a carta, ele teria te machucado de verdade!
_ Lamento, Kero-chan. Sei que fiquei assustada na hora, mas eu confio plenamente no Shaoran-kun. Você lembra que, mesmo controlado pelo Eriol-kun uma vez, ele fez tudo o possível para evitar me machucar? Por isso eu sei que ele não me faria mal de verdade.
_ Que bom que ao menos a Sakura me leva a sério aqui! – Shaoran desabafou ainda bravo, passando a mão de modo impaciente pelos cabelos e lançando um olhar torto rumo ao guardião.
O som de passos leves chamou a atenção do trio, que viu se aproximar uma figura alta de cabelos longos e prateados por entre as árvores.
_ É inútil dizer coisas tão básicas ao Kerberus, Sakura. Além de petulante e presunçoso, ele quase nunca pensa antes de agir ou falar. – Yue comentou, parando ao lado deles.
O Guardião do Sol encarou o Guardião da Lua com raiva.
_ Já não basta a Sakura, você também veio aqui só para defender as loucuras deste moleque, Yue? Não acha que é tolerante demais com ele só porque a magia de vocês dois é baseada na Lua?
_ Não sou tolerante com o descendente de Clow, apenas não tenho motivos fúteis para confrontá-lo. E vindo de você, Kerberus, o comentário foi bastante inusitado. Até onde me recordo, você sempre foi muito flexível e eu o guardião de péssimo gênio. – Yue retrucou, com seu natural tom frio e distante.
Sakura ficou apreensiva e tratou de logo de remediar a situação entre seus guardiões.
_ Não briguem vocês dois também, por favor! O Shaoran não machucou ninguém. Ele está levando a sério o treinamento porque precisa se aperfeiçoar e eu também, e nós só vamos nos esforçar de fato se fizermos assim. Além do mais, combinamos que o treinamento de hoje seria apenas entra nós dois. Vocês estão aqui para nos acompanhar e ver como estamos nos saindo. Não devem interferir.
Shaoran se posicionou ao lado da Card Captor de braços cruzados e expressão séria.
_ Está tudo bem, Sakura. Se o Kerberus quer tanto participar, deixe-o fazer o que quer. Vamos ver se ele consegue. Eu criei um golpe especialmente para ele. Será uma boa oportunidade para testá-lo...
_ Acha que não dou conta de você, moleque?
A resposta do jovem chinês foi um sorriso confiante que recebeu como réplica um forte disparo de chamas liberado pela boca do Guardião do Sol. Shaoran, no entanto, nem se moveu do lugar onde estava. Com um simples movimento de mão ele bloqueou o golpe de Kerberus criando uma parede de chamas azuis e geladas entre eles, que depois rodeou o guardião numa velocidade assustadora. O mitológico ser de olhos dourados tentou alçar vôo para escapar, mas as chamas subiram e fecharam rumo ao centro do círculo, como uma cúpula, impedindo sua fuga pelo ar. Sakura ficou impressionada e Kero mais irritado ainda. Ele lançava chamas e mais chamas contra o círculo, tudo em vão, e rugia cada vez mais feroz, batendo boca com Shaoran que o provocava do lado de fora do círculo mágico com palavras mordazes. Por isso mesmo, antes que o guardião e o descendente de Clow começassem outra briga séria, Sakura os interrompeu apontando inesperadamente o báculo transformado pela Carta Espada na direção de Shaoran. A expressão de seu rosto era de grande seriedade.
_ Shaoran-kun, eu o desafio em troca da liberdade do Kero-chan!
O rapaz chinês piscou, surpreso a princípio. Kerberus também olhou para a Card Captor com a mesma sensação de estranhamento com a atitude dela. Até mesmo Yue arqueou de leve as sobrancelhas, curioso.
_ Eu aceito o seu desafio, Sakura. Só espero que não se arrependa disso... – Shaoran disse, também apontando sua espada na direção da garota.
O descendente de Clow sorria. Um sorriso sutil que disfarçava uma satisfação e uma confiança que assustaram Sakura em seu íntimo. Mas agora não era o momento para se voltar atrás. A prisão de Kero era uma motivação extra em seu treinamento de luta e magia. Ela iria ajudar seu guardião, assim como Kero e Yue sempre estavam dispostos a ajudá-la em suas aventuras.
_ Não vou me arrepender. – ela retrucou, esperando transparecer segurança suficiente em suas palavras.
_ Faremos então uma batalha justa. Apenas espada contra espada, sem magia, e se você ganhar, eu liberto o Kerberus. Mas, se eu ganhar...
_ Você libertará o Kero-chan assim mesmo. – Sakura sorriu, falando o óbvio.
_ Bem, vou ter que soltá-lo de qualquer jeito... – Shaoran disse, dando de ombros – Mas quero aquela torta de chocolate e amêndoas que seu pai faz tão bem como prêmio. E o Kerberus não pode ter o direito nem de raspar a tigela do creme, quanto mais comer um pedaço.
_ Isso é covardia! – Kero protestou indignado – Sakura, dê uma surra nele! Você consegue!
A sucessora de Clow olhou seu guardião e teve vontade de rir. Quando o assunto era comida, Kero era definitivamente um comilão incorrigível e totalmente apaixonado por doces. Mas Sakura não podia se prender a esses detalhes naquele momento. Ela precisava se preparar para enfrentar Shaoran. A Card Captor sabia que a experiência dava a ele uma vantagem enorme, mas se fosse rápida, bem rápida no combate, isso aumentaria suas chances de vencê-lo.
Transformando seu báculo de volta a sua forma original, Sakura ativou a Carta Escudo sobre si mesma e voltou a transformá-lo em espada. O mago chinês, por sua vez, usou uma magia protetora sobre si mesmo e refez a magia que anulava o gume de sua espada chinesa, por precaução. Então os dois se colocaram em posição de combate.
Shaoran estudou sua oponente com atenção, pois sabia muito bem que a Carta Espada daria a habilidade necessária a Sakura. Ele não podia subestimá-la. Além disso, eram estilos de luta diferentes. Embora tão longa quanto a espada do herdeiro da Família Li, o báculo transformado da sucessora de Clow tinha uma lâmina mais fina e leve, o que significava que Shaoran lutaria usando principalmente a força, enquanto Sakura apostaria na velocidade. Todo cuidado era pouco, mesmo para um espadachim treinado como ele. Quanto mais cedo aquela batalha terminasse, melhor seria.
Um movimento quase imperceptível dos pés denunciou que o rapaz tomaria a iniciativa, mas foi a Card Captor quem atacou primeiro, dando uma estocada com a rapidez de um raio e passando assim a ponta da lâmina de maneira perigosamente próxima aos músculos do braço direito do chinês.
Shaoran escondeu sua surpresa com a velocidade do ataque de sua antiga rival. Por isso, ao invés de ampará-lo, apenas se esquivou dele com maestria, percebendo a tempo um ligeiro tremor nos olhos verdes de Sakura que denunciou seu ataque. Na posição inicial em que ela se encontrava só poderia golpear para frente e com isso o rapaz se moveu no momento exato em que a adolescente avançou contra ele. Isso aparentemente a desequilibrou, deixando o descendente de Clow em posição de golpeá-la por trás, o que não aconteceu.
O desequilíbrio da garota foi apenas impressão. Quando Shaoran tentou golpeá-la, Sakura usou suas habilidades de ginasta, deu um rodopio e simplesmente saltou para trás, de modo que o golpe do jovem mago passou a uma distância inofensiva. Ela esperou que ele atacasse outra vez, mas Shaoran permaneceu aguardando por ela. O casal mantinha o olhar fixo um no outro, e quando Sakura ergueu a mão que empunhava a espada, ela a moveu rapidamente em direção a lâmina larga da espada chinesa para depois golpear de fato rumo ao corpo de seu adversário. Shaoran bloqueou o golpe e contra-atacou.
As lâminas começaram a se chocar com mais freqüência, o som de metal tinindo sendo abafado apenas pelos rugidos furiosos de Kerberus em sua prisão fria e tremeluzente. O rapaz sorria intimamente, vendo a garota lhe oferecer uma luta interessante. Sakura lançava golpe atrás de golpe e o jovem chinês amparava seus giros rápidos e estocadas ligeiras sentindo que eles vinham cada vez mais fortes. Entretanto, quando se preparou para enfrentar um golpe realmente sério, Sakura simplesmente jogou a espada para sua mão esquerda e só então a desceu na direção do pescoço de Shaoran com a rapidez e precisão de uma cobra dando o bote.
Pego de surpresa, Shaoran parou de mau jeito o golpe da espada da Card Captor, sem nem saber como fez isso. Esperava por um ataque vindo de lado, mas a espada de lâmina fina veio lhe golpeando de cima. Teve sorte de colocar sua espada no lugar certo e no momento exato, caso contrário, além de perder a luta acabaria ganhando também um hematoma bastante dolorido, já que as magias de proteção que envolviam a ambos não deixavam que eles sofressem danos mais sérios do que isso.
O báculo transformado de Sakura deslizou até o punho da espada chinesa e Shaoran tentou converter o bloqueio desajeitado em contragolpe, mas o mesmo saiu sem força suficiente, permitindo que Sakura desse uma graciosa pirueta para trás, abrindo a distância entre eles. Percebendo que a brincadeira havia acabado, ele avançou sobre ela com pesados golpes laterais a uma velocidade impressionante. A Card Captor foi forçada a recuar, mas mesmo assim conseguia aparar todos os golpes dele, ainda que com certa dificuldade, o que deixava Shaoran dividido entre a preocupação em quebrar a defesa dela e o orgulho pela evolução de sua bela amiga. A carta podia lhe dar a habilidade na esgrima, mas já era possível ver que seus treinamentos juntos já tinham dado a ela um pouco de experiência também.
Sakura simplesmente deixava que Shaoran continuasse a golpear enquanto ela se protegia e recuava apenas para cansá-lo. Ele sabia disso e mudou de estratégia. Armando um último e pesado golpe lateral contra a sucessora de Clow, Shaoran parou sua espada no meio do ataque e moveu o pulso de maneira a estocar a barriga da antiga rival. Sakura girou sua espada rapidamente, de maneira a desviar a estocada, e tentou contra-atacar enquanto dava um passo de lado. Shaoran realizou o mesmo movimento e assim ambos erraram os golpes. Ofegante, o casal de adolescentes ampliou a distância que os separava e trocou sorrisos de satisfação silenciosa, colocando-se em posição de alerta novamente.
Sakura voltou sua espada para a mão direita e novamente foi a primeira a atacar, correndo de encontro a seu adversário e aplicando um golpe lateral tão bem colocado que Shaoran teve que bloquear com força. Assim como havia feito antes com a falsa Sakura, o mago chinês tentou empurrá-la através das espadas cruzadas. Apesar de ver a mesma estratégia sendo usada novamente, os olhos claros de Sakura brilharam assustados ao sentir na pele toda a força do empurrão que Shaoran lhe dava, usando a seu favor não só sua força física superior a dela como também devolvendo a força que a própria garota tinha aplicado no último golpe. Com isso ela escorregou na grama da clareira e se desequilibrou para trás, sendo obrigada a usar a mão livre para se resguardar da queda. Shaoran viu sua chance de vitória e levantou sua espada bem alto, sentindo-se triunfante, mas antes de realizar o derradeiro golpe ele arregalou seus olhos em surpresa e com um salto ligeiro e bem dado para o lado se afastou da garota. Usando suas habilidades de ginasta, a sucessora de Clow conseguiu transformar no último segundo sua queda desajeitada em um giro de espada súbito e rápido contra o lugar onde os pés do mago chinês deveriam estar. A lâmina comprida e fina da Carta Espada sibilou a centímetros do chão, cortando apenas as folhas da vegetação rasteira.
Em sua redoma azul tremeluzente, Kero soltou um rugido de aprovação pelo desempenho de sua mestra. Shaoran também a elogiou, num misto de surpresa e admiração. Ela agradeceu com um lindo sorriso encabulado que teria desconcertado o jovem Li se ele não levasse aqueles treinamentos tão a sério. Por isso mesmo o rapaz estava ponderando muito bem suas ações. Se a espada da Card Captor fosse uma espada comum, Shaoran sabia muito bem como vencer aquela batalha. Forçaria o encontro das lâminas, atacando Sakura com golpes progressivamente mais rápidos e intensos, obrigando-a a ampará-los com a devida força. Faria isso até a lâmina larga de sua espada partir a lâmina fina da garota em dois ou mais pedaços. Mas a espada dela era uma Carta Sakura poderosa e esse final de combate estava fora de questão. Então ele voltou a golpeá-la sem piedade, o ar cortado pelo metal rugindo em volta deles, não para quebrar sua espada, mas sim para abrir uma brecha em sua defesa que lhe permitisse encurralá-la. Por pouco não conseguiu. A espada chinesa roçou de leve nas costas de sua adversária quando ela falhou ao rebater um golpe mais forte e girou de mal jeito para se desviar do mesmo.
O descendente e a sucessora de Clow abriram distância mais uma vez. Ambos pareciam cansados e sabiam que combate seguinte seria o definitivo, por isso mesmo Sakura se concentrou na carta que agia sobre seu báculo, fazendo sua espada emitir um momentâneo brilho rosado, depois olhou com determinação para seu guardião fora de combate. Se Shaoran fosse um inimigo real, a liberdade de Kerberus dependeria exclusivamente de sua vitória. Isso a motivou, fazendo avançar com ímpeto novo, obrigando seu adversário a recuar diante de uma espantosa sucessão de golpes laterais, estocadas velozes e rodopios súbitos.
Shaoran teve que se esforçar um pouco para se defender na mesma rapidez com que era atacado, se esquivando e devolvendo os ataques da melhor maneira possível. Mesmo assim um dos golpes laterais o acertou no braço esquerdo. Sua magia protetora diminuiu a força da espada, mas não evitou o dolorido arranhão que se formou no local, uma vez que o gume da Carta Espada não tinha sido anulado como o da espada chinesa. O jovem mago não se importava com isso e até preferia assim. Desde pequeno já sabia que ferimentos faziam parte de qualquer combate. Só não iria usar o mesmo peso e medida com Sakura. Não ainda...
Sakura também estava toda arranhada pela batalha, mas eram arranhões leves que não passavam de finas linhas rosadas sobre a pele, já prestes a sumir. Seus cabelos estavam bagunçados, o rosto vermelho e a respiração ofegante, mas mesmo assim ela sorria alegre, pois sabia que tinha evoluído. Conseguir de fato acertar um golpe em Shaoran era a prova disso. O rapaz, entretanto, estreitou perigosamente os olhos. Era a vez dele agir e usar seus truques. Era a hora de acabar com tudo aquilo!
O descendente do Clow, com a rapidez de um raio, fez um único ataque na tentativa de estocar Sakura, obrigando-a a recuar. A menina o olhou cuidadosamente e em seguida aplicou mais um de seus velozes golpes laterais. Um movimento curto que, por segurança, era melhor ser bloqueado. Shaoran, porém, se movimentou tarde e de maneira friamente calculada, deixando a ponta da espada da Card Captor raspar novamente seu braço enquanto a espada chinesa se chocava com a base da lâmina de sua antiga rival. Depois fingiu dar um golpe giratório do qual ela se esquivou sem dificuldades. Ele esperou, parecendo tão cansado e ofegante quanto ela, e Sakura fez o que ele queria. Ela tornou a atacá-lo e Shaoran desviou sua espada sem contra-atacar. Sakura tentou de novo e mais uma vez seu golpe foi bloqueado. Tentou mais duas vezes e o resultado foi o mesmo, deixando-a preocupada. Ele parecia exausto, mas mesmo assim não abria brechas.
_ Sakura, cuidado! O moleque está planejando alguma coisa! – Kero rugiu em tom de alerta, também percebendo que havia algo errado ali. Ao seu lado, Yue também permanecia acompanhando o combate com atenção.
A adolescente assentiu em silêncio sem tirar os olhos de seu oponente, e tentou mais uma seqüência de golpes rápidos. O rapaz chinês bloqueou os primeiros, desviou de mau jeito dos seguintes e recuou nos últimos, limpando a testa com as costas da mão livre para que o suor não ardesse ainda mais em seus olhos. Foi na seqüência desse gesto que Sakura deu um impulso e girou alto no ar, preparando um veloz golpe circular que começou sobre sua cabeça e desceu rapidamente na direção de Shaoran. Ele bloqueou com facilidade, mas precisou dar um passo para trás para suportar a força aplicada pela lâmina adversária. Com as duas mãos bem firmes no punho de sua própria espada, Shaoran se abaixou um pouco e usou a perna colocada atrás para se impulsionar com todo o vigor que lhe restava, como o disparo de uma flecha.
Foi tudo muito rápido. Sakura ainda não tinha tocado o chão quando Shaoran a empurrou no ar com um golpe para cima, usando o lado mais largo de sua lâmina contra a espada fina dela. A Card Captor não suportou e o choque fez o báculo transformado voar longe e sua dona ser jogada contra o chão coberto de folhas do bosque. Por sorte a sucessora de Clow recuperou-se a tempo de girar o corpo e usar as mãos para se apoiar no chão, virando uma estrela e caindo em pé sem grandes problemas. Shaoran a olhou com um sorriso discreto e divertido ao mesmo tempo e a menina percebeu que, diferente dela, depois de tudo aquilo ele não estava nem um pouco cansado.
_ Touché, Sakura! – ele exclamou, apontando a espada na direção dela e chegando mais perto a cada passo.
Sakura se preocupou. Estava desarmada e seu báculo, ainda transformado em espada, se encontrava fincado no chão a alguns metros atrás do mago chinês. Se ela não conseguisse um jeito de retomar sua espada, a batalha seria ganha por Shaoran, mas ela não iria se render assim tão fácil. Ainda podia fazer um último esforço para se livrar da derrota iminente. Isso significava que ela teria que passar por seu antigo rival e só havia uma maneira de conseguir tal feito ilesa. Então a Card Captor esperou pelo momento propício e correu em linha reta, exatamente de encontro a Shaoran.
Sua atitude inusitada foi tão surpreendente que o fez baixar a espada e a guarda. Ela simplesmente correu, saltou com grande impulso, apoiou-se nos ombros dele e passou por sobre o rapaz como se ele fosse as caixas de madeira que ela costumava saltar nas aulas de Educação Física do colégio. Na seqüência, Sakura se agarrou no galho logo acima de sua cabeça e se balançou para realizar sua saída o mais longe possível das costas do descendente de Clow e correr rumo ao seu báculo. Antes, porém, que ela completasse seus planos, um forte estalo foi ouvido. O galho era fraco demais para resistir aos movimentos dela e se quebrou.
Tudo aconteceu em uma fração de segundo. Sakura gritou assustada e Shaoran jogou sua espada de lado ao se virar rapidamente para tentar ampará-la na queda, mas a distância e a altura que os separavam eram pequenas demais para que ele se colocasse em uma boa posição. Foi preciso que o rapaz se jogasse de lado, girando o corpo para conseguir ao mesmo tempo segurar a Card Captor e amortecer a queda dela. Com o impacto, o herdeiro da Família Li bateu o ombro e as costas com força na grama e ficou um tanto atordoado. Só quando algo se mexeu e murmurou sobre o seu peito foi que ele abriu os olhos.
_ Sakura, você está bem? – o rapaz perguntou com apreensão.
A adolescente caída sobre ele levantou ligeiramente o rosto, permitindo assim que os olhares preocupados se encontrassem.
_ Eu estou bem, obrigada... – Sakura falou com voz fraca, ainda assustada pela queda repentina.
_ Que bom... – Shaoran respondeu com um suspiro de alívio, de olhos fechados.
Quando ele os abriu novamente, percebeu que havia algumas folhas e diminutas lascas de madeira nos cabelos de Sakura e começou a tirá-los delicadamente.
_ Sua louca! Não me assuste mais desse jeito... – o descendente de Clow murmurou, num tom de voz que era um misto de bronca e afago.
_ Sinto muito! - Sakura respondeu com sorriso encabulado.
Shaoran retirou a última folha dos cabelos dela e só depois disso que os dois se deram conta da situação real em que se encontravam. O susto já havia passado, mas ela continuava deitada sobre ele e seus rostos estavam tão próximos que podiam sentir o calor da respiração um do outro. Isso os assustou e fez corar, mas mesmo assim nenhum dos dois se mexeu um único milímetro que fosse. Eles apenas se encaravam silenciosamente.
O mago chinês e a Card Captor estavam confusos. O coração de ambos disparava e doía levemente, como se tivessem acabado de descobrir que se gostavam. Desde aquele dia da chuva na escola alguma coisa havia mudado e nenhum deles sabia ainda o que era. Shaoran e Sakura agora ficavam constrangidos quando estavam próximos demais e uma estranha expectativa os envolvia sempre que essa proximidade maior acontecia, como a sensação de alguém ciente que a tempestade de verão virá só por sentir a mudança do vento.
_ Seu irmão vai adorar saber que seus treinos terminam desse jeito, Sakura! – Kero exclamou com maldade evidente, livre de sua prisão mágica e voando ao lado do casal de volta a sua forma falsa.
Constrangidos, o descendente e a sucessora de Clow coraram ainda mais com o comentário do guardião e o rapaz empurrou a menina com cuidado para o lado, saindo debaixo dela enquanto as árvores e o chão coberto de folhas foram desaparecendo aos poucos, dando lugar a paredes e móveis da espaçosa sala de seu apartamento, onde o casal permaneceu sentado no chão, de costas um para o outro, sem conseguir se encarar. Quando a Carta Criatividade finalmente se materializou e voou para a mão de sua dona, uma menina de longos cabelos violetas saiu de trás de uma poltrona que, até segundos atrás, parecia um arbusto. Como sempre ela estava com sua câmera na mão, mas seu rosto trazia uma expressão de profundo pesar.
_ Kero, lamento dizer isso, mas tenho que concordar com o Li-kun. Às vezes você é muito inconveniente! – a voz de Tomoyo se fez ouvir com um tom leve de amargura - Meu sexto-sentido dizia que eu estava prestes a filmar o momento mais romântico da vida da Sakura-chan e você estragou tudo!
_ Foi por isso mesmo, Tomoyo! Se acontecer o pior enquanto a Sakura está conosco, quem leva a bronca do irmão dela sou eu, porque o Yue sempre é poupado!
_ Kerberus fala como se não soubesse qual o caminho natural dos fatos... – Yue rebateu com voz de indiferença – Agora que sabemos o que o Mago Clow não foi capaz de prever antes de seu renascimento, não vejo motivos para tentar impedir. Yukito está feliz e Touya sabe que os guardiões não são capazes de evitar o inevitável, por mais que ele deseje isso.
O tom enigmático de Yue chamou a atenção do casal que era o centro da discussão. Sakura e Shaoran não entenderam as palavras do Guardião da Lua, mas Kero e Tomoyo sabiam do que elas se tratavam.
_ Por acaso, Yue, você está se referindo aquele dia em que o Hiiragizawa nos falou que era a reencarnação do mago Clow e o responsável por todos os acontecimentos estranhos que surgiram na época? - Shaoran perguntou ao finalmente se levantar do chão, enquanto ajudava Sakura a fazer o mesmo.
_ O dia em que terminei de transformar todas as Cartas Clow em Cartas Sakura? – a Card Captor emendou – Então vocês sabem sobre o que o Eriol-kun estava falando?
_ Isso mesmo. – Kero confirmou.
_ Mas quando ele disse que aconteceu algo imprevisível até mesmo para o Mago Clow, eu perguntei o que era e ele disse que ainda manteria segredo. – continuou o rapaz chinês.
_ E de fato ele manteve o segredo. Mas, uma vez que é algo bem óbvio quando visto de fora, nem era preciso dizer nada. Ainda assim o irmão da Sakura percebeu muito antes de qualquer um de nós. – disse Yue.
_ Touya já sabia? – perguntou Sakura, em tom preocupado - E o que é?
_ Não fique apreensiva à toa, Sakura. – Shaoran a tranqüilizou, pousando uma das mãos sobre seu ombro – Seja o que for, não era algo digno da preocupação do Hiiragizawa. Na verdade, eu me lembro que ele parecia até mesmo satisfeito com o fato.
_ Mas é claro que ele estava! Afinal, embora não seja uma magia, é algo mágico que só vocês dois podem realizar! – Tomoyo exclamou com olhos brilhantes de entusiasmo – E eu quero filmar o máximo que puder de tudo que ainda está para acontecer!
_ Hoe? Uma coisa que só o Shaoran-kun e eu podemos realizar, que o Touya não quer que aconteça e que até a Tomoyo-chan já sabe o que é?
_ Uma coisa que nem mesmo o grande Mago Clow foi capaz de prever... Eu pensei muitas vezes sobre isso desde aquele dia, mas também não consegui descobrir até agora! - Shaoran respondeu em tom pensativo, balançando negativamente a cabeça.
_ Ai, ai... Para a felicidade do seu irmão, Sakura, vocês dois são muito lentos! – Kero suspirou.
_ Acho que "ingênuos" é uma palavra mais apropriada, Kero! – Tomoyo falou com um sorriso.
_ Vocês saberão quando for a hora certa, e acho que este momento não está longe. Tudo virá a seu tempo! – Yue completou – Mas agora que o treinamento acabou por hoje...
As grandes asas brancas do Guardião da Lua o envolveram como um casulo, que brilhou por um instante e depois se abriu, fazendo Yukito surgir na sala.
_ Puxa, vocês realmente voltaram animados das férias de inverno! - comentou sorrindo o universitário.
_ Precisamos aproveitar melhor o tempo agora, já que é o nosso último ano do ginásio. – disse Shaoran.
_ Por causa dos exames para o colegial no final do ano, teremos pouco tempo para treinar. Nós vamos estudar juntos todos os dias depois das aulas. – Sakura acrescentou, antes de perguntar animada – E como eu me saí hoje, Yukito-san?
_ Yue acha que você se saiu muito bem. Não concorda, Shaoran?
_ Ela ainda pode melhorar bastante... – o rapaz chinês respondeu em tom sério, antes de abriu um leve sorriso – Mas a evolução é evidente.
Sakura sorriu satisfeita e Tomoyo veio ajeitar um pouco o cabelo bagunçado da prima.
_ Olha só o seu estado, Sakura-chan! Parece que enfrentou um ventaval hoje, embora mesmo assim continue encantadora!
O comentário da corista de olhos violetas fez todos rirem.
– Isso me lembra que você e o Shaoran estão precisando de um bom banho, Sakura, então é melhor a gente ir. Touya me fez prometer que te levaria até sua casa.
A adolescente concordou e foi pegar suas coisas na poltrona onde Tomoyo havia se escondido enquanto filmava.
_ Você agora me deve aquela torta de chocolate do seu pai, Sakura. – Shaoran alfinetou enquanto conduzia seus visitantes até a porta do apartamento. – Quando o Sr. Kinomoto puder fazê-la, é só me dizer quais são os ingredientes que eu levo. Quero estar junto para aprender como se faz e assim garanto que o bicho de pelúcia não usufrua do meu prêmio também.
_ Pois eu espero que ela lhe dê uma tremenda dor de barriga, moleque! – Kero retrucou com azedume, já acomodado dentro da mochila de sua dona.
_ Se o papai já não tivesse decidido qual será o meu bolo de aniversário, eu pedia para ele fazer no domingo. – Sakura sorriu.
_ Tudo bem, eu sou paciente quando quero. Por enquanto, me contento em saber que você não se machucou dessa vez, apesar da loucura que fez. Não precisava agir de maneira tão desesperada só para me vencer em um simples treino!
Sakura emitiu um sorriu sem graça, mas em seguida lançou um olhar preocupado sobre o antigo rival.
_ Mas, e você, Shaoran-kun? Não se machucou?
_ Eu vou ficar bem, não se preocupe. – o mago chinês respondeu com um sorriso, apesar das dores musculares que sentia.
Todos se despediram de seu anfitrião e Shaoran os acompanhou com o olhar da sacada de sua sala até Sakura, Tomoyo e Yukito desaparecerem na distância. Depois alongou o corpo, sentindo os ossos estalarem e as costas e o ombro doerem no local em que bateram no chão de modo mais forte. Como se isto não bastasse, a camiseta suada lhe grudava no corpo. Precisava mesmo de um bom banho, como Yukito havia mencionado, por isso mesmo ele buscou em seu quarto a toalha e uma muda de roupa limpa e foi direto para o banheiro, onde se lavou enquanto deixava a banheira encher. Depois de uma ducha rápida, entrou na banheira e relaxou. A água quente aliviou a sensação de músculos doloridos e ele se pôs a pensar. A pensar em Sakura e em si mesmo.
O adolescente chinês havia chegado a poucos dias de Hong Kong, onde passou as férias de inverno. Por mais que gostasse de estar em casa, não deixou de pensar em Sakura um dia sequer. Sentiu mais falta de sua companhia agora do que nos dois longos anos que passou longe dela antes de voltar a viver em Tomoeda, e a seu ver isso não tinha lógica. Para piorar as coisas, agora existia também esse constrangimento quando estavam mais perto um do outro. Afinal, o que estava acontecendo com ele?
Shaoran fechou os olhos, afundou a cabeça na água e seus pensamentos afundaram junto com ele através de sua memória. A imagem que ele viu foi de seu amigo Yamazaki recebendo um ursinho de pelúcia da Mihara, contando uma de suas histórias fantásticas e quase sendo enforcado pela raivosa menina em seguida. Depois disso, um pequeno Shaoran de cerca de 11 anos de idade, em seu uniforme de primário, olhava para um ursinho de pelúcia verde ainda sem entender porque tinha comprado e também feito o brinquedo, até que a imagem sorridente de sua antiga rival lhe veio a mente de modo repentino. Isso fez seu rosto corar e ele balançou a cabeça com força.
"Como eu posso ficar pensando nela?!"
O Shaoran adolescente emergiu e recostou a cabeça na beirada da banheira, mas suas lembranças continuavam na mesma profundidade de antes, mostrando a pessoa sorridente de Yukito Tsukishiro aparecendo do outro lado da grade da escola, carregando uma enorme sacola com pães e outras coisas. Também era intervalo para os alunos do Colégio Seijyo e o rapaz chamou o garoto mais novo para almoçar com ele. O pequeno Shaoran corou, mas aceitou o convite, enquanto o colegial pulava facilmente para o lado da escola primária, onde os dois se sentaram em um banco próximo.
"_ Que ursinho bonitinho! Será que posso ver?" – Yukito perguntou depois de devorar toda comida que tinha. Shaoran, tenso, mal tinha começado a comer o lanche que ganhou dele.
"_ Foi você quem fez?" – Yukito tornou a perguntar, analisando o brinquedo que tinha agora em suas mãos. Shaoran concordou em silêncio.
"_ Nossa, está ótimo! Está pensando em dar para alguém?"
A pergunta trouxe de volta a imagem da pequena Sakura à mente do menino e ele mais uma vez corou automaticamente. Confuso, Shaoran se levantou.
"_ Mas por que é que eu tenho que dar o ursinho para ela?" – o garoto gritou em voz alta, balançando negativamente a cabeça e disparando a correr para longe dali, sem perceber que havia deixado para trás o ursinho e muito menos que o rapaz mais velho o chamava.
"Por que é que eu tenho que pensar nela? Até parece com a outra vez! – pensava o menino chinês, lembrando-se agora do próprio Yukito –"O meu coração bate forte e eu fico vermelho quando eu vejo aquela feição. Eu não entendo!!"
Shaoran correu sem rumo pelas áreas de sua escola e a primeira pessoa que encontrou em seu caminho foi justamente... Sakura!
"_ Shaoran-kun..." – a Card Captor murmurou ao vê-lo, fazendo o amigo corar ainda mais do que ele já estava. Nervoso, Shaoran virou de costas para a menina e saiu correndo para o outro lado.
"Por que é que ela tinha que estar aqui? Só de vê-la o meu coração começou a disparar!"
Foi então que Shaoran parou de repente e uma nova dúvida surgiu em sua mente.
"_ Peraí... Será que essa é a mesma sensação de quando..."
"_ Não, não é." – disse um ser alado de cabelos longos e prateados pousando a sua frente.
"_ Yue!"
"_ Escute, descendente de Clow. Essa confusão que você sente quando vê o Yukito provêm do poder da Lua emanado por ele. Se acalmar sua mente e clarear os seus pensamentos, você irá perceber de quem realmente gosta..."
"_ De quem eu realmente gosto..." – o pequeno Shaoran murmurou de modo pensativo.
Um colorido caleidoscópio composto de vários fragmentos de lembranças se formou na mente do menino chinês. Todas elas traziam o belo e infantil rosto de sua amiga Sakura Kinomoto e isso fez com que Shaoran corasse sem perceber.
Quando Yue voltou a ser Yukito e com seu eterno sorriso e simpatia estendeu ao garoto o ursinho de pelúcia deixado para trás, ele corou ainda mais. Entretanto, ao relembrar as palavras recém-ditas pelo Guardião da Lua, o descendente de Clow fechou os olhos e agiu conforme foi orientado. Neste momento ele finalmente entendeu de quem realmente gostava e recebeu o ursinho de volta sabendo por que e para quem ele o havia feito.
No apartamento silencioso, o Shaoran adolescente se levantou da banheira. A água morna, agora já quase fria, escorreu pelo corpo bem feito do rapaz, apesar das pequenas e discretas cicatrizes que ele tinha devido aos anos de treinamento em artes marciais e espada. Ele se enxugou, vestiu e seguiu para seu quarto, onde entrou ainda enxugando melhor os cabelos e parou em frente a sua escrivaninha. Olhou as fotos que tinha sobre o móvel e deixou escapar um suspiro sorridente ao contemplar as duas imagens em que Sakura estava, especialmente a mais recente. Depois ele olhou para as fotos de sua família e pegou uma em especial, sentando-se na sua cama em seguida. Fechou mais uma vez seus olhos castanhos e viajou para a Hong Kong de sua tenra infância.
Um pequeno Shaoran, ainda mais novo do que aquele que Sakura conheceu em sua busca pelas Cartas Clow, vestia roupas típicas chinesas e estava em meio a um belo e grande jardim. Tinha por volta de seus 6 ou 7 anos e aprendia alguns golpes de artes marciais bastante complexos com um senhor ainda jovem e de compleição tranqüila, cujos olhos castanhos não deixavam dúvidas sobre o parentesco que os unia. Ambos eram observados de perto por um senhor mais velho, de óculos redondos e cabelos já bastante grisalhos.
"_ Muito bem, Xiao, você está melhor a cada dia! Se continuar tão aplicado em seus treinos, logo poderá receber a guarda da Hu Ching Lan, a Jian que é relíquia da família principal do clã e símbolo do patriarca. Não concorda comigo, Wei?"
"_ Com toda certeza, jovem Wang. O pequeno Xiaolang tem um grande potencial. Aprende muito rápido e se supera com grande facilidade."
O menino sorriu encabulado e ao mesmo tempo orgulhoso dos elogios.
"_ Mas ainda estou muito longe de ser como você, papai. O senhor é um grande guerreiro!" - Shaoran emendou rapidamente.
O homem mais novo sorriu diante da evidente admiração de seu filho até que sua atenção foi desviada para o local onde podia-se ouvir algumas vozes se aproximando. Eram as vozes de um grupo de mulheres que vinham de um ponto mais baixo do terreno e agora contornavam a grande casa em direção aos canteiros localizados em volta de uma frondosa árvore de flores brancas que lembrava em muito uma cerejeira. Era uma árvore secular e também o ponto principal de todo o jardim, por se tratar da ameixeira sagrada que dava nome a toda a família.
Quatro alegres adolescentes de cabelos castanho claros e uma mulher alta de cabelos pretos presos em uma longa trança compunham o grupo que tanto interessou ao jovem Wang Li. Sua atenção voltava-se especialmente a mulher de feição mais séria e majestosa. Depois de contemplá-la por alguns instantes, o patriarca da família pousou a mão sobre o ombro de seu filho caçula e o aproximou da amurada voltada para a direção onde Yelan Li e suas filhas agora colhiam flores para uma festa que aconteceria na casa no final daquele dia.
"_ Lembra-se, Xiaolang, que eu lhe ensinei que deve ser forte não só de corpo, mas também de mente e de espírito? E que o principal motivo para você usar essa força deve ser proteger as pessoas que lhe são importantes"?
Shaoran fez um sinal afirmativo com a cabeça, sua atenção completamente voltada para o que o pai lhe falava.
"_ Você se lembra também que eu lhe orientei a se aperfeiçoar continuamente e a sempre ser humilde, porque o mundo é muito vasto e nele sempre existirão pessoas mais fortes do que você?
Mais uma vez o menino concordou, já preparado para o novo ensinamento que viria a partir dali.
"_ Pois hoje eu não lhe darei uma nova lição, e sim um aviso. Sabia, meu filho, que entre as pessoas mais fortes do que você, uma delas provavelmente será uma mulher?"
"_Uma mulher, papai?" – o garoto perguntou com ar de assombro.
"_ Isso mesmo!" – Wang Li continuou, no mesmo tom calmo e afetuoso de antes – "E não importa o quão experiente você seja como guerreiro, Xiao, porque essa mulher será capaz de desarmá-lo com um único olhar ou um simples sorriso."
"_ Existem mulheres terríveis assim?" – Shaoran questionou, estupefato.
Para susto do jovem herdeiro da Família Li, seu pai concordou com um aceno de cabeça. Wei, ao seu lado, se divertia com o espanto de seu pequeno senhor.
"_ E você já se encontrou com uma mulher dessas, papai?" – a criança indagou, temerosa.
"_ Encontrei sim, Xiaolang. E essa mulher é a sua mãe." - o patriarca da família Li respondeu com um enorme sorriso.
Shaoran arregalou os olhos e centrou sua atenção na mãe. Ele sempre teve alta consideração por ela, mas nunca pensou que Yelan pudesse ser tão poderosa a ponto de vencer facilmente a pessoa que ele mais admirava no mundo. Sua estima e respeito por ela aumentaram imensamente nesse momento.
"_ Xiaolang, me escute..." – disse Wang Li, chamando novamente a atenção do filho para si – "Você ainda é muito novo e por isso tudo o que estou lhe dizendo agora pode parecer confuso, mas quando for mais velho entenderá minhas palavras. E no momento em que aparecer uma mulher assim na sua vida, talvez você fique desorientado e até um pouco inseguro, mas não importa o que aconteça, quero que me procure. Vamos ter muitas coisas para conversar quando essa hora chegar. Não uma conversa entre mestre e discípulo, e sim uma conversa de pai para filho."
O Shaoran adolescente abriu os olhos, que agora estavam marejados de lágrimas, e passou carinhosamente os dedos sobre a foto do pai.
_ Eu encontrei essa mulher, pai, e agora entendo suas palavras. E, como o senhor imaginou, eu estou confuso. Pena que não esteja mais aqui comigo. Estou sentindo muita falta dessa conversa que o senhor me prometeu e que nunca poderemos ter...
Levantando-se, o descendente de Clow devolveu a foto ao seu lugar e cruzou o quarto em direção ao canto próximo a porta envidraçada da varanda. Pegou sua guitarra e, sentando-se na cadeira em frente a escrivaninha, olhou de modo melancólico para o céu vespertino e começou a dedilhar uma música enquanto assobiava.
Shed a tear 'cause I'm missin' you
I'm still alright to smile
Girl, I think about you every day now
Was a time when I wasn't sure
But you set my mind at ease
There is no doubt
You're in my heart now
Derramei uma lágrima porque estou sentindo sua falta
Eu ainda consigo sorrir
Garota, eu penso em você todos os dias agora
Houve um tempo em que eu não tinha certeza
Mas você acalmou minha mente
Não há dúvida,
Você está em meu coração agora
Said, woman, take it slow
It'll work itself out fine
All we need is just a little patience
Said, sugar, make it slow
And we come together fine
All we need is just a little patience
Eu disse: "mulher, vá devagar,
Vai dar tudo certo,
Tudo que precisamos é de apenas um pouco de paciência
Disse: "docinho, vá devagar,
E ficaremos juntos sem problemas
Tudo que precisamos é de apenas um pouco de paciência
I sit here on the stairs
'Cause I'd rather be alone
If I can't have you right now
I'll wait, dear
Sometimes I get so tense
But I can't speed up the time
But you know, love
There's one more thing to consider
Eu me sento aqui nas escadas
Porque prefiro ficar sozinho.
Se não posso ter você neste momento,
Vou esperar, querida
Às vezes eu fico tão tenso,
Mas eu não posso apressar o tempo.
Mas você sabe, amor
Há mais uma coisa a considerar...
Enquanto Shaoran meditava sobre seus sentimentos em seu apartamento, Sakura não parecia fazer algo muito diferente dele. Durante o caminho de volta para sua casa, em companhia de Yukito e Tomoyo, a sempre alegre Card Captor parecia estar com os pensamentos muito, muito longe dali.
Era final de mais um dia de aula para as turmas do primário do Colégio Tomoeda, um dia que trouxe consigo a notícia de que Eriol Hiiragizawa iria voltar para a Inglaterra. A informação dada pelo Prof. Terada entristeceu a classe e chocou Sakura, Tomoyo e Shaoran, mas eles nada podiam fazer para mudar o fato. Sakura, em seus patins, começava a voltar sozinha para casa pensando na partida do amigo inglês quando percebeu alguém atrás de si. Era Shaoran, que a observava ainda do portão da escola, pensando se deveria ou não lhe dizer a verdade sobre seus sentimentos. Sua mãe havia ligado pela manhã e ele contou sobre todos os acontecimentos relacionados às Cartas Clow, agora Cartas Sakura, e todas as explicações dadas por Eriol depois do confronto na Torre de Tokyo. Ele tinha ciência que sua estada no Japão não tinha mais sentido agora e que o tempo para contar a Card Captor sobre o que sentia por ela era escasso.
"_ Shaoran-kun!" - exclamou a menina ao se virar, voltando até onde o amigo estava – "Era você mesmo, Shaoran-kun!"
"_ Co... Como você descobriu?" - o menino questionou surpreso. Não esperava ter sido percebido ainda em meio aos seus pensamentos.
"_ Intuição!" – sorriu Sakura em resposta – "Não quer voltar junto comigo?
"_ Tudo bem."
Os dois foram caminhando em silêncio até chegarem ao parque do Rei Pinguim.
"_ Que chato, né? O Eriol-kun vai voltar para a Inglaterra..." – a sucessora de Clow murmurou com tristeza.
"_ É..." – Shaoran respondeu, mais sério do que o normal.
"_ É mesmo!" – a Card Captor exclamou de repente – "Você... Você ia me contar algo depois que acabasse aquela coisa toda lá na Torre de Tokyo, não ia? O que é?"
Ironicamente, o casal de amigos estava agora em frente aos balanços onde um dia Sakura chorou nos braços do colega chinês sua decepção amorosa por causa de Yukito. Shaoran sabia que a hora havia finalmente chegado e, ficando de costas para a garota de quem gostava, ele tirou a boina do uniforme de escola e a segurou nas mãos antes de se virar novamente para ela. Sakura a olhava com paciente curiosidade.
"_ Eu... Eu..." – o descendente de Clow gaguejou, ainda juntando sua coragem - "Eu... Te amo."
"_ O... Quê?" – a menina murmurou em total surpresa.
"_ Você... É a pessoa de quem mais gosto. Era só isso que eu queria dizer." – Shaoran expôs melhor, já se virando para ir embora e deixando atrás de si uma Sakura totalmente sem reação.
Sozinha, a Card Captor levou algum tempo para sair do estado estático em que se encontrava. Quando isso aconteceu, ela correu para casa e se trancou em seu quarto, onde se atirou na cama ainda com o uniforme de escola e se cobriu com a coberta o máximo que podia. A inesperada declaração de seu melhor amigo passava em sua mente como um filme contínuo, misturada com pedaços de memórias que sempre mostravam Shaoran a ajudando e apoiando, inclusive o abraço consolador que ele lhe deu quando ela extravasou sua tristeza por não ter seu amor correspondido por Yukito. Tudo isso fazia Sakura pensar e pensar.
"Shaoran-kun... O que será que... Sinto pelo Shaoran-kun? Eu gosto dele porque ele é meu amigo? Também. Mas é só por isso? Não... Não é, mas... Esse sentimento é diferente do que eu sentia pelo Yukito-san... O que será isso? Shaoran-kun..."
Era estranho. Diferente da Sakura criança, a Sakura adolescente sabia que gostava do colega chinês. Então por que se sentia confusa agora como no dia em que ele se declarou para ela ainda no primário? O sentimento dela por Shaoran era claramente diferente do que um dia sentiu pelo Yukito, mas agora parecia diferente também do que ela descobriu sentir pelo próprio Shaoran anos antes.
_ Sakura-chan, está tudo bem com você? – Yukito perguntou, preocupado, vendo a Card Captor tão silenciosa.
_ Hoe? – Sakura disse um tanto assustada, voltando inesperadamente a realidade.
_ Está tudo bem com a Sakura-chan, não se preocupe! – Tomoyo disse com tranqüilidade, sorrindo - Ela apenas está descobrindo que os sentimentos também amadurecem junto com as pessoas.
A Card Captor não disse nada. Apenas abaixou a cabeça e corou, fazendo o universitário sorrir em concordância com a explicação dada pela corista. Os três continuaram seu caminho e, após deixarem Tomoyo em casa, Yukito manteve sua promessa ao amigo Touya e levou Sakura até a residência da família Kinomoto. Uma vez sozinha em casa, ela fez a mesma coisa que no dia da declaração do descendente de Clow. Escondeu-se debaixo das cobertas e pôs-se a pensar demoradamente. Kero, que já tinha visto aquela cena da primeira vez, simplesmente balançou a cabeça e voou para a sala, deixando sua dona em paz.
Os pensamentos de Sakura a levaram de volta às suas lembranças de infância. Era sábado, alguns dias depois da declaração de Shaoran. Antes de irem para a escola, a Card Captor e sua amiga Tomoyo foram até a casa de Eriol para se despedirem dele e da Profª. Mizuki. Os dois partiriam para a Inglaterra naquela manhã junto com Nakuru e Spinel, mas devido as aulas as meninas não poderiam acompanhá-los até o aeroporto. Por isso mesmo a professora aproveitou a ocasião para entregar a elas pequenas lembranças que havia trazido do Reino Unido. Como Shaoran tinha um compromisso e não pode ir junto com as duas, a Profª. Mizuki entregou o presente dele aos cuidados de Sakura e a simples lembrança do menino fez a garota de olhos verdes corar.
"_ Acho que já está na hora de irmos" – declarou Tomoyo.
"_ Eriol-kun. Muito... Muito obrigada." – Sakura disse com um sorriso, despedindo-se do amigo.
A reencarnação do poderoso Mago Clow lhe retribuiu o sorriso.
"_ Por favor, não se esqueça. Quando você souber que a pessoa que está perto terá que ir para longe, escute o seu coração e veja se o que você sentir nessa hora é diferente do que está sentindo com a minha partida. Não se esqueça." – Eriol disse para Card Captor, relembrando uma conversa que tiveram ainda na escola, no mesmo dia em que Shaoran havia se declarado.
O jovem inglês lhe estendeu a mão e os dois se despediram com um aperto afetuoso. Alguns minutos depois, já no caminho para a escola, Tomoyo sorriu para uma silenciosa Sakura que caminhava a seu lado.
"_ Qual seria o compromisso do Li-kun?" – questionou a garota de cabelos e olhos ametistas.
A pergunta aparentemente inocente teve o efeito esperado.
"_ To... Tomoyo-chan... Sa... Sabe... O... O Shaoran-kun... Me di... Disse..." – Sakura começou a gaguejar, completamente encabulada.
"_ Ele disse que a ama, não disse?" – sua amiga perguntou com um sorriso gentil, quase maternal.
"_ Co... Co... Co... Como?!" – Sakura perguntou, com o rosto ainda mais vermelho do que já estava.
"_ Está escrito no seu rosto, Sakura-chan!" – respondeu Tomoyo, quase rindo – "E você, pelo visto, ainda não deu a resposta a ele."
"_ É que eu não sei... Quando penso no Shaoran-kun, meu coração bate mais forte e dá um aperto aqui... Quando penso sobre os meus sentimentos pelo Shaoran-kun, o meu coração começa a doer... E... Eu não sei o que acontece... É o meu coração, mas..."
"_ As pessoas nunca sabem direito sobre si mesmas. Em especial, nem sobre seu próprio coração" – declarou a corista calmamente, chamando a atenção da Card Captor – "Só você, Sakura-chan, pode saber o que se passa em seu coração. Não se preocupe. A resposta já está dentro de você. Agora tudo o que você precisa é da oportunidade certa para perceber a resposta."
A Sakura do presente suspirou pesadamente. Mais uma vez havia uma peça mal encaixada no quebra-cabeça de seu coração. Seus sentimentos pelo rapaz chinês haviam mudado e ela nem mesmo sabia como e por que.
_ Oportunidade... Uma oportunidade apropriada... Será que mais uma vez é isso o que me falta?
Uma batida na porta do quarto interrompeu os pensamentos da sucessora de Clow e Kerberus entrou voando no cômodo, parecendo constrangido por incomodar sua dona.
_ Sakura, me desculpe por interromper seu descanso, mas pelo quadro lá em baixo hoje é você quem faz o jantar. Não é melhor descer antes do seu irmão chegar?
Sakura arregalou os olhos e se levantou da cama num pulo. Havia esquecido completamente! Para piorar a situação, ela deveria ter feito algumas compras durante o caminho de volta do apartamento de Shaoran e simplesmente não se lembrou disso!
_ Hoeeeeeeeeeeee!!! Preciso correr ou o meu irmão vai chegar e eu não terei nem mesmo voltado do mercado!!!
Olhando-se rapidamente no espelho, ela ajeitou a roupa e os cabelos e abriu seu armário, de onde tirou seu antigo par de patins. Era o modo mais rápido de fazer suas compras e voltar para casa a tempo de começar o jantar antes da chegada de Touya.
Sakura deslizou pelas ruas de Tomoeda na maior velocidade que lhe foi possível. Depois de comprar tudo o que precisava para preparar os pratos que havia planejado, tomou o caminho de volta para casa com um pouco menos de pressa, permitindo-se apreciar parcialmente a paisagem. Em seu trajeto, um ponto de ônibus em especial lhe chamou a atenção. O veículo parado ali, já prestes a sair, indicava o aeroporto como seu destino final, exatamente igual a um outro ônibus que ela viu anos antes. A recordação fez a Card Captor desacelerar os patins. Ao passar pelo ponto, ela virou-se e continuou a olhar para ele enquanto deslizava pela calçada.
"_ SHAORAN-KUN!!!" – a Sakura de 12 anos gritou dentro das lembranças de sua versão adolescente, enquanto corria até o ônibus que partiria rumo ao aeroporto a qualquer momento.
"_ Sakura?!" – exclamou surpreso um menino chinês da mesma idade que ela, de cabelos e olhos castanhos, ao abrir o vidro da janela do ônibus onde ele estava.
"_ Eu... Agora eu tenho certeza do que sinto..."
A Card Captor menina estava ofegante pela corrida, mas ainda assim estendia os braços e segurava nas mãos um ursinho alado de pelúcia cor-de- rosa.
"_ A pessoa de quem eu mais gosto... É você, Shaoran-kun!"
A surpresa do descendente de Clow era evidente, mas foi com um sorriso doce que ele recebeu o brinquedo dado por sua antiga rival.
"_ Obrigado. Posso dar o nome de "Sakura" a este ursinho?"
"_ E eu posso dar o nome de "Shaoran" ao ursinho que você me deu?"
"_ Claro que sim." – Shaoran respondeu, já com o barulho do motor ao fundo.
Lentamente, o ônibus começou a se mover. Eles não tinham mais tempo.
"_ Vou voltar, com certeza, tá?!"
"_ Quando?" – Sakura perguntou, apressando cada vez mais o passo.
"_ Quando eu terminar de resolver as coisas em Hong Kong!" – o mago chinês gritou da janela do ônibus em movimento.
"_ E quando vai ser isso?!"
"_ Acho que vai demorar um pouco. Será que você pode esperar até lá?"
"_ Eu espero sim!" – a Card Captor respondeu, com lágrimas nos olhos, correndo junto ao veículo até onde foi possível.
O ônibus seguiu para o aeroporto, deixando para trás a menina que acenava na distância.
"Estarei esperando... Estarei aqui esperando... Sabe por que, Shaoran-kun? Porque você é a pessoa de quem eu mais gosto!"
Com a mão que estava livre das compras, a Sakura adolescente enxugou as lágrimas que se formaram em seus olhos enquanto ela deslizava de costas, ainda voltada para o ônibus que agora partia como aquele que levou Shaoran embora uma vez. Enfim, quando a sucessora de Clow foi se virar para acelerar novamente o passo rumo a sua casa, sem querer esbarrou em alguém e caiu sentada no chão.
_ Ai! Me desculpe, eu...
_ Você está bem, Kinomoto-san? – perguntou uma voz conhecida, em tom preocupado.
Sakura levantou os olhos para a pessoa com quem havia colidido e percebeu diante de si que Mitsuo Ishihara lhe estendia a mão. A Card Captor aceitou a ajuda e se levantou, permitindo ao colega de classe ver seus olhos ainda úmidos.
_ Você se machucou? Está chorando!
_ Ah, não! – Sakura exclamou, encabulada - Não é isso! Não foi nada, eu... Me desculpe, Ishihara-kun! Eu estava distraída e...
_ Tudo bem. Se você diz que não se machucou, Kinomoto-san, é isso o que importa. – Mitsuo sorriu, embora ainda fosse possível ver que estava preocupado.
O enxadrista não insistiu mais na questão, entretanto. Ao invés disso, ele simplesmente se abaixou para recolher as compras da amiga de escola. Felizmente não tinha nada quebrado ou estragado pela queda, mas a sacola de compras havia arrebentado. Por sorte Mitsuo estava com sua mochila e guardou todas as compras da Card Captor. Sakura protestou veementemente, pois estava envergonhada por ter causado o acidente e ainda dar trabalho ao amigo. Mesmo assim o rapaz insistiu em levar as coisas dela e a acompanhá-la até sua casa.
_ Muito obrigada, Ishihara-kun! Me desculpe por tudo! Lamento pelo incômodo... - Sakura disse, ainda sem-graça, em frente a porta do sobrado amarelo onde morava.
_ Não foi incômodo nenhum, Kinomoto-san. Apenas tome mais cuidado da próxima vez, para não se machucar. Nos vemos na escola daqui a alguns dias.
Mitsuo já começava a andar pela calçada rumo a sua casa quando a menina se lembrou de alguma coisa e desceu os poucos degraus que levavam ao portão da rua.
_ Ishihara-kun, espere!
Ele se virou para ela com ar interrogativo.
_ O que foi? Esqueci de entregar alguma das suas coisas?
_ Não, não! – Sakura apressou-se em esclarecer – É que no próximo domingo será o meu aniversário e vamos fazer uma pequena festa aqui em casa. Pode vir, se você quiser, e trazer também o seu irmão. Tenho certeza que meu pai ficará feliz em ter um de seus alunos para conversar e vocês dois vão descobrir que o papai é um excelente cozinheiro!
A Card Captor sorria com uma alegria radiante ao fazer o convite e Mitsuo Ishihara sentiu seu coração falhar uma batida. As férias de inverno tinham sido boas para fazê-lo esquecer desta sensação desagradável que surgiu em seu peito no ano letivo anterior e foi aumentando de freqüência com o passar dos últimos meses de aula, mas agora ela estava lá novamente.
Mesmo não tendo muito contato com Sakura Kinomoto depois que seu trabalho em dupla havia sido apresentado, mais de uma vez o enxadrista se pegou contemplando a garota de olhos verdes durante as aulas ou nos intervalos da escola. Sentado em uma carteira que ficava bem na linha de visão de Mitsuo, e sendo uma companhia sempre constante da menina, o chinês Shaoran Li algumas vezes percebia esses seus olhares para Sakura e os devolvia com uma fúria mortal em seus olhos, fazendo-o disfarçar e desviar imediatamente o foco.
Quando as férias vieram, Ishihara respirou aliviado. Tudo isso parecia ter acabado para ele, lhe devolvendo a antiga tranqüilidade. Ledo engano! Agora lá estava mais uma vez o rapaz de cabelos avermelhados, frente a frente com aquela bonita adolescente e seu sorriso desconcertante, fazendo-o corar!
_ Obrigado pelo convite, Kinomoto-san. Eu... Eu vou ver se é possível vir.
Virando o rosto rapidamente para Sakura não perceber seu embaraço, ele foi embora num passo mais apressado do que o necessário, sendo observado ao longe por alguém que não parecia nem um pouco feliz em vê-lo ali. Shaoran certamente iria odiar aquela cena na porta da casa de Sakura, mas era Touya quem vinha pela rua a tempo de ver Ishihara se despedindo de sua irmã.
_ Esse ruivo de novo! – bufou o jovem Kinomoto consigo mesmo – O que aquele moleque chinês anda fazendo que não tirou ainda esse cara do pé da Sakura?
Desconhecendo a ira que tinha causado no irmão da garota, Mitsuo chegou na sua casa a se trancou no quarto, tão pensativo quanto se estivesse em plena disputa sobre um tabuleiro. Depois de um tempo ele finalmente olhou para o calendário na parede, onde já havia uma anotação a caneta no dia 1º de abril daquele ano.
_ É, não vai dar... Melhor assim!
Não obstante, ele desceu até o jardim e foi observar os bonsais feitos pelo pai. A primavera já havia chegado e entre as floridas árvores em miniatura as mais bonitas eram justamente os bonsais de cerejeira. Com a precisão de um ataque bem elaborado sobre as peças adversárias, o enxadrista escolheu o melhor entre aqueles que não eram destinados a exposição. Um bonsai com algumas flores abertas de pétalas múltiplas em um tom de rosa delicado e com muitos botões prestes a abrir. Provavelmente a florada estaria em seu auge no final de semana. Era perfeito! Bastava agora a autorização para pegar aquele vaso para seus propósitos. Essa seria a parte mais fácil de sua estratégia.
Notas da autora:
1- A batalha de espadas: não sei escrever cenas de luta, mas felizmente estou lendo no momento uma série de livros muito boa, As Crônicas de Artur, do escritor inglês Bernard Cornwell. A batalha desse capítulo teve como base um confronto que se passa em Excalïbur, o 3º volume da série.
2- Plinto: é o nome oficial daquelas caixas de madeira empilhadas em forma de pirâmide que a gente vira e mexe vê nas aulas de Educação Física que são mostradas nos anime e mangás. Eu demorei para descobrir esse nome, mas depois que descobri achei melhor não usá-lo na fic. Sem querer ser maliciosa, ficaria muito feio!
3- Hu Ching Lan: escolher um nome chinês para a espada do Shaoran não foi tarefa fácil! Então decidi dar a ela o nome que a Emu Hino, do mangá Crying Freeman, assume quando aceita se tornar a esposa do Freeman. Em chinês, a palavra Hu significa "Tigre" (pois Emu será a tigresa, esposa do líder dragão) e o significado do nome dado no mangá é: aquela que tem a bravura, a pureza e a beleza. Achei que era um significado lindo para se dar a uma espada que é herança de família!
4- Jian: é o nome de um tipo de espada chinesa de dois gumes, exatamente o tipo de espada que o Shaoran usa. Outro tipo de espada chinesa comum é a Dao, que tem apena 1 gume.
5- Wang: diferente do que muitos podem pensar, não dei esse nome para o pai do Shaoran baseada no Fei Wang de Tsubasa Reservoir Chronicle. Eu já tinha decidido isso antes! Escolhi esse nome porque em chinês Wang significa "Rei".
6- A ameixeira sagrada do jardim da família Li: em chinês, o sobrenome do Shaoran significa "Ameixa". Como bióloga que sou, achei esse significado muito curioso, pois tanto a ameixeira quanto a cerejeira são árvores que pertencem não só a mesma família botânica (Rosaceae) quanto também ao mesmo gênero (Prunus). O mesmo acontece com o pessegueiro, árvore que tem ligação com o nome do Touya. Assim sendo, biologicamente falando o Shaoran, a Sakura e o Touya são parentes. Não sei se as meninas do CLAMP fizeram isso de caso pensado, já que os três são descendentes de Clow se levarmos em consideração o fato que, no mangá, tanto o Fujitaka e quanto o Eriol são duas partes diferentes da reencarnação do Mago Clow. Como o CLAMP vive dizendo em suas obras que não existem coincidências, deve ter sido de propósito mesmo! E para quem não sabe, outras plantas muito conhecidas da família Rosaceae são a maçã, a pêra, o morango e, claro, as rosas!
7- A música: para encerrar, a música que o Shaoran canta ao tocar guitarra é a Patience, do Guns N' Roses. O Guns já havia entrado em decadência na época atual em que se passa a fic (ano de 2001), mas clássicos são clássicos e qualquer um que toca guitarra deve conhecer o grupo, que tinha o Slash como um ícone da guitarra. O cara toca muuuuuuuuuuuuito!
Reviews:
- Angel Cullen McFellou & Unsuspecting Sunday Afternoon: Puxa, mais uma vez o Touya foi mencionado positivamente nas reviews! Fico muito feliz com isso! Não achei que ele fosse agradar tanto dentro da fic. Para mim está sendo engraçado ver que é mais fácil trabalhar com ele do que com o Yue. Eu nunca sei o que fazer com o Guardião da Lua, enquanto o Touya surge na trama espontaneamente. Angel, o Shaoran enciumado é fofo em qualquer história, não é mesmo? Ele tem esse dom natural, faz parte do charme. Também adoro o Shao com ciúmes!!! E Ju, voltando a falar nos detalhes, concordo com tudo o quer você escreveu. Já perdi a conta de quantas vezes me decepcionei com um filme exatamente porque não era nada daquilo que eu imaginava na história do livro...
- Cah-chan Hime: olá, sumida! Bem-vinda de volta!!! Infelizmente nem sempre dá para encaixar um hobby entre os afazeres do dia-a-dia e meus últimos meses no trabalho foram bastante movimentados e pra lá de cansativos! Queria ter me dedicado mais a fic, mas não deu mesmo! Coisas da vida adulta, fazer o quê? Vou tentar compensar agora que estou de férias do curso de Inglês e atualizar com mais freqüência. Não posso garantir nada, mas a intenção eu tenho!
- Kessy Masen, An-chan n.n e Lucas B: agradeço pelos comentários e pela presença!!! Espero que tenham gostado do último capítulo. An-chan, não se preocupe, leitores novos sempre são bem-vindos!
- Quanto ao comentário da stranger12, ele foi muito bem colocado. É um erro de script que só notei bem depois de postar o capítulo sobre o Tanabata Matsuri. Na vida real a Sakura não poderia ter usado o yukata da mãe, porque os kimonos das mulheres casadas têm mangas curtas se comparados com os kimonos das mulheres solteiras, mas quando a cena me veio a cabeça eu esqueci completamente deste detalhe! Peço desculpas por isso!
