Santa Claus is coming to town
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Por: Faniicat
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"When you try your best, but you don't succeed,
When you get what you want, but not what you need,
When you feel so tired, but you can't sleep
Stuck in reverse
And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone, but it goes to waste
Could it be worse?
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you"
/Coldplay
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21 de dezembro de 2009, Manhattan
Eu estou em uma missão, digo a mim mesma enquanto termino de aplicar o rímel em frente ao espelho, eu não vou ficar por baixo, de jeito nenhum. Eu vou ao shopping, vou comprar algo espetacular e generoso à Inuyasha em um lindo embrulho natalino e dessa vez eu vou ser o gato que engoliu o canário.
Em suma, sair, comprar o presente, ser feliz para sempre. É um bom plano. Rápido, prático, fácil de lembrar. É, é isso.
Tem apenas um minúsculo porém.
Este ínfimo porém é: Não faço a menor das idéias do que comprar para ele.
É extremamente frustrante não saber o que comprar para Inuyasha. Desde que eu posso me lembrar, todos os anos eu me programava desde cedo, pensando nos mínimos detalhes para comprar o presente perfeito.
Esse ano eu não... É, não.
Mas eu não consigo pensar em nada que seja bom o suficiente, dar a ele uma camisa pólo – são as favoritas, ou um sapato de couro italiano, ou uma carteira da LV, tudo isso eu já fiz. E, como eu acabei de descobrir, eu não posso comprar, sei lá, um daqueles jogos de sabonetes que você compra para as suas tias velhas para Inuyasha e só. O presente dele tem que ser perfeito, eu quero ver aquele lindo rostinho constrangido e incapaz de conter a satisfação pelo presente. E por ter me colocado nesta encruzilhada, é claro.
De qualquer forma, estou confiante. O shopping é um conjunto de várias ruas repletas de opções e eu vou conseguir encontrar o presente perfeito. Exato.
Sorrio para o espelho depois de retocar a camada do batom claro e jogo a bolsa por cima do ombro, o que eu vejo no reflexo é uma mulher decidida, perfeitamente pronta para conseguir o melhor presente já inventado para ex-noivos sádicos melhores amigos dos nossos melhores amigos que vão passar o natal conosco já que fomos despejadas de nossos apartamentos.
(Quem eu quero enganar? Eu sou a única garota estranha o suficiente para acabar numa situação dessas!)
oOo
Deus!
Tudo bem, talvez eu tenha me precipitado um pouquinho.
Acontece que eu fiquei mais de quatro horas no shopping. Eu andei, andei, andei, parei para beber um café, andei, andei, andei, dei uma passadinha do toilet, andei, andei e aí finalmente... Eu andei mais um pouco. Eu acho que eu visitei toda e cada uma das lojas e eu não achei nada que tivesse o efeito 'wow' que eu estou procurando. Quero dizer, achar, eu achei, muitas coisas que tivessem o efeito 'wow', um vestido maravilhoso super decotado nas costas da D&G, uma bolsa de couro curtido e aplicações metálicas divina de Salvatore Ferragamo, umas mules Manolo inacreditáveis, os novos óculos da MK (que eu tive que sacar meu cartão platina para comprar porque só estavam aceitando os cartões que tinham sido registrados na lista vip Michael Kors, já que era pré-venda da próxima coleção), enfim, achei coisas incríveis... Mas sabe como é né, elas não cairiam exatamente como uma luva no Inuyasha.
Dane-se, eu comprei assim mesmo.
Mas agora, subindo para o apartamento de Sango, eu não consigo evitar de me sentir um pouco culpada rodeada de todas essas sacolas. Elas parecem dizer 'Sua tolinha, você foi despejada, acha que tem condições de nos comprar? Haha, você vai virar uma sem-teto desse jeito!' e eu mal consigo olhar para elas.
Na verdade, todas elas são umas hipócritas, já que enquanto eu estava nas lojas elas sussurravam coisas amorosas sobre como eu estava linda e como elas me faziam bem e que com elas eu nem me lembrava do estúpido do Inuyasha.
Ai, se a Sango me vê lotada de sacolas desse jeito, ela vai arrancar meu couro com um canivetinho suíço a sangue frio. Ok, agora é entrar o mais silenciosamente o possível e evitar encontrar alguém, fácil, meu quarto nem é longe.
Pegar todas essas sacolas de uma vez é que é mais difícil.
Ótimo, agora é só ir andando até lá, a sala estava vazia ta vendo? Não preciso ficar tão paranóica, ninguém com nenhuma arma branca à vista, se pelo menos eu conseguisse não fazer barulho com o salto da sandália...
"Você não está um pouquinho velha demais para se esgueirar pelos corredores não?" Maldição! O susto foi tão grande que metade das minhas compras saíram voando das minhas mãos e aterrissaram de forma pouco graciosa no piso. Inuyasha, você é um amorzinho, será que eu já te disse isso, querido?
Que pessoa conveniente.
Hey, espera aí...
"Você me chamou de velha?" Senti meus olhos se estreitarem e tenho a mais perfeita consciência de que, dada a temperatura crescente do meu rosto, eu estou ficando vermelha. Cadê o tal canivete quando é realmente necessário? Eu realmente, realmente odeio o Inuyasha.
Inuyasha começou a rir, aquela risada alta e clara e eu me encolhi me perguntando se era a melhor hora de discutir com ele – A Sango sempre pode ser atraída pelos risos/gritos/onomatopéias de ossos se partindo. Contei até dez mentalmente, em finlandês, tentando me acalmar.
"E eu não estou me esgueirando." Declarei, tentando parecer sóbria e digna, como uma daquelas pessoas que, não importa o que digam, sempre parecem que estão falando a verdade.
"Oh, não está?"
"Claro que não, Inuyasha, você só... Me assustou."
"Quer dizer que você não estava tentando passar despercebida por causa das suas amiguinhas aí?" Ele me perguntou sorrindo maldosamente, indicando as minhas sacolas. Sorrindo como... Diabos, sorrindo como o gato que engoliu o canário. "Que você não estava nem ao menos amaldiçoando o barulho do salto do sapato?"
"Inuyasha, vamos deixar bem claro que eu não sou velha, mas também não sou nenhuma adolescente imatura que tem que se esconder e se incomoda por coisas pequenas como o barulho irritantemente alto e... Enfim, o barulho comum de sapatos de salto." Suspirei, tentando soar entediada com aquela conversa. "Já passei dessa fase."
"Entendo, desculpe então, eu só achei... Deixa pra lá, passou bastante tempo, não é? Talvez eu não te conheça mais." Por um segundo eu o encarei francamente, desarmada pelo tom das palavras dele. Mas isso morreu em um segundo. "SANGO, VOCÊ VIU MEU CASACO?"
"CALA A BOCA, INUYASHA!" E ele começou a rir da minha cara de novo.
"Isso porque você não está se escondendo. Tsc, é claro que eu ainda conheço você, querida." Inuyasha deu aquela maldita piscadela sexy e convencida dele e eu me senti fumegar de ódio. "Tira essa cara de maníaca do parque, garota, a Sango não está em casa."
Eu senti meus ombros relaxarem instantaneamente com a informação.
Cogitei milhares de coisas a dizer, mas descobri que nenhuma delas me faria parecer menos idiota naquele instante, então eu só me abaixei e comecei a recolher as sacolas com um gosto amargo na boca.
Eu estava me sentindo culpada, pega no flagra, infantil e... E com um formigamento de decepção pelo corpo, algo parecido com a sensação de fracasso. Eu era uma farsa. Eu sou uma farsa. Não importa o quanto eu diga a mim mesma que eu sou uma mulher, que eu sou decidida e independente e todas aquelas coisas adultas que eu deveria ser, eu não sou.
Parece que Inuyasha tem razão. Que ele sempre teve razão. Que eu não sei administrar nem a minha vida, muito menos o meu dinheiro.
De repente, eu tive que fazer força contra a vontade de chorar.
"Toma." Sem me preocupar em levantar da minha pose ajoelhada no chão eu ergui a cabeça para encarar Inuyasha me estendendo os dois pacotes que faltavam. Ele leu meus olhos, uma habilidade antiga que eu achava que tivesse desaparecido e de repente não havia resquício de humor ou sadismo em seu rosto. Até o sorriso irritante não estava mais ali.
Aquilo não me fez sentir melhor.
Peguei minhas coisas das mãos dele e me levantei, andando o mais rápido possível para o meu quarto.
Ao chegar lá, deixei as compras em qualquer lugar junto da porta e sentei na cama, sem nem ao menos tirar os sapatos, e senti meus olhos arderem com as gotinhas que começaram a se formar nas beiradas.
Pouco tempo depois minha porta se abriu de novo e Inuyasha entrou, em outra oportunidade eu teria me divertido em vê-lo hesitar, é um fato tão raro. Incrível como tão pouco tempo com ele reabre feridas antigas desse jeito. Ele se encaminhou e sentou perto de mim na cama.
Não sei por quanto tempo nós dois ficamos ali, mudos e imóveis.
"Kagome." Inuyasha me chamou com a voz séria e foi impossível não arrastar meus olhos de volta para ele. "Desculpe."
"Pelo que?" Fiquei com raiva da minha voz fraca e rouca e das duas linhas molhadas que cortavam minhas bochechas, por parecer fraca na frente dele de novo.
"Por tudo. Dizer que você é infantil, que não sabe controlar seu dinheiro, por te incomodar quanto à Sango... Sinto muito." Por incrível que pareça, o fato de eu saber que ele estava sendo sincero me irritou.
"Nada que você nunca tenha me dito." Eu apontei, com a voz levemente ácida. "Nada que não seja verdade."
"Eu sei e eu sinto muito por isso também. Não estou tornando as coisas mais fáceis para você, não é? Quantas vezes nesses dois dias você já repetiu para si mesma que me odeia?" O toque de riso na voz dele me fez rir um pouquinho também.
"Algumas." Eu funguei, esfregando as lágrimas restantes. "Algumas milhares."
"Prometo que eu não vou mais—"
"Não prometa nada!" Eu o interrompi antes que ele pudesse tentar terminar aquela frase. "Não tente ser caridoso comigo, Inuyasha, eu posso agüentar qualquer coisa que você tentar."
Sei que devo estar parecendo uma menininha teimosa agora.
"Eu sei que eu não sou a adulta responsável e equilibrada que eu deveria ser, mas eu vou, você não precisa --, melhor, você não pode me tratar como se eu fosse frágil e precisasse que você pegue leve."
"Se você diz, quem sou eu para contestar." Inuyasha sorriu e se levantou da cama se preparando para ir embora, mas antes se virou para mim de novo. "Não seja."
Eu o encarei confusa.
"Não tente ser a adulta responsável e equilibrada que você acha que tem que ser Kagome, essa não é você, e você não tem porque mudar."
Ele se abaixou e, exatamente como na noite anterior, plantou um beijo na minha testa antes de se virar e sair do quarto. No entanto o beijo de hoje não tinha nada de semelhante com o beijo que ele me deu ontem de pura implicância.
O que eu não falei para ele, foi que eu não deixei que ele terminasse a promessa porque eu tenho muito medo de algum dia acreditar de novo em qualquer promessa que ele me faça.
oOo
Acabou que foi tudo inútil, eu fiquei tão abalada naquele momento à tarde que esqueci completamente das compras e quando Sango chegou da rua e foi falar comigo... Bom, tinham vários pacotes amontoados no chão perto do batente e eu tomei um puxão-de-orelha milenar. Mas de alguma forma eu estava me sentindo melhor, sei que não devia tão bem quanto sei que foi porque Inuyasha disse... Ele disse que eu não precisava mudar.
E finalmente ouvir algo de bom fez com que algo aqui dentro doesse menos. De qualquer forma estávamos todos à mesa, aproveitando o jantar e conversando sobre nossas antigas histórias de adolescente. E eu me sinto em casa.
"É, eu sei, eu me lembro! O Nate ficou duas semanas com aquele olho roxo que eu fiz e ainda teve a cara de pau de dizer que ele estava com os amigos e tinha ganhado uma cotovelada sem querer do Ed!" Inuyasha riu, aquela risada cristalina dele que, pela primeira vez em muitos meses, não me incomoda em ouvir, pelo contrário, me faz bem, me faz bem como fazia antigamente. "Ele era um idiota, vinha pedindo por aqueles socos há muito tempo." Inuyasha resmungou.
"Ah, ta bom, porque você deu aquele soco nele porque você é o herói dos fracos e indefesos em quem ele vivia batendo." Eu revirei os olhos com a ironia. "Até parece!"
"Claro que foi por isso." Miroku e Sango começaram a rir e eu apontei para eles.
"Viu? Não sou só eu que sei que não foi por isso."
"Fala sério, Inuyasha, você só socou o garoto porque ele ficava dando em cima da Kagome toda vez que ela passava a menos de dez metros de distância dele." O Miroku tomou minha defesa, ainda rindo. "Como foi que você disse, mesmo? Ah, sim, 'e se você chegar perto de falar com a minha garota de novo, não vai sobrar um único dente dentro da sua boca nojenta, estamos entendidos?'. Inuyasha, não tente mudar os fatos, até porque aquilo foi muito legal."
"Não é bem assim que eu me lembro."
"Mas eu me lembro muito bem! Você era mais ciumento e insuportável naquela época do que eu achava possível! Se bem que não melhorou muito não."
"Ah, ta, porque você era uma santa completamente livre de defeitos mundanos como o ciúme, não é, Kagome?" Inuyasha riu e eu fiquei quieta. Droga, sabe aquela coisa de 'não cutuque a onça com vara curta'? Pois é né. "Deixa eu ver a lista das meninas que você adoravelmente jogou contra a parede para mandar pararem de falar comigo... Teve a Ayame, a Jenny, a Yura, a Sarah e a lista continua até chegar em ninguém mais ninguém menos que Kikyou Yazawa."
"Hey, espera aí, eu tive ótimos motivos para ter uma conversinha com todas elas, especialmente com a Yazawa!"
"Ótimo, eu tive também."
"Há há, sem essa, Inuyasha, você era o galinha, não eu."
"Eu era galinha antes de namorar você, querida, se lembra dessa parte?"
"Claro que sim, Kikyou Yazawa é que parecia não se lembrar muito bem." Eu revirei os olhos mais uma vez. "Ou você se esqueceu do porque eu ter ido falar com ela?"
"Claro que não, querida: Ciúme."
"Inuyasha, você só cresceu por fora para o seu ego absurdamente grande continuar cabendo aí dentro, sério, isso é impressionante." Ele me lançou um olhar torto. "E de qualquer forma, eu só estava cuidando do que era meu, já que o seu fã-clube – você ainda se lembra dele? – não parecia querer entender que você estava namorando. E você não ajudava em muita coisa nesse aspecto."
"Você acha que a gente deveria interromper?" Eu parei de repente e me virei para Sango, que tinha falado, me lembrando que ela e Miroku ainda estava ali. Senti minhas bochechas corarem e, incapaz de segurar, comecei a rir. Quando eu vi, Inuyasha também estava rindo ao meu lado. "Eles são loucos."
"Eu sei, querida, mas fazer o que né? Sempre foi assim."
Isso era verdade, as discussões de Inuyasha Taisho e Kagome Higurashi eram lendárias, principalmente na escola, quase toda semana era possível ouvir os meus gritos pelo corredor – sim, o Inuyasha sempre foi esse arrogante irritante que adora implicar comigo até me levar ao cúmulo da raiva.
"É bom ter vocês de volta." Miroku comentou e imediatamente eu parei de rir, minha garganta se apertando instantaneamente. Miroku percebeu e tratou de se emendar. "Inuyasha, que horas são?"
"Não sei, perdi meu relógio na mudança, ele tava em uma caixa de objetos pessoais que sumiu do caminhão só Deus sabe como." Ele suspirou.
"Mudança?" Como assim mudança?
" É, eu aluguei um apartamento mais perto do trabalho. Agora eu posso ir a pé ao invés de ter que pegar o carro todo dia de manhã." Mas... Mas... Mas e o nosso apartamento? Eu estou me roendo para perguntar, mas eu não consigo achar a coragem necessária. Existe um vidro fino e frágil entre a conversa descontraída de agora e todas as nossas mágoas do passado que eu não estou disposta a atravessar.
"Eu não vendi."
E, mais uma vez, ele podia ver tudo pelo meu rosto. É nisso que dá conhecer alguém a vida inteira, mas eu nem conseguia me importar graças à onda de alívio que varreu o meu corpo. Ele ainda está lá, intacto.
Parte de mim ainda está presa lá dentro e, pelo olhar que nós trocamos, eu descobri que parte dele também.
oOo
N/A: E aqui está o segundo capítulo! Espero que vocês tenham gostado dele, eu adorei escrevê-lo. 8) E nem demorei muito não é? Mas eu estou com um pouquinho de pressa, então a nota fica para depois.
Muito, muito, muito obrigada à:
Individua do mal, ilikeKagome, Nika Valliere, Juh, Bunie Boo, Kagome(sami), DaySerafini.
