Santa Claus is coming to town

Por: Faniicat

"And so this is christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The older and the young

A very merry christmas
And a happy new year
Let's hope it's a good one
Without any fear

And so this is christmas (war is over)
For weak and for strong (if you want it)"

/ John Lennon.

24 de dezembro de 2009, Manhattan.

Primeiro pensamento do dia: Eu estou dormindo de conchinha. Porque eu acordei? Adoro dormir de conchinha!

Segundo pensamento do dia: Hoje é natal! Ah meu Deus, feliz natal, mundo!

Terceiro pensamento do dia: Espera aí, eu to dormindo de conchinha? No Natal? Inuyasha?

Abri os olhos de súbito, mas tomei cuidado para não tensionar nenhum músculo mais do que o normal, eu sei que qualquer movimentação anormal, por menor que seja, vai acordar Inuyasha, então eu só relaxei contra seu corpo mais e mais enquanto as memórias do dia anterior iam preenchendo minha mente.

Hum, acho que as coisas saíram um pouco de controle.

Não sei por que, mas de repente eu estava sem graça, não sei bem se dele, mas acho que principalmente do... modo como eu me aproximei ontem. No entanto, mesmo meio envergonhada, não me arrependia, só queria ver como é que ia ser agora. Acho que ia ser muito ridículo continuar sem admitir que eu sinto a falta de Inuyasha e que mesmo depois do tempo em que ficamos separados, nada mudou para mim.

Senti uma lufada quente de ar contra a base do meu pescoço e os braços dele se estreitaram ao meu redor e então tudo estava em paz de novo, o mundo parecia certo de novo e, a parte boa é que, dessa vez, não é nenhum sonho. Parece que o buraco dentro de mim, ao qual eu quase me acostumei, começava a sumir e, finalmente, parar de doer. Fechei os olhos.

oOo

"Essa noite resolve tudo?" Inuyasha perguntou, arqueando a sobrancelha com aquele ar insolente.

"Eu achei que sim, não era você dizendo que sentia minha falta e queria voltar? O que, uma noite era só o que você queria?" Porque eu achei que ia ser simples? É o Inuyasha afinal de contas. Urgh!

"Não é sobre o que eu sinto que eu tenho dúvidas!" E saiu batendo a porta. Eu não acredito nisso. Eu realmente não posso acreditar nisso.

oOo

"Então esse é o seu presente." Declarei e tentei sorrir, mas a expectativa não deixava. Eu estava tremendo e sentindo meu estomago se contorcer nos mais absurdos nós dentro de mim.

Senti os olhos de Inuyasha fixos na fita vermelha, ouvindo só meu coração acelerado (Já que tanto eu quanto Miroku e Sango estávamos segurando a respiração suspensa, suspeito que se Inuyasha demorasse muito, íamos os três ficar roxos!).

Então os olhos dele voltaram para o meu rosto. Ai, agora é tudo ou nada.

oOo

Quando eu acordei de novo, Inuyasha não estava mais deitado ao meu lado na cama (e eu até teria cogitado ser um sonho, se eu não estivesse no quarto dele). Alguma coisa se agitou dentro de mim, um sentimento estranho.

Quase gritei de susto quando ele saiu do banheiro.

- Bom dia. – Inuyasha desejou, mas sua voz não estava exatamente como eu esperava, aquele tom derretido que eu amava e fazia meus pelos todos se erguerem como mágica, que eu ouvi ontem. Muitas vezes, vale constar.

- Bom dia.

Eu soei hesitante.

- A gente precisa conversar. – Bom, todo mundo sabe que essa frase nunca anuncia nada de bom. Quer ver? Ninguém nunca diz "Precisamos conversar. Você ganhou na loteria!", "Vamos conversar? Quero casar com você" ou "A gente precisa conversar, seu salário está pequeno demais para você", é sempre "A gente precisa conversar: Seu cartão de crédito foi cortado por inadimplência/ quero o divórcio/ a gente devia discutir a relação/ sua mãe morreu/ você se ferrou na prova/ você está demitido/ o mundo está acabando"! Então, obviamente, eu soube que lá vinha bomba.

Se eu pudesse, admito que teria saído correndo, mas eu acho que sair correndo fugindo do seu ex só de lingerie, depois de ter dormido com ele, pela casa da sua melhor amiga em pleno natal não é lá uma escolha muito sábia. Mesmo que você tenha que encarar um 'precisamos conversar' ao invés disso.

- Precisamos? – Encolhi os ombros e Inuyasha confirmou. Droga.

- Essa noite resolve tudo? – Inuyasha perguntou, arqueando a sobrancelha com aquele ar insolente.

- Eu achei que sim, não era você dizendo que sentia minha falta e queria voltar? O que, uma noite era só o que você queria? – Porque eu achei que ia ser simples? É o Inuyasha afinal de contas. Urgh!

- Não é sobre o que eu sinto que eu tenho dúvidas! – E saiu batendo a porta. Eu não acredito nisso. Eu realmente não posso acreditar nisso.

oOo

Fui para o meu quarto (depois de encontrar minhas roupas espalhadas pelo quarto de Inuyasha e devo dizer que fiquei surpresa ao encontrar minha blusa embaixo do freezer do outro lado do ambiente) e fiquei lá dentro. Tentando, ao invés de cultivar a raiva, pensar sobre o que Inuyasha queria dizer. Cheguei a conclusão de que eu não precisava ter ficado tão na defensiva, mas que Inuyasha também não havia começado do jeito certo. Ele tinha um ponto, apesar de tudo.

Aquela noite de ontem significou muita coisa pra mim, mas a gente não conversou e, bom, esse foi um dos maiores motivos pelo qual acabou e eu quero que seja diferente dessa vez, se é que nós vamos tentar de novo. Nós vamos tentar de novo, não vamos?

Saí do chuveiro e de toalha mesmo voltei pro quarto e sentei na cama. Só eu sei o quanto me machuca ficar sem ele e, apesar das brigas desnecessárias e incessantes, esses quatro dias com Inuyasha me devolveram sua presença e todas as reações que ela causa em mim. Meus olhos vagaram para a direção do armário, pensando nos presentes ali dentro... Hoje é Natal e eu só quero uma coisa de presente.

Ouvi uma batida na porta e a voz familiar me perguntando se podia entrar e, apesar da vontade de ficar sozinha para pensar, deixei-o entrar.

Parado no batente da porta com as mãos enfiadas nos jeans e um brilho inseguro nos olhos – já comentei o quão raros são esses momentos? -, Inuyasha quase parecia grande e deslocado. Então seus olhos me examinaram de cima a baixo e um sorriso zombeteiro nasceu em seu rosto e de repente tudo parecia mais normal e aceitável.

"'Tá tentando me seduzir, mulher?" O encarei confusa por um segundo até lembrar que estava só de toalha e senti meu rosto esquentar na velocidade da luz enquanto Inuyasha começava a rir. "Não tem nada aí que eu já não tenha visto e, para dizer a verdade, eu acho muito boa a vista, então se quiser continuar assim, por mim está ótimo."

"Cala a boca, Inuyasha, espera aí enquanto eu vou colocar a roupa."

"Se arruma para o jantar logo, não sei se você viu, mas nós acordamos depois das quatro da tarde, daqui a pouco os outros vão estar chegando." QUATRO DA TARDE?

"Vou colocar a roupa." Claro, porque se eu for me arrumar propriamente dito, Inuyasha vai falar comigo daqui a umas duas horas. Procurei o vestido vermelho no armário e puxei o cabide com delicadeza e saí correndo para me esconder no banheiro. O vestido, neste caso, não cobria mais muita coisa que a toalha né, mas, fazer o que? O decote em forma de coração era generoso e subia em duas alças não muito grosas que desciam pelas minhas costas até a cintura, onde finalmente o decote acabava. Para compensar, não era muito curto, batendo uns dois dedos acima do joelho, em um vermelho vivo e vibrante que eu sabia que Inuyasha ia adorar. Suspirei e soltei os cabelos do coque que fiz para tomar banho, ajeitando-os rapidamente com a escova e um secador. Ótimo, o resto eu faço depois.

Quando eu saí do banheiro, foi a minha vez de ficar parada sem graça no batente da porta, já que Inuyasha não fez a menor questão de tentar disfarçar que me examinou da cabeça aos pés. Engoli a vergonha e me forcei a me mexer. Era a hora de conversar, Kagome, não a de aproveitar que ele já estava sentado na cama para subir em cima dele e faze-lo se perder no meio dos meus travesseiros algumas horas... Ok, chega. Meus pensamentos danados foram sendo substituídos pela gravidade que imperava dentro do quarto. De repente não havia brincadeiras, barreiras, orgulho, não havia nada ali entre ele e eu. E eu senti um medo absurdo. Talvez fosse o medo de me ver de novo tão próxima dele, de me machucar outra vez, de estar me encaminhando para a borda de um precipício do qual eu já me joguei uma vez.

"Temos que conversar, não é?"

"Pois é." Nós ficamos em silêncio por alguns segundos. "Kagome, primeiro eu queria me... desculpar. Não era a minha intenção ter sido grosso com você mais cedo, é só que eu não estava pensando direito. Nada parecia fazer muito sentido na minha cabeça, quero dizer, primeiro você reluta até o fim, até me fazer entender que eu e você queríamos coisas diferentes e que eu estava tentando a toa e aquilo doeu, entende?

Meus ombros caíram e foi difícil sustentar seus olhos. Assenti com um movimento de cabeça.

"Não retiro o que eu disse mais cedo. Não tenho dúvidas sobre o que eu sinto eu só preciso saber se você também quer tentar ou se eu estou..." Eu sabia que ele nunca chegaria a terminar aquela frase.

"Eu... Eu..." Eu tinha milhares de coisas para dizer, mas no fundo eu estava relutante. De alguma forma, algo em mim ainda queria dizer não, não que eu não o quisesse mais, não que durante essa noite todos os meus poros não tivessem se rendido ao toque de Inuyasha, era só que... Não sei bem explicar. Pensei em nosso namoro, pensei na amizade que existia desde a nossa infância antes dele, pensei nas brigas, no tempo separados, na noite de ontem, pensei em tudo, mas minha boca continuou entreaberta sem emitir som algum.

Ficamos em silêncio, nos olhando nos olhos e na minha mente não havia nada, apenas um latejar longínquo que me avisava que quando aquela dor que estava sendo anunciada me atingisse, seria devastador.

Cabia a mim decidir se eu ia espera-la me atingir ou se eu iria tomar uma providência agora.

Mas eu continuava imersa naquele vazio. O mundo parecia frio longe dos braços dele e eu sentia tudo vividamente dentro de mim, mas nada daquilo parecia alcançar meus lábios. Eu só continuei estática, encarando-o desolada.

"Eu só queria entender o que se passa na sua cabeça. Se isso realmente significa alguma coisa para você ou se simplesmente me deixar frustrado te diverte."

Ele suspirou e passou as mãos pelos olhos, esfregando-os.

"Inuyasha..."

O silencio foi resposta suficiente.

"Eu não vou estragar a noite de natal com isso, deixa pra lá." Me deu vontade de perguntar por que então ele fora até ali. Quem gostava de ver quem frustrado nessa história?

Porque sempre tínhamos que ferir um ao outro?

Ele levantou da minha cama e seguiu com agilidade felina até aporta, rápido demais para meu pensamento lento.

Quando ele bateu a madeira no batente eu tive apenas duas certezas: Eu nunca o havia amado tanto e Inuyasha Taisho indo embora era uma coisa que eu já havia visto por vezes o suficiente na minha vida.

OoO

Não me lembro de ter comemorado um natal tão infeliz quanto esse na presença de Inuyasha, Sango e Miroku.

Todos estavam reunidos no apartamento, a noite caíra e estava tudo lindo, exatamente como sempre fora. A imensa árvore decorada brilhava verde, vermelho, dourado, mais dourado. Pisca-pisca, bolas de louça coloridas, uma estrela trabalhada, vasos de flores e, por fim, na sala de jantar, o exuberante banquete preparado pro jantar. Todos estavam aqui, os pais da Sango, sempre tão elegantes, e o irmão mais novo dela que de repente havia virado um rapaz e agora ostentava orgulhosamente uma namorada muito bonita nos braços. Sesshoumaru também estava aqui, discutindo alguma coisa silenciosamente na sacada com Inuyasha enquanto Rin se divertia com a nova namorada de Kohaku.

Sango não saíra do meu lado desde que eu entrei no cômodo. Era bem óbvio que havia alguma coisa errada.

Eu fiz o que pude para tentar parecer bonita, mas nem o penteado, nem os brincos de ouro, nem a maquiagem, nem mesmo meus saltos Blahniks incríveis me fizeram parecer melhor. Eu tinha a mesma aparência do meu coração: Algo em frangalhos, esmigalhado, cansado e triste. E o pior de tudo, por inconseqüência minha.

Ou seja lá o que fora que calara minha boca mais cedo.

Todos conversavam na sala e eu tentava não parecer tão obviamente perdida nas bolhas que estouravam na flûte de champanhe em minhas mãos, até que uma mão firme tocou meu ombro e me fez levantar os olhos de supetão para encarar bem fundo naqueles orbes dourados. (E quase ter um infarto de susto, mas aparentemente isso não era importante.)

"Ahm, o que foi, Sesshy?"

"Vem aqui comigo um minuto." A voz de Sesshoumaru estava como sempre fora. Imponente e fria, mas depois de tantos anos convivendo com ele, eu podia perceber o toque de perturbação e preocupação atrás de seu tom indiferente.

Seguindo-o para fora da sala percebi o quão indolente estava sendo, eu sentia tanta falta dele e de Rin, falara tão pouco com eles desde que terminara com Inuyasha e agora que eu estava ali com os dois, ficava prestando atenção nas erupções de gás da superfície da minha bebida.

"O que está acontecendo com você e Inuyasha, Kagome?" Eu abaixei os olhos assim que ele me fez a pergunta. Eu não queria encarar Sesshoumaru, não queria deixar que a perspicácia dele lesse todo o meu medo, todas as minhas inseguranças.

Eu sabia que ele sempre tinha sido um dos meus melhores amigos, o garoto e, agora, o homem que sempre estivera ali para mim pra me ouvir chorar e me dar conselhos sensatos, e, por isso, me conhecia bem demais.

"Eu... Eu sinceramente não sei, Sesshy." Foi tudo que eu consegui dizer.

"Eu acho que eu sei." Sesshoumaru ergueu meu queixo com a ponta dos dedos. "Kagome, depois de tudo que aconteceu eu entendo que você esteja com medo. Eu sei o quanto pode ser difícil para você engolir seu orgulho por causa das merdas que o meu irmão faz, mas será que você não percebe como vai estar machucando a si mesma e a ele se disser que não por puro medo?"

Mordi meu lábio tentando não entrar em contato com meus sentimentos. Porque o pior de tudo é que eu sabia muito bem que Sesshoumaru estava certo.

"Inuyasha pode ser um imbecil, mas ele te ama. E pelo que ele me contou, vocês ficaram a dois passos de se acertar e foi você quem fugiu. Ele é o responsável pela parte idiota da relação de vocês, Kagome, não me faça mudar de idéia sobre isso."

Sim, isso me fez rir um pouco.

"Eu não sei te dizer o que aconteceu dentro daquele quarto, Sesshoumaru. Eu já tinha pensado sobre aquela discussão de manhã, eu já tinha me decidido, eu sei o que eu sinto, por mais que Inuyasha tenha dúvidas do que eu quero, eu não tenho. Mas eu não consegui dizer nada, as palavras nem sequer se formavam dentro da minha boca, parecia que eu estava presa. É um medo tão grande de estar indo na direção da beirada do tártaro de novo só pra ser empurrada de lá de novo. Eu demorei tanto tempo para conseguir uma mínima estabilidade sem Inuyasha, como eu vou fazer quando eu ficar sozinha de novo?"

"É um risco que você vai ter que correr. Mas tenha em mente que não é 'quando' você ficar sem ele, Kagome, é 'se' você ficar sem ele. E sem Inuyasha não quer dizer sozinha, você sabe, você só ficou sozinha todo esse tempo porque quis." Porque eu quis cortar tudo que me lembrava Inuyasha da minha vida, eu sei, admiti para mim mesma em silêncio. "A questão é só se meu irmão idiota vale a pena. Você ainda o ama o suficiente para querer tentar de novo?"

O que Sesshoumaru dizia fazia sentido.

Eu já havia me decidido. Porque então eu simplesmente não agia nisso?

Parecia tão difícil, mesmo sendo tão simples. Como eu podia me deixar simplesmente voltar, como se nada tivesse acontecido? Porque as coisas não eram mais fáceis, como foram ontem a noite quando tudo que eu sabia era que eu precisava mergulhar nos braços de Inuyasha e faze-lo entender que aquilo não terminaria daquele jeito? Sesshoumaru me lançou um olhar significativo e saiu em direção à sala sem me dizer mais nada.

Recostei minhas costas na parede e fiquei encarando os quadros do corredor de Sango por um tempo, me sentindo um lixo indeciso.

Pff, e eu ainda tento dizer que sou uma adulta responsável. Não consigo nem tomar uma decisão tão simples quanto ficar com o homem que eu amo ou não, não consigo nem pagar minhas contas...

Sesshoumaru tinha razão.

Parte de mim não queria admitir isso.

Talvez fosse a parte que ainda estava magoada com Inuyasha. Ele me deixou ir embora, não deixou? Que direito tinha de vir atrás de mim agora?

Mas, como dizia algum músico que minha cultura popular desconhece, o coração tem razões que a própria razão desconhece.

E então eu já tinha decidido.

Voltei para a sala e resolvi esperar o momento certo. Resolvi assumir o controle da minha vida e sair daquela inércia. Resolvi que era natal, eu estava com as pessoas mais importantes do mundo para mim e eu não ia ficar deprimida. Eu era uma mulher adulta afinal, ou ao menos teria que começar a me movimentar para ser. Eu não poderia ser uma menininha mimada para sempre.

Sango sorriu e veio sentar ao meu lado, segurando minha mão e entrando na roda que começou a se formar ao meu redor enquanto eu começava a falar sobre qualquer assunto bobo e divertido e eu me sentia mais leve (não mais leve do tipo 'o champanhe está fazendo efeito', mas mais leve do tipo 'estou mais satisfeita comigo mesma'). Só faltava uma coisa. Relampejei os olhos na direção de Inuyasha e capturei seu olhar sobre mim. Minha respiração travou por um segundo e eu dei um jeito de dar um sorriso mínimo antes de desviar minha atenção de novo.

Os ponteiros do relógio foram passando até que bateu a meia noite e era a hora de trocar os presentes e ir cear.

Eu me senti em casa outra vez, revendo meu passado, enquanto todos os meus amigos de infância, minha família, trocavam seus presentes com abraços apertados e declarações. Era mais do que só um feriado ou troca de bens materiais, era mostrar o quanto nos importamos uns com os outros, mesmo que às vezes a distância do dia a dia nos faça esquecer, estamos todos juntos nessa, sempre estivemos e independente do que aconteça, das brigas de casal que ocorram entre Miroku e Sango, das guerras que eclodem entre irmãos ou dos noivados que acabam, nós sempre estaremos juntos, porque isso é o que mais importa e eu teria feito uma das maiores besteiras da minha vida se houvesse ido para qualquer outro lugar senão a casa da Sango.

Porque isso é o amor. Não é não ter problemas ou nunca brigar, é conhecer o melhor e o pior do outro e amá-lo sem limites ainda assim, é passar os anos sem conta e continuar pertencendo ao mesmo lugar, é um laço que ultrapassa qualquer palavra ou definição, é algo que se sente, que te queima, te aquece, te faz sorrir e chorar, te machuca e te cura. Um verdadeiro morde-assopra.

É olhar para cada canto de uma casa e se lembrar de uma história diferente, é saber que o gelo em forma de bolinhas plásticas no congelador tem as seis iniciais de vocês marcadas em uma noite dormindo em colchonetes no assoalho frio para estrear o novo apartamento de casados de Miroku e Sango, é ver a importância de o porta-retrato logo ao lado da foto de casamento ser uma foto da sua adolescência, é enxergar que isso vai além do gelo ou da foto, são os pequenos gestos que construíram uma vida inteira.

É ver a sua melhor amiga te dar um abraço que dispensou qualquer declaração, saber que quanto maior é o laço que se tem com essa pessoa, mais difícil é se expressar e é exatamente por isso que nenhuma das duas conseguiu dizer nada além de 'Eu te amo' na hora de trocar os presentes.

É chegar a hora de trocar presentes com a pessoa mais importante da sua vida e sentir medo. E saber que, apesar do medo, vale a pena. Como sempre valeu. Amor é coisa do destino, coisa que a física não explica, que a ciência não consegue reproduzir. É só isso e é o que faz o mundo girar.

Inuyasha se aproximou de mim com o presente nas mãos e eu peguei o embrulho pequeno que estava na árvore para ele. Ele me entregou o pacote sem dizer nada e eu o coloquei em cima da mesa, eu mesma tirando a fita vermelha que envolvia o bonito papel reluzente em volta do presente que comprei para ele, deixando a mostra a caixa do relógio de couro italiano e platina que eu (me endividei até a morte) comprei na Cartier.

"Isso aqui era para ser o seu presente." Eu disse sem nem olhar para a caixa em minhas mãos, apenas estendi-a na direção dele, que pegou igualmente sem dar-lhe atenção. "Eu pensei bastante no que eu poderia comprar para você que não me fizesse parecer uma pão dura por ter ganho um presente seu sem te comprar nada e foi a isso que eu cheguei. No dia que você disse que tinha perdido o seu na mudança eu soube que era isso o que eu queria comprar... Mas o que eu comprei não tem importância nenhuma."

Dei dois passos a frente, ficando mais próxima. Olhei para a fita de cetim ainda entre meus dedos e comecei a enrolá-la no pulso devagar.

"Eu não queria vir para cá nesse feriado porque eu sabia que você iria estar aqui. E eu não conseguia suportar a idéia de estar no mesmo lugar que você e não estar com você. Eu tive muito medo de que as coisas tivessem mudado para sempre, de que não houvesse mais volta, de que você tivesse outra pessoa agora. Eu queria ter dito isso mais cedo hoje, me desculpe. Eu ainda tenho medo, Inuyasha, de estar me abrindo de novo, de estar cometendo o mesmo erro de novo, mas se eu estiver... Eu não vou me arrepender. Porque eu sei que eu nunca poderia me arrepender de sentir o que eu sinto e a única coisa que não valeria a pena seria deixar você escapar entre meus dedos pelo simples fato de que eu estou aterrorizada de que tentar de novo não seja o suficiente." Sesshoumaru me lançou um de seus raríssimos sorrisinhos verdadeiros e eu senti meus olhos marejando. "Eu queria poder fazer um discurso tão lindo quanto o que eu fiquei imaginando no resto da noite, mas eu não consigo. Você disse que não era sobre os seus sentimentos que você tinha dúvida... Não é possível que seja sobre os meus também porque eles ficam mais óbvios cada vez que eu olho pra você. Eu nunca soube e aparentemente nunca vou saber como viver sem você. Você é a coisa mais importante para mim e eu te amo... demais." Suspirei. "Então esse é o seu presente." Indiquei a fita ao redor do meu pulso. "Resta saber se você me aceita de volta."

Declarei e tentei sorrir, mas a expectativa não deixava. Eu estava tremendo e sentindo meu estomago se contorcer nos mais absurdos nós dentro de mim.

Senti os olhos de Inuyasha fixos na fita vermelha, ouvindo só meu coração acelerado (Já que tanto eu quanto Miroku e Sango estávamos segurando a respiração suspensa, suspeito que se Inuyasha demorasse muito, íamos os três ficar roxos!).

Então os olhos dele voltaram para o meu rosto. Ai, agora é tudo ou nada.

O sorriso que brotou em seus lábios era toda a resposta que eu precisava para cobrir os últimos dois passos de distância entre nós e mergulhar no abraço quente e só meu. E finalmente sentir como se tudo estivesse encaixado no lugar certo, a vida estivesse de volta ao trilho e tudo... É, tudo tinha valido a pena.

O que Inuyasha murmurou ao meu ouvido era tudo que eu precisava ouvir, ao som dos aplausos e assovios dos outros e eu joguei minha cabeça para trás rindo e voltando a encarar o sorriso perfeito do meu... Do meu homem e senti-lo cobrir meus lábios com os seus de novo.

Então essa era a resposta de Sesshoumaru: Eu ainda o amo o suficiente para tentar de novo quantas vezes forem necessárias.

Porque amor é isso. Não tem explicação, não tem motivo, não tem circunstância, ele existe, ele impera.

E se todo mundo sentisse um amor como esse, o mundo não seria o lugar triste e desbotado que é agora.

O espírito do natal vai além de presentes e comida, apesar de que abrir meus pacotes tenha me feito muito feliz, principalmente por estar sentada no colo de Inuyasha. Especialmente porque o presente dele incluía a minha antiga aliança de noivado e a conhecida chave do nosso apartamento. Mas o espírito do natal vai além. Porque ele nos lembra o verdadeiro significado de estar em família, estar em casa.

E isso, por incrível que pareça, nem meus Manolo Blahnik pagam.

OoO

Quanta demora, quanta enrolação!

Eu sei que vocês estão pensando isso e, por favor, me desculpem. Eu estou no pré-vestibular e minha vida pessoal está uma coisa extremamente confusa e dolorosa nesse momento (algum dia eu juro que escrevo uma fic contando, porque eu sou digna de uma das Kagomes mais desastradas, otárias e perseguidas por karmas absurdos! Hahaha).

Eu queria muito fazer uma nota especial pra esse último capítulo, mas eu não consigo... Ele ta escrito há um tempo e eu me sinto bem culpada de não ter postado ainda e, acima de tudo, eu não consigo nem pensar em amor nesse momento sem sentir vontade de vomitar, chorar e gritar como uma criança mimada agora (eu sei que ninguém ta nem aí pro estado pessoal da autora, mas eu queria me justificar anyway, final da minha fic ok? Hahaha).

Então é isso.

Acima de tudo, muito obrigada a quem acompanhou a história, quem torceu pelos meus dois personagens malucos, quem mandou reviews lindas que – por mais que não pareça às vezes – me incentivam muito. E quanto a demora de outras pendências (coff coff, eu sei que república ta com teia de aranha) eu não sei o que eu posso dizer, não há nada a ser usado em minha defesa além de pura incapacidade. Eu tenho uma vida, bem conturbada aliás, pra lidar também.

Espero que tenham gostado do último capítulo, que ele tenha feito sentido – sou terrível pra fins, mas curti esse – e que tenha sido tão bom quanto vocês esperavam. Enfim, é isso.

Muito obrigada, de verdade, meus pingüins.

Mil beijos e até a próxima, Faniicat.