O Remus já está perfeitamente OC... =/ Eu sei, foi mal, mas como a história já está tão diferente do livro, vamos deixar assim mesmo e continuar com isso. Bem, estamos aí com o capítulo 20...
Disclaimer: Harry Potter não me pertence.
Capítulo 20. Passado
O dia mais esperado da vida de todos os jovens bruxos havia finalmente chegados: o dia de seu ingresso a Hogwarts. Como o esperado, a plataforma 9 ½ da estação King's Cross estava repleta de bruxos das mais diversas partes do país e, entre eles, dois que realmente se destacavam: Uma menina de curtos cabelos vermelhos e franja exageradamente comprida, escondendo metade de seus olhos, e um adulto de feições envelhecidas, rosto cheio de cicatrizes e cabelos castanho grisalhos. A roupa de ambos era muito surrada, assim como as malas que eles carregavam, entretanto, apesar da pobreza visível, tinham olhares amáveis e gentis, mascarados por uma tristeza evidente. A pequena menina que andava rápido ao seu lado era Agatha, uma garota tão baixa demais para sua idade e tão magra demais para aparentar comer mais que uma refeição por dia. Uma menina que andava sempre cabisbaixa evitando olhar para qualquer outra pessoa. Quem a visse diria que estava triste por ir embora, mas aquele era verdadeiramente o dia mais feliz de toda a sua vida.
O adulto envelhecido a ajudou a colocar todas as malas dentro do trem, algo que visivelmente ela não faria sozinha, em seguida levantou sua longa franja e deu um beijo rápido em sua testa. A garota disfarçou o olhar, sorriu com clareza, fazendo-o abrir o esperado sorriso. Logo que a franja estava baixa novamente, seus olhos se modificaram para ela própria. A tristeza estava de volta...
— Nos vemos no ano que vem então — despediu-se ele, muito triste.
— Mas não se esqueça de me mandar cartas! — Choramingou ela, fazendo uma cara de dó. Ele riu e a bagunçou levemente os cabelos dela.
— Você sabe que eu jamais iria esquecer de meu amado anjo. Agora suba antes que perca o trem. Não vá querer ficar que nem o papai desempregado.
Agatha o olhou para a cara dele e soltou um resmungo baixo, depois saiu correndo para o trem, parando na primeira janela que encontrou desocupada:
— A culpa não é sua se seus chefes são sempre uns idiotas!
— Então trabalhe duro para não ter chefes idiotas como os meus! — Ele riu.
Ela deu um grande sorriso também, apesar dos olhos não serem os mesmos. Por isso ela usava sempre aquela franja. Seus sentimentos estavam tão escondidos quanto seus olhos claramente expressivos...
O trem deu partida, ela acenou devagar e viu, aos poucos, a imagem daquele homem com o rosto cheio de cicatrizes ir se afastando. Ele era um antigo auror. Sim, ele era um auror muito famoso, renomado, forte e corajoso. Mas nada no mundo compensava um pequeno erro. Um erro que o Ministério ignorava. Um erro que ambos carregariam pelo resto de suas vidas... Apesar de tudo, ela queria ser tudo o que ele foi. Ela o admirava demais.
Quando a estação finalmente sumiu de sua vista, Agatha começou a andar pelo trem meio movimentado, a procura de um lugar para se sentar. Conforme ia andando, via que vários dos alunos a sua frente iam entrando em cabines e se fechando dentro delas. Não houvera uma única cabine que não via ninguém entrar até chegar bem no fundo do trem, onde havia pouco movimento. Tentou olhar pelas janelas das cabines, ma sempre as encontrava cheias de estudantes do primeiro ano. Pessoas que ela tinha medo de se aproximar. Queria encontrar uma cabine vazia!
A última que encontrou bem no fim do vagão não era seu sonho, mas estava no meio do caminho do que ela desejava. Havia apenas um garoto sentado no largo banco, observando a janela do lado de fora quase encolhido contra ela. Não deveria ser má companhia... Parecia tão nervoso quanto ela.
Agatha tomou fôlego e criou coragem, pôs a mão na maçaneta e abriu a cabine o mais devagar que pôde, para não fazer barulho. No entanto, por conta da velhice, a porta provocou um barulho muito alto, e isso chamou rapidamente a atenção do garoto, que se virou para olhá-la com um par de olhos assustados.
— Posso me sentar aqui? — Ela perguntou rapidamente, ficando vermelha. O rosto dele estava tão pálido que parecia que ela era uma assombração que entrava pela cabine — É que todos os outros lugares estão ocupados.
Ele assentiu, olhando-a com tanta atenção que ela chegou a pensar que estivesse com alguma marca estranha em seu rosto, mas no reflexo da janela via que estava tão normal quanto sempre costumava ser. Normal não, ela não era normal, mas pelo menos como sempre havia se visto no espelho. Devia ser ele que era estranho... Talvez fosse melhor começar uma conversa para descobrir se ele realmente possuía sanidade mental.
— Qual o seu nome? — Ela perguntou timidamente.
— Lupin, Remus Lupin — se apresentou ele, com a voz meio falhada.
— Hm... Prazer. Sou Agatha — sorriu ela, pendendo a cabeça para o lado, como uma criança — É meu cabelo?
— Hã? — Exclamou ele, assustado, recuando um pouco para trás conforme ela sentava à sua frente.
— Meu cabelo, é para isso que está olhando? — Riu ela timidamente — Sabe, todos costumam passar um tempo olhando para ele, depois tiram o sarro da minha cara e dizem: "Ah! É a garota cabelo de fogo! Ela vai acender uma labareda se você não fugir!". Já me jogaram até um balde de água fria na cabeça tentando apagar o "fogo" — disse ela, fazendo bico — Entretanto apesar de tudo, gosto muito da cor dele.
— Isso é... Bom — concordou ele, virando-se rapidamente para olhar para a janela.
"Acho que ele é meio... Maluco" ela pensou, piscando algumas vezes.
Remus tremia como vara verde, seus punhos segurando bem firme o tecido da calça. Ele não costumava conversar com crianças da idade dele! Não sabia o que fazer! Muito menos se era uma... Garota. Uma garota tão... Boazinha. Ele não podia fazer amigos, porque depois eles ficariam com medo dele e jogariam coisas em sua cabeça chamando-o de monstro. Não queria isso. Mas ela parecia ser tão... Legal.
— Você também está no primeiro ano, não é? — Perguntou ela, tentando puxar assunto novamente.
Ele assentiu, balançando a cabeça tão rápido que teve até um acesso de tontura. O que a fez começar a rir.
— Em que casa-.
Agatha havia começado a perguntar outra coisa, decidida a começar uma conversa, mas foi interrompida pelo rangido alto da porta da cabine. Os dois se viraram para olhá-la, com a mesma rapidez que Remus havia olhado para a porta quando ela havia entrado, e viram uma menina de cabelos compridos até o queixo, de pele tão branca que chegava a ser quase cinza e embaixo dos olhos grandes olheiras negras. Era muito bonita, mas sua aparência era um tanto... Mórbida.
A jovem olhou para eles, por poucos segundos, então deu um passo para dentro da cabine, se virou de costas, fechou a porta e por fim tomou um lugar ao lado de Remus, se espremendo contra a parede da cabine para ficar o máximo longe possível dele.
— Não achei outro lugar, vou ficar aqui. Quais são os seus nomes? — Perguntou ela, encarando Agatha.
"A cor do meu cabelo é tão inconveniente... Porque todos sempre me encaram quando me vêem pela primeira vez?" pensou a pequena Agatha, envergonhada.
— Sou Agatha e esse é o Lupin. Ele não fala muito — respondeu Agatha simpaticamente.
— Oras, oras... — disse Justine, olhando para Remus curiosamente, o que o fez ficar ainda mais pálido do que ele já era — Sou Justine Wolds, prazer em conhecê-los.
"Ela não pode saber que eu sou um lobisomem, não pode, não pode, não pode, não pode!" repetia Remus em sua cabeça, desesperadamente, conforme os olhos azuis dela o estudavam.
— Acho que... Você está assustando o coitadinho! — Disse Agatha colocando a mão em frente aos olhos de Justine, tapando a visão dela — Olhe só, ele está mais pálido do que já estava!
Remus olhou para ela, comovido com a "ajuda" que ela estava lhe dando e deu um breve sorriso que a fez dar um sorriso muito maior do que quando havia tentado começar uma conversa.
— Então você sabe sorrir! — Riu ela, baixinho.
— Está bem, está bem, pode tirar essa mão do meu olho! — Resmungou Justine, dando um tapa barulhento nas costas de Agatha.
— Você é má! — Choramingou Agatha, bem alto.
— Você tapou meus olhos! — Retrucou Justine.
— Louca!
— Cabelo de fogo! — Ofendeu Justine, com cara de merda.
— Oras, sua... Sua... Zumbi idiota! — Disse Agatha, nervosa.
— Zumbi? — Perguntou Justine, abrindo um largo sorriso — Obrigada! Sinto-me honrada. Talvez você possa ser chamada de Salamandra de fogo ao invés de cabelo de fogo. É mais simpático.
Agatha olhou para Remus, que a olhou com o mesmo olhar de incredibilidade, então ambos olharam juntos para Justine, que ainda sorria como se tivesse dito algo muito legal e Agatha tivesse realmente lhe elogiado. Conclusão: Eles eram um grupo muito estranho de pessoas estranhamente loucas.
— Prefiro que me chame de... Agatha — ela disse, por fim, ainda meio cautelosa.
— Está bem então — disse Justine, dando de ombros — Vocês também estão no primeiro ano?
— Sim — afirmou Agatha, balançando a cabeça — E que casa vocês dois querem cair? — Seu olhar passou rápido por Justine e pousou em Remus, que se encolheu um pouco mais quando viu que ela olhava para ele.
— Eu quero ser uma Corvinal — disse Justine, antes que ele pensasse em abrir a boca.
— A casa dos inteligentes, isso é legal! — Exclamou Agatha, mudando seu olhar rapidamente para Justine, para o alívio do pequeno Remus — Já eu sou meio burrinha para ir para a Corvinal... — riu ela, meio encabulada, coçando a nuca — Mas eu ficaria muito feliz em ser uma grifinória, assim como a mamãe e o papai.
— Legal. Grifinória é legal. Corvinal e Grifinória são casas que me agradam, só não gostaria de cair na Lufa-Lufa ou na Sonserina — Justine concordou racionalmente.
— Não tenho nada contra Lufa-Lufa, só prefiro Grifinória — disse Agatha, pensativa — E quanto a você, Lupin, ainda não respondeu!
Ele viu os olhos dela encararem os seus. Porque ela tinha sempre que ficar olhando para ele? Era como se seus músculos virassem rocha sempre que seus olhares cruzavam! Ele acabou gaguejando:
— G-G-Gri-f-finó-ri-ria.
Agatha continuou olhando-o, pasma, então trocou um olhar rápido com Justine e as duas começaram a rir ao mesmo tempo, para piorar a situação vergonhosa que ele já estava metido. Lidar com pessoas da sua idade realmente era algo difícil demais!
— Você é tão engraçado — riu Agatha — É fofo.
Certo, aquilo já era exagero. Aquela menina era realmente insana, não passava bem, não tinha senso de nada. Como assim alguém havia acabado de lhe dizer que ele era fofo? Ele era um lobisomem! Um lobisomem feio e assustador! Apesar de ela ignorar esta parte...
No fim das contas, a viagem passou muito mais rápida do que ele algum dia havia imaginado que demoraria. As longas horas pareceram ser reduzidas a quase nada conforme ele ouvia as duas trocarem palavras animadamente sobre a escola e tudo o que estavam loucas para aprender. Para a sua surpresa, sempre que tinha uma oportunidade, Agatha virava e lhe pedia a sua opinião, fazendo-o se sentir cada vez menos desconfortável, até que quando ele deu por si, os seus músculos sempre tensos estavam estranhamente relaxados.
— Enfim nosso amigo está em uma cor diferente da minha — disse Justine "maldosamente".
— É mesmo! — Concordou Agatha, dando um sorriso de orelha a orelha — Ele não está mais tão pálido. Está com uma cor normal. Vivas! — Comemorou ela, erguendo os dois braços bem alto.
— Sabia que você é estranha? — Justine perguntou, dando breves risadinhas irônicas.
— Já ouvi essa frase várias vezes — ela admitiu, olhando para o chão, envergonhada.
— Eu não concordo!
As duas se viraram rapidamente para olhar Remus, que de repente havia dito algo sem pensar. Ele fechou a boca rapidamente e por conveniência, na mesma hora o trem parou, tornando possível que ele corresse para fora da cabine, deixando suas últimas palavras para trás:
— Com licença.
Quando chegaram ao salão principal, viram os vários alunos mais velhos assistindo-os, todos curiosos para saber quem seriam os novatos de suas casas. Agatha se encolheu um pouco, abaixando a cabeça, apesar de que não adiantava muito, já que com o seu cabelo ela chamava muita atenção.
Eles pararam em silêncio conforme a Professora McGonagall lhes ordenou, começando em seguida a chamar os nomes das listas. O primeiro aluno a ser mandado para a Grifinória fora Alan, que subira os degraus com muita timidez, em contraste com a segunda aluna que fora Alice, que correu rápido para o banquinho e se sentou, quase arrancando o chapéu da mão da professora para que soubesse logo em que casa iria cair. A próxima a ser chamada, em ordem alfabética logo após Alice, foi Agatha — que odiou completamente o seu nome por estar quase em terceiro na lista.
Ela andou bem devagar até o banquinho e se sentou encolhida, agarrando com muita força as vestes compridas de bruxa, formando um punho com as mãos. Seus braços tremiam, tendo a professora até pedir para que ela se acalmasse, dizendo que não era nada demais, mas dizer para se acalmar eram palavras que nunca haviam feito muito efeito nela.
Quando o chapéu cobriu a sua visão, ela sentiu seu corpo gelar, mas quando ele anunciou "Grifinória!", ela se derreteu de alívio, afrouxando os punhos e sentindo um calor confortável preencher o seu corpo. Como era o costume, todos os alunos da casa bateram palmas para a nova integrante e, quando Agatha passou pelo amontoado de alunos para ir para a sua casa, viu Remus olhando para ela. Reconhecendo o garoto, ela sorriu e sussurrou baixinho, sendo possível que ele a entendesse apenas por leitura labial:
— Consegui!
A lista continuou e o grupo de alunos do primeiro ano foi diminuindo conforme eles iam para as mesas de suas casas. Eliza, ao contrário de Agatha, se sentou muito calma, como se estivesse confiante de que não iria parar em algum lugar ruim, assim como Justine, que parecia confiante de que iria para a casa que desejava.
— Olá! Sou Eliza, você é? — Eliza perguntou, ao chegar correndo à mesa, encontrando um lugar vago ao lado de Agatha.
— Agatha. Prazer! — Agatha disse rapidamente, prestando atenção ainda nos alunos que iam sendo escolhidos. Ela queria saber se aquele garoto estranho e assustado iria parar na grifinória também... Era o que ele queria.
— Está preocupada com alguém? — Perguntou Eliza, percebendo o interesse de Agatha.
— Não, só quero saber quais serão nossos novos colegas — mentiu Agatha.
— Hm... Isso é interessante — sorriu Eliza.
A hora de Remus para colocar o chapéu seletor chegou logo, muito antes do que ele imaginava. Como o costume, vários murmúrios percorriam o salão conforme ele se sentava no banco e via o chapéu descer sobre sua cabeça, apagando sua visão. Por alguns segundos, a única coisa que ouviu foi sua própria cabeça e ela lhe dizia alto algo muito diferente de tradições de família, de casa onde são mandadas as pessoas mais corajosas. O que pensou foi que talvez pudesse ser amigo dela... Pensou que poderia ter alguém que gostasse dele. Talvez não fosse a única pessoa, mas ele havia criado uma grande afeição aquele sorriso tão simples e feliz. Podia não parecer grande coisa para os outros o fato de ela ter o tratado tão bem, mas para ele aquilo era importante demais... Havia sido a primeira criança a realmente conversar com ele depois de todos aqueles anos que seus pais passaram escondendo-o por causa de sua "condição especial"...
— Grifinória!
Remus abriu um largo sorriso ao ouvir o anuncio do chapéu seletor e aquilo fez Agatha abrir um sorriso tão enorme quanto ele. Algo que Eliza achou engraçado, mas decidiu ignorar. A única coisa que sabia de Agatha era o seu nome, então fazer alguma brincadeira poderia não ser algo muito educado...
"Então ele é capaz de sorrir..." pensou Agatha, contente.
— Eu também consegui — anunciou ele, ao passar em frente a Agatha, dando um sorriso infantil e verdadeiro.
— Sim — sorriu ela — Agora somos colegas de casa.
Infelizmente logo após aquelas palavras, ele teve que se dirigir a um ponto mais afastado da enorme mesa, não sendo capaz de ficar e conversar mais tempo com ela. Incapaz de se tornar seu amigo de imediato e, por conseqüência, tornando aquele momento tão importante para ele e nada mais do que uma mera lembrança para ela.
- Alguns anos depois -
As férias de natal estavam chegando e, com elas, o retorno de todos os alunos para as suas casas e suas devidas famílias. Na verdade, não todos, quase todos, entre eles: Eliza, James, Sirius (que iria para a casa de James) e Peter. Eliza insistira com Agatha para que ela retornasse para casa e visse sua família, mas ela insistia que queria ficar na escola, alegando que seu pai tinha que trabalhar muito então não passaria muito tempo com ela.
Infelizmente para Remus, que havia tido alguma esperança de que Agatha não tivesse com quem andar, Agatha acabou descobrindo que Justine também tinha alguns "problemas familiares", então passaria as férias na escola. Conclusão: a sorte nunca estava ao lado dele.
Por sorte, um garoto do primeiro ano também, que se chamava Alan (por acaso o rebatedor que havia quebrado a perna de Agatha), também havia ficado na escola e grudara nele como uma única companhia com quem andar. O garoto era bonzinho, meio quieto e reservado, mas bonzinho. Ele e Remus passavam muito tempo nos pátios jogando xadrez e de vez em quando viam que Agatha e Justine estavam passando correndo por lá, jogando feitiços de mudança de cor de cabelo e coisas assim uma na outra. Sempre que as duas garotas passavam, ele e Alan se viravam rapidamente para olhar para elas, mas como olhavam discretamente, as duas nunca percebiam. Depois que elas se afastavam, os dois se viravam e olhavam um para a cara do outro, ficando meio vermelhos, então voltavam rapidamente suas atenções para o tabuleiro, a fim de evitar algum questionamento. Remus se sentia um pouco incomodado, com medo que Alan pudesse estar olhando para Agatha... Parecia que havia algo meio... Ardente em seu peito sempre que o via olhando para as duas. Mais tarde descobriria que aquilo era ciúme.
Enfim, no dia de natal, acabou tendo uma surpresa. Quando desceu as escadarias do salão comunal, após encontrar Alan ainda adormecido em sua cama, foi por instinto até a árvore de natal, pronto para procurar alguma coisa que seus pais tivessem mandado, e ao se agachar ao lado dela para procurar algum embrulho, ouviu alguém dizer:
— Hei! Feliz Natal!
Ele se virou rapidamente, assustado com a voz que havia acabado de escutar e seu rosto assumiu uma coloração escarlate logo que seus olhos se encontraram com os dela.
— Oras, você ainda é quieto? Que eu saiba você faz um monte de coisas que deixa os outros loucos junto com seus amigos James, Sirius e Peter — disse Agatha, inclinando a cabeça para o lado.
— N-não é isso. É que e-eu não esperava encontrá-la aqui. — Ele admitiu, evitando olhar para o rosto dela.
—Hm... — Disse ela, voltando a olhar para um pedaço de papel que havia em suas mãos.
— O que você está fazendo? — Perguntou ele, após pegar um embrulho com o seu nome, sentando-se em seguida ao lado dela no sofá, esticando os olhos para olhar o papel que ela tinha nas mãos.
— A carta que meu pai me mandou — sorriu ela, dobrando a carta no mesmo momento que viu ele esticar os olhos — E também... — disse ela, olhando para uma caixa de chocolates — Vendo meu presente.
— Chocolates? — Perguntou ele, percebendo que havia feito algo que não havia a agradado ao tentar ver o que estava escrito na carta.
— Sim! — Assentiu ela alegremente — Eu amo chocolates! Aliás, você quer um? —Ela ofereceu, esticando a caixinha aberta onde só havia um espaço vazio.
— N-não! Não se incomode!
— Eu insisto! Oras, é natal! Época de partilhar! Pode pegar? — Encorajou ela.
Remus hesitou, mas acabou pegando um chocolate redondo e marrom que ele descobriu que tinha recheio de cereja. Cereja... Era exatamente a cor do cabelo dela. Foi estranho fazer aquela associação ao comer um chocolate, mas foi a primeira coisa que veio em sua cabeça. Além da frase: "Amo chocolates...".
— Vejo que você gostou! — Riu ela, percebendo um sorriso que se formará inconscientemente no rosto dele.
— É bom — admitiu ele, vermelho — Pena que não tenho nada para dar para você... Em troca.
— Se eu me importasse com isso não teria lhe oferecido!
— Mas-.
— Quieto! — Brigou ela, fazendo cara de autoritária. Uma autoridade que não teria imposto respeito nem em uma mosca, mas em todo o caso, ele ficou quieto, com medo de irritá-la — Assim está melhor! — Ela constatou orgulhosa, ao ver que ele havia parado de responder.
Eles conversaram consideravelmente naquele dia, mas por fim ela se levantou e disse que tinha que se encontrar com Justine e perguntou gentilmente se ele não ligava de deixá-lo para trás. É claro que ele pensou: "É claro que eu ligo!", mas também é lógico que respondeu: "Não tem problema, pode ir!". Finalmente havia conversado com ela... Era como se seu coração batesse de um modo diferente ao ter visto aquele sorriso ser dado para ele, só para ele. E aquela voz tão doce ser dirigida para alguém tão sem importância como ele. De alguma maneira, ainda não percebera que efeito ela estava causando em seu coração de criança... Ainda muito novo para entender as conseqüências do amor.
E como sempre, já que a sorte não estava nunca do seu lado, no dia seguinte Eliza voltou, e junto com ela todos os seus amigos, e com a presença de todos eles, ele havia sido afastado de Agatha novamente.
Depois daquele dia, até os pequenos diálogos se tornaram difíceis de acontecer, criando um afastamento entre eles que Remus não sabia mais como quebrar. Se tivesse sido corajoso o bastante para se aproximar logo quando se conheceram, não teria passado por nada daquilo... E o pior de tudo: foi exatamente esse afastamento que fez com que ele percebesse que estava começando a se apaixonar por ela...
Em cada um dos anos ele tentava inventar algum plano de aproximação, mas nenhum deles parecia funcionar. E para a sua grande sorte, sempre que chegava o natal, Justine ocupava todo o tempo de Agatha e as duas sumiam nos lugares mais inimagináveis possíveis. Nunca havia acreditado quando elas resolveram ir junto com a professora de "trato com as criaturas mágicas" para cuidar de animais que cuspiam fogo. E quando elas resolveram cuidar de plantas carnívoras na estufa de herbologia... Em suma, cada ano era um fracasso...
Somente no 4º ano conseguiu uma oportunidade perfeita novamente. No natal, como sempre a época que tinha mais chances de conseguir algum tipo de aproximação, ele a viu dormindo em um sofá, abraçada a um coelhinho cor-de-rosa com uma aparência um pouco velha. A idéia lhe pareceu perfeita: "Sente-se no pé do sofá e espere ela acordar!". E foi o que ele fez. Sentou-se no sofá e ficou a olhar para o rosto adormecido e pacífico dela.
Jamais em toda a sua vida havia imaginado que seria possível vê-la com uma expressão tão calma e feliz em seu rosto. Sempre que ele a via ela parecia alegre, até exaltada, mas nunca com uma calma e felicidade tão grande quanto estava enquanto dormia. Passaram-se pelo menos trinta minutos antes que ele conseguisse desviar seus olhos do rosto tão angelical que ela tinha e ver um pergaminho caído no chão onde estava escrito:
"Agatha,
Estou lhe mandando esse coelho porque acreditei que seria algo que... Talvez a deixasse feliz. Pelo menos talvez fosse algo que você gostasse. Espero que eu esteja certo quanto a isso...
E como sempre, peço perdão por não ter podido comprar algo realmente novo para você... Como sabe, papai não tem dinheiro para isso. Sei o quanto é compreensível, mas me sinto na obrigação de lhe dizer isso quantas vezes forem necessárias.
Feliz Natal! Espero que possamos nos ver no fim do ano letivo e que essas férias não sejam tão insuportáveis quanto as passadas.
Com amor,
Seu pai.".
Remus olhou para o bilhete por algum tempo e chegou a rápida conclusão de que o pai de Agatha era bem pobre. Então provavelmente a mãe dela também deveria ser...! Ele não fazia ideia alguma que na verdade ela era órfã de mãe.
Mais alguns minutos se passaram e Agatha se movimentou, levantando os braços bem esticados, soltando o coelhinho, e depois o abraçando de novo e se virando de lado, dando um sorriso. Remus deu um salto para trás e ficou branco, com medo que ela estivesse acordando, mas ela continuou imóvel após atingir uma posição confortável de lado e ele percebeu que ela ainda dormia profundamente. Mas a mínima idéia de que ela estaria acordando e veria que ele estivera lhe observando, fez com que ele entrasse em um enorme estado de pânico. Seus músculos se contraíam com uma força que ele não sabia de onde vinha e o seu rosto estava pálido, assim como o resto do seu corpo, que experimentava uma enorme sensação de frio. Ele tinha que correr rápido e fugir antes que ela acordasse!
Não esperou nem mais um minuto, se levantou e fugiu para o dormitório, se escondendo embaixo de seu cobertor e pondo-se a pensar no grande covarde que estava sendo, mas de alguma maneira, não lhe era possível agir de outra forma. Tinha medo, uma vergonha tão grande que se tornava medo. Estava esquecendo novamente qual era o seu lugar... O seu lugar era sozinho, sem alguém que brilhasse tanto quanto ela parecia brilhar. Seu lugar era sozinho, onde ninguém se feriria com a presença de uma criatura como ele... Quando pensava nela, acaba tendo sempre esta grande queda de auto-estima...
Mas mal sabia ele que Agatha estava mais próxima a ele do que ele jamais imaginaria ser possível... Mais próxima de entender todo o seu sofrimento do que qualquer um jamais poderia entender. Tão próxima e ao mesmo tempo tão distante. Tão distante que o medo poderia a impedir de lhe mostrar a verdade...
Fim do capítulo 20
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