Castle não se moveu, evitava respirar, evitava até mesmo pensar. Fechou os olhos e, se sentindo sem ar, inspirou fortemente, fazendo seu peito subir e, com ele, Beckett. Foi um movimento lento, mas suficiente para despertá-la. Enquanto ele começava a se lembrar de tudo o que havia acontecido, como tinha ido parar ali, ela permanecia imóvel, torcendo para que ele não acordasse. Ambos fingiam estar dormindo. O estranhamento inicial se tornou confortável e nenhum dos dois queria estar em qualquer outro lugar no mundo. Logo, se perderam em pensamentos. Castle, revivendo aquela noite esquisita, em que fora acordado quando já passava da meia-noite por uma Beckett bêbada e chorosa que afirmava estar sendo vigiada. Temendo que algo a acontecesse, chamou Esposito, que fez uma ronda por todo o bairro. Se alguém estivesse observando, certamente não tentaria mais nada naquela noite. Castle ainda havia tentado ir embora, mas Beckett pediu que ficasse:
"Por favor, Rick. Fica aqui comigo só mais um pouco."
Um pedido daqueles não precisava ser feito duas vezes. Ouvir o seu nome dito assim, de forma tão doce e, ao mesmo tempo, tão amedrontada o comoveu. Embora ele soubesse que nada aconteceria além de cuidar dela a noite toda, estar em sua presença, oferecer atenção e cuidados já eram o suficiente. Ainda mais depois daquele disparo, depois de vê-la morta e pensar que era tudo sua culpa. Beckett adormeceu instantes após beber um pouco do café que Castle preparou enquanto ela tomava banho e providenciava roupas limpas e confortáveis. Ele ficou ali, olhando pra ela, se aproximando pouco a pouco imperceptivelmente. Com as pontas dos dedos, removeu uma mecha de cabelo que cobria aquele rosto pálido, cuja angústia ia, vagarosamente, desaparecendo. Sentiu a textura macia dos fios ainda molhados e inclinou-se para sorver aquele doce aroma de cerejas. Eles estavam tão próximos. Sem perceber, Castle repetia o seu nome, ao mesmo tempo em que acariciava seus cabelos.
"Kate, Kate."
Ela soltou um suspiro e sorriu instintivamente fazendo com que Castle sentisse que estava fazendo algo bom e deitasse ao seu lado, mantendo o carinho suave até perder-se em pensamentos. Logo, o sono venceu seus devaneios e adormeceu profundamente.
Com a mão esquerda sobre o peito de Castle, Beckett tentava raciocinar. Eles estavam vestidos, logo, não fizeram nada além de dormir. O gosto amargo na boca indicava que ela havia bebido novamente e a caneca de café na mesa de cabeceira a levava a crer que ele havia cuidado dela. Sentiu-se envergonhada. Tentou pensar no que havia dito ou feito, mas desistiu ao notar que não havia lembrança alguma. Além disso, Castle estava ali, corpo esticado no lado direito da cama, pernas entrelaçadas com as dela e a mão direita levemente repousada sobre sua barriga sob o tecido que cobria graciosamente o seu corpo quente. Aquilo foi estranho, mas o que não era? Beckett esqueceu esse detalhe, pois sentir a mão dele em seu ventre não era tão perturbador quanto sentir o seu perfume. Abriu os olhos e desejou que a fragrância ficasse impregnada na fronha do travesseiro. Quando tomou consciência desse pensamento, brigou mentalmente consigo mesma:
"Você tem quantos anos, mesmo, Kate? 13?". Imediatamente, uma resposta mental a tomou em forma de outro pensamento: "Deitada na mesma cama com o homem que declarou que me ama e fingindo estar dormindo? Só posso ser uma adolescente, mesmo. Vai ver, Castle encontrou a tal máquina do tempo."
Beckett não notou, mas aquela discussão interna a deixou impaciente a fazendo apertar com força sua mão contra o peito de Castle, o raptando de seus próprios pensamentos. Ele imaginou que ela estava tendo algum pesadelo, então, passou a mão em seu rosto soltando um "Shhhhhhhh, está tudo bem."
Beckett sentiu um choque. Ele estava acordado. Que homem era aquele? A tendo ali totalmente vulnerável e a protegendo, cuidando, praticamente a ninando. Ela não podia se manter imóvel. Primeiro porque não era certo e, depois, porque sua perna estava dormente. Mas ela ainda não estava preparada para fazer o que era certo, para levantar, olhá-lo nos olhos, dizer que lembrava de tudo e que precisava de ajuda para tentar fazer aquilo dar certo. Então, resolveu prolongar um pouco aquele momento virando-se de costas pra ele e puxando sua mão para perto de seu rosto, usando o braço dele como se fosse um cobertor. Lá estavam eles, corpos colados, as costas de Beckett sentindo a temperatura do peito de Castle, que aumentava consideravelmente. Ela segurou seu sorriso quando ele deu um suspiro, mas tremeu levemente ao sentir um calafrio provocado pela respiração dele em sua nuca. Castle viu um pedaço de pele descoberta por entre a gola do pijama e ficou desconfiado ao ver que a área estava arrepiada. Sorriu ao notar a reação que ele provocava e pensou em mil outras formas para deixar Beckett totalmente entregue, mas logo mandou seus pensamentos pra longe, pois sabia que suas imagens mentais poderiam deixá-lo realmente embaraçado se ela acordasse naquele momento.
Ele não ia suportar ficar tão perto, sentindo seu corpo, seu perfume e seu calor, então, decidiu que já era hora de ir embora, mas não sem antes aproveitar um pouco mais aquele abraço. Segurou-a forte e beijou seus cabelos; inclinou-se com um leve impulso e achou que não seria nada demais de depositasse um beijo em seu rosto.
A mente de Beckett disparou em um milhão de pensamentos. O que ele estava fazendo? Se perguntava se tinha sido boa ideia provocá-lo daquele jeito. O que faria se ele a beijasse? Pensava no quanto aquele primeiro beijo havia sido bom, mas sentiu o ar frio preenchendo o espaço antes ocupado por aquele corpo quente unido ao dela. Abriu os olhos ainda em tempo de vê-lo observando e acariciando sua barriga.
"Oi." Disse ele um pouco sem graça. Ficou imaginando se ela despertou com o beijo ou com o carinho. "Está melhor?" – perguntou realmente interessado na resposta.
"Não sei como eu estava antes, mas sim, estou bem. Além do mais, se algum homem tinha que vir parar na minha cama enquanto eu estivesse inconsciente, que fosse você." Ela disse isso e depois sorriu esticando as pernas e virando o corpo de volta na direção dele, que ainda estava meio deitado, meio sentado, cotovelo apoiando o corpo no travesseiro.
"Você não lembra de nada do que aconteceu entre nós?" Falou ele com uma falsa cara de ofendido. Beckett o encarou por um segundo, mas reconheceu o sorriso em seu olhar e percebeu que, obviamente, ele estava brincando.
"Ah, claro, como você resistiria a esse pijama listrado tão sexy." – Brincou ela por sua vez.
"Você seria absolutamente provocante mesmo se estivesse embrulhada em folhas de jornal." – rebateu Castle. E o que, em outros tempos, seria uma cantada barata seguida de um sorriso convencido, soou mais como um suspiro melancólico. "Mas, como eu sei que há uma pistola ali naquela gaveta, me comportei como um anjo." Emendou logo em seguida colocando de volta o sorriso em seus lábios, num movimento quase infantil em que suas bochechas se salientavam tornando seus olhos pequenos cristais azuis apertados em uma linda moldura.
"Eu sei." Foi tudo o que ela disse e num tom tão sério que tornou o clima um pouco pesado.
Mentalmente ela se sentia numa espécie de limbo, sem ter certeza se queria que ele fosse aquele anjo ou se desejava que ele perdesse a cabeça e a forçasse a tomar alguma decisão.
Se encararam por breves segundos em silêncio. Os olhos de Beckett se alternavam entre aquele olhar profundamente azul e sua boca. Castle sentiu o descompasso de sua respiração e tentou pensar em algo, mas a proximidade era muito grande e o conflito entre o desejo de beijá-la e o medo de perdê-la também. Afastou-se milimetricamente de Beckett e torceu para ver da parte dela qualquer movimento que tentasse diminuir a distância novamente. "Se ela chegar mais perto, não vou me segurar" - pensou ele.
