Sentaram-se à mesa que parecia pronta para alimentar a toda equipe da delegacia e Beckett rapidamente foi se servindo com um pouco de tudo. Castle a contemplava com um sorriso bobo, que ela percebeu e retribuiu passando geleia em um cookie e levando à boca do escritor: "Experimente. Eu adoro esse sabor."
"Hmmm." Condordou ele de boca cheia.
"Quero agradecer por tudo. Eu vi os copos e a garrafa vazia. Espero não ter feito nada do qual deva me envergonhar ontem à noite. Desculpe por dar tanto trabalho e obrigada por cuidar de mim."
"Você sabe que não precisa agradecer. Pelo contrário, eu me sinto grato por você confiar em mim dessa forma. Quem a conhece sabe que essa cabeça é tão dura que seria capaz de passar a noite toda doente e não pedir ajuda a ninguém." Castle sorriu docemente.
"É. Eu não sou a pessoa mais fácil do mundo, eu sei. Mas tem quem goste."
Ele não respondeu, apenas apreciou o momento para admirar cada parte de seu sorriso, a curva delicada de suas sobrancelhas que tornavam aquele olhar tão especial. Reparou na marca que ficava em sua bochecha logo após cada sorriso e que desaparecia tão rapidamente quando ficava séria outra vez. Estava perdido em cada milímetro de seu rosto que nem percebeu que ela o olhava cada vez que mordia um cookie ou tomava um gole de suco.
"Que tal o café da manhã que lhe fiz dessa vez? Fale a verdade, estou me superando."
"Está ótimo, mas aquelas panquecas não estavam nada mal."
"Posso fazer outra vez. Quantas vezes você quiser."
Ela inspirou profundamente, despreparada para a situação e quase se engasgou com a comida. Parece que o oxigênio ajudou-a a articular as palavras e disse, deixando Castle surpreso e sem saber se a entendia muito bem:
"É uma oferta tentadora, senhor. Não se surpreenda se eu resolver aceitá-la."
Projetando o queixo para frente, Castle vestiu sua pose mais convencida, enquanto retirava os pratos da mesa, levando-os em direção ao balcão da pia:
"Jamais soube de alguém que tenha se arrependido por aceitar meus convites."
"Uau! De onde vem tanta confiança?" Ela exclamou rindo ao levar o restante dos itens para a pia também, onde acabaram se trombando no espaço diminuto e iniciaram uma conversa que transbordava significados.
"Sinceramente, não sei. Já tive mais sorte com as mulheres. Hoje em dia, nem minha filha é presença constante nos meus cafés da manhã." Reclamou ele em tom de brincadeira, mas com um fundo de verdade.
"Sorte? É isso que você acha que precisa?"
"Não é? Então me diga você."
"Não sei, talvez precise chegar o momento certo."
"Ok. Mas como saber qual é o momento certo? Pode ser agora, mas nem eu nem você temos certeza."
"Então, quero ter a sorte de saber quando é o momento certo para as coisas acontecerem."
"Não, não. Sorte quem precisa sou eu. Pra você, acho que só saber o que quer está de bom tamanho."
Beckett arregalou os olhos e abriu a boca fingindo espanto pelo atrevimento dele:
"Você acha que não sei o que quero? Eu sei exatamente, apenas tenho dúvidas se o que eu quero está correto. Se não é melhor ficar com o que já tenho, do que arriscar ter mais e perder tudo."
"Minha cara detetive, sabe como eu faço para descobrir se o que eu quero é o certo pra mim?" – ela olhava atentamente esperando uma resposta, enquanto ele arrumava as últimas peças sobre o balcão, roçando o braço em sua cintura para alcançar o local correto de cada xícara ou prato.
Ele completou a frase, segurando um pano de prato nas mãos, passando-o por trás de Kate e agarrando a outra ponta, prendendo a detetive de forma irreversível:
"Se eu quero por um dia, pode estar certo para aquele dia; se eu quero por uma semana, pode ser o certo para aquela semana, mas se eu quero cada vez mais, desejo com toda a minha alma, a ponto de não saber onde termina a minha vontade e começa o meu eu verdadeiro; e se as semanas viram meses, os meses se transformam em anos e meu desejo é cada vez mais intenso... Então, detetive, deduzo que isso seja a coisa certa."
Beckett estava desestruturada, derretendo entre os braços de Castle totalmente sem fôlego. Suas mãos estavam fixas no balcão contra o qual seu corpo se escorava com força, e seu tronco inclinava-se levemente para trás, pois Castle fazia exatamente o movimento contrário impulsionando seu corpo para frente, diminuindo a nada o vão que existia entre ambos. Corpos unidos, suas respirações já audíveis aumentaram de intensidade quando o escritor abriu suas mãos deixando o pano que segurava cair e explorou a curva da cintura de Beckett. Ela mordia o lábio, já sentindo o calor do peito de Castle pressionando o seu, quando moveu os braços do balcão em direção à nuca do escritor. Nesse gesto, seu cotovelo bateu na pilha de pratos que estava ao seu lado sobre o móvel jogando-a ao chão.
Quase todos se quebraram, exceto a peça que bateu no pé de Castle e o fez dar um salto para trás, deixando Beckett boquiaberta exclamando:
"Ah, meus Deus! Castle, você está bem? Venha cá, deixe-me ver seu pé."
O escritor gemia e mancava pelo apartamento, até que chegou próximo ao sofá e mergulhou nas almofadas, segurando o próprio tornozelo para fingir uma dor muito maior do que realmente sentia.
Beckett foi ao encontro dele, ajoelhando-se na beirada do sofá perguntando como se sentia. Castle fez sua melhor cara de cachorrinho pidão e, ao invés do beijo que queria, ganhou uma almofadada no peito.
"Vamos lá, garoto escritor, me ajude com essa bagunça!" Prontamente ele a atendeu e, juntos, recolheram os cacos espalhados pelo piso da cozinha. O clima havia ficado um tanto estranho entre os dois e Beckett sabia o porquê. Castle já tinha dado um passo em frente e, como bom jogador, estava esperando um movimento dela. Mas não era algo assim tão simples – pensava a detetive. Ela resolveu que o que eles precisavam era de novos ares e convidou seu parceiro para um passeio.
Prontamente ele aceitou, mas pediu para passarem em seu loft, no caminho, para um banho rápido. Lá, enquanto ela o esperava, caminhou pelo apartamento, percorreu os olhos pela estante de livros, pegou alguns exemplares, leu algumas dedicatórias, observou as fotos sobre a escrivaninha e apanhou algumas folhas presas sob um peso de papel. Sentiu suas mãos gelarem ao ler as palavras escritas. Eram declarações de amor, juras de fidelidade e paixão. Sentiu a garganta seca e saiu às pressas do escritório batendo de frente com Castle, que caminhava rápido de seu quarto em direção à sala de estar.
"Ei, quanta pressa, detetive! Perseguindo algum suspeito?"
Sem conseguir erguer os olhos, falou, sem esperar resposta:
"Estou com sede, posso pegar água na sua geladeira?"
Ele ficou parado por alguns segundos, depois foi até seu escritório para pegar um relógio que estava em sua gaveta. Vendo o papel esquecido sobre sua mesa, entendeu o que havia acontecido minutos antes e sorriu ao perceber o mal entendido que havia provocado aquela reação em Kate. Imaginou, divertindo-se, que se contasse o episódio para sua agente ela certamente trataria de conseguir um contrato com alguma mega distribuidora de água mineral.
Prontos para saírem, o escritor retomou o assunto, enquanto pegavam o elevador:
"Parece que você viu um pedaço do meu novo livro, detetive. Notou como a relação entre Heat e Rook está evoluindo?"
"Heat? Rook?" – Beckett não entendia ou não queria entender o que ele estava dizendo.
"Sim. As declarações. Era para ser uma surpresa, mas... À propósito, ainda não escolhi qual vou usar. Qual delas te deixou com mais...hmm...sede?"
Kate suspirou ao entender que aquela folha solta fazia parte de um capítulo do livro que Castle estava escrevendo e respondeu de forma curta enquanto sua face imediatamente enrubescia:
"Eu não queria estragar a surpresa."
"Tudo bem. Então apenas me diga o que você achou. Se ouvisse aquelas palavras sendo ditas pra você, qual seria sua reação?"
Beckett sentia como se as paredes estivessem se movendo, diminuindo o espaço e o oxigênio do recinto, mas o barulho da porta do elevador se abrindo a salvou daquela conversa.
