Esse capítulo é novo, ou seja, não faz parte da história original que eu já tinha escrito e não publicado. Escrevi a pedido de alguns leitores muito fofos, queridos e simpáticos que gostariam de ver a história se desenvolver um pouquinho mais.
Coloquei algumas referências pessoais, como as músicas que fazem parte de duas cenas. Se vocês quiserem ouvi-las para sentir o clima da situação, a primeira é Le plus beau du quartier, da Carla Bruni. A segunda, que eu amo e acho tudo a ver com Caskett é L.O.V.E, originalmente gravada por Nat King Cole em 1965. Muitos artistas a regravaram, mas a versão da Joss Stone, pra mim, é a melhor e foi essa que eu imaginei na tal cena. Ok? Vamos lá, então!
A água já fervia na panela, os ingredientes do molho começaram a exalar um aroma delicioso e, intrigada, Beckett ouvia algumas risadas de Castle na sala de estar. Curiosa, ela foi até lá e o encontrou com um de seus álbuns de fotografias nas mãos.
"O que você está achando tão engraçado?" – perguntou ela com a mão na cintura.
"Oi. Estou vendo fotos suas. Não mudou nada!" – respondeu ele.
"Castle, eu era um bebê de colo nessas fotos. Como posso não ter mudado nada?"
"Meus olhos enxergam o mesmo rosto, veja: o mesmo olhar, o nariz igual, os cabelos arrumados de forma encantadora. Veja essa, a mesma expressão irritada. E essa outra aqui, um sorriso lindo e você nem tinha todos os dentes ainda."
Kate observava Castle por inteiro tentando imaginá-lo fazendo parte de sua vida. Decidiu naquele momento que teriam uma conversa séria após o jantar. Ela não tinha nenhuma dúvida do quanto ele a amava e desejava que todo aquele sentimento que ela vinha represando durante tanto tempo fosse o suficiente para ele. Começou a pensar em como se sentia quando ele estava por perto e imaginar que nome poderia dar para aquilo. Mesmo tendo passado por tantas coisas em sua vida, ela não sabia afirmar com certeza se já havia amado verdadeiramente. Como poderia saber o que sentia por Castle? Ela só estava certa de que gostava de estar perto dele, que sentia falta de seus comentários impertinentes quando alguma reunião ou sessão de autógrafos o afastava das investigações e que muitas vezes, sozinha em casa, desligava o rádio correndo quando cada música que tocava remetia a ele de alguma forma.
Com essa lembrança, imaginou que música seria uma boa forma de ocupar sua mente e evitar aquela enxurrada de pensamentos sobre o passado e o futuro.
"Castle! Sabe do que estamos esquecendo?" – perguntou gritando desde a cozinha.
"Claro que sei. Está aqui sua taça!" – rapidamente ele serviu o vinho e ofereceu a ela com uma reverência pomposa.
Beckett retribuiu a mesura agradecendo a ele em francês e acrescentou:
"Agora, só falta mais uma coisa: música."
Concordando que aquilo era uma boa ideia, Castle ligou o aparelho de som que estava sobre um móvel e deixou tocar a primeira lista programada.
Ao ouvir aquela música, Beckett bebeu um gole de seu vinho e deu uma risada alta imaginando que o tal Universo ao qual Castle tantas vezes se referia estava fazendo alguma piada com o escritor. Era uma música francesa bastante atual que contava a história de um homem com um ego enorme, que se achava extremamente bonito e charmoso e se vangloriava de que todas as mulheres da vizinhança o amavam. Olhando para o teto, ela deixou escapar sua surpresa em voz alta:
"Sério? Essa música?"
Achando que a pergunta era para ele, Castle respondeu:
"É a primeira da lista que apareceu. Quer que eu troque?"
"Não, é que ela me lembra de um escritor que domina a arte de se meter onde não é chamado." Argumentou sorrindo.
Intrigado ao perceber que ela se recordava dele através de uma música, sacou seu celular e, após alguns cliques num aplicativo, invadiu a cozinha mostrando à Kate o aparelho como se fosse um distintivo.
" 'Eu sou o rei do desejável, sou o despível, olhe-me da cabeça aos pés!' É assim que você lembra de mim, detetive?" Ele declarou aqueles versos como se estivesse sem microfone perante uma plateia de milhares de pessoas.
Kate pulou em direção a ele agarrando seu telefone e olhando para a tela como se os seus olhos pudessem alterar o que estava escrito ali.
"Não é essa parte que me lembra de você. Eu...eu..."
"Ah, não? Então é essa: 'É o meu sorriso ou a elegância que se distingue de meu perfume. Seja como for, eu sou o mais bonito do bairro'." – Castle a interrompeu declamando outro verso da canção.
"Também não é essa parte... Talvez eu esteja confundindo a música... Castle? Ei, volte aqui!"
"Tudo bem, eu não a culpo." Disse ele, rindo, caminhando de volta ao outro ambiente com a intenção de deixá-la falando sozinha.
"Irritante! Insolente! Convencido!" Beckett pensou alto, talvez alto demais.
"Ei!" – Rick apareceu. "Eu ouvi isso!" – Ele fez um beicinho,já pensando em protestar, mas teve uma ideia melhor e saiu em silêncio, indo se sentar no sofá. Ficou parado, cara amarrada e ombros caídos, olhando para o nada e assim permaneceu até que Beckett fosse procurá-lo.
"Castle, está tudo bem?"
"Estou apenas tentando não te irritar. Não se preocupe comigo." Respondeu ele de modo sério.
"Eu não quis dizer aquilo." As palavras de Beckett foram recebidas pelo olhar cético de Castle, o que a fez se corrigir: "Ok, eu quis dizer aquilo. Fiquei irritada, mas isso não é, necessariamente, algo ruim." O olhar passou de cético para confuso. "Me acostumei com você sempre me deixando em situações desconfortáveis. Você me provoca, me distrai, me tira de minha zona de conforto e isso é bom."
"Prove." Provocou Castle.
"O que? Como?" Kate não acreditava que aquela criança de dez anos havia invadido o corpo de Castle outra vez.
"Você diz que eu te deixo desconfortável, mas que, de alguma forma, isso acaba sendo bom."
"Sim e me custou muito dizer isso. Não foi o suficiente?" a detetive perguntou com medo da resposta.
"Não. Prove." Castle levantou entregando um controle remoto à Kate. "Vamos fazer algo que eu acho que você vai gostar, mas que possivelmente te deixe fora de sua zona de conforto."
Kate observava cada movimento tentando prever o que ele tentaria agora. Castle se movia lentamente em sua direção, parou em sua frente, inclinou-se e, levemente, beijou sua mão quase sem tocar os lábios, encarou-a de forma séria e a puxou pela cintura com o outro braço a envolvendo. Mergulhou profundamente no olhar assustado de Kate e disse:
"Dance comigo."
Beckett se desvencilhou rapidamente e pediu explicações sobre aquilo.
"Só quero te dar a chance de provar que aquilo não foi uma ofensa. Sei que você não quer dançar comigo. Estou lhe pedindo que o faça porque acho que você pode relaxar, aproveitar e se divertir. Ou, pode lançar mão de sua liberdade de escolha para me negar essa dança e deixar claro que você me acha irritante, impertinente e que só está me oferecendo esse jantar por gratidão a eu ter cuidado de você a noite toda."
"Isso não faz o menor sentido." Beckett balançava a cabeça negativamente de um lado para o outro, mas se aproximou do escritor, ergueu o braço com o qual segurava o controle remoto e perguntou:
"Quer escolher a música?"
"Qualquer uma. Deixe a sorte decidir. Você não tem um sistema randômico? Salsa, tango, rumba... qualquer música." Castle tentava disfarçar sua empolgação.
"Salsa? Tango? Você acha o quê? Que eu estou treinando pro Dançando com as Estrelas?" – Kate tentava ganhar tempo. "Sabe, Castle, você teve ótimas ideias hoje, mas essa, realmente, não foi uma delas."
"Beckett, entenda uma coisa, alguém precisa ter o caos em si mesmo para dar luz a uma estrela dançante."
"Essa frase não é sua. Nem de nenhuma caixa de cereais." Kate lançou sobre Castle um olhar de raio X, enquanto tentava lembrar quem teria dito aquilo.
"Nietzsche!" – ambos falaram ao mesmo tempo, suas mentes em plena sincronia. Sorriram um para o outro e Castle retomou o assunto:
"Kate?"
"Sim."
"A música, por favor."
Ela revirou os olhos e deu um suspiro curto e impaciente. Depois, sabendo que aquilo seria inevitável, apertou um botão de olhos fechados, lembrando quais músicas eram mais agitadas e, consequentemente, menos constrangedoras. Mas, quando reconheceu os primeiros acordes, deixou escapar um 'Não acredito' entre os dentes. Castle, reconhecendo a canção, abriu um sorriso e tomou-a nos braços, mantendo uma certa distância e começou a conduzi-la.
"Boa escolha, detetive."
"Como se eu tivesse escolhido." Devolveu ela, já o encarando.
"Você escolheu colocar essa música em sua lista de reprodução. Ela deve lhe dizer algo."
"Cale a boca, Castle." Beckett encerrou o assunto.
L is for the way you look at me – ao ouvir a letra da canção, Kate sentiu uma revoada de borboletas no estômago.
O is for the only one i see – a situação dela não estava melhorando, mas pelo menos, Castle estava bem comportado.
V is very very extraordinary – Castle não segurou o sorriso largo que tentava escapar enquanto ouvia cada palavra do que a música dizia.
E is even more than anyone that you adore can – Beckett precisava quebrar aquele clima, mas não sabia como. Perguntou o que ele achava daquela versão, afinal, era um clássico regravado por grandes nomes da música. Ele respondeu que gostava mais do original, mas que a voz daquela cantora era muito bonita. Kate falou que não escolheria aquela canção, pois haviam outras mais apropriadas, mas foi interrompida por Castle dizendo que não poderia imaginar outra que fosse mais adequada. Castle tomava cuidado para não fazer nada errado, não tocá-la de forma provocante, nem chegar muito perto. Sua estratégia pareceu dar certo, pois Beckett dava sinais de estar ficando mais à vontade.
"Estamos dançando." Castle afirmou o óbvio. "Viu como não era nada demais?"
"É estamos. Até que você está se saindo bem...não pisou no meu pé nenhuma vez." Kate provocou Rick e deu um sorriso.
"Pisar no seu pé? Quem está correndo esse risco aqui sou eu."
Castle quis aproveitar o refrão para mostrar um pouco mais suas habilidades e fez Beckett dar um rodopio lento em torno de si mesma. Ela tentou disfarçar sorrindo, mas estava ficando um tanto constrangida devido à mensagem extremamente romântica daquela canção. Numa fração de segundo, compreendeu que o problema não era o que a música dizia e sim o fato de ela estar querendo dizer exatamente aquelas palavras:
'Love is all that i can give to you' – Kate olhou para baixo, evitando os olhos de Rick.
'Love is more than just a game for two' – Castle sentiu a tensão tomar conta dos músculos de Beckett-
'Two in Love can make it' – então, se aproximou um pouco mais, apoiando a mão de Kate em seu peito -
'Take my heart, but please, don't break it' – faltavam alguns centímetros para que seus rostos se tocassem -
'Love was made for me and you' – mas Kate se afastou minimamente, apenas o suficiente para encarar Castle, que jamais soube o que ela iria fazer, pois o barulho estridente da tampa da panela caindo no chão a fez correr para a cozinha.
As borbulhas de água fervente transbordaram sobre o fogão e indicavam que o jantar estava mais do que pronto. A detetive se lembrou do homem na loja de conveniência e sobre suas palavras: 'Deixe passar o tempo e será tarde demais para consertar.'
"Castle, qual é o contrário de 'al dente'?"
