"Kate, deixe isso aí, eu preciso falar com você." Castle foi gentil, mas bastante firme quando segurou a mão de Beckett e a conduziu de volta para ele.
"Ei, você chamou meu prato de 'isso aí'? Vamos apenas jantar, ok? Também quero conversar com você depois." – Kate tentou dar meia volta, mas foi impedida por Castle.
"Não. Me desculpe, mas não posso esperar. Cada minuto que passa pra mim é um minuto perdido. Cada segundo da minha vida sem você..." A mudança repentina na expressão de Beckett e a seriedade estampada em sua face calou Castle.
Ficaram instantes intermináveis se encarando e imaginando o que o outro estava pensando. Castle sentiu sua coragem sendo tragada pelo medo. Um medo infantil que o estava afastando da própria felicidade. Teve raiva de si mesmo por sentir-se assim. Pensou que era aquele medo que o impedia de lutar pelo que mais desejava e decidiu que não aceitaria mais ser dominado por aquele sentimento.
"Olhe..." – Castle tentou recomeçar. "Estou assustado, mas estamos aqui e quero ir em frente." Ele fez uma pausa, puxou o ar profundamente, abriu a boca, mas não disse sequer uma palavra. Ele não podia adivinhar, mas, em frente a ele, Beckett sustentava uma expressão indecifrável camuflando um coração que batia desesperadamente e uma garganta apertada por um nó formado por culpa, dúvida e desejo.
Ele riu um riso nervoso olhando para o chão e segurou bem de leve as pontas dos dedos de Kate. "Você é a única pessoa no mundo que me deixa sem palavras. Eu sou um escritor, meu trabalho é justamente juntar palavras. E você não tem ideia de quantas vezes eu imaginei esse momento. Mas, mesmo assim, não sei o que dizer."
"Castle, talvez não seja a melhor hora..."
"O momento certo, não é? Sim, falamos sobre isso mais cedo. Foi mais ou menos naquela hora em que eu cheguei perto de você e o planeta parou de girar, lembra? Um pouco depois de acordarmos abraçados na sua cama e bem antes de passarmos uma tarde incrível juntos." Castle queria ser irônico, mas acabou dizendo aquilo de forma doce com as lembranças daquele dia iluminando sua memória.
Beckett permanecia parada em frente a ele e cada vez que o silêncio tomava conta do ambiente, torcia para que Castle falasse algo, para que ela mesma não tivesse que dizer nada.
"O que nós estamos fazendo, Kate? Eu não estou vendo coisas! Quantos casais passaram por nós hoje? E nenhum deles parecia tão ligado um ao outro quanto nós dois."
"Castle, nós somos parceiros. É claro que temos sintonia, trabalhamos juntos há anos..." Beckett respondeu num tom de voz baixo, quase pedindo a si mesma para acreditar naquilo.
Castle apenas acenou positivamente com a cabeça. Pensou consigo mesmo que Kate poderia mentir melhor do que aquilo se quisesse. Ora, parceiros! Então, onde andariam Ryan e Esposito? Aquele pensamento somado a atitude receosa de Beckett o lembrou de que não levaria seu medo pra casa novamente. Ele estava decidido a ser o homem mais feliz ou mais triste do mundo, mas nunca mais teria que conviver com a dúvida.
Kate notou a expressão de Castle ficar cada vez mais branda depois do que ela falou. Notou os cantos de sua boca se moverem levemente para cima esboçando um sorriso. E ela adorava esse sorriso!
Eles estavam tão próximos que não foi necessário nenhum passo para que Castle abraçasse Kate. Ela ia protestar, mas Rick a acalmou:
"Está tudo bem, parceira. Apenas me dê um abraço."
Beckett não estava entendendo aquela atitude, mas sentia como se tivesse feito uma longa viagem e estivesse, finalmente, voltando pra casa. E, apesar de ser a melhor sensação do mundo, aquilo era também assustador. Os braços de Castle a envolvendo, nem forte, nem fraco, na medida certa, no lugar certo, com o perfume certo e o calor certo. Ela o abraçou de volta e seus rostos colaram um no outro.
"Kate..." – Castle susurrou em seu ouvido e, quando ela foi se afastar, ele a impediu. "Não, espere." Ele ainda falava baixinho, fazendo um arrepio correr a espinha de Beckett. "Eu tenho nos meus braços a mulher mais incrível que conheci. A mulher que anulou a existência de todas as outras, que era a musa dos meus livros até se tornar a inspiração da minha vida. A mulher por quem, há anos, eu sou apaixonado e com quero escrever todo o resto da minha história." Ele a soltou lentamente e olhando-a nos olhos, completou: "Mas, se essa mulher não sentir por mim nada parecido com o que eu sinto por ela, eu vou sofrer por um tempo e depois vou me curar, mas vou continuar desejando que ela seja feliz com o caminho que escolher. Eu só não posso mais seguir fingindo que não a amo, Kate, porque é isso o que eu realmente sinto." Castle respirou fundo e sentiu o ar correr livre pelos seus pulmões como há muito tempo não fazia. Beckett permaneceu imóvel e de olhos fechados, apoiando as mãos no peito de Rick e encostou sua testa na dele. Abriu e fechou a boca mais de uma vez tentando falar alguma coisa, mas não conseguia. Apenas abriu os olhos e se afastou alguns centímetros. Encontrou um rosto sério. Castle não parecia assustado, mas também não parecia feliz. Estava apenas tranquilo. Sem conseguir segurar, ela abriu aquele sorriso. Aquele que deixava Castle sem palavras.
"Você ainda está aqui." Ele conseguiu dizer num tom muito baixo.
"Estou." Ela respondeu baixando o olhar.
'Eu seria um louco se não a beijasse agora.' Castle pensou, mas não disse nada, apenas se aproximou lentamente, olhos bem abertos como se quisesse gravar aquele momento. Tinha medo de fechar os olhos e não encontrá-la mais ali. Tocaram seus lábios quase em febre e nem sabiam se seus movimentos eram rápidos demais ou lentos demais. Não existia tempo. Não existia velocidade. Nem medo, nem arrependimentos. Existia um sentimento percorrendo dois corpos como se fosse uma onda de eletricidade. Kate percorreu com as pontas dos dedos os braços de Castle, desde os ombros até tocar suas mãos e uma espécie de choque os afastou.
"Você também sentiu isso?" Ele perguntou.
Beckett disse que sim com a cabeça e, segurando firme a mão de Rick, se permitiu ser frágil demonstrando o seu medo.
"E se não der certo?" Ela perguntou, testa franzida, lábios entre os dentes.
"Vai dar certo, eu prometo." Respondeu Castle com uma certeza que poucas vezes havia sentido.
"Você me ajuda?" Beckett já sabia a resposta, mas queria ouvir mesmo assim.
"Sempre." Os olhos de Castle reluziam, suas mãos percorriam o rosto de Kate experimentando a textura de sua pele como tantas vezes desejou fazer.
"Sabe, Kate, perdi as contas de quantas vezes imaginei esse dia, mas nada se compara com a realidade."
Passando a ponta do dedo indicador na pele escondida sob a gola da camisa de Castle, ela perguntou de uma forma que misturava uma falsa inocência com um ar absolutamente sensual:
"E o que mais você imaginou?"
Castle até respondeu mentalmente, mas não teve tempo de verbalizar as cenas que vieram a sua cabeça. Sua boca já havia mergulhado nos lábios de Kate materializando uma paixão cultivada por anos de provocação mútua. Todo aquele desejo represado se manifestava numa dança que envolvia dois corpos se revelando, se descobrindo como se cada centímetro de pele fosse uma caixa de Pandora, que uma vez aberta, não poderia mais ser controlada. Quando a busca pelo corpo um do outro os desequilibrou, procuraram refúgio no sofá e quando foi o sofá que ficou pequeno para os dois, espalharam-se pelo tapete. Nenhum lugar era suficiente para eles, que sentiam como se estivessem se tornando gigantes num local tão reduzido. Não cabiam mais em si, não cabiam mais em suas roupas. Se livraram de tudo o que pudesse atrapalhar aquela perseguição desenfreada pelo caminho quente, sinuoso e tentador que os levaria a sentirem-se plenos finalmente.
Eram dois guerreiros num campo de batalha lutando pelo mesmo objetivo. Cada ponto fraco descoberto era uma vitória. Cada suspiro arrancado do outro era um troféu. Kate tentava contra-atacar com suas unhas e dentes, mas se rendia entre gemidos provocados pelos dedos ágeis de Rick e pela onipresença de suas mãos e boca percorrendo a maior extensão de pele possível. Castle a torturava da forma mais deliciosa que podia e entre suspiros e sussurros atendeu às suas ordens insistentes e tomou seu corpo plenamente aprofundando-se em sua carne rígida e estreita.
Kate não pode, nem quis, abafar o gemido que escapava por entre seus lábios. A última barreira havia sido ultrapassada e suas matérias estavam atreladas uma a outra misturando seus aromas e fluídos. Se Beckett tinha uma pequena marca de mordida em um dos ombros, Castle ostentava finos arranhões em suas costas. Se ela sentia os músculos doerem brevemente pela pressão daquelas mãos grandes e rápidas, logo um carinho a derretia novamente lhe provocando arrepios.
Seus movimentos ritmados inventavam um ballet erótico e apaixonante que desafiava a gravidade, a elasticidade e, certamente, meia dúzia de outras leis da física. E quando tudo o que existia deixou de fazer sentido, Kate se deixou convulsionar ao redor de Castle, arqueando a espinha e sentindo um raio de prazer lhe atravessar das pontas dos pés até o estômago. Quanto mais altos ficavam os gemidos, mais Castle se deliciava ao ouvir seu nome misturado a todo tipo de murmúrio desconexo que Beckett deixava escapar. Ele ainda conseguiu percorrer com os lábios a trilha formada por uma gota de suor que vertia das têmporas e se estendia até a perfeita junção entre o pescoço e o ombro. Nesse gesto, aspirou aquele cheiro novo que o corpo de Kate exalava, uma mistura de seus perfumes que combinou de uma forma irresistível a doçura envolvente do aroma de cerejas e a fragrância marcante de sua essência amadeirada. Aquela mulher, a mulher mais extraordinária do mundo tinha o cheiro dele, tinha as suas marcas e, agora, tinha vestígios irrefutáveis de sua presença dentro dela.
Castle ficou imóvel, ou quase, pois os espasmos em sua musculatura tornaram o seu corpo trêmulo. O silêncio e a tranquilidade contrastavam com a euforia vivida há poucos segundos por ambos. Tudo o que eles precisavam nesse momento era um pouco de ar que os ajudasse a recuperar o fôlego e devolvesse o compasso das batidas de seus corações.
Kate ainda não sentia totalmente seus pés e parecia estar flutuando, mesmo consciente de que estava sob o peso do corpo de Castle. Ele, por sua vez, fechou os olhos fugindo de uma leve tontura provocada pela falta de oxigênio, aprofundou o rosto no pescoço de Beckett e tentou articular alguma coisa para dizer:
"Isso... foi... uau!"
Ela buscou o rosto dele com as pontas dos dedos, olhou firme em seus olhos como se tivesse algo muito importante a dizer, mas tudo o que conseguiu foi lhe dar um beijo calmo e despreocupado seguido por um sorriso e uma quantidade imprecisa de carícias delicadas.
Perderam-se entre carinhos espalhando mãos, braços, coxas e lábios numa exploração divertida em seus corpos. Experimentavam em detalhes a agradável novidade de, enfim, poderem tocar, pegar, cheirar e beijar seu objeto de desejo, sem mais desculpas, sem mais medos, sem mais fingimentos. Além de amigos e parceiros, por fim, eram amantes.
"E agora?" perguntou ela, apesar da expressão entusiasmada, restava um traço de receio em sua fala.
"Agora está tudo certo." Ele respondeu enquanto percorria os dedos em seus longos cabelos. "Eu. Você. Nós."
"Nós." Ela repetiu, se acostumando àquela palavra nova na relação dos dois.
"Sim, nós. A linda donzela nos braços do herói." – disse ele estufando o peito e enrijecendo seus braços. "Esse é um final que o leitor sempre compra."
Beckett rolou sobre ele rindo e contestando de forma irônica: "Ah, então quer dizer que você é o herói e que está aqui pra me salvar? A mim, a linda donzela? É muita criatividade, mesmo!"
"Não lembro de nenhuma pequena reclamação sobre a minha criatividade até minutos atrás." Castle reagiu com uma expressão provocante e aquele sorriso convencido. Correu seus dedos sobre as costelas de Kate fazendo-a se contorcer com a sensação.
Permaneceram ali por muito tempo degustando aquele novo nível de intimidade até que a fome os fez lembrar que o jantar havia sido abandonado na cozinha. Verificaram a situação lastimável do spaghetti e fizeram a proposta um ao outro praticamente ao mesmo tempo:
"Que tal comida chinesa?"
Enquanto Beckett desligava o telefone, Castle se aproximava substituindo o tecido que cobria o seu ombro por seus lábios. "Em quanto tempo o jantar chega?"
"Uns vinte minutos." Kate respondeu com olhos de criança que estava prestes a aprontar alguma.
"Só isso? Que pena!"
"É tempo suficiente, acredite." Beckett sentia seu poder agindo sobre os poros dilatados de Rick.
"Suficiente para quê?" Castle perguntou fingindo muito mal que não entendia quais eram as intenções dela.
"Pra te contar um segredo..." Disse sussurrando no ouvido dele, que apenas fechou os olhos e se deixou levar imaginando que não haveria lugar melhor no mundo para estar que não fosse o corpo da mulher que ele amava.
