Entre algumas coisas caídas no chão e algumas batidas em algumas partes do meu corpo eu alcancei o telefone.

- Alô? – atendi ofegante por conta da corrida.

- Kiki! – ela disse.

Só tinha duas pessoas no mundo que me chamava assim. Meu pai e minha prima Ashley.

- Ash? – quase gritei por causa da surpresa.

- Eu mesma gatona! – nós rimos – Seu pai passou por Chicago e nós nos encontramos.

- Uau! Cara! Que bom falar com você. – eu disse – Meu pai tá bem? Ele está ai?

- Não, ele esteve aqui tem uns dias. – ela disse. – Conversamos muito sobre você.

- Sério? Aposto que John meteu o malho em mim. – dei uma risada.

- Que nada! Ele é todo babão por você, você sabe disso! – ela falou.

- E ai? Como está a vida? Tem uns 5 meses que a gente não se fala...eu sinto sua falta. – falei triste.

- Eu também Kiki! – sua voz morreu.

Ashley era como uma irmã que eu não tive, mas nos separamos quando ela foi morar em Chicago com o namorado depois de terminarmos a faculdade de enfermagem. Ela e meu pai eram minha única família.

- Bom...liguei porque tenho uma boa notícia. – ela disse animada.

- Diga...eu estou realmente precisando de uma boa notícia. – falei meio entediada.

- Consegui uma entrevista pra você no Mercy. – ela disse e meu queixo caiu – Er...seu pai falou que você estava sem trabalhar e abriu uma vaga na emergência onde eu e o Jack trabalhamos, ai te indiquei. Espero não ter feito besteira. – ela disse com cautela.

- Ash, isso é maravilhoso! Quando é? – quis saber.

- Segunda que vem, as 7 da manhã. Já combinei com seu pai e nós vamos pagar sua passagem de avião. – ela disse.

Que bom! Teria quase uma semana pra me programar e contar a Michael.

- Cara, sério, nem tenho como te agradecer por isso...eu to...tipo explodindo! – eu ri nervosamente.

- Calma Kristen, vamos passar pela entrevista segunda, ok? Se você passar sairemos por minha conta. – ela disse animada.

- Ok! Eu tenho que ligar pro meu pai pra agradecê-lo também. Ele é um anjo, sempre se empenhando pra me ajudar a sair desse inferno que é Round Top. - eu disse.

- Sei bem como é... – ela riu – Não desejo essa cidade pra ninguém. – nós rimos.

- Feliz é você que foi embora! – falei ainda rindo.

- Sua hora vai chegar gatona! – ela pausou – Tenho que ir Kiki, Jack ta me pertubando pra pegar no plantão mais cedo.

- Ok, nos falamos antes de segunda, certo? – perguntei.

- Claro, temos que marcar algumas coisas. Beijinho!

- Ok, tchau Ash, dê um abraço no Jack. – desliguei e tive que dar uns pulos de alegria.

Cara! Pensar que daqui a seis dias eu estaria em Chicago correndo o risco – bom – de ficar por lá definitivamente. Eu estava excitada demais. Hoje faria o jantar até com vontade.

Lembrar do jantar me fez lembra de uma coisa...contar pra Michael. Ele ia querer me matar, juro que ia, mas sinceramente? Eu não ligava!

Eu ia sair de Round Top, do Texas ser mais clara! Ia conhecer uma cidade enorme, fria e trabalhar com que eu amo, que é a medicina.

Peguei o telefone e liguei pro celular do meu pai.

- Oi Kiki! – ele atendeu.

- Oi pai...acabei de falar com a Ash e preciso te dizer...eu te amo! – falei animada.

- Oh, vejo que ela arrumou um trabalho pra você uhn? – ele disse meio sério.

- É uma entrevista pai, mas eu sei que vou passar. – disse confiante.

- Eu sei que sim filha, você sabe como fico feliz em te ajudar.

- Pai, você não vai ficar chateado se eu for pra Chicago vai? – quis saber.

- Claro que não! – ele quase gritou – Quase não fico em casa Kristen, você no Texas, em Chicago ou na Califórnia é a mesma coisa pra mim. O que importa é você ser feliz, coisa que eu sei que você não é em Round Top.

- Obrigada pai! – falei chorosa. – Tenho que desligar ou vai ficar muito cara a ligação. – mordi os lábios.

- Eu te ligaria, mas tenho que pegar a estrada. – ele pausou – Te ligo amanhã... – o cortei.

- Como todos os dias! – repeti como eu sempre fazia com ele e como minha mãe fazia quando era viva.

Nos despedimos e eu desliguei.

Fui até meu quarto e tomei um banho gelado, fazia um calor infernal no Texas.

Coloquei um short jeans de calça cortada e uma camiseta.

Olhei a hora e vi que estava quase na hora de Michael chegar, então eu tinha que fazer o jantar.

Optei por uma massa rápida, apenas com molho de tomates e queijão parmesão ralado.

Eu AMO cozinhar, mas quando isso se torna obrigação eu detesto. Gostaria de poder cozinhar quando eu quisesse, sem pressão ou um marido chato pegando no meu pé porque não está do agrado dele.

- Kristen? – Michael me chamou quando eu terminada de colocar a travessa na mesa.

- Na cozinha Mich! – respondi.

- O cheiro está bom! – ele disse quando entrou na cozinha.

- Espero que o gosto também. – brinquei.

- Vou tomar um banho! – ele se virou e saiu.

Michael não era o pior homem do mundo pra se conviver, mas também não era um poço de romantismo ou cavalheirismo, pelo contrário, nunca vi homem mais machista que ele.

Eu sentia que o nosso relacionamento estava morrendo...na verdade, já estava morto. Nem um selinho quando chegávamos ou de boa noite nos dávamos mais. Eu acreditava que vivíamos como amigos, amigos com certos benefícios, nada mais. O amor não existia mais entre a gente. Eu gostava dele, demais, mas não o amava mais. Tanto é que antigamente ele me prendia a Round Top, hoje não me prende mais.

Enquanto eu o esperava pensava numa forma de dizer a ele que iria a Chicago, se Deus quisesse seria de vez.

Ele iria pirar! Certeza!

Ia jogar um monte de coisas na minha cara, como: "Agradeça a mim por isso..." ou "Se não fosse eu..." ou "Seu pai não está nem ai pra você..." ou "Eu te ajudei quando você precisou..." e por ai vai.

Só que eu já estava acostumada com as suas grosserias, nem se ele me batesse e me amarrasse eu não ficaria aqui por causa dele.

Não mais.

Michael entrou na cozinha e se sentou.

- Eu queria conversar com você! – eu disse a ele.

- Pode ser depois? Vai dar um jogo e eu quero assistir. – ele pegou seu prato e foi pra sala.

Ele sabia que eu odiava quando ele fazia isso. Comer no sofá vendo TV e me deixar comer na mesa sozinha.

Perdi até minha fome.

Ajeitei a cozinha e depois de um tempo fui até a sala, peguei seu prato e voltei pra cozinha pra lavar.

- Podemos conversar agora? – perguntei escorada na porta da cozinha.

- Kristen , por favor, não pode esperar? – ele nem me olhou.

- Não Mich é realmente muito importante. – fui até a TV e desliguei.

- Ei! To vendo! – ele quase gritou.

- Estava. – sorri sem humor – Eu preciso falar com você e tem que ser agora. – antes que eu desista, pensei em completar, mas me contive.

- Ok, já que você desligou a TV, vá em frente. – ele fez um gesto de descaso com as mãos.

- Ash, me ligou hoje... – comecei.

- Isso não é novidade Kristen. Tudo bem que ela não te liga sempre, mas... – o cortei.

- Posso falar? Ou você quer realmente tentar adivinhar o que eu quero dizer? – fui irônica.

Ele fez novamente o gesto de descaso pra que eu continuasse.

- Como eu disse Ash ligou... – me sentei no sofá a sua frente – Ela...er..ela conseguiu um entrevista pra mim na segunda.

- Onde seria? – ele me olhou cheio de sarcasmo.

- No Mercy, em Chicago. – joguei a bomba.

Ele fechou os olhos e deu uma risada cínica.

- Sem chance! Nós não vamos. – ele ia se levantar, mas eu o impedi.

- Michael, não estou pedindo sua autorização pra ir, ou pedindo que vá comigo. Eu vou! – falei firme.

- Vai? Como? Pode me dizer? – ele disse irritado.

- Meu pai e Ash vão me ajudar e se eu conseguir o emprego vou pagar a eles. – falei.

- Seu pai? Tinha que ter o dedo dele nisso...

- Meu pai apenas me ajudou Michael, ele sabe qual é a minha vontade... – eu disse.

- Claro que sim! E sua vontade é sair de Round Top e bla, bla, bla. – ele fez um gesto com as mãos.

- Michael... – fechei os olhos. – Eu não quero brigar com você, nem me separar de você, mas eu preciso ir, entende? Eu quero trabalhar, ter minha vida e não depender mais de você pra tudo. – me levantei e sentei ao seu lado.

- Te falta alguma coisa Kristen? – ele me olhou e eu vi raiva nos seus olhos.

- Não, mas... – ele me cortou.

- Tem outra pessoa? É isso? – ele perguntou.

- Claro que não Michael! Você sabe que eu sempre fui fiel a você. – falei indignada.

- Então porque você quer ir? – ele fechou os olhos e massageou as têmporas.

- Porque eu quero viver pra mim Mich. – falei – Passei anos cuidando do meu pai, depois de você e eu? O que eu fiz por mim, pra mim? Eu quero trabalhar, sair daqui...eu não nasci pra viver aqui Michael. – pousei a mão no seu joelho, mas ele tirou.

Ele se levantou e deu alguns passos fortes pela sala.

- Você não vai, entendeu? Você é minha mulher e eu estou dizendo que você não vai! – ele gritou.

- Michael, não torne as coisas mais difíceis, por favor? – ele voltou pra perto de mim e me levantou do sofá segurando forte pelo braço. – Você está me machucando Michael!

Senti ele nos movendo e ele me jogou em cima da cama.

- Você. Não. Vai. Kristen! Estamos entendidos? – falou entre os dentes.

- Você vai me agredir é isso? – ele estava desabotoando sua bermuda. – Não ouse tocar em mim Michael ou eu vou chamar a policia. – ele fingiu que não me ouviu – Michael, por favor, não faça isso!

- Tira o short Kristen! – ele pediu acabando de tirar suas roupas.

- Não! – me encolhi na cama.

- Não vou pedir de novo! – seus olhos estavam negros de raiva.

Na minha frente estava um Michael que eu nunca tinha visto em 7 anos.

- Não! Eu. Não. Vou. Tirar! – falei entre os dentes.

Olhei o criado mudo e vi meu celular a menos de 1 metros de distancia de mim.

- Então eu vou tirar pra você. – ele subiu na cama.

Não sei como mais em fração de segundos eu me levantei da cama, peguei o celular e estava me trancando no banheiro.

- Kristen Jaymes Stewart abra essa porta! – ele esmurrava a madeira com força. – Vou te mostrar que é que manda aqui!

- Vá embora Michael, vá pra casa da sua mãe! – gritei.

Ele esmurrava cada vez mais forte. Eu via a porta tremer.

De repente ficou um silêncio macabro do lado de fora e eu sabia que ele estava aprontando uma.

Não pensei duas vezes, liguei pra polícia. Ele não encostaria um dedo em mim.

- Delegacia de Round Top Boa noite. – uma mulher atendeu.

- Boa noite, você poderia mandar uma viatura na minha casa. Meu marido está transtornado e está ameaçando me bater. – falei nervosamente.

- Onde você esta nesse momento? – ela quis saber.

- Trancada no banheiro da minha casa... – passei meu endereço pra ela.

Ela ficou pensativa por alguns segundos e cochichou algo com alguém. Provavelmente ela sabia quem morava nesse endereço.

- Ok, senhora já passei pro Xerife, assim que puder alguém irá ai. – ela disse e eu desliguei.

Ainda fiquei uns bons minutos trancada no banheiro, até que resolvi sair. Estava quieto demais.

No quarto ele não estava. Na sala também não, mas o achei sentado na mesa de jantar da cozinha bebendo conhaque.

- Michael, por favor... – tentei argumentar.

- Você não vai! – ele me olhou – Nem que eu tenha que te prender aqui.

Ele se levantou e veio na minha direção agarrando meu braço com força. Eu podia sentir suas unhas curtas cravadas na pele do meu braço.

- Eu chamei a policia. – falei de uma vez só quando ele me jogou com força no sofá. Bati minhas costela com tanta força no braço do sofá que cheguei a sentir uma dor insuportável nelas.

- Você não fez isso Kristen! – ele sorriu com escárnio.

- Fiz! E se você encostar em mim todos de Round Top vão saber como é o verdadeiro herdeiro da Salty's!

Ele ficou ainda mais irado e agarrou meus cabelos.

- Michael! Pára! – eu gritava.

Ouvi batidas na porta e anunciaram que era a policia.

- Qual é? Vai parar por quê? Me bate! – gritei – Perdeu a coragem? Seu covarde! – levantei e fui até a porta.

- Boa noite, recebemos um chamado daqui. – era o Xerife.

Logo atrás dele eu vi o grande Royce Salty saindo da viatura. Ótimo, teríamos platéia.

- O que aconteceu aqui? – meu querido sogro perguntou.

- Seu filho me agrediu e tentou me estuprar, só isso! – sorri sem humor.

- Garanto que você deu motivos a ele garota. – ele passou por mim e entrou na minha casa.

Nem preciso dizer que a família de Michael me adora, né?

Entre acusações que se voltaram pra mim e eles discutirem todos os motivos que "eu" fiz Michael ficar agressivo, Royce convenceu Michael a ir pra casa dele.

- Você não apresentar queixa Srta. Stewart. – o Xerife falou, mas não foi uma pergunta e sim uma afirmação.

- Não! Só o mantenha longe de mim! – pedi.

Eles saíram e eu tranquei a porta, já que Michael tinha deixado sua chave em casa.

Deitei na minha cama e desabei. Chorava de medo, pavor, vergonha, alivio...tantas coisas.

Peguei meu celular e liguei pro meu pai.

- Kiki, aconteceu alguma coisa? – ele perguntou com a voz sonolenta.

- Pai eu contei pro Michael sobre Chicago e ... – ele me cortou.

- O que ele fez com você filha? – fiquei em silêncio. Ainda estava em choque. – Kristen o que ele fez? – ele quase gritou e eu só chorava – Já te ligo.

Coloquei o celular em cima do colchão e escondi meu rosto na curva do meu cotovelo.

Não que eu amasse Michael, mas eu não queria que terminasse assim. Eu gostava dele, sempre fomos amigos, talvez a gente tenha confundido tudo ao morar junto, até porque nunca deixamos de nos tratar como amigos.

Pensar em como eu queria ser feliz só me fez chorar mais ainda. Pensar em um homem que me amasse, que me completasse, que vivesse por mim, que não me agredisse com palavras...eu sei que é meio antiquado. Ash sempre zoambava de mim por eu acreditar nessas coisas de príncipes e alma gêmea, mas eu nunca perdi a esperança de encontrar o amor.

Talvez ele não estivesse em Round Top, ou em Tyler. – eu pensava.

Acho que é por isso que eu sempre quis sair daqui.

Meu celular tocou. Era Ash.

- Kristen! – ela me chamou alto.

- Oi Ash! – funguei.

- Faça suas malas, seu vôo pra Chicago sai daqui há duas horas do aeroporto de Tyler. Você tem dinheiro ai? – ela me perguntou.

- Acho que Michael tem guardado em algum lugar. – eu disse.

- Ótimo, pegue tudo de preferência, pra esse filho da puta ver o que é bom! – ela falou – Pegue um ônibus ou um táxi e vá agora pra Tyler estarei te esperando no O'Hare com Jackson.

- Ok! – ela me deu informações sobre a passagem e desligamos. Fui até o guarda-roupa.

Peguei umas malas antigas que eu tinha e comecei a jogar todas as minhas coisas dentro. Coloquei o porta retrato com a foto da minha mãe dentro também.

Fui até uma caixa na parte de Michael do guarda roupa onde eu sabia que ele guardava dinheiro. Peguei 500 dólares.

Coloquei a roupa de frio mais quente que eu tinha e deixei um bilhete pra Michael.

"Infelizmente você sabe onde eu estou,

Mas não me procure. Você não faz mais parte da minha vida!"

Coloquei a chave em baixo do tapete pra que ele entrasse na sua casa amanhã e sai.

Não olhei pra trás, eu não precisava. Round Top, aquela casa e principalmente Michael não fariam falta na minha vida.