A semana passou rápido.
Nos cinco dias que fiquei na casa da Ashley antes da entrevista eu fiz umas tarefas domésticas, no gosto dela e do Jackson. Fiz algumas compras, lavei e passei umas roupas deles. Estudei um pouco e aproveitei pra procurar um emprego, não custava nada garantir um caso a entrevista no Mercy não desse certo.
Consegui um emprego em um laboratório de patologia clinica, o que significaria tirar muito sangue. Eu trabalharia lá 3 vezes na semana das das 2 às 5 da tarde e ganharia um dinheiro razoável, que já me ajudaria a dividir o aluguel e algumas contas com eles. O que seria bom porque conseguiria conciliar com os plantões no hospital.
Minha costela já não doía como antes e os hematomas no meu braço estavam sumindo.
Meu pai me ligava todos os dias e insistiu em mandar um dinheiro pra mim enquanto eu ainda não estivesse trabalhando. Michael me ligou algumas vezes, mas eu não atendi e sempre que meu celular tocava e eu não conhecia o número não atendia com medo de ser ele. Ele sabia que eu estava em Chicago, mas eu acreditava que até ele me achar nessa cidade enorme, levaria um tempo.
Segunda finalmente chegou e como Ashley e Jackson não estavam de plantão eles me acompanhariam até o hospital.
Acordei e fui tomar um banho. Coloquei uma roupa apresentável pra uma entrevista de emprego e desci, encontrando Jackson e Ashley arrumados tomando café.
- Bom dia dorminhoca! – Ash sorriu pra mim.
- Bom dia gente! – me sentei no balcão da cozinha.
- Animada? – Jackson perguntou.
- Nervosa seria a palavra certa. – respondi.
- Fica tranqüila! O Dr. Steven é uma ótima pessoa. – a olhei. – Ele é o diretor...é com ele que vai conversar.
Ah sim! Estava bem mais tranqüila agora.
- Toma! Coloca ele! – ela disse me dando um casaco. – Pode ficar com ele pra você! – ela deu de ombros. – Precisamos comprar umas roupas típicas de Chicago pra você. – ela sorriu.
- Eu sei! – também sorri – Minhas roupas texanas não se encaixam no estado de Illinois.
Nós saímos de casa e fomos em direção ao Mercy. A distancia não era muito grande, era uns 3 ou quatro quarteirões. Dependendo da disposição dava pra ir a pé.
- Sil, minha prima tem uma entrevista com o Dr. Steve. – Ashley disse a recepcionista – Avise a ele que Kristen está aqui. – a moça assentiu e pegou o telefone.
Eu me sentei num banco próximo pra não desmaiar ali mesmo. Se eu pudesse me derreteria de tanto nervoso. Minha vida dependia daquela entrevista, não só o meu futuro. Naquele hospital estava minha primeira e grande oportunidade, quem sabe a única.
- Ashley! – um homem com a voz grave e alta a chamou.
- Olá Dr. Steve.– ela o cumprimentou com um aperto de mãos. – Trouxe minha prima, como eu havia lhe falado.
Ele me olhou e se aproximou.
- Então, você é a famosa Kristen? – ele me estendeu as mãos e eu a peguei, o cumprimentando.
Olhei pra Ashley e ela sorria.
- Não sei quanto a parte do "famosa", mas eu sou a Kristen. – sorri pra ele.
- Vamos então? Temos muito que conversar! – ele passou a mão pelas minhas costas me conduziu até o nosso destino, que segundos depois eu percebi ser a sala dele.
Ao entrarmos ele pediu que eu sentasse, eu apenas obedeci e coloquei minha bolsa na cadeira ao meu lado.
- Então Kristen, andei lendo seu currículo e vi que você não tem nenhuma experiência. – ele começou.
Fudeu! – pensei.
- Sim, sou recém-formada. – respondi. Ah qual é! Só tinha 1 ano que eu estava formada.
- Uhm! – ele fez uma cara de pensativo. – Não se sinta constrangida, você tem o perfil do hospital. – ele pausou – Nós preferimos recém-formados como você, assim podemos "moldá-los" da nossa forma. – ele sorriu. - O que você acha da emergência Kristen?
Eu detestava emergência. Adrenalina definitivamente não combinava comigo.
- Bom, digamos que se eu pudesse encolher não a escolheria, mas se tivesse que trabalhar nela, daria tudo de mim. – falei nervosamente.
Minhas mãos suavam e eu esfregava uma nas outras.
- Boa resposta! – ele pegou um papel na gaveta. – Você estaria disposta a trabalhar na emergência do Mercy? – ele perguntou calmamente. – Devo lhe dizer que é uma das mais movimentadas do país...sem querer assustá-la. – ele sorriu novamente.
Eu precisava muito trabalhar, então não tinha como recusar.
- Estaria sim! – falei com a voz firme.
- Ótimo, então o cargo é seu! – ele falou calmamente. – Conversei um pouco com a sua prima e ela me explicou mais ou menos sua situação, espero que esse emprego te ajude.
- Irá! – sorri.
Nós acertamos algumas coisas e eu assinei o contrato.
- Faltou um detalhe. – ele disse quando eu me levantei pra sair da sala. – Você irá assumir a equipe, já que a enfermeira que saiu daqui assumia o cargo da chefia.
Eu quase engasguei e por isso, só consegui assentir e sai da sala.
Eu trabalharia no regime 12x36, ou seja, tinha que trabalhar 12hs por dia e totalizar 36 durante a semana. O que me ocasionaria trabalhar um dia sim, um dia não. Meu plantão seria o da noite, assim como Ash e Jack. Eu trabalharia das 19 às 7 da manhã e começaria amanhã, numa terça-feira. O melhor? O salário tinha quase 5 dígitos e junto com o da clinica me ajudaria, e muito, a realizar meu sonho de cursar medicina.
Dr. Steve me levou até a emergência e me apresentou algumas pessoas, desde funcionários da equipe médica a funcionários da limpeza. Ele me apresentou algumas pessoas que estavam de plantão, mas disse que não seriam as mesmas que trabalhariam comigo amanhã.
Quando voltamos pra recepção Ashley estava sentada meio apreensiva. Ela nos olhou e veio em nossa direção.
- Sua prima esta contratada Srta. Greene! – ele disse a Ashley.
Eu podia jurar que ela estava se contendo pra não dar uns pulos.
- Obrigada Dr. Steve! – ela agradeceu a ele.
- Bom, Kristen te esperamos amanhã, ok? – ele mais uma vez apertou minha mão.
- Com certeza! – sorri.
Ele se virou e saiu. Foi quando Ashley quase me esmagou num abraço fazendo eu pular junto com ela.
- Eu sabia que você ia conseguir! – ela disse me abraçando outra vez.
- Obrigada Ash. Eu nem tenho como te agradecer! – disse animada.
Ela me soltou e ficou séria de repente.
- Oh meu Deus! – ela disse – Temos que dar uma festa! Vamos procurar o Jack. – ela me puxou pela mão e me levou até o corredor.
Ela falava sem parar, sobre dar a tal festa hoje e convidar todos do hospital. Que eu iria amar as pessoas do nosso plantão, que a emergência não era tão ruim assim, que ela me ajudaria no que precisasse, que não era pra eu me meter em encrenca – ela quis dizer, médicos casados -, que precisava comprar comida e bebida pra festa...e outras coisas que ela começou a falar tão rápido que eu não consegui mais acompanhá-la.
Fizemos quase um tour pelo hospital. Nos meio da sua chuva de palavras ela me amostrou o laboratório, a sala de Raio-x (que por sinal eu já conhecia), a pediatria, UTI e por último paramos em uma ala que ela me apresentou como a de obstetrícia. Só podia ser, porque Jackson estava lá.
- Você não está de plantão baby! – ela disse manhosa ao Jackson e deu um beijo em sua bochecha.
- Costume! – ele sorriu. – E então? – me olhou.
- Começo amanhã! – disse animada.
- Ow! Isso é maravilhoso! – ele disse abraçando Ashley.
- Não é? – ela perguntou a ele. – Vamos dar uma festinha hoje baby. – ela disse a ele. – Chame todos do nosso plantão, já que a Kiki vai trabalhar conosco.
- Todos? Todos? – ele perguntou – Até a Nikki?
Eu os olhei confusa.
- Argh! Ela não! – Ashley disse.
- Quem é Nikki? – perguntei curiosa.
- Não se preocupe! Você vai ter a infelicidade de conhecê-la. – Ashley disse.
Saímos do hospital e fomos pra casa. Eu e Ashley cozinhamos nosso almoço. Fizemos macarrão com almôndegas e eu fiz uma torta mousse de chocolate pra sobremesa, precisávamos comemorar em grande estilo.
Depois do almoço Ashley ficou separando uns CDs e Jackson saiu pra comprar umas bebidas.
Eu esperava que tivesse cerveja, já que é a única bebida alcoólica que eu bebo.
Já estava no final da tarde, então eu fui pro meu quarto e acabei cochilando.
Quando acordei já ouvia uma música vinda da sala.
Levantei e fui tomar um banho. Não sabia o que colocar, mas já que a festa era praticamente minha eu resolvi ficar ajeitadinha. Coloquei uma saia jeans, camiseta branca, alguns acessórios e uma das minhas botas texanas.
Bateram na porta do meu quarto e eu mandei que entrasse. Era Ashley com uma nécessaire nas mãos.
- Vim te maquiar. – ela disse animada.
- Precisa? – fiz uma careta.
- Claro que sim! – ela disse animada – Você tem que estar linda!
Revirei os olhos e sentei na minha cama, deixando ela fazer o "serviço".
Quando ela acabou, me olhei no espelho e até gostei do resultado, mas estranhei. Eu não estava acostumada com maquiagem.
- Depois eu te ensino como fazer isso! – ela piscou pra mim. – Vamos, já tem algumas pessoas na sala.
Me levantei, ajeitei minha roupa e saímos em direção a sala.
Devia ter umas 15 pessoas espalhadas pela sala do apartamento.
Ashley se enfiou comigo no meio de um grupinho e me apresentou a todos.
Todos eram muito simpáticos e percebi que bem unidos também, eles me disseram que reuniões como essa eram constante no apartamento de Ashley e Jackson.
Ash voltou da cozinha e me deu uma cerveja.
- Cadê o Jackson? – perguntei a ela.
- Foi buscar o Robert! Ele só sai de casa arrastado. – ela riu e bebeu sua cerveja.
Não sei por que mais pensar que ele vinha fez meu coração bater frenético no peito.
A campainha tocou e meu peito parecia saltar com as batidas do meu coração.
- Deixa que eu atendo! – falei com Ashley.
Fui até a porta e abri, mas não era o Jack e o tal médico. Era uma mulher muito bonita, tinha uma pinta na boca (que eu achei meio vulgar) e longos cabelos castanhos com algumas mechas claras.
- Então você é a Kristen? – ela disse já entrando.
- Isso! – eu disse – E você é?
- Nikki! – ela sorriu.
Ah! Então ela era a tal de Nikki que ninguém gostava, porque dormia com todo mundo. Ash tinha me contado sobre a "fama" dela no hospital. Olhando bem, ela era realmente vulgar.
- Fica a vontade! – eu apontei pra sala.
Ela sorriu e saiu rebolando. Percebi que todos ficaram incomodados com a presença dela. Eu só estranhei porque Ashley disse que era pra não convidá-la, mas se ela estava aqui era porque tinha sido, não é?
Voltei pra sala e me sentei ao lado de Ashley, todos conversavam animados. Até Nikki fazia parte da conversa.
- Vou buscar mais cerveja! – eu disse a Ashley me levantando e fui em direção a cozinha.
Peguei quantas long neck eu consegui segurar e coloquei no balcão. Quando eu olhei no fundo da geladeira vi a torta de chocolate e resolvi comer um pedaço.
Abri o armário em cima da pia, mas minha estatura não permitiu que eu alcançasse um prato, um pires ou qualquer coisa que pudesse colocar a torta dentro.
Me estiquei mais ainda, estava na pontinha dos pés e não conseguia alcançar nada.
- Vejo que sua costela já está boa. – ouvi aquela voz com um sotaque inconfundível atrás de mim.
Me virei rápido demais, por conta do susto e o olhei.
- É, está! – sorri nervosamente.
Me virei pro armário de novo e me estiquei a última vez pra tentar pegar o prato, se eu não conseguisse eu partiria pra tática do banquinho. Que eu não queria usar por ser branco e eu estar de bota.
Senti um corpo quente se moldando no meu e uma respiração bagunçando alguns fios do meu cabelo.
- Posso te ajudar? – ele sussurrou com a voz rouca próximo demais ao meu pescoço.
Eu estava congelada, meu corpo não me respondia por causa da corrente elétrica que passava pelo meu corpo nesse exato momento. Senti minhas pernas moles e por um momento me faltou o ar.
Ele deu um passo a frente me levando junto, imprensando meu corpo entre o balcão da pia e o seu. Levantou sua mão, pegou um prato no armário e o estendeu pra mim.
- Pronto! – ele sorriu.
Puta merda! Que sorriso foi esse?
- O-obrigada! – gaguejei.
Senti ele afastar seu corpo do meu e eu soltei um muxoxo.
Ele não podia ficar naquela posição só mais alguns minutos? Merda!
Me virei e ele estava debruçado do outro lado do balcão. Um silêncio constrangedor entre a gente.
Meu Deus! Como é mesmo o nome dele? Ri, Ro, R...R...merda!...R...Robert! É isso!
- Quer um pedaço? – perguntei enquanto partia a torta.
- Não obrigado, mas aceito uma cerveja. – ele sorriu aquele sorriso de novo.
Merda! Ele só podia estar tentando me deslumbrar.
Eu apontei as cervejas em cima do balcão e ele pegou uma.
Ficamos mais uma vez em silêncio, eu não sabia o que falar.
Fiquei estudando suas expressões, sua postura. Ele me parecia uma pessoa infeliz, triste. Talvez misterioso, não sei por que, mas foi a impressão que eu tive dele.
Minha torta acabou e eu me virei pra lavar o prato, já que eu estava encostada na pia.
Senti sua respiração de novo atrás de mim, mas dessa vez não estava tão próxima como antes.
Porque ele estava fazendo isso? Esse negócio de vem aqui vai lá, não estava ou não ia dar certo.
- Quer me ajudar a lavar o prato também? – brinquei.
Me virei secando as mãos e ficamos a centímetros um do outro.
Errado Kristen! Muito errado!
Ele olhava diretamente pra minha boca, mas eu sentia que alguma coisa o impedia de me beijar.
E a única coisa que eu pensava era "beija logo!"
Seu olhar passava dos meus olhos pra minha boca em frações de segundos. Sua boca era tão convidativa, como se me chamasse pra tocá-la.
Ele levantou uma mão e pousou na lateral do meu rosto, fazendo movimentos circulares com o polegar na minha bochecha. Instintivamente fechei meus olhos e curti a sensação que aquele estranho me proporcionava.
Nunca tinha sentido coisa parecida. Meu coração e minha respiração estavam descompassados, eu estava ofegante, ansiosa e meu estômago parecia estar formigando, como se tivesse mil borboletas dentro dele, todas batendo as asas no mesmo momento.
Michael nunca me deu sensações desse tipo e eu só havia beijado ele em toda minha vida, então eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo.
Abri os olhos e o encarei. Hoje confirmei que seus olhos não tinham uma cor definida, era a mistura perfeita de azul com verde, em tons tão suaves que faziam eu querer me perder nele.
Ele diminuiu a distância entre nós sem deixar de tocar meu rosto e eu pude sentir seu hálito quente no meu rosto. Ele tinha cheiro de canela. Delicioso, quente e apelativo.
Ele fechou os olhos e eu fiz o mesmo. Senti seus lábios encostarem nos meus e tudo parou.
Até uma voz na cozinha chamar nossa atenção.
- Kiki, cadê as... – sua voz morreu, provavelmente por ver aquela cena em sua cozinha.
Robert se afastou de mim num átimo e eu não tinha onde enfiar minha cara.
- Desculpe! Eu não sabia que... – Ashley disse sem graça.
- Eu tenho que ir! – Robert falou indo em direção a porta da cozinha. – Me desculpe! – ele pediu me olhando.
Eu ainda estava congelada.
Mas, porque ele estava se desculpando? Foi ele que veio a mim! Se ele veio porque pediu desculpas? Se veio é porque queria, certo?
Ahhhh! Saco!
- O. Que. Foi. Isso. Aqui? – Ashley perguntou pausadamente, mas senti uma ponta de preocupação na sua voz.
- Não me pergunte, porque eu não sei! – falei saindo do meu transe.
- Me conta! – ela me puxou e sentamos em um banco.
- Não sei...eu vim pegar as cervejas e acabei comendo um pedaço da torta. Ele quis me ajudar e acabou ficando próximo demais de mim e...er...acho que se você não tivesse entrado, teríamos nos beijado. – falei bobamente.
Ela ficou séria demais.
- Kristen, prometa que isso não vai acontecer de novo. – ela pediu.
- Por quê? – perguntei confusa.
- Porque o Robert não é o tipo certo de cara pra se envolver, é isso! – ela deu de ombros – Eu não quero que você se machuque. Prometa!
- Ele é casado? – mordi os lábios. Não devia ter perguntado isso.
- Não! Só prometa, ok? – ela se levantou.
- Ok, prometo. – assenti.
Pegamos novas cervejas na geladeira e fomos pra sala, mas minha festa tinha acabado a pessoa mais interessante pra mim tinha ido embora.
Eu não podia pensar assim! Eu tinha prometido a Ashley e eu cumpriria, afinal eu estava de favor na casa dela. Não que eu devesse obediência a alguém, mas ela merecia meu respeito.
Logo todos foram embora e nós três limpamos a bagunça de garrafas e descartáveis na sala e na cozinha.
Me despedi deles e fui pro meu quarto.
Tomei um banho, coloquei meu moleton e deitei.
Minha cabeça estava longe, estava nele.
Eu tinha que descobrir o que tinha por trás daquele seu ar de mistério e porque Ashley achava que ele não era o tipo certo pra uma mulher se envolver.
Será que era alguma coisa grave? Como drogas ou algum crime? Ou ela tinha mentido pra mim ao dizer que ele não é casado?
Fechei os olhos por alguns minutos e senti o cheiro do seu perfume masculino delicioso, seu hálito de canela, a sensação da sua pele macia na minha e o curto tempo que seus lábios ficaram nos meus.
Suspirei pesadamente.
Eu precisava me controlar, eu tinha que me concentrar. Eu tinha um foco...Trabalho e medicina. O resto poderia ficar pra depois.
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