Acordei naquela terça-feira e como sempre foi o cheiro do café de Ashley que me acordou.

Escovei meus dentes e fui até a cozinha.

- Bom dia! – a cumprimentei e dei um beijo na sua bochecha.

- Bom dia Kiki! – ela respondeu me passando uma caneca de café.

Me sentei no balcão da cozinha e comecei a tomar meu café-da-manhã.

- Ash? – a chamei. Ela desviou o olhar do jornal que lia e me olhou.

- Me fale sobre o Robert! – mordi os lábios.

- Kristen... – ela me repreendeu – Você prometeu ficar longe dele. – ela disse séria.

- E vou! – eu disse – Mas preciso saber por que tenho que ficar longe dele, entende? Tem que ter um motivo. – falei.

- Bom... – ela soltou sua caneca e o jornal no balcão. – Robert é um homem cheio de mistérios Kristen. Ninguém o conhece direito...e dizem que ele fez algo no passado que o deixou...digamos...amargo, meio rabugento, mas ninguém sabe o que é. Ele nunca falou disso com ninguém, nem com o Jack, que é a coisa mais próxima de amigo que Robert tem.

Então eu estava certa sobre a minha primeira impressão com ele. Ele era amargo e triste.

Mas o que seria essa coisa que ele fez no passado?

- Você não faz ideia do que seja? – ela balançou a cabeça em um não. – A mínima?

- Tenho umas especulações, mas são teorias minhas. – ela deu de ombros.

- Fala Ash! – quiquei na cadeira.

- Eu acho que tem a ver com a família dele. Ou de quando ele morava em Londres. – ela sussurrou.

Então ele é Inglês? Isso explica seu sotaque charmoso.

- Ele nunca comentou nada? – perguntei.

- Não, mas ele nunca fala na família dele, nem quando perguntamos ou quando é questionado sobre o assunto. – ela disse.

Ela se levantou beijou minha testa e saiu.

Eu fiquei aliviada por saber que ele realmente não era casado, mas intrigada porque eu queria descobrir o que aconteceu no passado.

Fui pro meu quarto e peguei uns livros sobre Enfermagem médica e outros sobre gerenciamento.

Quando acabei de estudar escutei um pouco de música e logo já era 6 horas da tarde.

Tomei um banho quente e coloquei uma roupa confortável, já que Ashley me avisou que na emergência do Mercy trabalhávamos de pijama cirúrgico.

Coloquei um jeans e um par de all star branco.

Coloquei umas coisas minhas e de higiene pessoal na minha mochila, meu Ipod e fui pra sala pra esperar Ashley e Jackson.

Quando chegamos ao hospital, eu fui até a recepção e me apresentei. Sil, uma senhora muito simpática me acompanhou até a sala de descanso da equipe médica e me amostrou o vestiário que ficava dentro dessa sala.

A sala era enorme. Tinha dois grandes sofás de couro preto com uma mesa de centro no meio. Um balcão com algumas coisas de cozinha, como frigobar, cafeteira e uma pia. Algumas poltronas reclináveis do mesmo couro que o sofá e uma mesa grande e redonda com várias cadeiras em volta dela. Logo ao lado no cantinho da sala estavam os armários.

Fui até lá e procurei meu nome, quando achei abri com o cartão que Sil, me deu e que também era meu crachá.

Encontrei lá dentro meu pijama e o peguei. Como Sil havia me explicado o meu seria azul, por ser a chefe da equipe, das outras enfermeiras era verde claro e das técnicas de enfermagem rosa bebê.

Os médicos usavam o pijama da cor do meu, mas eles colocavam jaleco por cima e nós não.

Fui até o vestiário coloquei o pijama e guardei minha roupa no armário.

Ainda faltavam dez minutos pro meu plantão, então fui dar uma volta e conhecer o que eu ainda não tinha visto do hospital.

Encontrei Sam, que também era enfermeira, e ela me ajudou a "estudar" a sala de emergência, me explicou onde ficava tudo.

Quando saímos na sala eu congelei. No final do corredor Robert vinha na nossa direção de cabeça baixa. Eu parei. Sam não se ligou, se despediu de mim e continuou andando.

Ele diminuiu seus passos e parou. A distância que eu estava parecia que ele digitava alguma coisa no celular.

Quando ele acabou e levantou a cabeça, finalmente me viu, mas ele fechou a cara e voltou, fazendo o caminho que ele já havia passado.

Perdi alguma coisa? O cara tá na minha casa, me seduz e no outro dia faz cara de nojo ao me ver? Eu realmente não nasci pra esse mundo!

Vai ver era melhor assim. Não queria me envolver com alguém bipolar ou louco psicótico.

- Hey! Kristen! – alguém estalava os dedos na minha frente. Era Abby, uma enfermeira que também conheci na festa.

- Oh oi? – respondi saindo dos meus pensamentos.

- Acidente com múltiplas vitimas chegando. Se prepare! – ela tentava colocar um avental e me passou um também.

- Sério? Agora? – perguntei desesperada.

Meu primeiro dia seria assim? Já?

Eu realmente odeio emergência.

- Bem vinda ao Mercy flor! – ela piscou e saiu.

Eu a segui e paramos na grande porta automática de vidro na entrada da emergência do hospital.

A ambulância parou do lado de fora e logo os paramédicos corriam com a primeira maca em nossa direção.

- Criança, mais ou menos 7 anos, batida frontal de carro, respiração em 20, batimento 150 e saturação 83%. – um rapaz moreno disse ao passar o caso pra nós.

Levamos a maca correndo a sala de trauma que antes eu a estudava vazia, mas não podíamos fazer nada, porque não tinha um médico presente.

- Cadê o médico? – quase gritei desesperada enquanto colocava a máscara de oxigênio na criança.

- Já chamamos! – uma técnica me respondeu.

- Chame de novo! – gritei.

Eu não podia perder meu primeiro paciente, ainda mais sendo uma criança.

Parada cardíaca!

Oh meu Deus, por favor!

Subi correndo numa escadinha que estava ao lado da maca e comecei a massagear o peito frágil da criança.

Depois de 5 minutos consegui reanimá-la.

- Cadê a merda do médico? – gritei mais uma vez.

O monitor começou a apitar e mostrava que a saturação da criança estava em 64% (considerando que o limite é 75%, eu estava perdendo ela).

- Me dá um tubo nº 5. – pedi a Abby ainda apertando o aparelho que passava oxigênio pra criança.

Seus batimentos começaram a cair.

- Sam, de a ela 0,2ml de adrenalina. – ordenei a ela.

As duas ficaram paradas me olhando.

- AGORA! – gritei.

- Kristen, você não pode fazer isso! – Abby disse. – A lei... – a cortei.

- Foda-se a lei Abby. – falei irritada – Eu não vou deixar ela morrer, ok? Cadê o médico? – perguntei mais uma vez.

- Dr. Robert foi chamado, mas... – eu não ouvi mais nada.

Tinha que ser o esquisito.

- Aperte aqui! – passei o aparelho pra ela sem tirar do nariz da criança e fui até a gaveta.

Peguei o tubo e o aparelho necessário pra entubá-la.

Me posicionei atrás da sua cabeça e abri gentilmente a sua pequena boca. Coloquei o aparelho, visualizei a traqueia, as cordas vocais e coloquei o tubo. Conectei o respirador artificial nele e imediatamente a saturação dela subiu. 98%.

Sam já tinha injetado adrenalina na veia da criança e seu coração também batia normal.

- Peça pra levá-la a tomografia. Acho que ela está com água nos pulmões. – falei com Abby.

- Kristen...- a cortei.

- Apenas faça Abby, eu assumo a responsabilidade. – falei calmamente.

Tirei minhas luvas e minha touca e fui até a sala de descanso.

Bom início eu tive.

Provavelmente amanhã eu estaria desempregada e talvez até perdesse meu diploma, já que eu não podia ter feito o que eu fiz na sala de emergência.

Me joguei exausta no sofá e enterrei meu rosto entre as mãos.

- Kristen? – a porta abriu e eu ouvi a voz de Ashley, mas não me movi.

- Tô ferrada! – falei.

- Não, não está. – ela afagou meu ombro. – Você fez o que foi necessário! Ela está salva por sua causa.

- Mas ela poderia ter morrido nas minhas mãos Ash. – falei desesperada.

- Kristen, isso pode acontecer todos os dias, com qualquer paciente. Já sabíamos disso quando entramos na faculdade. – ela disse calmamente.

- Obrigada pela força. – a abracei.

- Você terá que passar por um protocolo de rotina, mas Steve pegará leve com você. Você está protegida por lei, ninguém pode te acusar.

Eu sabia disso. Na lei de enfermagem eu não podia entubar ou comandar uma sala de emergência sozinha, mas existia uma exceção, quando o médico não estivesse presente eu poderia fazer tudo que ele teria feito.

- Tenho que ir. Você está bem? – ela me perguntou e eu assenti com o rosto entre as mãos. – Qualquer coisa me chama, estou na triagem hoje. – ela beijou minha bochecha e saiu.

Me levantei e peguei uma barra de cereal no meu armário. Eu estava sem comer há 3hs, se eu não comesse, quem iria pra sala de trauma seria eu.

A porta foi aberta e fechada com força.

Eu fechei a porta do meu armário pra ver quem tinha entrado na sala. Era Robert.

- O que você pensa que fez? – ele quase gritou com um tom de voz que mostrava toda sua irritação.

- O que você fez? – retruquei – Onde você estava quando a ambulância chegou? – cruzei os braços.

- Responda você minha pergunta. O que você pensa que fez? – ele disse entre dentes.

- Fiz o que você deveria ter feito! Oh não, mas você não estava lá não é? – falei irritada.

- Eu não ouvi o chamado! – ele cuspiu as palavras.

- Oh sim! O sono que você estava dormindo não te permitiu. – falei com ironia. – Ou talvez o chamado tenha sido abafado pelos gemidos da vadia que você comia. – ahhh! Quando vi já tinha falado.

Ele veio até mim furioso e agarrou meu braço.

- Quem você pensa que é pra vir aqui e bagunçar a minha equipe? O meu plantão? – ele disse irado a centímetros do meu rosto.

- Eu sou a enfermeira chefe da sua equipe Doutor! – falei a última palavra com todo o sarcasmo que eu consegui.

Ele bufou e sorriu sem humor.

- Não pense que isso será esquecido. Você terá que se entender com Steve. – ele finalmente largou meu braço. – Realmente não sei o que você está fazendo aqui.

Ele se virou pra sair.

- Hey! – o segurei pelo braço – Qual o seu problema hein? Eu salvei a vida dela! Você deveria me agradecer ao invés de me agredir. Tá louco? – disse exasperada.

- E você poderia ter matado ela. – ele cuspiu as palavras.

- Ah qual é? Você acha que só porque é médico é melhor que os outros? Se enxerga! A merda do seu diploma vale tanto quanto o meu. – devolvi as palavras no mesmo tom.

- Fica longe da minha equipe Kristen! Estou avisando! – ele fechou os olhos.

- Oh desculpe se seus medicozinhos de merda não podem se misturar com uma classe inferior! – fui grossa – Pelo amor de Deus! Se fosse um filho seu? Você ia desejar que ele morresse por causa da ausência do médico? Hein? Supera isso Robert! – me afastei dele pra sair, mas ele me segurou e me jogou contra as portas do armário.

- Nunca mais repita isso, entendeu? – fiquei calada e ele me seu uma sacudida pelos ombros. - Entendeu? – eu apenas assenti, seus olhos estavam escuros de raiva.

Então ele fez a última coisa que eu esperava que ele fizesse, me beijou. Sua boca também tinha gosto de canela.

Sua boca se chocou tão forte contra a minha que chegou a me machucar. Sua língua pediu passagem pelos meus lábios e não se porque, mas eu cedi. Ele envolveu seus braços pela minha cintura e me suspendeu. Instantaneamente o abracei com meus braços e minhas pernas, ficando no seu colo.

Nossas línguas brigavam por espaço entre nossas bocas. O toque da sua língua na minha me fazia experimentar um frenesi, era como se meu corpo todo flutuasse e ao mesmo tempo formigasse.

Uma de suas mãos estava entrando por baixo da blusa do meu pijama e eu já estava começando a ficar tonta por conta da falta de oxigênio. Minha respiração estava descompassada, assim como as batidas do meu coração.

Ele pareceu ter ouvido meus pensamentos e separou sua boca da minha, somente pra beijar a pele exposta do meu pescoço e do meu colo.

Meu Deus! Eu não acreditava que isso estava acontecendo.

Eu estava extremamente excitada, eu podia sentir meu sexo pulsando de desejo, desejo por ele. Me ajeitei no seu colo quando ele voltou a me beijar e pude sentir sua ereção na minha virilha. Ele soltou um gemido rouco quando nossas intimidades se tocaram.

E então, do mesmo jeito que ele começou a me beijar, ele parou.

Me colocou no chão sem nem olhar nos meus olhos e saiu da sala passando a mão pelos cabelos.

Eu fiquei ali, sozinha, excitada e com o corpo pegando fogo, depois de ter dado o melhor amasso da minha vida.

Definitivamente ele era bipolar.

Acabei de comer minha barra de cereal e sai.

Quando cheguei ao corredor principal, Ashley me avisou que Steve queria falar comigo.

Bati na porta e ele mandou que eu entrasse.

- Mandou me chamar Dr. Steve. – entrei e vi aquele inglês maravilhoso sentado na frente do diretor do hospital.

- Sim Kristen. Sente, por favor. – ele apontou a cadeira ao lado de Robert.

Me sentei sem olhar pra ele. Eu estava morrendo de vergonha.

- Bom, o que aconteceu aqui é mais comum do que vocês imaginam. – ele começou. – Kristen, você irá passar por um protocolo e precisa assinar esse terno de responsabilidade. – ele me deu um papel. – Robert, aqui você escreverá onde você estava no horário da emergência. – ele passou um papel pro Robert também.

- Só isso? – Robert perguntou.

- Só! – Steve disse.

- Com licença. – ele se levantou e saiu da sala.

Não sei como, mas quando a porta fechou eu já estava ao seu lado no corredor.

- Qual é o seu problema? – cutuquei ele.

- Você? – ele retrucou.

- Bom, saber! – assenti falsamente. – Temos um trato! Você para de me beijar e eu fico longe de você. – sorri também falsamente.

Ele deu um sorriso cínico, sacudiu a cabeça enquanto passava a mão pelo cabelo e saiu.

Eu deixei que ele fosse. De maluco na minha vida já bastava o Michael.

O resto do plantão foi tranqüilo, apenas coisas pequenas para se cuidar.

Logo fomos pra casa.

Ashley percebeu que eu estava estranha, mas ela achava que era por conta da criança, mas não era. Era por causa do Robert.