Dois meses se passaram e eu sentia que finalmente eu estava tendo uma vida.

Meu pai veio me visitar a uns dias atrás, quando estava de passagem por Chicago e eu quase explodi de felicidade quando ele disse que queria largar o caminhão e tentar abrir uma transportadora.

Morar com Ashley e Jackson era fácil demais, mas às vezes eu sentia que estava tomando o espaço deles, meio que tirando a liberdade, então eu comecei a pensar em me mudar, mas quando disse isso a minha prima ela deu um show e disse que se sentiria ofendida se eu fosse embora. Então eu decidi ficar, por enquanto.

Minha relação com Robert era zero. Nunca mais nos beijamos, ou se quer nos tocamos e ele continuava sendo o grosso/amargo que eu conheci uns meses atrás, só que ele não era assim só comigo, era com todos que se aproximavam dele, o único que não sofria com o "transtorno de personalidade" do Dr. Robert era Jackson. Eu não forçava a barra com ele, como eu disse antes, talvez fosse melhor assim. Se eu quisesse ajeitar minha vida tinha que viver longe de encrenca e Robert era encrenca, não sei por que, mas um dia eu descobriria.

O trabalho no hospital estava ótimo e por incrível que pareça eu estava me acostumando a gostar da emergência. Era bom sentir adrenalina no seu corpo às quatro da manhã, acordar com alguém gritando no seu ouvido que um ferido estava chegando ou simplesmente virar a noite acordada salvando a vida de alguém. Era prazeroso salvar vidas, inexplicável.

Já tinha atendido de tudo desde que cheguei ao Mercy. Do episódio da entubação a prego perfurado no pé e eu estava amando meu trabalho.

Pra completar minha alegria, ganhei uma bolsa integral pra medicina na Universidade de Chicago. Como eu tinha estudado enfermagem, ia conseguir abolir algumas matérias da minha grade e cursar apenas 4 anos de medicina. 2 de estudo médico e 2 de residência. Steve me ajudou a conseguir essa bolsa. Ele era um anjo pra mim.

Estava encostada no balcão da recepção fazendo a parte burocrática que me cabia como chefe da minha equipe.

Quando eu fui limpar o quadro de entrada de pacientes a porta automática abriu.

- POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDE! – um homem gritava.

Ele estava segurando uma mulher desacordada nos braços e ela estava num estágio avançado de gravidez.

Fui correndo até ele.

- Jeff traga uma maca rápido! – gritei pro recepcionista que estava de plantão.

Em 2 segundos a maca estava ao meu lado e o homem colocou a mulher desacordada deitada nele.

- O que aconteceu? – perguntei a ele calmamente enquanto ia até a recepção. – Chame Robert, Ashley e Nikki...trauma 1. – disse a Jeff.

- Nós estávamos na calçada, um carro subiu nela e atropelou minha esposa. – ele apontou pra mulher enquanto andávamos rápido até a sala de trauma. – Ela está grávida, por favor, a ajude.

- Como é seu nome? – perguntei quando passamos pela porta da sala de emergência.

- Mark. – ele respondeu – Ela é minha esposa, o nome dela é Cintia. – ele disse desesperado.

Peguei tudo que precisava, coloquei o soro e o aparelho pra monitorá-la. Seus sinais vitais estavam bem fracos.

- Mark, preciso que você se acalme e espere ali no canto, ok? – ele desviou o olhar angustiado da esposa e me olhou. – Vamos fazer o possível!

O resto da equipe entrou na sala.

- O que temos aqui? – Robert perguntou.

Eu passei o caso pra ele.

Passei o aparelho de ultrassom portátil a ele. Ele constatou que o bebê estava bem, mas a mulher estava com uma hemorragia interna severa.

De repente, seus batimentos começaram a cair e ela teve uma parada cardíaca.

Subi na escada e comecei a massagear seu peito.

- Chame a obstetrícia. – Robert pediu olhando pra Ashley.

Ela foi correndo e pegou o telefone que ficava na parede ao lado da porta.

Eu fiz um sinal pra Nikki enquanto massageava o peito da mulher, pra que ela tirasse o marido desesperado da sala. Ele não precisava ver o que estava acontecendo.

Ele lutou, mas acabou concordando em sair.

- Vamos Cintia! – eu sussurrei exausta.

Olhei o grande relógio em cima da porta, 10 minutos de massagem cardíaca e nada. Era hora de parar.

Parei de massagear o peito da mulher e olhei pra Robert.

Ele estava congelado no seu lugar, olhava o corpo sem vida da mulher com os olhos arregalados e marejados. Não entendi! Com certeza não era o primeiro paciente que ele perdia.

Ele andou até mim e me empurrou com força, me fazendo cair em cima de uma bandeja e depois no chão.

Ele começou a massagear o peito da mulher freneticamente. Ele estava visivelmente alterado, na verdade a palavra certa seria transtornado.

Olhei o relógio, mais 10 minutos.

- Robert tem que parar! – falei me levantando do chão. – Não adianta! – segurei seu braço. – Já fazem 20 min.

Ele não parou.

Eu, Ashley e Nikki nos olhamos e ninguém entendia aquela cena.

- Robert, por favor! – segurei seu braço mais uma vez.

Dessa vez ele parou.

Ele tirou as luvas calmamente e passou a mão pelos cabelos. Percebi que ele estava chorando. Ele se virou e saiu derrotado da sala de emergência.

Será que ele conhecia a mulher?

- Hora da morte 1:47. – declarei. - Leve ela pra obstetrícia.

Deixei as meninas na sala e fui procurar o marido de Cintia. Minha missão? Avisar que a sua esposa tinha morrido, mas que iam tentar salvar o bebê.

Não foi fácil!

E assim que eu perdi meu primeiro paciente.

Estava me sentindo um lixo, uma idiota incompetente, era horrível essa sensação de mãos atadas, horrível você ter uma vida que dependesse de você pra continuar. Horrível como se ela fosse parte de você.

Fui até a sala de descanso. Precisava lavar meu rosto e tomar um café.

Quando entrei vi Robert sentado no sofá. Segurando o rosto entre as mãos e pelo movimento das suas costas eu jurava que ele estava chorando.

- Robert? – o chamei, mas ele não atendeu. Me aproximei e parei na sua frente. - Robert?

- Me deixei sozinho, por favor! – ele pediu com a voz chorosa e sem me olhar.

Por um momento eu pensei em fazer o que ele havia me pedido, mas eu não podia deixá-lo sozinho naquele estado. Ele estava tão frágil, tão vulnerável. Eu precisava protegê-lo, acalmá-lo.

Estiquei minha mão por instinto e fiz um carinho nos seus cabelos.

- Me deixe te ajudar? – pedi me agachando pra ficar na altura dele. – O que houve lá dentro Robert?

- Uma morte! Você não viu? – ele ainda não me olhava.

- Isso eu sei. – eu disse – O que eu não sei é porque mexeu tanto com você! – falei pousando as mãos no seu joelho.

- Não gosto de perder meus pacientes. – ele disse irritado.

- Rob, eu quero te ajudar. – ele me olhou pela primeira vez.

Seus olhos vermelhos e inchados, assim com a ponta do seu nariz perfeito.

- Eu não tenho mais jeito Kris. – ele disse triste.

- Não diga isso! – sentei ao seu lado no sofá. – Eu sei que tem...eu sei que você não é assim, eu sei que você se esconde em uma máscara pra não se mostrar de verdade.

Ele sorriu, se levantou e saiu.

Eu ainda fiquei sentada um bom tempo naquele sofá, pensando no que tinha acontecido. Por pouco eu não consegui que ele falasse sobre o passado e ainda pude ver um pedaço do Robert sem a máscara fria e dura que ele usa pra se proteger.

Mas se proteger de que?

- Kristen, conseguiram salvar o bebê. – Abby disse com apenas a cabeça pra dentro da sala.

Eu me levantei e fui em direção a pediatria. Eu queria ver aquele pequeno milagre.

Quando cheguei lá o bebê estava no berçário. O olhei através da imensa parede de vidro e sorri. Fiquei sabendo que era uma menina e se chamaria Hope.

- Me desculpe! – ouvi a voz de Robert atrás de mim. Me virei e o olhei confusa. Porque ele estava pedindo desculpas? – Por ser um grosso com você. – ele disse – Você tem razão...eu uso uma máscara, mas eu preciso dela, você não entenderia.

Me aproximei dele.

- Me explica, eu juro que vou tentar entender. – mordi os lábios.

- Não me peça isso Kristen. – ele se afastou – Eu não posso ser seu amigo. Por favor... – ele fechou os olhos. – Não se aproxime de mim.

Ele se virou e saiu.

Eu estava confusa demais. O que ele quis dizer com eu uso mesmo uma máscara e não podemos ser amigos?

Ahrg! Eu estava frustrada. Não somente por não conseguir fazê-lo se abrir comigo, mas por ainda ficar martelando nesse assunto.

Só então eu percebi!

Eu estava apaixonada por ele.

Essa obsessão por ele, por saber dele. A vontade que eu tinha de beijá-lo, de ficar perto dele, mesmo quando ele me tratava como uma simples enfermeira. A sensação dos cabelos dele nos meus dedos. A vontade que eu tive de abraçá-lo e dizer que ia ficar tudo bem quando o encontrei naquela sala chorando. Quando o chamei de Rob tão naturalmente e ele devolveu me chamando de Kris, nunca ninguém tinha me chamado assim e ouvir dele, soou tão natural, espontâneo.

Merda!

Isso não deveria ter acontecido!

Merda, mil vezes merda!

Depois de trocentos pacientes meu plantão acabou.

Troquei minha roupa e fui até a recepção. Jeff ainda estava lá.

- Jeff, qual o sobrenome do Dr. Robert? – perguntei a ele e tentei fazer minha melhor cara de quem não quer nada.

- Pattinson, por quê? – ele quis saber.

- Por nada! – coloquei meu casaco. – Na verdade eu precisava pra colocar num dos meus relatórios, coisas burocráticas. – sorri pra ele.

Ashley e Jackson chegaram na recepção e fomos pra casa.

Jackson contava animado como tinha sido a cesariana de Cintia e a emoção de todos da sua equipe quando Hope nasceu viva e saudável.

Quando chegamos em casa eu tinha uma ideia fixa. Pesquisar o sobrenome Pattinson na internet. Se ninguém me falava, talvez a internet podia me esclarecer alguma coisa.

Ashley foi tomar banho e Jackson se empenhava em fazer um café.

- Posso usar seu computador? – perguntei a ele.

- Claro! Tá na mesinha da sala! – ele apontou pra porta.

Me sentei no chão da sala pra mexer no notebook em cima da mesa de centro.

Digitei Robert Pattinson.

"Não encontramos resultado pra essa pesquisa".

Merda!

A frustração já estava tomando conta de mim quando eu lembrei que ele era Britânico e eu estava num site de busca da América.

Digitei: Jornais Britânicos.

Apareceram mais de 1.000 resultados. Cliquei no primeiro da lista e fui na caixa de busca do jornal.

Digitei novamente Robert Pattinson.

Apareceram 3 resultados. Comecei a lê-los por cima antes de clicar em algum.

"Um acidente em Notting Hill..."

"Robert Pattinson foi o responsável..."

"Ela estava grávida..."

"Claire e Richard Pattinson estavam no carro..."

"Morreram na hora..."

Quando eu ia clicar pra ver a noticia completa Ashley entrou na sala vindo na minha direção.

Fechei a página nervosamente e aquilo me deixou meio puta da vida.

- O que está vendo ai? – ela disse colocando a cabeça na tela do computador.

- Nada! – sorri – Tava vendo o preço de um livro pra faculdade. – me levantei e fechei o computador.

- Achou? – ela perguntou penteando os cabelos.

- Yep!

Sai da sala e fui pro meu quarto.

Pelo menos agora eu sabia mais ou menos do se tratava. Pelo que entendi houve um acidente, ele estava juntos, alguém morreu na hora e tinha uma mulher grávida no carro. Será que ele é viúvo e o filho morreu no acidente? Se for isso, faz sentido ele ser tão amargurado.

Tomei um banho, coloquei meu moleton e apaguei assim que deitei na minha cama.

- x –