4) Incapacitados

Caminharam de Seattle a Olympic por dois dias. Souberam que estavam próximos quando o cheiro da garota humana se intensificou. Cerca de dezoito recém-criados próximos, muito próximos da recompensa. Bree estava quase reconsiderando porque estava ali, quando a trilha da humana ficou mais forte, jogando toda a sua sanidade às favas. Eles iam ser rápidos, destruir logo a humana e ficar com o sangue. E então Bree poderia tirar seu Riley das garras da outra e tê-lo só para si.

Ao entrarem na clareira, depararam com o esperado: o clã que os tentaria fazer parar. Mas eles não iriam parar. Eles iriam até o fim e venceriam. Isso era fato. Quem queimaria naquela fogueira armada seriam os outros.

Entorpecidos pela certeza da vitória, correram de encontro com o clã, iniciando a batalha. Mesmo se dividindo para encontrar a humana, eles estavam em maior numero, eram mais fortes, essa luta estava no papo.

Não se surpreenderam quando o primeiro teve um membro arrancado. Sabiam que talvez fossem perder um ou outro colega, mas se estivessem vivos... Não tem problema algum. Certo?

Tinha tanta gente correndo na velocidade da luz e sendo desmembrado, que Bree começou a ficar confusa. Olhou em volta e percebeu que os inimigos eram muito habilidosos, que eles – os recém-criados – não tinham essa graciosidade para lutar. Inconscientemente, contou os colegas e percebeu que estavam ficando em desvantagem. Isso não podia acontecer, eles tinham que ganhar! Agora, mais que nunca, tinham que terminar logo com aquilo.

Não soube de onde tirou tanta brutalidade. Investiu contra um dos inimigos, um loiro que mais parecia um galã de cinema e mordeu-lhe o braço. Com uma velocidade nunca vista, o loiro a jogou pra longe e ela caiu de encontro às árvores.

Levantou novamente, lívida de ódio, na intenção de atacar o loiro por trás, mas entrou em choque com o que viu. Afastada da batalha, pode enxergar o que acontecia por um outro ponto de vista e estava tudo muito claro. Transparente como água cristalina.

Eles nunca seriam capazes de ganhar essa batalha. O numero estava sendo reduzido em tempo record, Riley mentira... Os inimigos eram mais do que habilidosos e cheios de graça. Eles agiam em conjunto, eles tinham harmonia. Os recém-criados não chegariam a esse nível, principalmente porque não sobreviveriam pra contar história. Nem ela.

Enquanto via numa anormal câmera lenta a cabeça de um de seus colegas ser arrancada pela pequena garota de cabelos espetados, Bree reconsiderou de verdade tudo o que ela tinha passado, como a sede, arranhando sua garganta, era tão desprezível e nojenta. Ela queria a vida de volta, queria lembrar o gosto da batata assada que sua mãe fazia quando ainda moravam juntas, queria sair pra um barzinho tranqüilamente, poder tomar uma cerveja num Happy Hour com os colegas da empresa, as amigas da escola, e ouvir uma banda de garagem tocar um som ao vivo no palco. Queria todas essas coisas sem o desespero do desejo por sangue lhe sussurrando freneticamente no ouvido para matar a todos, todos eles, e drenar-lhes a vida. Ela queria a vida.

Não se deu conta de estar caminhando na direção da batalha, mas, quando entendeu o que passava pela sua cabeça, o terror a invadiu ao mesmo tempo que o som metálico da cabeça do colega sendo finalmente arrancada a fez piscar os olhos, despertando. Seu coração imóvel apertava sofrido, doendo... buscando as lágrimas que não viriam. Essa vida de merda! De que adianta viver pra sempre? Ela nunca mais ia conseguir conviver com as pessoas, os seres que a cercavam estavam despedaçados, virando cinzas. Assim como ela viraria.

-Criança, - uma voz de sinos ecoou para Bree – você está bem?

O estranho que lhe dirigia a palavra era um dos que ela tinha de que destruir. Mas... não devia ser com ela, né? Desacreditada, olhou em volta procurando outro que pudesse ser alvo da pergunta, mas não havia mais ninguém parado. Quando voltou a olhar o loiro que falara com ela, ele estava com as mãos levantadas, como quem mostra que está desarmado. Ele deu um passo na direção de Bree que, assustada, recuou.

-Calma, criança. Você quer lutar?

Perturbada, Bree balançou a cabeça negativamente, cruzando os braços e roendo a unha nervosa, o desespero alojado em sua garganta, impedindo-a de pronunciar uma única palavra que fosse. Encolheu-se novamente quando o estranho tentou se aproximar mais uma vez.

-Se não quiser lutar, não a mataremos. Apenas abandone isso, que conversaremos com você quando acabarmos. Você tem opções, criança.

Agarrando-se ao único desejo que tinha – manter-se viva – Bree concordou com a cabeça, não sabendo o que aquilo significava.

-Fique ali atrás, perto da chama. Nós já estamos acabando.

Sentia-se zonza. Parecia que sua cabeça estava ao mesmo tempo cheia e vazia demais. Ela pensava em muitas coisas de uma vez e tudo parecia bem oco, um clarão de cegar os olhos. Queria esclarecer tudo com Riley, queria xingá-lo de todos os palavrões que conhecia por tê-la colocado nessa roubada. Queria não ter virado vampira...

-Como se chama, criança?

O choque dessas palavras quase a fez esquecer o próprio nome. Piscando fortemente pra manter a concentração, pigarreou tentando encontrar a própria voz.

-Bree.

O sorriso que brotava no canto de seus lábios era completamente novo. Ela estava emocionada e sentia-se liberta. Foi até onde o loiro indicara e abaixou-se, encarando a chama. Olhando assim, sem ameaça, parecia tão bonito... Ela não era incapacitada. Era totalmente capaz de abandonar a luta, tomar seu próprio rumo. E Bree queria isso. Ela sabia que parando de lutar ela teria uma chance.

Parando de lutar ela teria escolhas.


N/A: Malz a demora .-.
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BL