Você Não Está Sozinho
"Por favor, vamos fazer uma pausa! Eu não aguento mais correr," Naruto lamuriou pelo que parecia ser a milésima vez em menos de uma hora.
Eu tinha que concordar com o idiota daquela vez. Saímos de Konoha dois dias atrás e desde então viajamos incessantemente em direção a Vila do Tornado. Estávamos na metade do caminho. As minhas pernas já não conseguiam mais manter a mesma velocidade do início devido ao cansaço – não que eu fosse dizer em voz alta – e eu sabia que Sakura e Kakashi também já não estavam mais em perfeitas condições físicas.
Ao contrário de Naruto, eu não iria reclamar. Por mais que estivesse cansado, queria também chegar o mais rápido possível na Vila do Tornado para acabar com aquela missão de uma vez. Fomos enviados até lá para levar um documento para selar o apoio de Konoha a Vila do Tornado caso eles entrem em conflito com a Vila da Formiga. O líder do Tornado deveria assinar o pergaminho, fazer as suas exigências, intermediado por Kakashi, e nós carregaríamos o documento de volta para a Folha.
Aquela missão estava longe de ser empolgante. Não passava de serviço burocrático. Nada aconteceu desde que saímos de Konoha e, do jeito que as coisas andavam, eu desconfiava que permaneceria assim até a nossa volta.
Eu ouvi Kakashi suspirar ao meu lado. "Tudo bem. Já está escurecendo, e estamos entrando em uma zona perigosa. Foram relatados alguns ataques por aqui tanto por parte de Tornado quanto da Formiganos últimos meses. Talvez fosse mesmo melhor passarmos a noite em algum lugar seguro e prosseguirmos viagem de dia."
Naruto soltou uma exclamação de felicidade nada discreta. Idiota.
Kakashi fez um sinal para paramos de correr e nos juntar.
"Para onde vamos, sensei?" Sakura quis saber enquanto pegava um cantil d'água da sua bolsa. A raiz do seu cabelo curto estava mais escura, indicando que ela estava suando – e confirmando a minha suspeita de que ela estava tão cansada quanto o resto.
"Se eu não me engano há um pequeno vilarejo a noroeste daqui," Kakashi explicou. "Provavelmente acharemos um lugar para ficar lá."
"Quanto tempo?" eu perguntei. Não seria sensato nos desviarmos muito do caminho agora. Eu estendi uma mão na direção de Sakura sem olhar para ela. Ela sabia que eu precisava do cantil d'água já que a minha tinha se esgotado algumas horas atrás. Não demorou três segundos para que ela entendesse a minha mensagem e colocasse o recipiente na minha mão.
"Menos de uma hora, se formos rápidos."
Naruto grunhiu e dobrou o seu tronco, ficando corcunda. O idiota parecia uma criança mimada reclamando. "Eu cansei de ser rápido! Parece que as minhas pernas estão pesando mais do que o Chouji. Não podemos ir no ritmo normal só um pouquinho?"
"Você acabou de dizer que queria descansar," eu rebati. Ele era tão idiota que muito do que dizia não fazia o menor sentido para mim.
"Eu quero descansar! O que eu não quero é ter que ficar mais cansado antes de descansar." Parecia até que ele não tinha a porcaria de uma Kyuubi dentro dele para aumentar a sua estamina.
"Não podemos ir devagar se quisermos chegar lá antes do anoitecer. Vamos." Kakashi ordenou antes que mais alguém – ou melhor, Naruto – tivesse outra chance de reclamar.
Xxxx
O sol estava se pondo quando Kakashi anunciou que faltava pouco para chegarmos no vilarejo. Eu podia ter suspirado em alívio. As minhas pernas começavam a doer devido ao esforço. Eu parabenizei Naruto internamente pela ideia de fazermos uma pausa. Ela realmente viria a calhar naquele momento. Eu imaginava que o mais sensato seria mesmo descansarmos antes de prosseguirmos por uma área onde havia chances de encontrarmos inimigos. Eu estava confiante de que conseguiria derrotar quem quer que se enfiasse no meu caminho, mas com toda a certeza seria muito menos trabalhoso lutar em perfeitas condições –
"Parem."
Merda.
Todos nós abruptamente acatamos com a ordem de Kakashi. Ficamos em silêncio enquanto esperávamos por uma explicação, mas ela não veio. O líder da missão ficou parado, em silêncio, com a testa enrugada, para depois revelar e ativar o seu sharingan.
"Kakashi-sensei, o que há de errado? Você não disse que estávamos perto?" Sakura fez a pergunta antes que eu pudesse fazê-la. Eu esperava, pelo bem de Kakashi, que ele não dissesse que estávamos perdidos ou algo do tipo. Eu era capaz de feri-lo se soubesse que teríamos que andar mais do que o previsto.
"Sasuke, ative o seu sharingan," ele me pediu, e eu o fiz.
"O que eu devo procurar?"
"Chackra."
Eu enruguei a testa. "Não consigo ver nenhum."
Kakashi assentiu, como se fosse essa a resposta que ele procurava.
"Kakashi-sensei?" Naruto perguntou em um tom de voz que pedia uma explicação. Ele não era o único que não estava compreendendo.
"Estamos muito próximos do vilarejo. Eu já devia sentir algum chackra, mas não estou detectando nenhum. Fiquem atentos."
Eu não precisava daquela instrução para que todo o meu corpo se colocasse em alerta. O meu cansaço físico foi totalmente esquecido. Obviamente algo estava errado ali. Kakashi não parecia ter dúvidas do que falava.
Eu deixei a Kusanagi em mãos enquanto andávamos lentamente em direção ao que Kakashi dizia ser o vilarejo. Eu não desativei o meu sharingan, ainda em busca de algum chackra humano ou qualquer outro sinal de civilização. À medida que o meu campo visual continuava a não detectar nada, a minha preocupação crescia.
Eu não precisava perguntar Kakashi se ele tinha certeza de que o vilarejo era ali. Ele era o melhor de nós no que diz respeito a orientação no espaço. Ele sabia exatamente onde estávamos e para onde deveríamos ir. Ele não se enganou quanto a localização daquele vilarejo.
Entretanto, imaginar que todas aquelas pessoas haviam saído daquele lugar nos últimos dias sem que as autoridades das vilas mais próximas fossem avisadas era uma possibilidade tão remota quanto a de Kakashi estar enganado. Algo fora do ordinário tinha acontecido ali – e não era só a falta de chackra que me indicava isso. Os meus instintos também me sussurravam constantemente para não abaixar a guarda, e eles se enganavam tão pouco quanto Kakashi.
"Estou sentindo um cheiro forte de sangue," Kakashi disse. Se antes eu só tinha a suspeita de que algo fora do normal estava acontecendo, agora eu tinha a mais absoluta certeza.
Automaticamente eu olhei de esguelha para Sakura. Ela segurava uma kunai em uma das mãos e tinha um olhar determinado, para a minha satisfação. Havia um óbvio perigo iminente nos rondando e eu precisava que ela estivesse focada. Eu não sabia exatamente por que, mas a total concentração dela era necessária para a minha própria. Eu não podia me permitir dividir a minha atenção entre ela e algum inimigo – apesar de isso acontecer com involuntariamente com frequência.
Eu não consegui esconder a minha surpresa quando me deparei com o primeiro cadáver caído nos pequenos portões que abriam o vilarejo. Era de um homem, velho. Estava ensanguentado.
Eu não precisei pensar duas vezes para deduzir o que tinha acontecido ali – e assim que o pensamento se formou eu fui paralisado por uma avalanche de memórias.
Eu me recordei de anos atrás, da pior noite da minha vida, quando cheguei em casa e fui recebido por uma cena parecida demais com aquela. Um corpo, morto, frio, manchado de sangue na porta da minha casa.
Merda, eu praguejei mentalmente quando outras lembranças indesejáveis inundaram o meu cérebro. Os olhos de uma criança de seis anos de idade me carregaram para dentro do Complexo Uchiha, me mostrando todas aquelas pessoas mortas aos meus pés. Eu me lembrei do cheiro puro da morte, do desespero, da tristeza e da confusão que continuariam a me perseguir anos depois.
Um canto da minha mente captou o meu nome sendo chamado, mas aquilo era irrelevante diante do que se passava na minha cabeça. Um ódio que há tempos eu não sentia me sacudiu a ponto de dificultar a minha respiração. Eu senti o meu estômago se revirar. Antes que eu pudesse me controlar eu me vi agachado no chão e vomitando. Todo o meu corpo tremia.
Coisas que eu nem sabia que eu podia lembrar viajaram pela minha mente. Eu não tinha ideia por quanto tempo eu fiquei remoendo tudo aquilo, lutando para jogá-los de volta para o lugar de onde nunca tinha saído, até eu finalmente perceber uma garrafa d'água bem debaixo do meu nariz.
Eu não precisei olhar para Sakura para saber que ela era. Assim que voltei a ficar sóbrio eu a senti agachada ao meu lado. Eu não pude encará-la. Estava envergonhado por ter exibido tamanha fraqueza.
"Eu sinto muito," foi o que ela me sussurrou enquanto eu tomava um gole d'água, lavando a minha boca. "Eu posso ficar com você aqui fora, se quiser. Naruto e Kakashi-sensei podem entrar sozinhos."
Em hipótese alguma. "Não. Eu estou bem." Eu me levantei antes que ela pudesse contestar. Eu não iria ficar para trás por causa de um monte de memórias de merda. Eu estava certo de que já as havia superado. Eu não iria permitir que elas me atrapalhassem mais do que já atrapalharam.
Ignorando os olhares preocupados de Naruto e Kakashi, eu passei por eles para entrar no vilarejo dizimado. Eu resisti a mais uma onda de náuseas. Dezenas de corpos estavam espalhados pelas ruas, pessoas de todos os tipos – crianças, mulheres, homens e idosos.
"Quem quer que fez isso já não deve estar mais nas redondezas," Kakashi comentou, parando ao meu lado. Eu nem ao menos tinha notado que parei de andar. "Continuo não sentindo nenhum chackra. É melhor nos dividirmos e vasculharmos as casas. É pouco provável que achemos, mas é nosso dever procurar por sobreviventes. Sakura, você pode fazer uma estimativa de por quanto tempo essas pessoas estão mortas?"
Ela se abaixou para analisar o corpo de uma mulher jovem. Ela tocou em alguns pontos do corpo, parecendo à vontade demais para esse tipo de coisa – certamente muito menos desconfortável do que eu. Era apenas mais uma prova das diferenças gritantes entre aquela garotinha de anos atrás para essa kunoichi.
"É difícil afirmar com precisão agora, sem nenhum instrumento, mas, talvez, se eu puder dar um palpite, eu diria que eles faleceram há não mais que dois dias," ela constatou rapidamente. Assim como com Kakashi, eu duvidava que ela estivesse errada.
Kakashi assentiu. "Os responsáveis por isso não ficariam por aqui por tanto tempo. Já temos no mínimo um dia de desvantagem em relação a eles. Não adiantaria tentar alcança-los agora sem saber quem são nem para onde foram, especialmente agora que está começando a escurecer. O melhor que podemos fazer nesse momento é investigar para tentar encontrar pistas sobre a identidade de quem quer que tenha feito isso."
Todos nós concordamos com um murmúrio. Tudo o que eu mais queria era encontrar os assassinos e mata-los com a mesma crueldade com que eles tiraram a vida de tantas pessoas, mas Kakashi tinha razão. Nós não tínhamos a menor ideia de quem eles poderiam ser e, portanto, não tínhamos a menor ideia de por onde começar a procurar. Além disso, estávamos todos ainda muito cansados. Não seria seguro nos engajar em uma batalha com quem quer que fosse no estado em que estávamos.
Eu senti os olhares de Sakura e Naruto sobre mim, mas fingi não percebê-los antes de entrar na casa mais próxima. Silêncio total. Na sala da frente, alguns móveis revirados. Na cozinha, mais um corpo de uma mulher – dessa vez, grávida. Eu ativei o meu sharingan, esperando encontrar o chackra ou algum sinal de vida do bebê dentro dela, mas, assim como ao meu redor, não havia nada. Mesmo assim eu decidi chamar Sakura para que ela checasse, e usando o seu próprio chackra ela confirmou a minha suspeita: mãe e filho estavam mortos. Não havia nada que pudéssemos fazer ali.
Eu tentei ao máximo evitar que as minhas memórias voltassem a dominar. Tive êxito em alguns momentos; em outros, não. Houve momentos, como quando eu vi um menino e uma menina mortos abraçados, que tive que parar, respirar fundo, frear os movimentos desesperados do meu estômago, antes de continuar.
Eu tentei analisar os corpos em busca de alguma pista sobre os assassinos, mas eu não encontrei nada. Não havia queimaduras, manchas na pele, sinal de que foi usado algum jutsu de água nem de qualquer outro elemento. Todas as pessoas pareceram ter morrido pelo mesmo motivo: foram perfuradas por uma arma. Em algumas eu pude detectar uma kunai, mas, no resto, nenhuma outra arma fora deixada – nada que desse qualquer indício de qualquer coisa.
A minha inutilidade só aumentava a minha frustração. Merda. Se tivéssemos sido mais rápidos, ou se a Hokage tivesse nos enviado mais cedo, talvez aquilo poderia ter sido evitado.
Eu me deparei com Sakura ao sair da quarta casa. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados. Ela tinha chorado. Eu não precisava perguntar para saber o motivo. Sakura era a pessoa mais passional e emotiva que eu conhecia. Não era de se espantar que ela se comovesse com esse genocídio.
"Ei," ela me cumprimentou com um sorriso triste. "Você está bem?"
Eu assenti com a cabeça, tenso. Não, eu não estava bem. Eu estava longe de estar bem. Eu não conseguia imaginar outro lugar que eu gostaria de estar menos do que ali. Talvez, só o Complexo Uchiha me fazia tão desconfortável.
Mas ela não precisava saber disso.
"Acharam alguma coisa?" Kakashi perguntou quando nos viu. Eu neguei, mas Sakura tinha algo a acrescentar.
"Eu encontrei comidas em algumas mesas," ela disse. "Elas não parecem estar lá por mais de um dia. Talvez isso nos dê mais uma ideia de que essas pessoas foram mesmo mortas há menos de dois dias. E o sangue que encontrei não parece ser muito velho também."
"Ótimo, Sakura-chan," Kakashi a congratulou com um microsorriso que não tinha nada de alegre. "Infelizmente, eu não achei nada. Não consegui identificar nenhum padrão nas mortes, nada típico de alguma região em particular. Eu não consigo imaginar o que aconteceu aqui –"
"Ei, pessoal, vocês tem que vir aqui agora!" Naruto gritou da casa mais distante. A clara tensão na voz dele nos fez interromper a conversa e partir em sua direção.
Nós o encontramos em um quarto que tinha uma cama de casal. O corpo de uma mulher jazia na entrada do cômodo. Eu tive que levantar uma perna para passar por cima dela.
Naruto estava sentado de frente para um armário aberto. "Tem uma garotinha aqui."
"Viva?" Sakura exclamou, surpresa. Admito que eu também estava. Depois de tudo o que eu vi naquele lugar, achar um sobrevivente era realmente surpreendente.
Naruto concordou com a cabeça, e todos nós fomos paramos atrás dele para olhar o que tinha dentro do armário e, de fato, havia uma garotinha lá. Ela estava acuada, escondida atrás das poucas roupas, as pernas dobradas.
As mesmas memórias que me tiraram o equilíbrio quando chegamos no vilarejo retornaram. Aquilo tudo era parecido demais com a minha história. Toda uma comunidade dizimada, e uma criança sobrevivente. Eu parecia estar vivendo um flashback do pior dia de toda a minha vida. Por um momento eu pensei que aquilo fosse um pesadelo – ou a porra de um genjutsu.
Entretanto, daquela vez eu estava preparado para rechaçar aquelas lembranças e todos os sentimentos que ela evocava. Eu fechei os olhos, respirei fundo pela enésima vez em menos de uma hora, e recoloquei as minhas emoções em cheque. Quando eu os reabri, senti o olhar de Sakura sobre mim, preocupada.
"Ela não quer sair daqui de dentro," Naruto disse, tirando-me dos meus pensamentos. "Eu conversei com ela por um tempo, pedi que ela saísse, mas eu não sei nem se ela me entendeu. Talvez ela seja surda?"
Ou talvez ela esteja com medo demais para conseguir reagir. Eu sabia que essa podia ser uma justificativa. Sabia muito bem.
"Deixe-me tentar," Sakura pediu, e Naruto se levantou para que ela o substituísse de frente para o armário. "Oi, querida. O meu nome é Sakura. Você pode me falar o seu nome?" A garota não respondeu. Apenas se encolheu ainda mais para dentro do armário. Eu não conseguia ver o rosto dela por detrás das roupas, só os seus pés e pernas. "Eu sei que você está assustada, mas nós não vamos machucar você. Não somos pessoas más, eu prometo. Nós só queremos te ajudar. Você pode sair o armário para que possamos te ajudar?"
Sakura estendeu uma mão para tocá-la, mas retraiu o braço quando a garota soltou um gemido de medo. As pernas dela, já quase entrelaçadas, se juntaram ainda mais, como se ela tentasse se proteger. A vontade que eu tinha de matar quem quer que fez isso se intensificou a níveis quase incontroláveis.
"Querida, por favor, acredite em mim. Nós jamais vamos te machucar. Acabou. Tudo o que você viu aqui fora acabou. Você está segura agora, eu juro. Por favor, você precisa sair desse armário," Sakura continuou, falando com uma voz tranquila, mas ao mesmo tempo confiante.
"Como foi que você a achou?" eu perguntei a Naruto enquanto observava Sakura tentando persuadir a garotinha.
"Eu estava vasculhando a casa quando ouvi uns sons estranhos. Parecia um choro. Eu procurei aqui no quarto e a achei dentro do armário." Naruto balançou a cabeça. "Ela soltou um grito quando eu afastei as roupas para ver o rosto dela. Cara, isso é a maior merda que eu já vi na minha vida. Eu só consigo imaginar o que ela viu. Será que aquela mulher ali," ele fez um gesto com a cabeça apontando para a porta do quarto, "é a mãe dela?"
"Eu aposto que sim," Kakashi respondeu por mim.
"Merda," Naruto praguejou. "Eu vou matar o desgraçado que fez isso." Não antes de mim. "Por que nem o sharingan detectou o chackra dela?"
"Crianças naturalmente tem um chackra menos expressivo do que de adultos, especialmente crianças civis," Kakashi explicou. "Além disso, obviamente ela passou por um evento traumático. Muitas vezes a circulação de chackra diminui em situações assim, como um mecanismo de defesa."
Sakura suspirou e se levantou, virando para trás para conversar conosco. "Ela não vai sair. Está muito assustada e desconfiada. Naruto tem razão; eu não sei nem se ela está me entendendo ou sequer ouvindo." Ela abaixou o tom de voz. "Nós teremos que tirá-la de lá a força. Eu sei que é horrível, principalmente depois de tudo o que ela deve ter passado, mas eu não consigo enxergar outra solução. Ela obviamente não pode ficar ali, e não podemos espera-la dormir. Temos que sair daqui o mais rápido possível. Não sabemos se é seguro."
Kakashi suspirou. Eu compreendi o que aquele suspiro quis dizer. Isso tudo é uma merda. "Você está certa. Temos que sair daqui e alertar a vila mais próxima caso alguém não tenha feito isso ainda."
"O que vai acontecer com ela depois que a tirarmos daí?" Naruto questionou.
"Nós vamos leva-la conosco. As autoridades da vila mais próxima saberão o que fazer com ela."
Um silêncio tenso pairou sobre nós. Ninguém estava inteiramente satisfeito com aquele único plano.
"Deixe-me tenta tirá-la de lá," eu anunciei de repente.
"Cuidado para não assustá-la ainda mais com o sharingan, Sasuke-kun," Sakura me instruiu, presumindo que eu iria coloca-la sob os efeitos de um genjutsu.
"Eu não vou usar o sharingan."
"Não seria bom se você a arrastasse."
"Eu não vou arrastá-la."
Sakura enrugou a testa em confusão. "Então, o que vai fazer?"
Eu dei de ombros. "Vou tentar convencê-la."
Os três me olharam como se uma segunda cabeça tivesse nascido nos meus ombros.
"Sasuke, sem ofensas, mas você não é exatamente o melhor em psicologia infantil aqui," Naruto me contrariou. Eu não discordava dele. Eu realmente não tinha o mínimo de psicologia infantil. As pessoas geralmente não tinham a menor dificuldade em gostar de Sakura e Naruto, inclusive crianças, e se nem eles conseguiram as chances de eu conseguir eram ínfimas.
Mas eu tinha que tentar. De certa forma eu me sentia conectada com aquela menina antes mesmo de olhar para o rosto dela. Eu sabia exatamente o que ela estava passando, e eu sabia muito bem que era a pior coisa que qualquer ser humano podia sentir. Na minha época eu não tinha ninguém que compartilhasse disso comigo. Não havia ninguém que pudesse me ajudar. Aquela garota, entretanto, agora, tinha. Eu era uma merda para consolar pessoas, muito menos em uma situação como aquela que nenhum consolo parecia existir, mas ela merecia que eu tentasse.
Portanto, ignorando os rostos surpresos dos meus colegas de time, eu me agachei exatamente onde Naruto e Sakura tinham estado. O cheiro de excrementos e urina era ainda mais forte de perto. Eu estendi uma mão para tirar as roupas de frente dela para que pudesse olhá-la nos olhos e, assim como Naruto disse, ela ficou ainda mais assustada e se recolheu sobre si mesma soltando um grunhido em protesto.
"Sasuke-kun, tome cuidado," Sakura me alertou.
Grandes olhos roxos me encararam de volta cheios de medo, cheios de lágrimas. Os cabelos negros dela estavam bagunçados, algumas mexas caindo sobre o rosto pequeno. As mãos dela apertavam a blusa na altura do peito, e as pernas dela se juntaram ainda mais. Ela não parecia ter mais que seis anos.
Eu não disse nada. Apenas a encarei diretamente nos olhos. Firme. Confiante. E ela me encarou de volta com medo. Porém, a medida que os segundos se passaram, a desconfiança com que ela me encarava diminuía, as mãos e pernas ficaram menos tensas. A umidade nos olhos diminuía.
Quase cinco minutos se passaram em silêncio até eu estender a minha mão na direção dela. A garotinha olhou para ela, depois para mim, e depois para ela, por mais um minuto. Eu não deixei de fitar o rosto dela. Eu não tenho certeza sobre o que eu queria que ela visse ou se o que ela via a estava ajudando, mas eu não voltei atrás na minha resolução.
Finalmente, pequenos dedos pegaram os meus muito maiores. A mão dela estava fria. De repente, ela se ajoelhou e se jogou nos meus braços, abraçando o meu pescoço com força.
Eu não sabia por que eu não me senti surpreendido. Eu não esperava que ela fizesse aquilo, mas, assim que ela o fez, não pareceu de forma alguma estranha. Eu não me senti desconfortável como normalmente me sentia com contatos corporais – e eu era pior ainda no que se tratava de crianças, especialmente as assustadas e que acabaram de passar pelos eventos mais traumatizantes das suas vidas.
Mas ela não me soltou. Ao invés disso, se agarrava cada vez mais forte, o seu pequeno rosto molhado no meu pescoço. Eu me levantei com ela no meu colo, e ela enlaçou as suas pernas no meu tronco. Parecia um polvo me envolvendo.
Eu relanceei para os rostos de Kakashi, Naruto e Sakura. Todos estavam boquiabertos, olhos arregalados, não acreditando no que estavam vendo. Se fosse qualquer outra criança ali, nos meus braços, eu provavelmente reagiria da mesma maneira que eles.
Eu segurei a cabeça dela contra o meu ombro para que ela não a levantasse e visse a carnificina. Ela não precisava de mais aquela memória para assombrá-la. O que quer que ela tivesse visto já era o suficiente para traumatizá-la pelo resto da vida.
"Ninguém nunca mais vai te machucar," eu sussurrei para ela quando saímos do vilarejo.
Xxxx
A.N.: Eu sei que eu não devia começar uma outra história, mas eu não resisti, e aqui está ela. Talvez ela continue sendo uma one-shot, talvez eu a continue, eu ainda não sei. Por favor, me digam o que acham – especialmente se acham que o Sasuke está meio OOC! Ele é um personagem extremamente difícil de escrever. Ele pode não dizer muita coisa, mas, na minha humilde opinião, muitas coisas ainda se passam na cabeça dele, e eu espero que o que eu escrevi esteja perto dessa realidade.
Muito obrigada mais uma vez e, por favor, me digam o que acham!
Obs.: o título vem da música "You Are Not Alone", Eagles.
