Você Não Está Sozinho
Capítulo 2
A garota dormia profundamente nas minhas costas. Nós corríamos para encontrar um lugar apropriado onde passar a noite e, mesmo comigo pulando de galho em galho, ela não pareceu se incomodar. Devia estar exausta.
Ela não era a única.
"Aqui," Kakashi disse de repente, quebrando o silêncio que reinava entre nós desde que saímos do vilarejo destruído. Ele nos direcionou até uma clareira e não esperou um instante antes de anunciar que sairia em busca de madeira para acender uma fogueira.
"O que eu faço com ela?" eu perguntei a Sakura, apontando com a cabeça para a garota praticamente roncando em mim.
"Pode segurá-la só para eu desenrolar o meu saco de dormir?" Eu assenti e esperei Sakura tirar o item da sua mochila. As nossas vozes não foram capazes nem de fazer a garota se mexer. "Deixe que eu te ajude a deitá-la."
Eu senti Sakura puxar o tronco da garota para trás, tentando desprende-la das minhas costas, e ela, dormindo, foi sem oferecer a menor resistência. Ela realmente deveria estar exaurida para não sentir o toque de Sakura. Não tinha permitido que ninguém além de mim a tocasse desde que a encontramos dentro do armário. Sakura tentou carrega-la um pouco durante a viagem, mas a garota se agarrou ao meu pescoço e apertou as suas pernas pequenas ao redor da minha cintura assim que Sakura sugeriu a troca de posições. Naruto e Kakashi nem tentaram. O resultado provavelmente seria o mesmo.
"Você está bem?" Sakura me perguntou depois que colocamos a garota ainda dormente no saco de dormir.
"Sim. Ela não é pesada." A garota devia pesar quase tanto a minha mochila – que era carregada por Naruto. Os meus braços praticamente não sentiram o peso dela.
"Não foi exatamente isso o que eu quis dizer," ela disse. "Você está bem com... tudo isso?"
"Estou." Eu soava convicto, mas não estava. Não estava exatamente confortável com a garota, e a recíproca não era verdadeira. Eu parecia ser o único que ela parecia tolerar e isso não era uma coisa boa. Eu era a pior pessoa de quem ela poderia depender. Eu entendia perfeitamente bem o que ela passou, mas não sabia confortá-la. Não sabia cuidar dela. Não era bom para ela.
Mas, se ela pensava que eu era o que ela necessitava naquele momento, eu nada podia fazer. Nem eu nem ela sabíamos o que era bom ou não para aquela situação.
Sakura não pareceu convencida da minha resposta, mas, para o meu alívio, não fez mais perguntas sobre mim. Eu não saberia nem quereria responder. Ela olhou para a garota adormecida profundamente, envolta pelo seu saco de dormir. "Pobrezinha... Ela está tão assustada..." Sakura suspirou e tirou uma mecha de cabelo do rosto. "Eu espero que possamos encontrar pelo menos alguma pista de quem fez isso. Você acha que ela nos dirá alguma coisa?"
"Não agora. Ela não tem condições nesse momento."
Kakashi voltou com madeira suficiente para fazer uma pequena fogueira e pediu que eu a acendesse. Naruto trouxe consigo vários dos seus ramens instantâneos e Sakura pegou alguns deles para preparar como jantar. Eles eram uma merda – e eles foram deixados por último justamente por isso –, mas era o que tínhamos disponível. O meu plano de renovar o meu estoque na Vila do Tornado foi adiado pelo encontro com o vilarejo destruído, e eu não tinha outra opção senão me contentar com aquelas porcarias que Naruto trazia.
"Eu acho que deveríamos acordá-la." Sakura apontou para a garota que ainda dormia como se nada estivesse acontecendo ao seu redor. "Não sabemos quando foi a última vez que ela comeu. Temos uma longa viagem amanhã e talvez demore horas até que paremos para comer novamente. Eu não quero que ela passe mal por falta de comida."
"Mas ela parece estar dormindo tão pesado. Seria uma pena acordá-la," Naruto comentou.
"Sei que sim, mas eu acho que seria melhor ela comer agora. Ela pode voltar a dormir depois – e talvez ela durma ainda melhor de estômago cheio."
"Ela tem razão," Kakashi interveio. "Depois de tudo o que vimos hoje, temos uma urgência ainda maior de chegar no Tornado. Eu não pretendo fazer muitas pausas até lá, muito menos para fazer uma refeição."
Todos olharam para mim, como se esperassem uma opinião, mas eu apenas dei de ombros. Eu confiava em Sakura. Ela era a médica do time e a pessoa que mais tinha sensibilidade com crianças ali. Sabia melhor do que nós três juntos o jeito certo de trata-la. Além disso, não era como se eu fosse a porra do responsável dela.
"Seria melhor se você a acordasse, Sasuke-kun," ela disse. "Você é o único em quem ela confia. Com toda a certeza ela se assustaria se um de nós três a acordasse."
Eu olhei para a garota ao meu lado. Naruto estava certo: ela dormia profundamente, como se toda a sua família não tivesse sido assassinada bem diante dos seus olhos. Estava tranquila. Se não fosse o tórax dela subindo e descendo com a sua respiração eu consideraria pedir a Sakura que a checasse para me certificar de que ela estava viva de tão sonolenta que a garota estava.
Eu estiquei a mão e sacudi um dos seus ombros. Nada. Fiz uma segunda vez e obtive o mesmo resultado. "Ei," eu chamei enquanto balançava pela terceira vez o seu ombro, dessa vez mais forte. Ela abriu os olhos lentamente. Quando pareceu perceber que estava em um lugar estranho rodeado de estranhos ela se sentou bruscamente, assustada. Ela teria se arrastado na direção oposta ao círculo que nós quatro formávamos se eu não tivesse segurado o seu braço, forçando-a a se virar para mim.
"Está tudo bem," eu tentei tranquiliza-la quando os seus olhos roxos encontraram os meus. O corpo dela tremia sob os meus dedos. Eu fiquei encarando-a durante os quase dois minutos até que ela regularizasse a sua respiração e sentisse que nós não iríamos machuca-la. Um silêncio tenso pairou sobre o local. Ninguém disse nada durante esse período, como se qualquer palavra fosse fazê-la sair correndo para dentro da floresta.
"Você tem que comer," eu expliquei quando ela já estava mais calma. Imaginei que ela fosse protestar, mas quando os seus olhos viajaram para a fogueira onde Sakura preparava as porcarias de macarrões instantâneos a sua resistência se desfez. O estômago dela roncou alto, confirmando a teoria de Sakura de que ela tinha fome.
"Tome. Não é tão ruim quanto parece." Com um sorriso, Sakura estendeu uma tigela com o macarrão quente. A garota alternou os seus olhos escuros entre a tigela e a pessoa que a oferecia, desconfiada, e depois para mim. Parecia pedir a minha aprovação, como se eu pudesse garanti-la de que era seguro comer aquela comida.
Eu peguei a tigela de Sakura e coloquei nas mãos da criança. Se ela queria a minha aprovação, aí estava ela. Ela me encarou mais uma vez. Não precisa ter medo, eu quis dizê-la, mas não o fiz. Eu esperava que ela entendesse sem a necessidade de palavras.
E ela entendeu.
Sem mais hesitações ela arrancou a tigela da minha mão com tanta brusquidão que eu quase me assustei e deixei tudo cair. Usando a colher, ela comia com avidez, sujando a sua roupa e rosto no processo. Eu empurrei a testa dela para trás com a ponta dos meus dedos quando ela se abaixou para dar mais uma colherada. "Devagar," eu a ordenei. Aquela garota acabaria passando mal se comesse naquela velocidade.
Quando terminou ela me devolveu a tigela e eu a passei de volta para Sakura. O silêncio tenso voltou a se instalar. Ninguém sabia o que dizer agora que a garota estava acordada. Eu troquei um olhar com Sakura, esperando que ela tomasse alguma atitude. Afinal, ela era a pessoa com a maior sensibilidade com crianças ali. Eu apostava que ela seria a pessoa ideal para tomar as rédeas da situação, mas ela parecia tão perdida quanto eu, Naruto e Kakashi.
Para a minha surpresa, foi Naruto quem limpou a garganta antes de quebrar o silêncio: "Como você esteve dormindo esse tempo todo, não tivemos a oportunidade de nos apresentar. Eu sou Naruto." Ele apontou o polegar para o próprio peito. "Esse é Kakashi-sensei, aquela moça bonita é a Sakura-chan, e esse branquelo de quem você parece gostar é Sasuke. Você pode nos dizer o seu nome?"
A garota encolheu as pernas, dobrando os joelhos e se aproximou de mim. Os seus dedos agarraram a minha calça.
"Nós não vamos te machucar," Sakura disse quando a garota não deu sinais de que iria responder Naruto. "Eu sei que é difícil para você acreditar em mim, mas eu prometo que nós nunca iremos fazer qualquer coisa ruim a você."
As palavras acalentadoras de Sakura não pareceram surtir o efeito esperado. A garota nada mais fez além de se encolher ainda mais contra mim.
Eu balancei a cabeça para os três. A menina não iria falar. Não agora. Tudo estava recente demais. Eu sabia perfeitamente bem o que se passava na cabeça dela. Eu também não queria falar com ninguém quando fui tirado do Complexo Uchiha naquela noite. A situação dela era ainda pior. Ela estava rodeada de pessoas que ela nunca vira na vida. Ela não sabia se éramos inimigos ou não.
"Volte a dormir," eu a instrui olhando naqueles grandes olhos roxos. "Vamos recomeçar a viagem pela manhã."
Ela continuou a me encarara por alguns instantes antes de voltar a se enrolar no saco de dormir de Sakura. Deitou-se de lado com o rosto virado para mim. Naruto, Kakashi e Sakura recomeçaram uma conversa leve sobre a viagem do dia seguinte, tentando restaurar a normalidade do grupo apesar da presença de uma garota traumatizada. Eu continuei a encarar a menina até que as pálpebras dela ficaram tão pesadas que ela não teve outra opção senão voltar a dormir rapidamente.
"Ela só pode estar realmente muito abalada pelo o que aconteceu para confiar em alguém como Sasuke-teme," Naruto comentou com um suspiro.
"Você só está com inveja porque pela primeira vez na história alguém é mais amigável com Sasuke do que com você," Sakura rebateu.
"Bem, não é a primeira vez na história," Kakashi comentou com uma piscadela para Sakura – cujo rosto adquiriu uma tonalidade levemente rosa. Eu desviei o meu rosto para a garota adormecida para esconder um esboço de sorriso.
Os sentimentos de Sakura se tornaram uma incógnita desde que eu me reestabeleci em Konoha dois anos atrás. Ela nunca deixou de ser cordial comigo, mas nada mais além disso. Ela não me tratava diferente de Naruto, o imbecil do Sai ou qualquer outro homem da sua vida.
Confesso que me senti um pouco deslocado com essa mudança de postura dela. Era algo com o qual eu havia me acostumado, por bem ou por mal. Eu já tinha certas dificuldades em me readaptar a Konoha; a mudança de Sakura em relação a mim não me ajudava.
Não que eu me sentisse confortável com as antigas demonstrações explícitas de afeto dela. Ouvi-la proferir os seus sentimentos aos quatro ventos não era algo com o qual eu sabia lidar. Entretanto, era algo estável na minha vida, algo que eu sempre imaginava que estivesse lá. Saber que eu teria que me adaptar a mais uma mudança não me agradava.
Combinamos que Kakashi seria o responsável pelo primeiro turno de vigilância. Naruto gritou que queria ser o último para poder dormir mais e não deixou espaço para nenhum argumento ao se enfiar no seu saco de dormir e fingir um ronco alto. Eu ficaria com o segundo e Sakura com o terceiro.
"Use o meu saco de dormir," eu disse a Sakura. O que ela usava estava com a garota.
"Não há necessidade, Sasuke-kun. Eu fico com o de Kakashi-sensei."
"Você terá que acordar para sair dele quando Kakashi terminar o turno. Fique com o meu."
"Vai acontecer o mesmo com você se usar o dele."
"Eu não vou usar o saco de dormir de Kakashi."
Ela enruga a testa. "Por que não?"
Eu escorei as minhas costas no tronco de uma árvore atrás de mim, esticando as minhas pernas ao lado da garota que continuava a dormir, assim como nas previsões de Sakura, ainda mais pesadamente agora que tinha comido. "Eu estou bem aqui. Pode usar o meu."
"Sasuke-kun, não te fará bem passara noite dormindo sentado escorado em uma árvore."
"Já dormi em lugares piores. Vá dormir, Sakura. Está perdendo o seu tempo."
Ela balançou a cabeça em reprovação e resmungou algo que soou com "homens idiotas" antes de pegar o meu saco de dormir da minha bolsa e estica-lo ao lado de Naruto.
Eu fechei os olhos para tentar dormir, mas não consegui. Eu estava muito cansado, mas as memórias da pior noite da minha vida me assombravam a ponto de me tirar o sono. Há anos eu não me permitia lembrar delas, mas os eventos do dia tornaram impossível manter aquelas lembranças em cheque.
Seria impossível dormir naquela noite.
"Kakashi."
"Hum?" o Hatake me respondeu distraidamente, lendo o seu livro pornográfico mesmo na escuridão.
"Pode dormir. Não estou com sono."
Ele interrompeu a sua leitura para me fitar do outro lado do acampamento. "Tem certeza?" Eu assenti. Absoluta. Eu não dormiria tão cedo – se é que dormiria. Ele respirou fundo e fechou o livro. "Você deveria tentar um pouco mais. Temos um longo dia amanhã."
"Eu estou bem."
"É óbvio que não está." Ele apontou com a cabeça para a menina dormindo. "A história dessa garota está mexendo com você, não está?"
Era claro que estava, mas eu não queria conversar sobre isso. "Eu estou bem. Só não vou conseguir dormir. Seria burrica nós dois ficarmos acordados se eu já vou fazer isso de qualquer maneira."
Ele deu de ombros e se levantou. "Tudo bem. É você quem sabe. Só não vá dormir durante a vigília."
"Hn." É lógico que eu não iria fazer isso nem se quisesse. Os meus pensamentos garantiriam que os meus olhos ficariam abertos o tempo todo.
Xxxx
Viajamos por quase um dia inteiro. O meu cansaço fazia as horas parecerem semanas. Eu não me manifestei, entretanto. Tínhamos que correr o mais rápido possível para informar Tornado sobre o genocídio o quanto antes.
Mais uma vez, a garota se recusou a sair das minhas costas. Quando Kakashi sentiu chackras a distância e nos ordenou que parássemos, eu pedi a menina que fosse para o colo de Sakura. Havia a possibilidade de um combate, especialmente após a violência que testemunhamos, e eu tinha que ter as minhas mãos livres caso houvesse a necessidade de usá-las. Ninguém conseguiu convencê-la a sair das minhas costas. Tivemos sorte de os chackras que Kakashi identificou serem de pessoas inofensivas.
Chegamos no Tornado ao anoitecer. Kakashi sugeriu que deixássemos para o dia seguinte a conversa como líder da vila e fôssemos direto para o hotel. Ninguém discordou dele. A conversa que se teríamos com o governante seria longa. Ao invés de se tratar de apenas um assunto, como imaginávamos quando saímos de Konoha, agora, deveríamos discutir sobre três: a aliança política, o genocídio no vilarejo e o destino da garota. Todos julgamos melhor estarmos descansados para a reunião.
A garota concordou em descer das minhas costas quando chegamos na vila, mas não se permitiu ficar muito longe de mim. Ficou ao meu lado, com os ombros encolhidos, durante todo o trajeto até o hotel. Quando passamos por um pequeno aglomerado de pessoas ela agarrou a minha calça e não a soltou até entrarmos no quarto. Eu, Sakura e a garota ficaríamos em um; Naruto e Kakashi no outro.
Sakura entrelaçou os dedos e esticou os braços em cima da cabeça assim que fechamos a porta do quarto atrás de nós. "O que acha de tomarmos os nossos banhos e depois sairmos para comer? Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou faminta!"
Eu assenti em concordância. A garota ficou em silêncio, mas não era difícil de se deduzir que ela sentia o mesmo. Comemos apenas porcarias durante toda a viagem que não foi suficiente para me satisfazer. Uma refeição decente não seria nada mal.
Sakura trocou um olhar silencioso comigo e apontou com a cabeça para a garota e depois para o banheiro. Ela também tem que tomar banho. Eu praguejei mentalmente. Ainda não tinha pensado nessa parte. Eu não sabia a idade certa dela – eu não sabia nem o nome dela – mas suspeitava que ela não era velha o bastante para fazer isso sozinha. Eu não sabia dar banho em crianças; eu não sabia absolutamente nada sobre crianças. Sakura teria que fazer essa tarefa por mim. A menina não estava confortável com ela, mas eu não conseguia pensar em outra opção.
"Vá primeiro. Eu converso com ela," eu disse. Eu falava como se soubesse o que fazer, mas a verdade era que eu não tinha ideia de como abordar aquele assunto. Obviamente nunca tinha tido essa experiência.
Sakura não discutiu, o que significava que ela concordava comigo – e eu suspeitava que ela sabia o que se passava na minha cabeça. Saber que ela imaginava que eu estava fazendo a coisa certa me trouxe um pouco de alívio. Afinal, ela era a única ali que parecia saber alguma coisa sobre crianças.
Eu e a menina ficamos a sós depois que Sakura entrou no banheiro. Ela ficou de pé ao lado da cama, olhando para baixo. Parecia encabulada. Eu não podia culpa-la. Eu também não ficaria a vontade em um quarto com um adulto estranho depois de ver a minha família sendo assassinada. A postura ligeiramente defensiva dela, mesmo comigo, me confortou. Significava que ela não era tão ingênua quanto parecia. Ela ainda era uma criança e não tinha maturidade para tal, mas ela precisava ser alerta e desconfiar de tudo e de todos.
"Me fale o seu nome." Eu cruzei os braços e me aproximei dela. Ela se encolheu ligeiramente mais.
Ela ficou em silêncio, olhando para a barra da blusa.
"Você é muda?"
Ela balançou a cabeça em negativa.
"Então me fale o seu nome."
Ainda com a cabeça baixa, ela ergueu os olhos roxos para mim. Parecia me inspecionar, avaliando se eu era um homem digno ou não do seu nome.
"Nami," ela finalmente respondeu com um sussurro que eu quase não ouvi, voltando a olhar para baixo.
"Quantos anos você tem?"
Ela levantou quatro dedos. Era mais nova do que eu pensava.
"Sabe tomar banho sozinha?"
"Não," ela resmungou. "Mamãe não deixa eu tomar banho sozinha. Ela me falou que eu ainda sou pequena." Os lábios dela tremeram e antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela chorava. "Eu quero a minha mãe..."
Merda. Aquilo não poderia ter evoluído de forma pior. Eu não sabia lidar com pessoas chorando, muito menos crianças. Entretanto, uma estranha sensação se alojou no meu estômago. As lágrimas dela me deixavam... desconfortável, como se não fosse certo ela chorar. Eu não a conhecia, mas tinha a mais absoluta certeza de que ela não merecia aquelas lágrimas.
Eu entendia o que ela estava passando melhor do que ninguém que ela viesse a conhecer. Isso não significava que eu sabia o que fazer. Por quase um minuto eu fiquei olhando para a garota chorosa sentada na cama. Ela tremia e soluçava, mas não fazia muito barulho. Era um choro contido. Talvez ela tivesse se acostumado a chorar discretamente dentro daquele armário, imaginando que alguém voltaria para matá-la.
Eu praguejei Sakura mentalmente por me deixar na mão em uma hora dessas. Eu aposto que até mesmo Naruto, o mais obtuso de todos, teria alguma ideia do que fazer. Eu não. Mas eu sabia que seria insensível deixa-la chorando sozinha bem na minha frente. Sakura certamente brigaria comigo caso eu o fizesse. Eu tinha que fazer alguma coisa – qualquer coisa.
Eu engoli em seco antes de me sentar na cama ao lado dela e colocar uma mão no topo da cabeça dela. As mãos pequenas dela estavam fechadas em punho sobre as coxas dela.
"Você..." Eu pigarreei. Droga. Eu não era nada bom nisso. "Você pode me falar sobre o que aconteceu. Se quiser."
Ela ergueu a cabeça e me encarou, os lábios contorcidos por causa do choro. "Mamãe e papai nunca mais vão acordar?"
"Não." Eu fiz uma pausa. "Sinto muito." Não adiantaria embelezar a situação com eufemismos com aquela garota. Tudo indicava que ela viu o que aconteceu e que tinha pelo menos uma noção do que significava. Usar palavras gentis não iria apagar da memória o que ela viu.
"Por que os homens malvados machucaram mamãe e papai?" ela lamuriou, chorosa. "O que mamãe e papai fizeram? Eles fizeram alguma coisa feia?"
Eu não poderia dizer que não. Eu não sabia nada daquela história, não sabia o que motivou os assassinatos. "Nós vamos tentar descobrir."
"Você é malvado?"
Eu não deveria mentir para aquela garota. Eu era malvado – ou pelo menos fiz muitas coisas que ela consideraria más. Entretanto, eu era a única pessoa ali em quem ela confiava. Eu não podia tirar isso dela – por mais errada que ela estivesse. Ela não teria ninguém se eu dissesse que, sim, eu era mal, e que se apoiar em mim não era a decisão mais sábia.
"Eu não vou te machucar," foi o que eu acabei dizendo. "Ninguém aqui vai."
Ela voltou a olhar para baixo e a chorar, soluçando.
Eu estava dando batidinhas desajeitadas na cabeça da garota – Nami – quando Sakura saiu do banho, vestida e com o cabelo molhado. Ela imediatamente percebeu que Nami estava chorando e, com a testa enrugada, mexeu os lábios silenciosamente: "O que está acontecendo?" Eu dei de ombros e apontei com o queixo para a menina. Me ajude.
Ela suspirou e se sentou na cama do outro lado de Nami. "Querida, está tudo bem agora. Você está segura. Ninguém mais vai te machucar, está bem? Posso te tocar?" Nami balançou a cabeça e deslizou para mais perto de mim, agarrando a manga da minha blusa e escondendo o rosto no meu braço. "Tudo bem. Eu não vou encostar em você. Ninguém vai fazer nada que você não queira. Eu só queria que você soubesse que todos nós só queremos te ajudar. Você quer me falar alguma coisa – ou falar para Sasuke?" A resposta foi a mesma. "Não tem problema. Nós estaremos aqui quando estiver pronta."
Eu e Sakura trocamos um olhar. Eu apontei para o banheiro. Ela precisa se lavar.
Como de costume, Sakura entendeu perfeitamente. "Que tal tomar um banho? Tenho certeza que você se sentirá melhor. A água está quentinha e muito boa. O que acha?"
"Ela não faz isso sozinha," eu a interrompi.
Sakura arregalou os olhos. "Ela falou com você?" Eu assenti. Ela ficou mais surpresa ainda. "Uau, hum, tudo bem. Eu não acho que seria legal se Sasuke te desse o banho nem nenhum outro dos meninos, certo? Você acha que eu posso te ajudar, querida?" Ainda aninhada contra o meu braço, a menina pareceu pensar. "Eu não vou te machucar, eu juro. Eu só vou te tocar se você deixar, se precisar de mim. Se quiser, Sasuke pode ficar no banheiro com a gente. Você se sentiria melhor assim?"
Nami demorou quase trinta segundos para assentir contra o meu braço. Eu ouvi Sakura suspirar em alívio.
O banheiro era pequeno demais para nós três. Tivemos que nos espremer para que coubesse todos. Eu olhei para os meus pés enquanto Nami tirava a roupa – recusando a ajuda de Sakura. Ela entrou no boxe e Sakura ligou o chuveiro. Sakura deixou que ela passasse o sabonete sozinha, instruindo-a sobre os locais corretos. Entretanto, ela hesitou em deixar a garota lavar o cabelo por si só.
"Você ficaria chateada se eu passasse o xampu em você?" ela perguntou. "É só porque estou com medo que caia nos seus olhos. Eu não vou te machucar, prometo." Aquela deveria ser a milésima vez que Sakura assegurava a menina que não iria fazer nada de mal a ela. Nami olhou para mim, mais uma vez pedindo a minha aprovação. Eu meneei a cabeça em concordância e, de braços cruzados, me aproximei do chuveiro para que ela visse que eu estava ali.
Ela deixou. Permitiu também que Sakura a secasse no fim do banho.
"Sasuke-kun, você pode me trazer a minha mochila, por favor?" ela me pediu. "Tem uma blusa minha lá que ela pode usar por enquanto."
Eu fiz o que Sakura pediu. A garota ofereceu pouca resistência quando Sakura vestiu a blusa nela. O tempo todo os olhos dela me procuravam. A blusa ficou enorme para ela, obviamente, mas com certeza era melhor do que as que ela usava anteriormente, sujas, ensanguentadas. Assim que terminou de se vestir ela voltou para o meu lado, agarrando a minha calça.
"Vá dormir um pouco," eu disse. "Eu vou te acordar quando formos sair para comer alguma coisa."
Ela não protestou. Deveria estar exausta, como era de se esperar. Foi uma viagem longa, cansativa e nada confortável. Eu a conduzi até uma das camas de solteiro. Ela se enfiou debaixo das cobertas e me olhou com aqueles olhos roxos enormes: "Você fica comigo até eu dormir?"
Eu olhei de relance para Sakura. Ela sorria para mim um sorriso ao mesmo tempo simpático e triste. De braços cruzados eu voltei a me sentar ao lado dela no colchão, e esperei até que a respiração dela estivesse profunda e regular para me retirar par tomar o meu banho.
Xxxxx
A.N.: Aí está o segundo capítulo. Eu estou começando a achar essa ideia um pouco pior do que imaginei. A interação de Sasuke com uma criança realmente não foi algo fácil de se escrever. Espero que tenha ficado dentro da personalidade dele! O que acharam?
Ah! Eu não sei se eu disse isso antes, mas essa história é SasuSaku – como sempre. Eles vão se desenrolar mais para frente, eu garanto.
