Você Não Está Sozinho
Capítulo 3
Sakura quis me ceder a cama quando eu saí do banho para dormir. Eu recusei. Não havia sentido dois adultos dividirem uma cama pequena. Eu disse que poderia dormir no chão sem problemas. Era verdade. Eu já tinha dito a ela que já estive em lugares muito piores. Sakura não gostou muito da ideia, mas eu não dei brechas para discussão. Eu estava cansado e sem ânimo para conversas infrutíferas como aquela.
Eu me deitei ao pé da cama de Nami. Talvez ela se sentisse segura comigo por perto. Depois de quase dois dias inteiros em claro, dormi quase instantaneamente.
Eu só percebi o meu nível de cansaço quando Sakura me acordou. Geralmente eu era o primeiro a despertar.
"Que horas são?" eu perguntei e me sentei imediatamente. Os meus olhos procuraram a garota antes que eu percebesse. Ela ainda dormia enrolada nas cobertas.
"Quase dez," Sakura me respondeu. Já estava completamente vestida. Eu não sei como eu não a ouvi se arrumando. Devia estar mais cansado do que imaginava. "Kakashi e Naruto foram conversar com o líder do Tornado. Pode continuar a dormir, se quiser. Eu vou sair só por alguns minutos para tentar achar roupas para a Nami."
Eu não queria dormir mais. Já achava que tinha desperdiçado tempo demais desacordado. Mas eu não tinha outra opção. Não podia sair com Sakura e deixar a garota sozinha, mas também não queria acordá-la. Ela precisava se recuperar.
"Vou trazer alguma coisa para comerem, está bem?" ela me disse enquanto eu me levantava. Eu assenti. "Durma um pouco mais na cama."
"Não estou com sono."
Ela me encarou desconfiada. "Tem certeza? Não faria mal nenhum dormir uma horinha mais."
"Tenho."
Ela suspirou. "Tudo bem. Então, eu já vou. Volto bem rápido, está bem? Quer mais alguma coisa da rua?" Eu neguei com a cabeça.
Sakura estava saindo quando eu olhei de relance mais uma vez para a garota. Ela dormia tranquilamente, como se o mundo não tivesse desabado diante dos seus olhos. Parecia uma criança sem qualquer preocupação. Mas eu sabia que isso estava longe de ser verdade.
"Sakura."
Ela parou com uma mão na maçaneta para me olhar.
Olhei mais uma vez para a garota. "O que vai acontecer com ela?"
Sakura soltou a maçaneta e soltou um suspiro triste, também fitando a menina. "Eu não sei," ela respondeu com pesar. "Kakashi disse que vai conversar sobre isso com o líder daqui. Ele também não sabe como proceder em uma situação como essas. Se eu pudesse adivinhar, eu diria que ela ficará aqui. É a vila mais próxima daquele vilarejo."
Eu não gostei de imaginá-la aqui, sozinha. "Acha que eles a colocarão em um orfanato?"
"Provavelmente. Mas eu não tenho certeza de nada. Temos que esperar a resposta do líder."
Aquilo me deixou inquieto. Os meus instintos me sussurravam alguma coisa. Aquilo não me caiu bem. Eu não sabia explicar por quê.
"Sasuke-kun." Eu só percebi que estava com os olhos fixos na garota quando Sakura chamou o meu nome. "Vai ficar tudo bem."
Eu não tinha tanta certeza assim.
Eu acordei a garota quando Sakura voltou com as compras e o café-da-manhã. Ela despertou tão assustada quanto no dia anterior, mas não demorou muito para se tranquilizar. Sentados na cama, eu e ela comemos em silêncio a comida que Sakura trouxera. Era muito melhor do que os macarrões de Naruto.
Eu limpei a cama quando terminamos. Os olhos da menina estavam sobre mim o tempo todo. Garota boba. Ela ainda devia achar que alguém a atacaria se eu não estivesse por perto.
Eu não entendia essa fixação dela por mim. Obviamente tínhamos histórias parecidas, mas ela não sabia disso. Teria ela instintos tão fortes quanto os meus para concluir, sem ter a menor ideia, que eu era parecido com ela?
"Gostou da comida?" Sakura perguntou com um sorriso caloroso.
A garota não respondeu. Desviou os grandes olhos roxos para mim, receosa. O que ela queria que eu fizesse? Que eu respondesse por ela?
"Você pode falar com Sakura. Ela não vai te fazer mal," foi o que eu acabei dizendo quando o silêncio começou a ficar constrangedor. Eu queria que ela conversasse com mais alguém. Eu não estava exatamente confortável sendo a única pessoa com quem ela falava. Isso implicava uma responsabilidade sobre mim que eu não apreciava. Seria mais sensato e benéfico para todas as partes – principalmente para a criança – se eu dividisse esse fardo com alguém. Não havia ninguém no mundo melhor que Sakura para isso.
Ela abraçou os joelhos dobrados contra o peito e não fez o que orientei.
Sakura não se deu por vencido – para o meu alívio. "Eu comprei roupas novas para você. Quer vê-las?"
A menina me olhou. Merda. Por um acaso eu era o porta-voz dela?
"Diga que quer," eu disse.
Sakura me encarou depressa com uma expressão reprovadora. O que eu tinha feito de errado? Ela devia querer ver as roupas – como eu ia saber uma merda dessas? Eu não era garota nem criança. Não sabia o que se passava na cabeça dela.
Sakura se voltou para Nami. "Eu vou deixar as roupas em cima da cama para que você possa escolher o que vestir, tudo bem? Se não gostar de algo, pode me dizer – ou dizer para o Sasuke. Eu vou sair para jogar os restos de comida no lixo. Você pode fazer o que quiser. Sasuke vai ficar aqui com você."
Eu olhei para Sakura de cenho franzido. Eu não gostei daquela ideia. Queria que ela ficasse comigo e a garota. O que eu deveria fazer com uma menina de quatro anos escolhendo roupas?
"Sakura," eu disse baixo por entre os dentes depois que Sakura dispôs as roupas na cama desocupada. "Fique aqui."
"Ela não fica à vontade comigo, Sasuke-kun," ela cochichou de volta. "Eu não vou demorar. Volto em alguns instantes."
Ela nos deixou a sós. Eu olhei para a menina. Ela me olhou de volta. Ninguém tinha a menor ideia do que fazer. Eu baguncei o meu cabelo em frustração.
"Veja se gostou das roupas," eu instruí, de pé e braços cruzados.
Relutante, Nami desceu da sua cama para averiguar as roupas. Ela levantou uma blusa rosa com desenhos estampados e me fitou.
"O que foi?"
"Eu não gosto de rosa," ela resmungou.
Eu suspirei. Mais uma prova do quão perdido eu estava. Eu podia jurar que meninas da idade dela gostavam de rosa.
"Tem outras roupas de outras cores. Escolha outra."
Ela pegou um vestido azul marinho de mangas compridas com uma flor amarela no meio. "Gosto desse."
"Então vista."
Ela me olhou.
"O que foi?"
"Você é menino," ela disse.
Agora ela estava envergonhada? "Eu te vi tomando banho ontem."
"Mas Sakura-san estava lá e ela é menina!"
Eu não entendia aquela garota. Eu imaginei que a minha presença no banheiro fosse tranquiliza-la, que ela estivesse apreensiva por causa de Sakura.
Eu abri a boca para discutir e entender o que, diabos, estava acontecendo, mas desisti logo em seguida. Não ia adiantar argumentar com uma criança de quatro anos que eu não conhecia.
"Você quer que eu saia?" eu perguntei, tentando ser paciente.
Ela balançou a cabeça em negativa.
Que porra –
"O que você quer fazer?"
Ela abaixou os olhos, encabulada, e resmungou: "Você pode virar de costas?"
Eu fiz o que ela pediu com um suspiro impaciente e esperei de braços cruzados. Eu não sabia que era tão complicado uma criança trocar de roupa. Deixei os meus ouvidos apurados para tentar acompanhar o processo sem vê-lo.
"Acabou?" eu perguntei quando o som de tecido se mexendo cessou.
"Acabei."
Eu me virei e a observei. De acordo com o meu limitadíssimo conhecimento sobre vestimenta infantil, a roupa serviu. Nami pareceu ter gostado do que viu. Ficou olhando para o vestido por alguns segundos. Eu agradeci a Sakura mentalmente mais uma vez por estar ali. Eu muito provavelmente teria feito alguma merda se tivesse ido pessoalmente comprar roupas para uma menina.
"As mangas estão grandes," ela comentou e levantou os pulsos para que eu os visse. E, realmente, os dedos dela estavam quase completamente cobertos por tecido.
"Venha aqui." Ela veio até mim e eu me abaixei para dobrar as mangas. Sentia os olhos dela sobre o meu rosto o tempo todo. Quando ergui os meus para encontra-los, perguntei: "O que foi?"
"Por que você é tão triste?"
Por um ínfimo segundo eu parei o que estava fazendo por ter sido pego de surpresa. "Do que você está falando?"
Ela deu de ombros depois que terminei de ajuda-la e me ergui. "Você parece triste."
"Eu não sou."
"Mas parece."
"Mas não sou. Você não me conhece. Não fale sobre coisas que não são da sua conta."
Eu não sabia por que aquela pergunta me irritou tanto. Sabia também que eu não deveria falar naquele tom com uma criança, mas as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar.
Os lábios da menina tremeram e os olhos se encheram de lágrimas. Droga. Em um segundo eu estava ajustando as mangas dela e no outro ela estava chorando, baixo.
"Eu quero a minha mãe!" ela gritou, grossas lágrimas escorrendo pelas bochechas dela. "Eu quero voltar para a minha casa!"
Eu não sei quantas vezes eu praguejei dentro da minha cabeça. Se existia uma pessoa nesse mundo capaz de fazer uma criança inocente chorar em menos de trinta segundos, esse alguém era eu. Onde estava Sakura quando se precisava dela?
"Você não pode mais voltar para casa," eu disse, sem a menor ideia do que fazer.
"Eu quero a minha mãe!"
"A sua mãe se foi. Ela não vai voltar mais."
"Mas eu quero que ela volte!" Os dedos pequenos dela se fecharam em punho e ela bateu o pé.
"Nem sempre o que você quer acontece. Infelizmente ela não vai voltar. Vai ter que aprender a viver com isso."
"Eu não quero aprender nada! Eu quero a minha mãe!"
"Pare de querer a sua mãe! Ela se foi e nunca mais vai voltar!"
Por que ela não entendia isso? Ela tinha visto os pais dela mortos, não tinha? Por que ela não compreendia que ela estava sozinha agora? Não adiantava nada desejar que os pais voltassem. Eu sabia disso por experiência própria. Ela estava sendo uma idiota se ainda esperava que eles reapareceriam.
Ela se foi e nunca mais vai voltar. Eram aquelas mesmas palavras que eu me disse por tantos anos. Eles estão mortos. Nada do que eu fizesse os trariam de volta. Chega de chorar. Siga em frente. O máximo que você pode fazer é vinga-los. Pare de chorar.
"O que está acontecendo?"
Sakura reapareceu – graças a Deus – na porta do quarto com uma expressão preocupada e confusa.
Nami viu a porta aberta que Sakura deixou e tentou correr até lá. O porquê eu não sei. Aquela tola já devia saber que nunca passaria por mim ou por Sakura.
Ela tinha dado meio passo quando eu agarrei o braço dela. "O que você pensa que está fazendo?"
"Eu quero ir embora! Eu não quero mais ficar aqui com você!" ela gritou, se remexendo para tentar se livrar do meu aperto – o que não aconteceria tão cedo. "Eu quero voltar para a minha mãe!"
"Pare de ser ingênua!" Eu a chacoalhei um pouco para tentar colocar um pouco de juízo naquela cabeça idiota. Ela nem devia saber o que ingênua significava, mas, no momento, aquilo era totalmente insignificante. "A sua mãe não vai voltar! Quantas vezes eu vou ter que te dizer isso? Ela está morta –"
"Sasuke!" Sakura gritou e surgiu entre Nami e eu, empurrando o meu peito e me obrigando a soltar a menina. O rosto absolutamente furioso dela apareceu no meu campo de visão. "Cale a boca! Olhe com quem está falando! Olhe o que está fazendo com ela!"
A garota soluçava de chorar. A pele dela estava vermelha, o nariz escorrendo e os cabelos desgrenhados.
"Não é culpa minha se ela não entende!" Eu me desprendi de Sakura e me afastei das duas.
Eu tive que esfregar o meu rosto com força e puxar os meus cabelos para recobrar tentar recobrar a calma. Por que eu estava assim? Por que uma pirralha de quatro anos tinha me afetado tanto?
"Nami, já acabou. Ele não vai mais falar essas besteiras com você." Eu ouvi Sakura dizer. A garota não pareceu consolada. Pelo canto dos olhos eu a vi correr para a cama e se esconder debaixo dos cobertores, chorando descontroladamente.
Sakura ressurgiu na minha frente, fumegando de raiva. "Está ficando maluco, Sasuke? O que você pensa que está fazendo falando com ela desse jeito?"
"Ela é uma idiota que acha que pode voltar para a mãe, Sakura," eu sibilei, trincando os dentes.
"Ela é uma criança, Sasuke! Uma criança que acabou de perder – você acha que está fazendo algum bem a ela falando desse jeito?"
"E você acha que vai fazer bem ela ainda achar que vai voltar para casa e encontrar os pais vivos? Eu estou fazendo um favor para ela!"
"O que você está fazendo é assustando-a ainda mais! Não é assim que se fala com uma criança! Deixe de ser obtuso e insensível por um minutos e se ponha no lugar dela –"
"Eu estive no lugar dela, Sakura." Eles estão mortos. Mortos mortos mortos. Pare de chorar. Siga em frente. Mate o seu irmão.
Ela me encarou por um instante. "Então você deve saber como ela está desamparada, desesperada e desnorteada – e pior, rodeada de estranhos. Ela não precisa de grosserias e choques de realidade agora. O que ela precisa é de apoio da única pessoa em quem ela confia aqui. Gritar e esfregar no nariz dela todo o sofrimento não é ajuda, Sasuke. Ela precisa de uma mão que a puxe para se reerguer e, até agora, a sua foi a única que ela aceitou. Não tire isso dela."
"O que você quer que eu diga a ela? Que tudo vai ficar bem, que nada de ruim aconteceu, que a vida dela será ótima daqui para frente? Eu não vou mentir para ela," eu retruquei.
"Em nenhum momento eu te pedi que mentisse. Tudo o que eu estou te pedindo é paciência e sensibilidade."
"Eu não tenho nenhum dos dois."
"Pois passará a ter, quer queira, quer não, até que Nami diga que não precisa mais." Eu quase ri diante daquela frase. O que ela estava dizendo? Que uma menina de quatro anos que eu conheci no dia anterior agora teria controle sobre mim? "O que eu estou dizendo é que você pense antes de falar, Sasuke. Você sabe muito bem o que ela está falando, sabe o que dizer, mas está escolhendo as palavras erradas."
Eu apertei o canto dos meus olhos com a ponta dos dedos. Eu nunca admitira isso em voz alta, mas aquilo estava sendo muito mais difícil do que eu esperava – e por causa de uma criança.
"Eu não sei conversar com ela, Sakura," eu confessei. Não que fosse surpresa para Sakura.
"Eu sei que não, mas eu estou te implorando que tenha paciência para aprender. Pare e pense antes de falar. Tente ser mais compreensivo." Ela pegou no meu antebraço. "Eu vou te ajudar."
Eu a agradeci com um aceno de cabeça. Era melhor mesmo que ela me ajudasse. Eu estava tão perdido quanto a garota. A minha mente estava tão embaralhada quanto a dela – e eu sabia que a dela estava assim. Imagens que há muito eu não recordava iam e vinham por detrás dos meus olhos. Elas faziam o meu sangue ferver.
Eu ouvia o choro de Nami. Cada soluço dela fazia o meu estômago se contorcer. Por que ela tinha que chorar pelo o que eu disse? Não fora essa a minha intenção. Ela tinha que ser mais forte do que isso. Por que ela tinha que ser tão imatura para não entender que eu só estava dizendo a verdade?
"Peça desculpas a ela."
Eu olhei para Sakura como se ela tivesse me pedido que desse um beijo na boca de Naruto. "O quê?"
"Vá até ela e peça desculpas. Ela precisa saber que você não é tão mal quanto ela está pesando e que é amigo dela."
Ela só podia estar de brincadeira. Eu pedir desculpas a uma pirralha? Eu sabia que foi o que eu disse que a fez chorar, mas isso não era digno de desculpas. Não era culpa minha se ela não entendia.
"Sasuke-kun." Sakura me olhou fixamente. "Se você quer remendar os seus erros, vá até lá e diga que sente muito."
"Mas eu não sinto."
"Sente sim. Vá. Pedir. Desculpas. Agora."
Eu rolei os olhos e me dei por vencido – por ora. Enquanto eu caminhava para a cama onde Nami ainda estava escondida sob as cobertas eu me reafirmava que eu só faria esse arranhão no meu orgulho porque a garota merecia. Eu não achava que estava errado, mas ela achava, e ela não precisava de mais um inimigo. Eu tinha prometido a ela que ninguém mais a machucaria. Eu a machuquei. Eu faria um pequeno sacrifício para curar esse ferimento.
Não me arrancaria pedaço dizer duas míseras palavras.
Eu parei ao lado da cama dela. Olhei para Sakura. Ela estava me encarando com uma das sobrancelhas erguidas.
Eu pigarreei e resmunguei, embolado, olhando para a parede. "Me desculpe."
Sakura limpou a garganta para chamar a minha atenção e me olhou com reprovação. Eu dei de ombros. O que mais ela queria que eu fizesse?
Ela fez um gesto indicando que eu deveria tirar o cobertor da menina.
Eu revirei os olhos, mas acatei com o pedido. Tentei puxar o maldito cobertor dela, mas ela segurou firme. Eu poderia ter usado mais força para tirá-lo, mas eu imaginava que seria insensível demais.
"Nami. Pare com isso. Eu estou te pedindo desculpas." Eu dei mais dois puxões, mas ela não cedeu.
"Vá embora. Eu não quero mais falar com você," ela murmurou, ainda chorosa.
Eu olhei para Sakura. A menina não queria falar comigo. Os meus recursos – que já não eram muito – se esgotaram.
"Sente-se na cama," Sakura sussurrou.
Eu julgava aquilo uma besteira, mas tive que fazer o que ela sugeriu. Sentei no colchão ao lado do corpo deitado de Nami.
"Nami, eu vou repetir isso uma última vez: me desculpe. Eu não deveria ter gritado com você."
Dessa vez, quando eu puxei o cobertor, ela o soltou. O rosto dela estava inchado e vermelho de tanto chorar. Ela ainda soluçava. A leve culpa que eu sentia antes se multiplicou com a reafirmação de que era eu a causa das lágrimas de uma menina de quatro anos.
"Eu não gostei que você gritou comigo," ela murmurou, os olhos roxos em algum ponto da minha perna.
"Você também gritou comigo."
"Me desculpe."
Aparentemente ela não tinha a mesma dificuldade que eu de se desculpar. Eu assenti, aceitando o pedido dela. O peso nos meus ombros diminuiu minimamente.
Eu olhei para Sakura. O que eu faço agora?
Ela fez um gesto para que eu continuasse conversando. Aquele certamente estava sendo um dos momentos mais desconcertantes da minha vida.
"Eu..." Eu pigarreei mais uma vez. "Eu sei que você está triste e que não é bom ouvir isso, mas infelizmente os seus pais não vão voltar." Eu relanceei para Sakura para ter certeza de que eu não fiz mais nenhuma merda. Como ela não estava me fuzilando com os olhos eu presumi que estava na direção certa.
O lábio inferior de Nami tremeu. Por que ela estava chorando de novo? Eu não fiz nada de errado dessa vez.
"Eles estão mortos mesmo?" ela disse bem baixo.
"Estão." Eu disse para Sakura que não iria mentir para a garota. Ela não merecia que mentissem para ela. Foi isso o que fizeram comigo a vida inteira. "Eu sinto muito."
"Por que eles morreram?"
"Eu não sei dizer." Eu realmente não sabia. Eu me lembrei da conversa que tivemos no dia anterior. "Alguns homens maus acharam que..." Eu vasculhei na minha mente alguma coisa que pudesse transmitir a informação sem muito impacto e me lembrei de algo que a minha mãe me disse. "Alguns homens maus enviaram os seus pais para o céu para virarem estrelas. Eu não sei por quê."
Foi assim que a minha mãe me deu a notícia de que a minha avó falecera. Até os meus seis anos, quando eu soube o que era morte de verdade, eu realmente achava que a minha avó era uma estrela. Como eu era idiota.
"Eles estão no céu?"
"Estão."
"Então..." Ela se sentou na cama em expectativa. "Eu posso olhar para eles quando as estrelas aparecerem?"
"Pode." Eu achava aquilo tudo uma grande idiotice, mas tinha que continuar a história se isso significava um acalento para a menina.
"Eu posso falar com eles?"
"Não. Eles estão muito longe." Sakura fez um som com a garganta. Ela me encarava com a mesma sobrancelha levantada. Está sendo duro demais. "Quero dizer, eles estão longe, mas você... Você pode falar com eles. Eles vão te ouvir, mas você não pode ouvi-los."
"Por que não?"
"Porque... eles só... falam a linguagem das estrelas. E você não entende." Eu nunca achei que fosse dizer uma merda tão grande quanto aquela. Ainda bem que Naruto não está aqui. Ele nunca me deixaria em paz se me ouvisse dizendo isso.
"Você sabe a linguagem das estrelas?" ela perguntou.
"Não. Ninguém sabe."
Toda aquela baboseira pareceu ser o suficiente para Nami. Ela olhou para o próprio colo com uma expressão desolada.
"Eu queria montar uma escada bem enorme para poder chegar perto das estrelas," ela disse.
A minha imaginação tinha acabado e eu não sabia como responder aquilo.
"Por que que vocês me trouxeram para cá?" ela quis saber.
"Os seus pais não estão mais aqui e crianças não podem morar sem adultos."
"O meu tio e a minha tia são adultos! Eles são muito maiores do que eu e eu gosto muito deles! A minha tia sempre faz bolo para mim quando é o meu último dia de aula e ela sempre comprar bonecas novas para mim no meu aniversário. Eu posso morar com eles?"
Eu olhei para Sakura e vi que ela estava com os olhos úmidos.
"Eles..." Também estão mortos. "... também viraram estrelas. Todos na sua vila viraram estrelas."
Ela arregalou os olhos. "Todo mundo?"
"Sim."
"Até o Hashitaka-san e Toru e Kairi? Até todos os meus colegas de sala? Todos eles?"
"Sim." Quem quer que sejam essas pessoas. Ou eu achava que sim. Ainda não tínhamos certeza da inexistência de sobreviventes, mas eu não sabia explicar isso para Nami.
Ela ficou confusa. "Então por que só eu não virei estrela?"
Merda. "Eu não sei."
"Por que você não sabe? Você é adulto! A minha mãe sempre me diz que os adultos sabem quase tudo!"
"Nem sempre. Ninguém sabe tudo."
Ela ficou pensativa. "Será que quando eu for adulta eu vou saber?"
Eu dei de ombros. Como, diabos, eu poderia responder uma pergunta daquelas?
Eu vi ela me fitando com o canto dos olhos. "Você ainda está bravo comigo?"
"Não."
"Eu não queria te deixa bravo."
"Eu sei. Você já pediu desculpas."
"Eu posso te dar um abraço? A minha mãe sempre diz que eu tenho que abraçar uma pessoa se eu quiser fazer as pazes com ela."
Eu queria dizer que não. O contato físico de estranhos me deixava desconfortável. Demorou anos para que eu me acostumasse com Sakura e Naruto. Mas, se ela queria, seria insensível da minha parte negá-la. E Sakura brigaria comigo de novo se eu recusasse.
Por isso, a contragosto, eu assenti com a cabeça e deixei que ela ficasse de pé na cama para abraçar o meu pescoço. Não era tão ruim quanto eu imaginei. Ela era muito pequena e magra.
Eu olhei por cima do ombro dela para Sakura e ela gesticulou que eu fizesse alguma coisa. Eu dei leves batidas nas costas de Nami. Aquilo deveria ser suficiente.
N.A.: Eu espero que tenham gostado e que Sasuke não tenha ficado muito OOC! Se tiver, me avisem para que eu possa tentar melhorá-lo. Mais uma vez, muito obrigada pelas reviews!
