Capítulo 4
"Por que não vai escovar os dentes, princesa?" Sakura perguntou com um sorriso quando tudo já estava calmo.
Nami me encarou.
"O que foi?" Por que ela sempre me olhava como se esperasse que eu adivinhasse o que se passava na cabeça dela?
"Você pode ficar no banheiro comigo?" ela desviou os olhos e murmurou.
Eu não via o menor sentido naquilo. "Para quê?"
Ela deu de ombros. Senti o olhar de Sakura sobre mim. Estava gélido. De novo. Merda. Eu fiz alguma coisa de errado.
Eu suspirei. Aquelas duas mulheres estavam me levando à beira da loucura.
"Vamos," eu ordenei a garota. Ela pulou da cama e eu a segui até o banheiro.
Foi assim que Naruto e Kakashi nos encontraram: Nami e eu de frente para o espelho escovando os dentes – ou melhor, só eu de frente para o espelho, já que ela era tão pequena que a testa alcançava a beirada da pia.
Naruto me olhou estranho. Eu devolvi o olhar com um estreito. Cale a boca. Ele pareceu ainda mais chocado quando me viu levantando Nami pelas axilas para que ela cuspisse e terminasse de lavar a boca.
Uma memória de Itachi fazendo o mesmo comigo que me veio à mente me pegou desprevenido. Eu senti um aperto no peito. Tive que recolocar a menina no chão com certa brusquidão para dissipar a imagem.
"Bom dia, garotinha! Como estamos hoje?" Naruto cumprimentou com o seu típico sorriso de meio metro. Nami não pareceu muito satisfeita. Agarrou o tecido da minha calça e se escondeu atrás da minha perna. Eu pensei que ela deveria estar realmente assustada para negar o afeto de alguém como Naruto. As pessoas costumavam gostar dele rapidamente, sem muitos questionamentos. Nami deveria ser uma das poucas que não se sentiam a vontade com ele.
"Nós contamos o que aconteceu ao líder do Tornado e ele disse que quer ver a garota," Kakashi anunciou.
"Ele tem alguma ideia do que poder ter acontecido?" Sakura perguntou enquanto eu e Nami saíamos do banheiro. Ela parecia ainda mais acuada na presença de dois homens, agarrando-se a minha perna com tanto fervor que eu tive dificuldades para andar.
Tê-la agarrada física e emocionalmente a mim era irritante, mas eu deixei que ela o fizesse. Era a minha tentativa de ser mais sensível como Sakura queria.
"Talvez," Kakashi respondeu e, olhando cauteloso para Nami, continuou, "conto para vocês depois."
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Nami continuou ferrenhamente grudada a minha perna enquanto andávamos pelas ruas de Tornado. Os dedos dela se apertavam com ainda mais intensidade quando passávamos por multidões ou um aglomerado maior de pessoas.
Se eu não fosse um shinobi talvez eu tivesse tropeçado algumas vezes – o que quase aconteceu quando Nami estava perto demais e as minhas pernas se embolaram com ela.
Aquilo começava a me irritar.
"Eu vou acabar caindo em você se continuar desse jeito," eu disse, tentando não deixar a minha ligeira impaciência transparecer.
Ela me olhou com os grandes olhos roxos, envergonhada.
"Não consegue andar sem ficar me segurando?"
Ela olhou ao seu redor. Parecia extremamente desconfortável de estar ali. Ela hesitou para me soltar e eu quase me arrependi de ter falado com ela daquela forma.
Cinco minutos depois ela agarrava a minha perna de novo. Eu olhei para ela, insatisfeito, mas, daquela vez, ela não me soltou.
Eu revirei os olhos. Talvez não fosse correto pedir que ela me soltasse uma segunda vez. Deveria haver algum motivo para ela estar assim, mas eu suspeitava que ela não conversaria sobre isso no meio da rua.
Kakashi nos orientou para dentro do prédio do líder do Tornado. Subir as escadas com Nami acoplada a mim foi um desafio, mas eu permiti que ela continuasse assim. Até porque eu suspeitava que Sakura brigaria comigo novamente.
O governante da vila nos recebeu imediatamente, para o meu alívio. A discussão com Nami e Sakura mais cedo somadas à necessidade da garota de se manter grudada em mim me deixaram irritados e ficar esperando apenas pioraria o meu humor.
Ele era um homem velho, baixo, de bigodes e barbas brancas, e não parecia muito amigável nem contente por nos ter ali.
Eu não gostei dele logo que o vi.
"É essa a menina?" ele perguntou, dando a volta na sua escrivaninha para chegar mais perto de Nami.
Ela se escondeu atrás da minha perna. Daquela vez, eu permiti sem qualquer tipo de protesto, nem mesmo mentais. O homem olhava para ela com desgosto – e isso me deixou inquieto.
"Sim, Kubota-sama," Kakashi respondeu. "Ela foi a única sobrevivente que encontramos."
Ele observou Nami de cima a baixo. Ela se encolhia cada vez mais contra mim. Eu queria falar com aquele velho que mantivesse distante, que ele estava deixando a menina acuada, mas, pelo bem da diplomacia, eu mantive a boca fechada.
"Olhe para mim," ele ordenou. Eu desviei os olhos para Nami. Ela escondia o rosto contra a minha perna, obviamente não querendo encontrar os olhos do homem. "Eu disse para olhar para mim, garota."
Eu não gostei do tom dele. Não gostei de nada dele. Eu cruzei os braços bem na frente dele.
"Essa menina é surda? Ela não está me ouvindo manda-la olhar para mim?" ele questionou. Estava mais do que clara a irritação dele.
E eu deixei que a minha também fosse tão evidente.
Eu fiz questão de deixar o meu rosto o mais fechado possível. Que se danem as cordialidades e essas merdas todas. Ele – nem ninguém – falaria com Nami daquele jeito.
Antes que eu pudesse dizer alguma besteira em voz alta Kakashi interveio: "Ela só está traumatizada, senhor. Ela está tendo enormes dificuldades de socialização."
"Ah, faça-me o favor," o velho desgraçado reclamou. "Como se já não bastasse a iminência de uma guerra para me estressar eu ainda tenho que lidar com uma menina retardada. Alguém mande-a olhar para mim antes que eu a jogue para fora da minha vila agora mesmo. Eu não tenho tempo nem disposição para isso."
Era melhor que ele calasse a boca. Agora.
"Nami," eu disse, sem tirar os olhos no velho nem descruzar os braços. "Olhe para ele."
Eu senti Nami se desprender um pouco de mim. Eu não sabia dizer exatamente, já que estava focado no rosto do velho para medir a reação dele. De repente ele ficou visivelmente tenso. O que quer que Nami tenha feito não pareceu agradá-lo.
"Esse tipo de gente não é bem-vindo na minha vila," ele afirmou e virou as costas para voltar para a sua mesa. "Levem-na para outro lugar."
Alguns segundos de silêncio pesado transcorreram. Eu podia sentir que Kakashi, Naruto e Sakura estavam tão atônitos quanto eu.
Eu estava pronto para matar aquele homem.
Kakashi deu um passo à frente. "Kubota-sama, se me permite o atrevimento de perguntar... Está nos pedindo para transportar essa garota para outra vila?"
"Não. Estou mandando que tirem-na daqui. Pouco me importa para onde a levarão. Podem deixa-la na beira da estrada, se for conveniente para vocês. Eu só a quero o mais longe possível daqui."
Nami voltou a se encolher contra mim. Eu podia sentir todo o corpo dela tremer e os pequenos dedos torcendo o tecido da minha calça.
"Por quê?" foi Naruto quem perguntou com a voz carregada de descrença e confusão. Kakashi o lançou um olhar reprovador. Não era assim que o futuro Hokage deveria se comportar.
O líder de Tornado não se mostrou afetado. "Eu já disse: esse tipo de gente não é bem-vinda aqui."
"Que tipo de gente? Uma menina?" Naruto continuou, incrédulo.
"Sim. Uma menina de uma família de criminosos." O velho estava começando a se enfurecer, o rosto vermelho. "Eu conheço esses olhos roxos. Sei bem o que a família dela fez para essa vila – e continua fazendo. Eles foram espiões de Formiga aqui, dentro do Tornado, durante anos! Sofremos um ataque totalmente inesperado anos atrás porque essa gente passou informações privilegiadas para aquela vila maldita em troca de dinheiro. Eles foram expulsos daqui quando descobrimos e eles foram sem qualquer tipo de protesto achando que Formiga ia abriga-los de braços abertos."
Ele riu.
As minhas mãos se fecharam em punhos para me impedir de avançar.
"Mas não foi isso o que aconteceu, não foi, sua merdinha?" Ele se voltou para Nami e eu me coloquei na frente dela imediatamente. "Eles não quiseram vocês. Sabiam o quanto vocês são desprezíveis e vocês foram relegados a viverem em um vilarejo de merda e agora que tudo ruiu você acha que eu serei a pessoa a ajudar vocês? É melhor pensar duas vezes."
"A família dela pode ter feito tudo isso o que disse, mas ela é só uma criança! É óbvio que ela não tem culpa de nada!" Naruto argumentou, indignado e com a voz alteada. "Você disse que o ataque aconteceu anos atrás, não foi? Ela nem deveria ser nascida nessa época!"
"A família dela praticamente abriu as portas do Tornado para Formiga. Eles colocaram a vida de centenas de inocentes em jogo por causa de dinheiro. Se eles são deturpados o suficiente para fazer isso, quem me garante que eles não são capazes de envolver crianças também?"
"Kubota-sama, nós não temos mais para onde leva-la," Kakashi tentou. "A vila mais próxima daqui é Formiga e o senhor sabe que nós não podemos entrar lá por sermos os seus aliados."
"Você acha que eu estou me importando com o que acontece com ela? Larguem-na em qualquer lugar! Ela fez por merecer."
"Ela é só uma criança –"
"Ela é uma criança descendente de pessoas que quase destruíram a minha vila, a minha família!" o velho gritou, alterado. Nami começou a chorar atrás da minha perna. "Eu me recuso a ajudar qualquer um que tenha qualquer tipo de relação com esse povo – aliás, os únicos que eu deveria agradar são os responsáveis por matar essa gente. Eu deveria mandar flores para quem quer que me fez esse favor de exterminar essa raça imunda!"
Filho da puta.
Eu só percebi que tinha dado perigosos passo em direção ao velho – com a intenção de quebrar todos os ossos da cara dele – quando Kakashi apareceu na minha frente e me impediu com uma mão no meu peito. Ele falava alguma coisa, mas eu não ouvia. Todos os meus instintos estavam inteiramente focados em machucar aquele desgraçado.
Mais tarde eu agradeceria Kakashi mentalmente por ter me bloqueado. Por mais que eu quisesse o sangue daquele velho eu sabia que a maior prejudicada seria Konoha caso eu fizesse qualquer ato de violência contra o líder do Tornado.
Foi só quando senti uma mão puxar o meu braço para trás que eu voltei a realidade.
Sakura.
"Sasuke-kun, pare, por favor. Você está assustando Nami."
Eu me virei para a garota. Ela estava chorando, gritando, grossas lágrimas escorrendo pelas bochechas dela.
Tudo culpa daquele desgraçado.
Sem pensar, eu a peguei no colo e saí daquele escritório a passos largos, quase quebrando a porta no processo. Nami se enrolou em mim como uma enguia: os braços ao redor do meu pescoço e as pernas ao redor do meu tórax. Eu sentia o meu ombro molhar pelas lágrimas dela. Era uma sensação que eu demoraria a esquecer.
Eu caminhei com ela no colo a esmo até que o meu sangue esfriasse. Foi só minutos depois que eu notei que o meu sharingan estava ativado.
Quando eu estava mais calmo e percebi que ela também não chorava mais, só fungava de vez em quando, eu a coloquei no chão e me agachei para olhar dentro dos olhos dela. Eles estavam vermelhos e molhados e o nariz dela sujo de secreções. Eu não gostava daquela cena. Era tão desconcertante quanto o rosto choroso de Sakura.
"A-aquele m-moço é muito malvado!" ela choramingou, fungando e limpando um dos olhos. "Por que ele g-gritou comigo assim? Por que ele não gosta de mim?"
"Porque ele é um filho da – um idiota," eu me policiei para não falar uma palavra chula. "Não se preocupe. Eu não vou deixa-lo falar assim com você novo." Se dependesse de mim aquele desgraçado nunca mais sequer pensaria em olhar para Nami.
"Eu não fiz nada para ele! Eu nem falei com ele e ele gritou comigo – e ele nem é o meu pai nem a minha mãe!"
"Esqueça-o."
Ela continuou a fungar. O nariz dela escorria. Ela olhava para baixo.
"Por que ele não gosta de mim?" ela murmurou, cabisbaixa.
"Eu já disse, Nami. Esqueça-o. Ele é um idiota."
"Eu não quero mais falar com ele. Ele é muito bobo!"
"Você não vai precisar."
"Eu quero ir para casa." Os lábios dela tremeram no que eu imaginei ser um iminente choro.
Eu exalei pelo nariz. "Eu já te disse que você não pode mais voltar para casa."
"Eu não posso mais voltar para a minha vila?"
"Não." Eu já não tinha falado isso com ela antes?
"Então para onde eu vou?"
Aquela era uma pergunta que eu também não sabia responder. Esperávamos que o líder de Tornado pudesse fazer alguma coisa, mas, obviamente, ele não pode. A vila mais próxima era Formiga, e ela era inimiga de Konoha. Não podíamos entrar lá – e eu nunca deixaria Nami na porta de Formiga ou na beira da estrada como tinha sugerido o filho da puta.
Só havia uma solução.
"Você vai para a minha vila."
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"Eu não sei se essa é a melhor ideia, Sasuke," Kakashi me disse depois que eu expliquei a minha ideia. Já estávamos fora do prédio do desgraçado, almoçando em um restaurante por perto. Naruto fora comprar um presente qualquer para a namorada Hyuuga. "Ela é uma refugiada. Não sabemos o exatamente o que aconteceu com o vilarejo dela e não sabemos com quais inimigos estamos lidando. E se eles forem atrás dela em Konoha?"
"Talvez eles nem saibam que deixaram uma sobrevivente," eu argumentei.
"Nós não temos certeza que eles não sabem."
"Pelo que averiguamos eles mataram todos os outros do vilarejo, Kakashi. Por que eles deliberadamente deixariam uma criança viva? Eu aposto que eles pensam que mataram todos. E por que eles se dariam ao trabalho de ir atrás de uma menina?"
"Eu não sei, Sasuke. Esse é o grande problema: nós não sabemos de nada. Ninguém tem a menor ideia do peso que pode ser essa garota. Não sabemos o que está acontecendo, o que aconteceu e muito menos o que pode acontecer. Não estou certo se é sensato levar para Konoha um possível problema."
Eu fechei o rosto para o meu ex-mentor. Agradeci a Sakura mentalmente por ter levado Nami para o banheiro enquanto eu conversava com Kakashi. Eu não queria que ela ouvisse aquilo. Eu sabia que ele só estava sendo cauteloso, mas isso não significa que estava me agradando.
"O que você sugere, Kakashi? Quer que tomemos o conselho daquele velho desgraçado e deixemos Nami em qualquer lugar?" eu desafiei, voltando a ficar irritado.
"É claro que não. Acalme-se, Sasuke. Eu não estou contra você nem Nami aqui."
"Então faça alguma coisa! Você é a porra do Hokage!"
"Acalme-se."
Eu cruzei os braços e esparramei as minhas costas na cadeira. Aquele dia estava sendo uma merda e a minha paciência estava se esgotando mais rápido do que o normal.
Kakashi se debruçou sobre a mesa para falar mais perto de mim. "Escute o que estou pensando em fazer: o vilarejo de Nami está sob a jurisdição de Formiga. Kubota me disse. Ele não pode enviar ninguém para fazer uma investigação no local e ele disse que Formiga está pouco se lixando para o vilarejo. Muito provavelmente também não querem investigar. Eu estava pensando em voltar até lá e nós mesmos tentarmos descobrir alguma coisa."
"Nami não vai voltar para lá," eu disse imediatamente. Não havia a menor possibilidade de eu deixa-la voltar no lugar da maior tragédia da vida dela. Provavelmente ainda tinham muitos corpos lá – e em decomposição. Ela já tinha visto os pais mortos; não precisava de mais essa imagem.
"Eu não planejava que ela o fizesse. Eu e Naruto iríamos até lá. Você e Sakura ficariam aqui para tentar achar alguma pista."
"O que nós possivelmente poderíamos achar aqui?"
"Eu não sei. Mas vocês ficariam aqui de qualquer forma. É melhor do que fazer nada."
Eu dei de ombros.
Eu não queria ficar parado preso naquela vila maldita, mas não havia outra saída. A minha verdadeira vontade era sair para matar com as minhas próprias mãos os responsáveis por estragarem a vida daquela garota, mas eu não podia deixa-la para trás nem leva-la comigo. Qualquer uma das opções seria perigosa. Alguém poderia ataca-la na minha ausência assim como ela também estaria exposta a uma risco enorme se fosse de encontro aos assassinos.
Nami e Sakura voltaram do banheiro feminino. Nami correu em minha direção e se sentou na cadeira ao meu lado. Ela estava visivelmente desconfortável em ficar sozinha com Sakura, mas eu não podia entrar no banheiro feminino. E eu precisava conversar com Kakashi a sós.
Eu encarei a garota. O rosto dela ainda estava vermelho e inchado de chorar. Eu fechei os meus dedos em punhos ao me lembrar da causa do estado dela. O filho da puta desgraçado.
Eu empurrei o cardápio na direção dela. "Escolha o que quer comer."
"Eu não sei ler."
Como uma garota de quatro anos não sabia ler? Eu já o fazia aos dois.
"Você não ia na escola?" eu perguntei.
Ela deu de ombros. "Eu ajudo mamãe na plantação. Ela me disse que eu não preciso de escola para plantar."
Eu olhei de relance para Sakura. Ela olhava Nami com uma expressão triste.
Eu abri o cardápio. "Gosta de sopa de galinha?"
Ela fez que sim com a cabeça efusivamente. "Mamãe sempre faz sopa de galinha para mim! É a melhor comida do mundo inteiro! Ela me disse que quando eu crescer e for bem grande ela vai me ensinar a fazer e aí eu vou poder comer sopa de galinha todo dia porque eu vou fazer para mim todos os dias e vai ser melhor do que a de mamãe!"
Eu não gostava que ela falasse da mãe como se ela ainda fosse viva, mas Sakura me lançou o olhar repreendedor e eu me calei antes que pudesse corrigir Nami.
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Kakashi decidiu que tentaria falar com o líder do Tornado mais uma vez em busca de mais pistas. Eu duvidava que aquele velho abriria a boca, mas retive a minha opinião. Ele levou Naruto consigo.
Sakura, Nami e eu andávamos pelas ruas de Tornado. Eu não gostava daquele lugar. Parecia que havia mais pessoas do que a vila podia comportar. Cada vez que eu tinha que esbarrar no ombro de alguém para conseguir passagem a minha paciência já quase extinta diminuía ainda mais. Eu não via a hora de ir embora dali.
Sakura avistou uma sorveteria e perguntou para Nami com um sorriso: "Querida, o que acha de um sorvete? Você gosta deles? Quer um?"
Nami abraçou a minha perna e, como sempre, me encarou de baixo para cima, esperando que eu tivesse a resposta.
"Você quer um sorvete?" eu repeti a pergunta e ela me respondeu com um aceno de cabeça. Eu não entendia qual era a dificuldade de responder diretamente para Sakura, mas eu já estava quase me acostumando em ser o intermediário dela.
Para o meu profundo desgosto nós entramos na sorveteria absolutamente lotada. Tivemos que esperar em uma fila quilométrica até que finalmente fosse a nossa vez.
Sakura foi a primeira e escolheu o sabor dela. Nami puxou a minha calça e eu abaixei a cabeça para encará-la.
"O que foi?"
Ela fez um sinal para que eu me abaixasse. Eu não queria fazê-lo, mas pensei que a minha recusa talvez a chateasse ainda mais. Eu suspirei e me agachei a contragosto.
"O que que é sorvete?" ela me perguntou com os olhos curiosos. Os meus estavam arregalados.
"Você nunca tomou sorvete?" eu indaguei e ela balançou a cabeça em negativa. Que criança não sabia o que era sorvete? E por que ela aceitou o convite se ela nem sabia do que se tratava? Eu nunca entenderia crianças. "Sorvete é um leite congelado com outro sabor."
"Que sabor? Tem de sopa de galinha? Eu adoro sopa de galinha."
"Não. Tem de chocolate, baunilha e morango." Eu suspeitava que existiam outros sabores naquela sorveteria, mas eu não via sentido em explicar todos para Nami. E eu não estava com humor para sair perguntando quantos sabores tinham naquela droga.
"É gostoso?"
Eu detestava. "É."
"Eu posso comer um?"
"Não se come; se toma sorvete."
"Então eu posso tomar um?"
"Pode." Sakura a ofereceu, não foi? "De quê que você quer?"
"Chocolate!" ela exclamou com o sorriso mais alegre que eu já vi no rosto dela. Nem parecia que horas atrás ela tinha sido humilhada por um velho.
Logo depois uma mulher me atendeu muito mais calorosamente do que quando foi a vez de Sakura. Sakura só rolou os olhos para mim. Eu ignorei o sorriso da mulher e só pedi um de chocolate.
Quando ela se virou para preparar o sorvete Nami puxou a minha calça de novo. "Eu posso ver como que faz?"
Eu a peguei no colo para que ela visse por cima do balcão a mulher despejar o sorvete dela na casquinha. Ela observou a máquina como se viesse de outro mundo. Eu me perguntei que tipo de vilarejo ela vivia.
"Aqui está, bonitão –" Eu tinha acabado de entregar o dinheiro e estava prestes a receber o sorvete quando os olhos da mulher decaíram sobre Nami no meu braço. Imediatamente o rosto dela se fechou – e o meu mais ainda. Eu me preparei para o que eu desconfiava que viria a seguir. "Eu peço que saiam agora mesmo do meu estabelecimento. Eu não aceito esse tipo de gente na minha loja!"
A voz alteada da mulher atraiu a atenção de vários outros clientes.
"Eu paguei pelo sorvete e eu o exijo agora," eu ordenei por entre os dentes. Os braços de Nami se apertaram ainda mais ao redor do meu pescoço. Talvez ela tivesse percebido a minha nova onda de raiva.
"Eu não quero nada que venha disso!" E ela teve a audácia de jogar o meu dinheiro em Nami. "Fora daqui! Fora! E não voltem nunca mais!"
Sakura teve que me arrastar para longe dali para que eu não cometesse um assassinado enquanto Nami gritava, chorando, bem no meu ouvido.
Aquele definitivamente estava sendo um dia de merda.
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Nami chorou tanto no meu ombro no trajeto de volta para o hotel que quando chegamos ela já estava dormindo. Eu a depositei na cama assim que entramos no quarto.
"Pobrezinha..." Sakura lamentou. Ela olhava triste para uma Nami adormecida. "Ela está pagando por um crime que obviamente não cometeu."
Eu me sentei na beirada da cama de Sakura e esfreguei o rosto com a palma das mãos. Uma dor de cabeça insuportável começava a se instalar. Aquela missão estava sendo infinitamente mais difícil do que eu incialmente planejei.
"Sasuke-kun, está tudo bem?"
Eu suspirei. Era claro que nada estava bem. "Eu quero explodir essa vila."
Eu estava de olhos fechados, mas senti Sakura se sentar ao meu lado. "Acredite, eu também. Eu tive que me segurar para não enfiar o sorvete pela garganta daquela mulher."
Eu levantei o rosto para Nami. "Ela nunca tomou sorvete."
Sakura arregalou os olhos em surpresa. "Está falando sério?" Eu assenti. "Mas... Por quê? Existe sorvete em todos os cantos desse planeta!"
"Eu não consegui ver detalhes no dia que estivemos lá, mas tenho a impressão que o vilarejo dela é muito pobre," eu confessei a minha teoria. "Ela também não sabe ler nem vai para a escola. Creio que é um lugar praticamente isolado do resto do mundo."
Sakura relanceou Nami mais uma vez antes de se voltar para mim. "O que você conversou com Kakashi?"
Eu escorei os meus cotovelos nos ombros joelhos dobrados e entrelacei os dedos. "Nami tem que ir para Konoha. Eu não vejo outra opção."
"Eu também acho."
Eu não esperava por aquela resposta e a encarei. "Você acha?"
"Claro." Ela concordou com a cabeça. "Eu não teria coragem de deixa-la em outro lugar. Pelo menos em Konoha eu teria certeza de que ela seria bem-vinda. Eu já tive a oportunidade de trabalhar em alguns dos orfanatos de lá e eles me parecem ser muito bem cuidados. As crianças são felizes na medida do possível. E nós estaríamos por perto para ajudá-la, caso seja necessário."
"Kakashi acha que ela pode ser um risco para Konoha."
"Nós já enfrentamos coisas piores."
Sakura tinha razão. Eu fiquei estranhamente satisfeito em ter o apoio dela. "Kakashi quer investigar o vilarejo. Tentar achar alguma pista do que possa ter acontecido. Ele e Naruto iriam. Você e eu ficaríamos aqui com Nami."
"Me parece ser uma boa ideia," ela concordou. "Eu só espero que, se eles realmente forem, não demorem. Eu não quero mais ficar nessa vila. Ela só vai fazer mais mal ainda para Nami."
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Nami ainda estava dormindo quando saí do banho. Kakashi e Naruto se haviam se juntado a nós e conversavam com Sakura na varanda.
"Kubota não sabe de nada – ou finge não saber," Kakashi explicou quando eu cheguei. "Ele disse que não se importa se fizermos uma investigação particular. Ele não se importa com nada, na verdade. Só quer se livrar de Nami o mais rápido possível."
"Me deu vontade de nem assinar um acordo de amizade política com ele, para falar a verdade," Naruto reclamou. "Aquele cara é um babaca chato. Como ele pode ter coragem de tratar uma criança inocente assim?"
"Infelizmente você vai encontrar muitos homens parecidos como ele quando virar Hokage, Naruto," Kakashi suspirou. "Muitos dele só querem saber de dinheiro e influência política – que se danem os outros. Mas esse acordo é beneficial para Konoha e nós temos que aguentar Kubota calados. Falando nisso, eu queria discutir com vocês o que eu e Sasuke conversamos mais cedo."
Todos concordaram depois que Kakashi terminou.
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Eu estava dormindo no saco de dormir no chão, ao pé da cama de Nami, quando uma mão pequena chacoalhou o meu ombro.
"O que foi?" eu resmunguei para a garota.
"Eu quero conversar com mamãe e papai!"
"O quê?" Ainda sonolento, eu não estava compreendendo muito bem o que ela estava dizendo.
"Eu quero conversar com mamãe e papai! Você não disse que eles viraram estrelas? Então! Olhe para o céu! Está cheio de estrelas! Mamãe e papai estão lá também, não estão?"
Eu cocei os olhos. "Então fale com eles."
"Mas eu não sei como! Você sabe como que fala com estrelas?"
"É só conversar normalmente." Céus, eu não acredito que ela tinha me acordado para isso.
"Mas eu estou muito longe delas e eu não sei abrir a porta da varanda e se você me levantar eu vou estar mais perto deles!"
"Não faz diferença se eu te levantar."
"Faz, sim! Você é muito grande! Quando você me segura eu fico super alta e eu nem chego perto do chão! Você é até mais grande que o meu pai!"
Ela não podia estar falando sério. Devia ser umas três da manhã. Eu precisava daquele sono. Eu não tinha dormido praticamente nada nos últimos dias.
"Se eu te pedir por favor por favor por favor você me ajuda?" ela pediu. Os olhos roxos dela pareceram ainda maiores e mais úmidos.
Merda.
Eu suspirei e me levantei. Com um sorriso e saltitando ela me acompanhou até a varanda e não esperou meio segundo para levantar os braços para que eu a pegasse.
"Sasuke-kun, como que eu falo com eles?" ela me perguntou com o rosto perto do meu.
"É só falar."
"Falar assim?"
"É."
"Mas eles ainda estão tão longe... E se eles não me escutarem?"
"Eles vão te escutar."
"Como você sabe disso?"
"Eu sou adulto e eu sei." Por que ela fazia tantas perguntas?
"Será que se eu colocar as mãos assim vai ajudar?" Ela juntou as palmas das mãos, como em uma prece.
"Vai. Agora feche os olhos e fale."
Para o meu alívio ela fez o que mandei.
"Olá, mamãe e papai. É Nami quem está falando. Vocês conseguem me ver daí de cima? Eu espero que sim, porque eu consigo ver vocês daqui... Sasuke-kun me disse que vocês podem me ouvir, mas eu não consigo ouvir vocês, então eu vou falar daqui e, se puderem, podem me enviar uma carta falando a resposta, por favor? Eu não sei ler, mas eu peço o Sasuke-kun para ler para mim, tudo bem?
Eu não sei por que vocês viraram estrelas... Sasuke-kun me disse que todo mundo virou estrela, menos eu... Por quê? Eu não fiz nada de errado, eu juro! Eu até varri o meu quarto semana passada sem ninguém pedir... Eu queria ter virado uma estrela também para não ficar sozinha. Vocês podem me fazer virar estrela? Eu juro que eu vou ser boazinha... Eu só não quero ser a única que não virou estrela porque eu estou num lugar muito ruim... Todo mundo é malvado comigo e eu não sei o que eu fiz! Sasuke-kun disse que eu não fiz nada de errado e que eles são idiotas – essa é uma palavra feia, não é, mamãe? Mas Sasuke-kun diz ela toda hora. Dá um oi para eles, Sasuke-kun!"
Eu olhei para ela para ver se ela estava falando sério. E estava.
"Vai, fala!"
Eu olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo antes de resmungar: "Oi."
"Fale mais alto! Eles não vão te escutar se você falar baixo desse jeito."
"Oi," eu falei um pouco mais alto só para que ela saísse do meu pé.
Ela voltou a fechar os olhos. "Esse é Sasuke-kun. Ele cuida de mim. Ele não gosta de falar muito e fica com uma cara emburrada o tempo todo, mas ele falou que não ia deixar mais ninguém gritar comigo. Hoje um moço gritou comigo... E uma mulher também... Eu não sei por quê... Eu nem falei nada com eles! Sasuke-kun também gritou comigo, mas ele pediu desculpas depois, mas o moço e a moça não pediram... Isso é errado, não é, mamãe? A gente sempre tem que pedir desculpas quando chateia alguém... Eu pedi desculpas para o Sasuke-kun e ele aceitou e eu aceitei quando ele me pediu desculpas também e ele não ficou mais bravo comigo. Bem, é só isso o que eu queria dizer. Boa noite, mamãe e papai. Sasuke-kun me disse que vocês não vão mais voltar, mas será que não tem como vocês perguntarem para alguém aí se tem algum jeito? Sasuke-kun me disse que os adultos não sabem de tudo, então ele pode estar errado, não pode? Então, tudo bem... Boa noite de novo! E tentem mandar uma carta, por favor por favor por favor! Eu estou com saudades!"
Ela separou as mãos e abriu os olhos para me fitar. "Você acha que eles ouviram?"
"Sim."
"Você tem certeza?"
"Absoluta."
"Tudo bem."
Era difícil de imaginar que depois de tudo o que ela viu ainda existia uma inocência dentro dela. O meu caso certamente fora o contrário.
"O que foi?" Eu só percebi que a estava encarando por tempo demais quando ela perguntou.
"Nada. Volte a dormir agora." Eu a coloquei no chão.
"Você tem certeza que não existe ninguém que saiba falar a linguagem das estrelas? Porque se tiver, eu posso pedir para ela ver se mamãe e papai me responderam?"
"Não existe, Nami. Agora vá dormir."
"Está bem..." Ela suspirou, desanimada – o que me deu uma sensação estranha no peito.
Eu tomei um susto ao me virar para dentro do quarto. Sakura estava exatamente como antes, mas de olhos abertos úmidos, me encarando. Eu senti o meu rosto esquentar. Ela provavelmente ouviu o que Nami falou – e me viu conversando com uma maldita estrela. Eu teria que pedir a ela no dia seguinte que não falasse para Naruto ou eu nunca mais teria paz na vida.
Eu já estava prestes a voltar a dormir quando Nami me chamou de novo.
"O que foi?" eu resmunguei sem me levantar.
"Obrigada, Sasuke-kun."
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A.N.: Eu comecei a escrever essa história pouco antes do fim do mangá, ou seja, pouco antes de saber que Kakashi viraria Hokage. Portanto, eu farei algumas alterações nessa história para que Kakashi seja o Hokage. Espero que gostem e, mais uma vez, obrigada pelas reviews!
Obs.: Sasuke ficou OOC? Ele está sendo muito mais difícil de escrever do que eu imaginava...
