Capítulo Dois: Intransponível.

Eram duas horas da tarde. Gina caminhou alegre, cantarolava uma melodia incoerente de infância enquanto se dirigia ao corujal para enviar a sua carta ao setor de relações públicas da Aprendizes. A revista da qual havia ganhado o concurso One Royal Week. Já havia se passado três dias desde a chegada da notícia.

-... O gatinho-nho-nho é nosso amigo-go-go, não devemos maltratar os animais... Miiiaaauu! –ela subiu as escadas de dois em dois.

Distraída com uma coruja enorme que mais parecia uma águia voando no céu, Gina acabara por trombar com alguém na entrada.

-ah, opa, desculpe! –murmurou pegando a carta que deixara cair.

Ao olhar para cima seu rosto endureceu.

-não olha por onde anda Weasley? –Draco Malfoy definitivamente não estava em um de seus melhores dias. Gina pode ver na sua cara que ele estava bem mais chato e irritante do que o usual.

-eu já pedi desculpas, Malfoy. E não que você as mereça é claro. –ela respondeu jogando os cabelos para trás. –agora dá licença que eu quero passar.

Mas ele não se moveu nenhum milímetro se quer.

-desculpa, mas você é surdo ou o quê? Eu quero PASSAR! –Gina olhou irritada.

-passe, qual é o problema? –Draco desdenhou cruzando os braços.

-Ô Malfoy, eu sei que você é pálido feito um fantasma, mas isso não significa que você seja traspassável como eles. –Gina alfinetou.

-hahaha... Você é TÃO engraçada, Weasley. Não estou me agüentando de tanto rir. –ele falou seco e levemente irritado.

-não era uma piada. Mas se você quiser eu posso contar inúmeras... –Gina replicou irônica. –sabe aquela do loiro oxigenado que subiu no corujal? Ou aquela do sonserino-fantasma que tentou jogar quadribol?

Draco cerrou os olhos e avançou sobre Gina acuando-a no parapeito do batente da escada.

Ops, acho que exagerei... Ela pensou olhando-o com certo receio.

-você se acha a corajosa, não é? –ele falava com os dentes trincados. –mas se você visse as coisas como elas são Weasley, você pensaria muito diferente.

E dizendo isso ele desceu as escadas sem nem olhar para trás uma única vez. Gina estava com os pêlos da nuca e dos braços eriçados. Olhara dentro dos olhos dele e aquilo o abalara mais do que as próprias palavras... Havia raiva comprimida, muita raiva e também havia mágoas profundas. Ele estava confuso, Gina pode sentir. Era a primeira vez que via Draco Malfoy num desespero interno, era a primeira vez que conseguira enxergar algo por detrás daqueles olhos cinzentos que nem concreto, e, intransponíveis.

Ao enviar a carta Gina voltou para o castelo, dali a pouco ela teria aula de poções e discutiria com Snape qual seria sua detenção e quando seria.

Sinceramente, espero que Colin vá hoje. Ou melhor, ele vai, se não juro que vou matá-lo.

Foi até o dormitório trocar os livros, encontrou com Harry no meio do caminho.

-e aí Gina?

-oi Harry. Puxa vida, faz tempo que agente não se fala! –exclamou Gina impressionada.

-é, eu tenho andado muito ocupado, e você meio sumida, aonde andas? –ele perguntou.

-estudando, lógico. –Gina sorriu. –não tanto quanto Hermione, mas tenho me esforçado.

-ah, eu soube do concurso! A Mione disse! Parabéns! –ele falou.

-de nada. Acabei de enviar a carta de confirmação pra lá. –Gina contou. –vocês vão ter aula de quê agora?

-biologia. –respondeu Harry. –estudando um pouco sobre a matéria dos trouxas.

-deve ser fascinante! –exclamou Gina que havia herdado a curiosidade sobre o mundo dos trouxas de seu pai.

-você ia adorar. –ele falou. –e o Sr. Weasley também... Pena que só entrou agora em Hogwarts.

-é verdade. Meu pai ficaria fascinado. –Gina sorriu lembrando-se do seu velho. Provavelmente trabalhando àquela hora. Isso a lembrou de escrever para sua família.

-então até mais, Harry... –os dois estavam no saguão de entrada. –vou para as masmorras agora.

-ah, poções não é? Como está sendo com os monitores? –ele perguntou.

-péssimo. –Gina resmungou. –adivinha só quem ficou com a grifinória? Draco Malfoy e o amigo dele, o Zabini. Ninguém merece...

-andou implicando com você Gina? –perguntou Harry.

-aff... –Gina lembrou-se da última da aula. –mais ou menos. Tivemos que trabalhar juntos na última aula, o idiota do Colin faltou e eu fiquei sem parceiro... aí Snape mandou nos ficarmos juntos.

-e vocês conseguiram fazer alguma coisa? –Harry perguntou surpreso.

-no começo não, mas resolvemos fazer um "tratado de paz" pra terminar tudo mais rápido, entende? –Gina falou achando que realmente, aquela idéia era estúpida. Assim como aquele pé de guerra sem pé nem cabeça que eles tinham.

Tudo bem que os pais deles se detestavam, e provavelmente os avôs também... E os trisavôs... Mas porque eles tinham que se detestar a ponto de nem compartilharem o mesmo ambiente? Pessoalmente Gina não tinha nada contra Draco, a não ser aquele jeito superior dele. Enfim, era um assunto que ela não lograva muito em pensar.

-agora eu também tenho que ir, tchau Gina!

Os dois se despediram e cada um seguiu para seu rumo.

Respira fundo Gina. Você vai ter aula de poções agora. Agradeça por ainda estar assistindo-as e PELO AMOR DE DEUS NÃO FAÇA NENHUMA BESTEIRA! Se eu fizer algo de errado dessa vez não creio que Snape será tão condescendente quanto antes. Aliás, isso ainda é muito surpreendente...

Gina ajeitou os cabelos num rabo-de-cavalo, sabia que Snape não gostava de cabelos soltos durante as aulas de laboratório. Segurou a alça da mochila e puxando para dentro todo ar que conseguiu reunir ela adentrou na sala.

Curiosamente Snape ainda não se encontrava. Apenas os monitores, que conversavam em lados opostos da sala. E infelizmente Draco e Blás encontravam-se do lado onde Gina sentava. A única coisa boa era o fato de Colin estar presente.

Durante o caminho ela olhou Draco pelo canto dos olhos, ele a observou por breves instantes e voltou a conversar com Blás que parecia nem ter notado a troca de olhares. Até agora amistosos.

-Creevy eu vou te matar. Estou falando sério. –Gina sibilou ao sentar-se ao lado do garoto que lia a nova edição do Pasquim.

-você ainda não me perdoou daquela história, Gina? –ele perguntou hesitante.

-estou dizendo... Se você me der o bolo mais alguma vez nos laboratórios eu te transformo em um sapo ou em um despertador pra ver se você chega na hora. Está avisado.

-ok, ok... Desculpa Gina. Não precisa ficar tão irada assim. –ele falou afastando-se um pouco. –queria saber o que aconteceu com aquela menina doce do terceiro ano?

-o que você quis dizer com isso? –Gina inquiriu pronta pra azarar o garoto.

-PIMENTINHA! –era luna vindo do outro lado da sala e fazendo questão de falar alto.

Pronto, o Malfoy está olhando divertido pra mim. Ótimo Luna, obrigado mesmo, muitíssimo obrigado por revelar o meu apelido pra ele. Vou ser infernizada pelo resto da vida. Legal mesmo.

-pois é, oi Luna. Eu vou indo falar ali com o Phill. –Colin aproveitou para sair de fininho. Tudo bem, Gina ia ter tempo o suficiente durante a aula pra azará-lo.

-então, foi enviar a carta? E aí? –Luna veio animada.

-ah... Eu enviei sim. Fui logo depois do almoço. –falou Gina e olhou Draco rapidamente, sabia que ele estava ouvindo a conversa claramente. E ele nem fingia que não esta escutando.

Cara-de-pau... Pensou meio irritada. Olhando o modo como ele escorava-se na parede, de um jeito todo de tal e altivo com o queixo empinado. Até parece... Hahaha...

-quando será que eles vão responder?

-não sei, mas acho que antes do fim de semana. –chutou Gina.

Escutaram a sineta tocar. Avisando sobre o início do turno da tarde.

-melhor eu ir andando, vai que o Snape entra e vê-me correndo para o meu lugar. Aposto como ele não vai ser tão tolerante quanto foi com você... –Luna sorriu levantando-se.

Gina ajeitou a mecha que teimava em cair sobre os seus olhos. Sua franja estava muito curta para ser presa pelo pompom, devia lembrar-se de comprar presilhas quando fosse a Hogsmeade. Mal havia tirado o livro da mochila e Snape adentrara a sala. Sua cara por incrível que fosse parecia dizer que ele estava de muito bom humor.

Isso sim é um milagre! O que será que aconteceu pra ele ficar tão alegre desse jeito? Gina não deixou de perguntar-se. Era muito curiosa.

Ou quase, Colin tinha que estragar voltando atrasado para seu lugar. Gina pôs a mão na testa e respirou fundo, um dia ainda ia matar aquele estabanado.

-você não tem jeito Creevy. –sussurrou para ele apreensiva sob o olhar do professor que agora era pulo gelo.

-Creevy, menos 26 pontos pelo seu atrasado de sempre. –ele falou. –bem, uma das alunas da Grifinória foi transferida para outra escola, então alguém ficou sem parceiro. Quem foi?

A menina da sonserina levantou a mão. Tinha os cabelos louros curtos e bem cuidados e os olhos extremamente azuis. Era de origem francesa. E tinha quase metade dos garotos do ano de Gina aos pés. E por isso as garotas não gostavam muito dela, Gina não tinha nada contra, nunca gostara de nenhum dos seus companheiros de ano.

-Neveu. –Snape identificou-a e esquadrinhou a sala.

-você Creevy, junte suas tralhas e sente-se lá, a partir de hoje você será parceiro da srta. Neveu. –Snape falou ríspido sem ao menos olhar para Colin.

Gina sentiu o estomago afundar. Tudo bem que Colin é estabanado, idiota e muito imaturo, mas ainda sim, ele me ajuda nos laboratórios. Como é que vai ser? Eu vou ficar sem parceiro? Snape não está esperando que eu faça tudo sozinha? Ele ficou louco? É algum tipo de castigo extra pelo outro dia? Argh... É melhor me manter calada de qualquer forma. Cale-se Gina!

Com uma certa alegria Colin mudou de lugar. Lógico que todo mundo sabia que ele era um dos que ficavam aos pés de Nicoletti Neveu. Por isso alguns garotos soltaram bufos não muito altos. Gina só conseguia pensar em como ela ficaria dali pra frente.

Ao ver Snape sentar-se como se nem houvesse reparado que ela ficara em desvantagem Gina não pode se controlar e acabou perguntando:

-professor e eu? Como ficarei?

Snape meramente a olhou ríspido. Gina baixou o olhar, envergonhada. Eu e minha boca.

-Draco sente-se lá, você ficará sendo o parceiro da srta. Weasley. –Snape também não olhou para Draco, lia concentrado um livro.

Gina deixou o queixo cair, sua expressão não estava muito diferente da do garoto.

Essa não! Eu e minha boca! Eu e minha ENORME E ESTÚPIDA BOCA!! Merda, merda, merda! Era só o que faltava. Só isso. Eu ter que ficar tendo aula de poções com o Malfoy! Ele NEM É DESSE ANO! Por que eu? Porque Snape não o colocou com Neveu, ela é da sonserina, é mais fácil! POR QUÊ??? Preferia ter que fazer tudo sozinha... Aff... E porque ele não fala alguma coisa? Porque ele simplesmente aceita assim? Ele não é Draco Malfoy? Hum... Ninguém merece.

Draco sentou-se a muito contragosto ao lado de Gina. Ela afastou-se o máximo com a cadeira. Ele cruzou os braços e olhou para frente, para o armário, o fuzilando. Gina olhou para os lados e lançou um olhar de súplica para Luna que sorriu com pena.

Snape meneou a varinha e logo apareceu no quadro-negro o que eles teriam que fazer.

Preparar uma poção paralisante e escrever um relatório de acompanhamento sobre ela.

-vocês têm até segunda pra fazer isso. –ele sibilou.

-mas leva quase que uma semana e meia pra ficar pronta. –sussurrou Draco olhando como se Snape estivesse pirado. Não muito diferente dos outros monitores.

-ele é doido ou o quê? –Gina perguntou pra ele. –como vamos fazer isso em quatro dias?

Draco ponderou por alguns instantes e começou a rir.

-ele é um gênio. –sorriu. –poção catalisadora. Ele deu na aula passada, lembra Weasley?

Gina ficou meio boba pelo modo como os olhos de Draco brilharam. Ele realmente era louco por poções e via Snape como um grande mestre.

-alô, Weasley? –ele olhou-a confuso. –está vendo dois de mim? Aposto que sim. Estrábica e ainda por cima amnésica, tsk, tsk, tsk... Você não lembra da aula passada?

Gina voltou ao normal e olhou para Draco irritada.

-é lógico que eu lembro da aula passada. E estrábica é a sua mãe.

-não sabia que já havíamos chegado à fase das mães. –ele olhou raivoso. -e você sabe o que é estrábica por acaso, Weasley?

Gina olhou-o enviesada.

-dã, é lógico né Malfoy. Você se acha mesmo o melhor. Eu sei muito bem que você me chamou de vesga.

-parabéns, anda estudando mesmo. Por que se dependesse dos seus pais, nunca que você conheceria estas palavras refinadas e usadas por pessoas.

-o que você quis dizer com isso? –Gina inquiriu cerrando os olhos. –Ô Malfoy, não me provoca ou então eu vou acabar cometendo um assassinato aqui. Não duvide de mim, tenho bastante sangue-frio pra fazer isso.

Draco desafiou-a com o olhar.

-é mesmo? Uma garotinha como você me matar. Pois eu duvido, Weasley.

Gina azarou-o mentalmente. Como havia aprendido aquele ano.

Draco subiu na cadeira e começou a agir feito um cachorro, ganindo e com a língua pra fora. Depois do espanto inicial a sala explodiu em risos.

-o que está acontecendo aqui? –Snape levantou-se. –o que pensa que está fazendo Draco?

Gina desfez a azaração rapidamente. Snape... Se Draco dissesse, ela estaria muito ferrada. Muito ferrada mesmo. Como podia ter perdido a cabeça daquele jeito? De novo? O que estava acontecendo com ela? Porque andava tão explosiva? E porque Malfoy mexia tanto com seu emocional?

Sua idiota! Sua bastarda idiota! Gina você é uma burra! IDIOTA! BURRA! IDIOTA!

Draco olhou-a furioso e recompondo-se respondeu para o professor.

-efeitos colaterais da poção de transfiguração professor. Tenho que refazer alguns cálculos.

Snape analisou-o da cabeça aos pés e olhou Gina que estava surpresa e completamente envergonhada.

-sim, você tem que rever os cálculos mesmo. –falou por fim voltando a sua mesa. –e vocês? O que estão olhando?

Gina nem sabia o que dizer. Estava muito nervosa e envergonhada para dizer qualquer coisa.

Mas por que ele salvou minha pele? Não entendo... Ai que vergonha! Sua burra!

E sem dizer nada ele se levantou. Gina aliviou-se ao ver que ele iria pegar os materiais em vez de contar para Snape toda a verdade. Mas tinha a ligeira impressão que isso não tinha sido algo de nada, ele iria querer alguma coisa em troca, ela podia sentir isso. E na verdade, estava com receio do que o Malfoy pudesse pedir a ela.

Gina aproveitou para ler as instruções e preparou o caldeirão.

Eles não falaram nada além do necessário durante o resto da aula. Nada. Nem mesmo uma resposta afiada. Uma situação totalmente anormal para Gina. Preferia que ele lhe mostrasse os dentes a ficar assim se ter nenhuma idéia do que se passava pela mente dele.

Intransponível... Pensou lembrando-se do que acontecera no corujal há horas atrás. E incompreensível... Sinceramente... Ele é muito mais complicado do que eu pensava...

-dispensados. –Snape falou após olhar o relógio.

Guardando o material utilizado os dois terminaram de arrumar as coisas em tempo recorde. Depois Draco simplesmente saiu da sala. Sem dizer nada, sem nem olhá-la direito. E ela acabou nem falando com Snape sobre a detenção.

-isso é terrível. –Gina murmurou sentindo as costas pesadas. –e eu preciso de um banho, estou acabada...

Ela foi-se para a torre da grifinória.

Fim do Capítulo Dois