N/A: Primeiro capítulo. Espero que gostem.
Heather.
Capítulo Um -
AmeaçasEstavam na cozinha fazia uma hora quando Lily deu-se por vencida e guardou a última louça suja do café que eles haviam tomado para tentar acalmar os ânimos.
-Vou para meu quarto. -Disse jogando o guardanapo na bancada de mármore da cozinha, sem esconder a frustração no tom de voz.
-Lily. -Ginny a advertiu, porém a filha lhe lançou um olhar irritadiço.
-Não dá para fingir que estou calma, mãe! -E então saiu do local batendo os pés ainda escutando James também a repreendendo.
Já estava na metade da escada quando escutou vozes exaltadas vindo do escritório de seu pai, parou, pensando durante meio segundo antes de se esgueirar nas pontas dos pés até a porta e colar o ouvido na mesma. Seu instinto de jornalista a impedia de seguir em frente e ignorar uma conversa secreta, ainda mais naquele momento, com seu pai e Scorpius trancafiados no local falando sobre seu irmão desaparecido. Ela tinha que saber alguma coisa, morreria de tão sem informações que se encontrava.
-Como você pode deixar uma coisa dessas acontecer, Grissom?! -Era a voz de seu pai. Parecia furioso.
-Harry, acalme-se. -Agora a voz era de Scorpius, seu tom era grave. -Grissom não teve culpa.
-Como que não teve, Scorpius?! Ele quem designou você e Albus para aquela armadilha!
Lily franziu o cenho. Então o loiro e o irmão estavam juntos durante a tal missão?
-Harry, como eu podia saber? -A outra voz era desconhecida para a ruiva, mas parecia cheia de medo. -Juro, se soubesse... Oh, Harry, Scorpius e Albus eram os mais preparados para essa missão...
-Diga isso ao meu filho desaparecido e potencialmente morto, Grissom! -A voz de Harry falhava, e Lily sentiu o corpo gelar, o ar escapou de seus pulmões.
Albus... Morto...
-Não seja dramático, Potter. -A voz cheia de medo parecia mais firme agora. -Não sabemos se Albus está morto... Ele é um auror brilhante, dessa forma, você o menospreza.
-Não me venha com esse papo-furado, Grissom. -Harry falou secamente. -Meu filho foi perseguido e capturado por uma legião que vocês só tem como prova o maldito símbolo de um retângulo e dezenas de mortos das formas mais grotescas possíveis!
Lily sentiu uma naúsea, achando cada vez mais difícil continuar escutando aquela conversa. Seu corpo tremia e ela mordia o lábio tentando conter os soluços que ameaçavam começar a qualquer minuto.
-Harry, eu sei que é díficil isso. -Scorpius pronunciara-se novamente, parecia cauteloso. -Mas você precisa raciocinar direito. Albus não foi o único sequestrado, isso está ficando sério. Precisamos fazer algo urgente antes que o mundo bruxo saiba disso.
-Não me peça para agir à sangue-frio agora, Scorpius. -Harry falou secamente. -Eu quero meu filho de volta.
-Assim como muitos outros pais querem seus filhos também, Harry! -O homem desconhecido falou exaltado e um silêncio longo seguiu-se.
Barulhos de passos alertaram Lily e ela saiu correndo, mas pode escutar a porta sendo aberta antes que virasse no corredor e seguisse desabalada pelas escadas. Torcia para que ninguém a tivesse visto ali ou talvez tivesse sentindo-a.
Entrou no quarto e fechou a porta suavemente, encostando-se na mesma e deixando se escorregar até o chão, onde abraçou os joelhos, soluçando e chorando. Seu irmão havia sido capturado por uma legião assassina desconhecida. E se estivesse realmente morto? O que era essa legião? O que estava acontecendo? Ela mordeu o lábio inferior com força, tentando expulsar as imagens de Albus morto de olhos arregalados, jogado numa viela suja e escura em alguma grande cidade do mundo, da mente e respirou fundo.
-Controle-se. -Disse para si mesma, tentando conter as lágrimas enquanto se levantava.
Por fim decidiu tomar um banho e pensar racionalmente na conversa que ouvira. Albus não havia sido o único a sumir, e pessoas haviam morrido. Um número considerável de pessoas. E a legião tinha um símbolo, um retângulo. Ela franziu o cenho, escovando os cabelos, qual seria o motivo de usarem um retângulo como símbolo? Era uma forma geométrica qualquer e até mesmo usual. Incompatível com o estilo que eles aparentavam ter.
-Talvez sejam loucos com ligações desequilibradas. -Murmurou sentindo um ódio crescente a consumir.
O sol inundou o quarto e obrigou a ruiva a abrir os olhos. Lily olhou para o relógio da parede, eram nove horas e ela estava atrasada para o trabalho. Resmungou algo e levantou-se num salto, jogando as cobertas no chão e indo arrumar-se. Havia dormido muito tarde, pensando e lamentando-se pelo seu irmão, felizmente, quando adormecera estava tão esgotada que nem sonhos tivera. Estava decidida a ir procurar sobre essa legião e tentar ajudar em alguma coisa para achar seu irmão. Não tinha nenhuma idéia absurda sobre empunhar a varinha e sair duelando com assassinos, mas sabia que conhecimento era poder. E, pelo visto, conhecimento era algo que o ministério não tinha; o que complicava muito a situação deles.
Vestiu um conjunto preto básico e colocou sua capa, pegando sua bolsa e saindo do quarto. Falar com seu pai ou se irmão sobre isso estava fora de cogitação. Se soubessem que ela pretendia se meter em assuntos secretos do ministério...
Ninguém poderia saber, o que ela pretendia fazer com certeza lhe valia uma passagem de ida direto para Azkaban, mas pelo bem de seu irmão, ela faria o que pudesse. Ficar sentada apenas esperando notícias nunca fora uma atitude Lily Potter de ser. Não da melhor e mais desafiadora jornalista do Profeta Diário. Não da filha de Harry Potter e Ginevra Weasley.
-Lily. -James saudou-a. Tinha grandes marcas negras ao redor dos olhos.
-Bom dia. -Ela desejou para o irmão e para os pais que estavam sentados à mesa. Aproximou-se pegando algumas torradas e tomando um copo de suco rapidamente. -Preciso ir.
-Aonde? -Harry perguntou, fitando a filha com os olhos inquisidores, e ela soube que ele sabia que ela havia escutado a conversa da noite anterior.
-Para o trabalho, claro. -Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo e então acenou saindo, sem dar espaço para que o pai falasse mais algo.
A mudez de sua mãe a afetara. Ginny sempre estava alegre e falante durante as manhãs, e mesmo quando estava irritada, sempre estava falante. Então o silêncio da mãe era algo torturante de se agüentar. Mas Lily tentou entender o que a mãe sentia, não conseguiu, apenas podia imaginar a dor agonizante em saber que um filho seu estava nas mãos de inimigos e sem futuro incerto. A ruiva balançou a cabeça negativamente, expulsando tais pensamentos da mente e concentrando-se em aparatar em frente à sede do jornal.
Com um rodopio parou em frente a um prédio tortuoso de tijolos vermelhos, com uma placa de metal polido em cima da porta-giratória de madeira. "O Profeta Diário". Galgou as escadas e lançou um olhar pela rua já movimentada do Beco Diagonal, seus olhos arregalaram-se quando pensou ter avistado Scorpius Malfoy na sorveteria à frente, porém piscou e não havia nenhum loiro ali, encarando-a. Respirou fundo e passou pela porta sendo saudada com um alegre bom-dia pelo duende que estava parado ali próximo, devidamente uniformizado, sentando num banco. Devia estar imaginando coisas.
Seguiu pelo saguão de mármore e, após apresentar seu crachá para uma mulher gorducha e baixinha próxima as catracas que separavam os departamentos de atendimento ao público dos elevadores que levavam aos vários andares de edição do jornal, Lily seguiu para um dos elevadores e apertou seu andar, o andar de reportagem e o maior de todos. Ela esboçou um sorriso para as pessoas presentes no cubículo que se movia lentamente para cima e fixou seu olhar no painel de números.
-Potter. -Desviou o olhar para um rapaz de cabelos castanho-claros e olhos azuis que ficou ao lado dela, sorrindo-lhe abertamente.
-Zabini. -Ela sorriu para ele sentindo-se mais alegre pela primeira vez no dia. -Como vai?
-Bem, bem. E você? -Ele perguntou lhe dando um beijo no rosto e afastando-se para deixar algumas pessoas passarem quando o elevador parou.
-Ah, estou indo. -Lily respondeu escondendo toda a tristeza e preocupação de seu rosto. -Meio atolada com alguns artigos.
-Lily Potter reclamando de excesso de serviço? -Ele fingiu uma cara de assustado e riu de leve. -Você realmente está bem, garota?
-Ah, não enche. -Lily resmungou revirando os olhos, porém sorrindo. -Terminou aquela sua reportagem sobre varinhas?
-Sim. Vão publicá-la amanhã, enfim. -Ele soltou um suspiro aliviado. -Nem acredito que tive que reescrever tudo de novo. Nunca mais deixo meus rascunhos perto de uma janela aberta, sério, foram 7.000 palavras perdidas.
-Nossa. -Lily gemeu pensando que se mataria se acontecesse algo assim com ela. -Mas aposto que você deve ter aperfeiçoado seu texto.
-Assim você me deixa encabulado, Potter. -Ele brincou. -Não sou eu que tenho dois Rita Skeeter no currículo.
Ela sorriu. Rita Skeeter era o prêmio mais cobiçado pelos jornalistas bruxos. Era o prêmio de melhor matéria e melhor jornalista do ano. E Lily, com apenas três anos de carreira fixos, havia ganhado dois, em anos consecutivos, o primeiro de melhor matéria e o segundo de melhor jornalista. Por isso, em um tempo tão curto, seu salário já era um dos maiores pagos pelo Profeta Diário, e também a pressão sobre ela era uma das maiores. Todos esperavam que a cada semana ela viesse com alguma matéria impactante e perfeita. Isso a irritava, e com o tempo fizera-a desenvolver um senso autocrítico muito pesado sobre si. Já perdera a conta das vezes que tivera que ficar sob efeito de poções para dormir e relaxar.
-Nem é assim, Zabini. Você é um dos melhores jornalistas que conheço. -Lily disse saindo do elevador e esperando-o.
-E você a mais brilhante. -Ele piscou, olhando-a de forma intensa antes de se despedir e seguir para sua saleta. Lily ficou alguns segundos ali, tentando não se atrever a pensar que ele havia acabado de flertar com ela. Seria sonho demais que isso pudesse acontecer, Rick Zabini, o cara mais bonito e inteligente que havia naquele jornal lhe dando atenção. O cara que até recentemente namorava uma das herdeiras mais ricas do mundo bruxo, Paris Lestrange, e o qual Lily tinha uma queda desde o primeiro momento em que pusera os pés naquela redação. Simplesmente não podia ser verdade.
-Se concentre Lily. -Ela disse para si mesma, chegando à sua sala e jogando sua bolsa sobre a mesa devidamente organizada. Em seguida abriu as persianas e olhou para a rua lotada e barulhenta metros abaixo. Logo seus pensamentos voaram para a conversa da noite anterior, precisava planejar por onde começar sua pesquisa. Seria difícil quando não tinha nenhum nome, data ou objeto. Sentou-se na cadeira estofada e puxou um pergaminho limpo rabiscando com as palavras.
Retângulo.
Forma geométrica. Base e altura iguais, assim como os lados. Analogia à um sistema hierárquico onde quem comanda tem tanta importância quanto os menos poderosos, os formadores da base? Os lados seriam como ideologias de sustentação?
Mortes.
Motivos ideológicos: Bruxos socialistas e Bruxos capitalistas?
Teoria da Superioridade Sangue-Puro?
Lord Voldemort? Grindwald?
Mortes bizarras.
Desvios comportamentais?
Comoção às práticas sádicas?
Tentativa de demonstrar força mágica e provocar o caos e horror?
Rituais?
Ela descansou a pena e releu o que tinha escrito, cada vez mais confusa. As possibilidades poderiam ser infinitas. Era mais difícil do que pensava. Uma batida à porta chamou sua atenção e ela rapidamente enfiou o pergaminho embaixo de tantos outros e pediu para que entrasse.
-Lily, o Sr. Malfoy deseja vê-la. -Uma garota magrinha e alta falou em um tom animado, até demais, pensou Lily irritada, porém pediu para que deixasse o homem entrar.
Segundos depois Scorpius Malfoy fechava a porta atrás de si e aproximava-se perigosamente da mesa dela. A ruiva sentiu o local encolher ante a presença dele.
-O que foi? -Perguntou tentando não se intimidar ante ao olhar crítico que ele lhe lançava.
-Ande. Dê-me o pergaminho. -Ele ordenou estendendo a mão para ela.
-Como? -Lily fingiu-se confusa, evitando olhar para o monte onde estava escondido o papel. -Do que você está falando?
-Não seja idiota, Potter. Sei que você escutou a conversa ontem à noite. -Ele disse revirando os olhos, impaciente. -Me entregue o pergaminho e não se meta nos assuntos que não são da sua conta.
-Não são da minha conta? -Lily perguntou estreitando os olhos. -Meu irmão está no meio, Malfoy.
-Não interessa, isso é coisa do ministério, e você pode ir pra Azkaban por se meter em assuntos confidenciais.
-Eu não me meti em nada e não sei de que pergaminho você está falando.
-Do pergaminho que você escrevia suas análises antes de eu chegar. -Ele falou e ela engoliu em seco, porém não se entregaria tão facilmente.
-Se você tem tanta certeza, por que você mesmo não pega? -Desafiou erguendo o queixo. -Pra você saber que eu estava escrevendo antes de você entrar, você viu também onde eu guardei.
Os lábios dele tornaram-se uma fina linha.
-Não me irrite, garota. -Sibilou puxando a varinha e apontando para as gavetas da mesa de Lily. Logo elas foram arrancadas e papeis e objetos voaram para todos os lados.
-MALFOY! Seu imbecil! -Lily gritou furiosa, levantando-se num salto e puxando a varinha também, porém ele tirou da mão dela antes que pudesse pronunciar qualquer coisa. -Devolve minha varinha e arrume minhas coisas, AGORA!
Ele olhou-a com desdém.
-Me entregue o pergaminho, Potter.
-Vá pro inferno.
As pastas organizadas nas prateleiras atrás de si também saíram voando e o ar encheu-se de papeis.
Lily avançou no loiro, e ele lhe segurou os pulsos, mantendo-a afastada.
-Nem pense. -Disse com a voz seca. -Me entregue o pergaminho ou eu vou destruir essa sua mísera sala.
-Eu não sei de que merda você está falando. -Ela disse debatendo-se para se soltar e dar-lhe um soco bem no meio do rosto.
-Ah sabe. -Ele olhou-a fixamente nos olhos e Lily apressou-se em fechar a mente. -Esperta.
-Saía daqui Malfoy, ou eu vou gritar. -Ameaçou ao que ele apenas esboçou um sorriso.
-Eu sou um Auror e você uma Jornalista, acha mesmo que vão me prender? -Revirou os olhos zombando dela.
-Sim vão. -Lily empinou o nariz, relaxando os músculos na espera que ele afrouxasse o aperto em seus pulsos.
Um brilho de desafio passou nos olhos cinza, porém o rapaz endureceu as feições.
-Escute Potter, isso não é mais uma daquelas suas matérias jornalísticas. Isto é sério, você não sabe no que está se metendo.
-Nem vocês sabem. -Ela retorquiu com aspereza e engoliu um gemido quando o rapaz fez mais pressão em seus pulsos.
-Eu avisei. -Ele por fim largou-a e saiu do local apressado.
Lily demorou alguns minutos massageando os pulsos com as marcas exatas dos dedos de Scorpius Malfoy e então soltou um longo suspiro, jogando-se na cadeira e olhando a bagunça a sua volta com os olhos desfocados. Por um breve momento achou que Malfoy seria capaz de torturá-la atrás daquele pergaminho. E isso era o mais estranho. Por mais importante que fosse, agressão não era um dos métodos dos Aurores, ele havia passado do limite. Lívida, a ruiva pegou a varinha jogada no chão e começou a organizar a sala, deveria prestar uma queixa contra o homem. Faria isso. Quem ele pensava que era para entrar na sala dela, destruir tudo e ainda agredi-la fisicamente sem chance de defesa?
-Lily, está tudo bem? -A garota magra e alta voltara, seus olhos estavam cheios de receio e sua voz era tremida.
-Sim, Matilda. Está tudo em ordem. -Lily respondeu mais grossa do que deveria e então pôs as mãos nos quadris. -Ele foi embora?
-Hum, sim. Saiu furioso daqui. -Matilda, aproximou-se, ajudando-a a arrumar as pastas que restavam. -Por que havia um Auror aqui, Lily?
-Eu sou uma jornalista investigativa, o que mais precisa justificar? -A ruiva resmungou escondendo os pulsos ainda marcados e guardando o pergaminho dentro da bolsa.
-Você está se metendo de novo em assuntos ministeriais? -Matilda perguntou num tom de fascínio.
-Algo do tipo. -Lily deu ombros e acrescentou, para disfarçar. -Diria algo pessoal... Malfoy está irritado por que pretendo escrever sobre a família dele.
-Vai escrever um artigo sobre a família Malfoy? -Matilda pareceu confusa e até decepcionada. Lily conteve um sorriso, aspirantes a jornalistas eram sempre divertidos de se observar. Em pensar que há quatro anos ela fora que nem Matilda, talvez até mais chata e ambiciosa do que a garota a sua frente.
-Sim. Uma história bem suja eles tem, se quer saber. -Lily alfinetou voltando a sua raiva por Scorpius. -Ok, está tudo de volta no lugar. Preciso trabalhar agora.
-Ah, claro! -Matilda esboçou um sorriso de desculpas e saiu da sala fechando a porta com cuidado.
A ruiva sentou-se novamente à mesa e tamborilou os dedos no tampo, observando as marcas avermelhadas nos pulsos ganharem uma tonalidade arroxeada. Cerrou os olhos, praguejando, aquele idiota lhe pagaria caro por isso. Então se voltou a concentrar no caso de Albus, porém decidiu apenas pensar sobre o assunto e não anotar mais nada.
Já era hora do crepúsculo quando Lily deixou a sede do Jornal. Havia ficado conversando com Zabini na cafeteria antes de ir embora. E não restavam mais dúvidas, ele estava flertando com ela. A ruiva sorriu, sentindo o vento frio balançar seus cabelos soltos, quando pisou na tortuosa e comprida rua do Beco Diagonal já não tão cheia aquela hora. Pensou em passar na livraria antes de ir para a casa, talvez na Floreios e Borrões pudesse achar algo que lhe fosse útil em sua pesquisa. Passara o dia todo analisando cada detalhe da conversa que escutara e, sinceramente, nada fazia um sentido concreto, não havia nenhuma pista. Estava fazendo seu caminho em direção a loja quando teve a sensação de estar sendo observada. Parou por uns instantes, olhando para trás, e em seguida deu ombros, continuando a andar.
Estava quase alcançando a maçaneta da porta da loja quando alguém a puxou com força. Ela desequilibrou-se, porém mãos fortes a enlaçaram pela cintura e um hálito quente soprou em seu ouvido.
-Venha comigo e não grite. -A voz era ameaçadora.
Sentindo um frio percorrer a espinha, Lily olhou para o homem, porém seu rosto estava encoberto por um chapéu que lhe ia até a ponta do nariz. Os lábios eram carnudos e estavam comprimidos numa linha, ele a arrastava para um beco entre a livraria e outra loja. A ruiva pensou em gritar, ou pisar no pé do homem, mas tinha plena certeza que se fizesse isso às coisas não iriam ter um fim bom. Não que indo com ele, ela também achasse que ficaria bem. Pelo contrário, pensou aterrorizada, tentando controlar os ânimos.
-O que você quer? -Perguntou num fio de voz, respirando ofegante ao ser empurrada contra uma parede. Então notou que o homem estava bem-vestido demais para ser um ladrão qualquer. Seu coração pareceu querer sair pela boca. E desviou os olhos dele ao notar outro homem aproximar-se, era um pouco mais baixo e mais largo que o a sua frente, e também estava irreconhecível. Ambos usavam capas marrons, luvas negras, roupas sociais e o chapéu até o meio da cara. De longe pareciam com aqueles detetives de filmes trouxas antigos.
-Fique quieta e nada de grave lhe acontecerá. -O homem baixo falou, sua voz parecia um guincho. -Por enquanto, ao menos.
Ele soltou uma risadinha, mas parou, ao que pareceu, pelo olhar que o mais alto lhe lançara visto que tinha seu rosto virado para ele.
-Me entregue sua varinha, Srta. Potter. -O alto pronunciou-se, dando alguns passos em direção a ela. Lily retesou, contendo a respiração. -Agora.
Não sabia como reagir, estava assustada demais e lançava olhares furtivos para a rua movimentada na esquina, por que ninguém os via ali? Por que ninguém vira quando fora abordada e arrastada até aquele beco imundo? Deu um pulo ao sentir mãos percorrendo seu corpo, rapidamente lágrimas formaram-se em seus olhos ante a idéia de ser estuprada ali. Tentou reagir, porém o baixinho tratou de lhe lançar um impedimenta que a paralisou. O terror dominou todo seu corpo. E então ela notou um brilho no breu que era o vão entre o rosto e o chapéu do homem alto.
-Cumprimos nossa palavra, senhorita, dissemos não machucá-la e não o faremos. -Ele por fim afastou-se com a varinha de Lily nas mãos. -A menos é claro, que você nos faça fazer isso, o que penso que não o fará visto que é uma mulher muito inteligente, Lílian Potter.
Ela não conseguiu não transparecer o alívio ao vê-lo afastar-se, porém mordeu o lábio, estava completamente desarmada.
-O que vocês querem? Digam logo. -Falou com a voz mais firme, olhando diretamente para os dois com que imaginou ser o olhar mais frio que conseguira simular ante ao seu pavor.
-Corajosa. -O baixinho sorriu divertido e ficou ao lado do outro homem. -Temos um recado para você e seus aliados.
-Aliados? -Lily perguntou confusa, e então seus olhos se arregalaram. Seriam eles...
-Sabemos que Malfoy foi até seu escritório hoje arrancar informações sobre nós, e sabemos também que você está nos investigando. -O homem alto falou e em seguida quebrou a varinha de Lily em dois pedaços com um sorriso zombeteiro na boca.
-Vocês... Vocês... -Lily gaguejou com o coração acelerado, e em seguida, cerrou os olhos, furiosa. -Vocês seqüestraram meu irmão. Seus canalhas!
Ela desejou poder se livrar do feitiço e avançar sobre eles, espancando-os até a morte. Mas ainda sentia seu corpo preso à parede. E agora sua varinha estava quebrada. Tentou controlar-se, mas as lágrimas de fúria jorravam de seus olhos.
Os dois riram, divertindo-se à custa dela e encostaram-se na parede oposta.
-Vai o quê? Matar-nos Potter? -O baixinho perguntou. -Você não passa de uma bisbilhoteira de péssimas habilidades mágicas. A única coisa que você sabe é escrever, falar o que não deve, e se meter em encrencas, claro.
-Para alguém com seu sobrenome, e com pais e antepassados como os seus, você é bem desprezível. -O outro continuou e Lily sentiu aquelas palavras atingindo-a fundo.
-Vão para o inferno. O que vocês fizeram com Albus?! -Tentou debater-se inutilmente, o baixinho fortalecia o feitiço toda vez que ela começava a mover-se um milímetro que fosse.
-Seu irmão procurou e achou. -O alto disse com frieza e aproximou-se novamente, jogando os pedaços da varinha da ruiva aos pés dela. -Diga aos seus queridos amiguinhos do Ministério que fiquem fora dos nossos assuntos, Prometeu não é uma legião de assassinos qualquer Potter. E se eles continuarem tentando nos interceptar, muitas, muitas pessoas vão pagar por isso.
Ela piscou, aturdida e olhou para os dois.
-Isso serve para você também. Não se meta conosco, ou terá destino pior que o do seu irmão. -O baixinho avisou caminhando mais para dentro do beco.
-Sua vida foi poupada, por enquanto. Não conte com tanta sorte da próxima vez, garota. -O alto disse seguindo o outro e logo os dois desapareceram num rodopio.
Demorou alguns minutos para que Lily finalmente pudesse se locomover, em vez disso, a ruiva escorregou até o chão imundo e desabou em lágrimas de susto, dor e principalmente pavor. Finalmente dera-se conta que estava mais do que à beira da morte, qualquer movimento daquelas varinhas e ela poderia estar jazendo morta agora mesmo. Havia visto o quanto era despreparada, o quanto era um alvo fácil. Talvez estivessem vigiando-a fazia tempo. Mas como...?
Ela ficou naquela posição por um tempo, em seguida recompôs-se e esfregou o rosto, tentando disfarçar a cara de choro. Precisava fazer algo, urgentemente.
Com um rodopio desapareceu.
-Scorpius Malfoy ainda está aqui? -Ela perguntou impaciente para a recepcionista do Ministério. O saguão estava vazio, o expediente já terminara fazia certo tempo.
-Não. Não apareceu hoje por aqui. Posso ajudá-la em mais alguma coisa, Srta. Potter? -A mulher perguntou preocupada e até assustada, Lily deveria estar com um rosto apavorado para provocar aquelas reações.
-Sim. Onde ele mora? -Perguntou impulsivamente. Nem que Malfoy estivesse nos infernos, ela iria atrás dele.
-Ele... Não posso informar... Srta...
-Não tenho tempo para isso! É URGENTE! -Lily quase gritou e sacudiu a mulher pelos ombros.
-Ok, ok. Ele mora em Bristol, na Honorable Malfoy Mansion. -A mulher respondeu aos tropeços, nervosa.
-Obrigada. Desculpe. -Lily falou ofegante e afastou-se em direção a uma lareira. Murmurou o que a mulher dissera e sentiu-se engolida pelas chamas esverdeadas.
Depois de muito rodopiar tombou em um tapete felpudo e macio.
-Potter? -Escutou a voz grave e familiar de Scorpius soar e então se levantou. Estava numa grande sala de estar, o rapaz encontrava-se numa poltrona, lendo um livro. No rosto ostentava uma armação discreta de lentes retangulares.
-Ora, você é quatro-olhos. -Lily zombou raivosa, limpando as cinzas da capa e andando reto em direção a ele.
-Não me lembro de convidá-la para minha casa. -Scorpius ignorou a provocação da garota e fechou o livro, analisando-a de cima a baixo. -O que aconteceu?
-Como você sabe que aconteceu alguma coisa? -Lily perguntou desconfiada, parando em frente a ele, com os braços cruzados, tentando conter o tremor que parecia querer voltar.
-Por que você está desarrumada, pálida e sua voz tremida. -Ele respondeu indiferente e levantou-se, posicionando centímetros de distância dela. -Veio me entregar o pergaminho?
-Nem em sonhos. Eu não tenho pergaminho nenhum. -Disse estreitando os olhos, ele fez o mesmo e os dois se encararam por breves segundos.
-Então vá embora. Não tenho nenhum assunto para tratar com você. -Ele disse por fim, dando as costas a ela e fazendo menção de se retirar.
-Eles vieram atrás de mim. -Lily disse num tom de desespero e o rapaz parou, virando-se lentamente.
-Eles quem? -Perguntou calmamente, seu semblante era inexpressivo.
-Os mesmos que pegaram Albus. A Legião. -Ela disse mordendo a parte interna da bochecha, controlando as lágrimas que ameaçavam se formar. -Se chamam Prometeu.
O rapaz ficou surpreso por alguns segundos e tornou a sua face habitual, aproximando-se novamente.
-Fizeram alguma coisa com você? -Perguntou com a voz contida de raiva.
-Não. Nada grave. -Lily respondeu séria e começou a chorar. -Mas Albus... Disseram... Disseram que ele procurou e achou. Disseram que eu teria um destino pior que o do meu irmão se eu continuasse me metendo onde não era chamada...
E então ela desabou no sofá próximo, escondendo o rosto entre as mãos, soluçando.
-Eu lhe avisei. -Scorpius falou agora visivelmente irritado, andava de um lado para o outro. -Onde foi isso? Quem eram?
-Num beco ao lado da Floreios. Eram dois homens, um baixo e o outro alto, os rostos estavam escondidos por chapéus. -Lily disse entre os soluços. -Meu Deus, Albus... Mataram ele, Malfoy. E vão matar quem se meta no caminho deles...
-Não fale isso! -Malfoy repreendeu-a com raiva. -Não mataram Albus, não o matariam assim.
-Por que não matariam? É um Auror! -Lily elevou o tom de voz, levantando-se de supetão. -Não venha tentar me manipular para acreditar que meu irmão ainda tem chances de estar vivo Malfoy!
-Você o quer morto tanto assim, Potter? -Scorpius inquiriu segurando-a pelos ombros com força. -Olhe o que você está dizendo, declarando a morte de seu irmão. Se ele estivesse morto teríamos achado o corpo dele. Qual o objetivo de matar alguém tão importante e conhecido como Albus Potter se era para esconder a morte dele? DIGA! Não é você a esperta jornalista?!
Lily olhou-o amedrontada, Scorpius Malfoy olhava-a cheio de ódio e desprezo. Não conseguiu responder nada, apenas ficou olhando para ele, as lágrimas rolando com mais velocidade. O corpo mole preso pelas mãos fortes e brutas do Auror.
-Bem suspeitava. -Ele largou-a de volta no sofá e afastou-se. -Eu disse para não se meter. Por que você é tão impulsiva? Agora, além do seu irmão, do seu pai, de todos, você também está na linha de visão deles! E você... Você...
Ele soltou uma risada de escárnio e Lily encolheu-se involuntariamente. Não conseguia raciocinar, não conseguia se defender aos ataques que ele lhe fazia. Por que ele tinha que ser tão cruel com ela? Por que todos tinham que ser tão cruel com ela? Soluçou alto e abraçou os joelhos, tremendo.
-Preciso falar com seu pai. -Scorpius disse por fim, parando de frente para ela, o rosto impassível e os olhos brilhantes de fúria contida. -Vamos, levante-se. Vou te levar para sua casa.
Ela obedeceu-o, com medo que ele gritasse de novo e então sussurrou num fio de voz.
-Eu vou sozinha, obrigada. -Começou a caminhar em direção à lareira, mas sentiu o braço ser puxado e logo tudo rodou a sua volta e a sala ficou para trás, dando lugar a sala de estar de sua casa. Haviam aparatado. Soltou-se de Malfoy e saiu correndo, avistando James conversando com a mãe num dos sofás. Escutou o irmão chamá-la, preocupado, mas ignorou-o e trancou-se no quarto.
Parecia que sua reserva de lágrimas havia acabado, por que ela apenas soluçava descontroladamente. Mal havia dado alguns passos em direção ao banheiro quando James começava a espancar a porta.
-VÁ EMBORA! -Gritou para o irmão, trancando-se no banheiro. Não demorou muito para escutar um barulho de porta sendo destrancada.
-Potter, saía daí. -Não era James como esperava, e sim Scorpius.
-Me deixe Malfoy. -Lily gemeu, encolhendo-se na banheira vazia. Mas novamente, sem respeitar sua vontade, ele abriu a porta e entrou no local, fixando o olhar nela.
-Levante-se daí. -Ordenou num sibilo, como se fizesse muito esforço para manter o tom calmo e frio.
-Você não manda em mim. -A ruiva respondeu lançando-lhe um olhar de desprezo. -Me deixe em paz. Você, todos, já me humilharam o suficiente por hoje, não acha?
Ele crispou os lábios, aproximando-se, e levantando-a sem delicadeza pelos ombros.
-Não tenho tempo para seus dramas. -Disse secamente impedindo-a de se soltar. -Vamos falar com seu pai, agora.
-Me largue! Eu não vou falar com ninguém! -Ela tentava soltar-se, sentindo-se uma tola com aquele comportamento.
-Ah, mas você vai. -Ele arrastou-a para fora do banheiro e em seguida para fora do quarto, silenciando-a com um feitiço. -Precisamos saber tudo o que eles lhe disseram, talvez seja a única esperança para seu irmão.
E com essa frase, ele convenceu-a, pois ela parou de tentar se soltar e deixou que a levasse.
Fim.
