Capítulo Três - Proposta


Ela olhou em volta novamente, a terceira lata de refrigerante estava na metade, e o bar começava a lotar à medida que a noite avançava. O bartender voltara, sorrindo-lhe.

- Esperando alguém, senhorita? - Perguntou retirando as latas vazias de sua frente.

- Algo assim. - Lily sorriu-lhe discretamente, ainda olhando ao redor.

O bar era discreto, a iluminação bruxuleante proposital para que deixasse os clientes mais à vontade. Sua decoração tinha caráter impressionista, as poltronas possuíam diferentes formas geométricas e pela parede havia diversos quadros pendurados das formas mais inusitadas possíveis, com artes indefinidas. A ruiva mordeu o lábio inferior, o local não ficava muito longe do seu destino final, poderia ir até Stonebridge Park andando calmamente.

- Dez para a meia-noite. - Alguém disse ao seu lado e notou uma mulher perguntando às horas para o rapaz. Sentiu um formigamento de pânico e pagou a conta dos refrigerantes, levantando-se depressa. Não podia chegar atrasada. Vestiu o casaco que estava sobre uma cadeira vazia e displicentemente dirigiu-se à porta, certificando-se de que ninguém a olhava de forma desconfiada. A última coisa que precisava era estar sendo seguida ou vigiada. Nada poderia dar errado, se não Albus pagaria por isso, e era algo que ela sequer podia cogitar acontecer.

Passara um bom tempo andando pelas ruas ao redor do parque, enquanto tentava arquitetar um plano para o momento. O problema era a falta de informações, Lily estava no escuro quanto à Legião e sua forma de agir. Qualquer pessoa diria que ela queria se matar tomando uma atitude tão impulsiva como a de ir se encontrar com assassinos que estavam em posse de seu irmão e de Zabini. Principalmente ela que não possuía a mínima preparação para situações de batalhas.

Cruzou os limites do parque e não demorou muito para ser rodeada por frondosas árvores como salgueiros e faías. O lugar estava quieto e calmo, alguns metros distantes podiam-se escutar vozes de casais e pessoas passeando pela noite, mas todos em sentido à saída do local. Era tarde, e parques eram perigosos naquelas horas, todos os tipos nojentos de trouxas preferiam aquele horário para agir em lugares escuros e reservados como aqueles. Bem, ela era uma bruxa. Não precisava se preocupar com qualquer tipo de ataque vindo de alguém não-mágico. De fato, preferia que fossem pessoas assim com quem tivesse que lidar, em vez da suposta seita.

Sua respiração começou a ficar acelerada e suas pernas estavam a um fio de começarem a tremer feito varas-verdes. O local ficava cada vez mais escuro e ela já não sabia ao certo sua posição geográfica, nem mesmo sabia onde deveria encontrá-los, mas não se preocupou com isso, a única certeza que tinha era que eles a encontrariam.

Um estalo a fez parar abruptamente, sequer tentou olhar para trás, o medo a assolou e ela respirou fundo, tentando se concentrar e evitar sair correndo dali. Não era covarde. Forçando-se deu um passo atrás do outro e recomeçou a andar, dessa vez mais lento do que antes, com os ouvidos apurados para qualquer novo barulho. Aproveitou para enfiar as mãos no bolso e segurar a varinha com força, quem sabe ela não tivesse sorte e conseguisse vencer um propenso duelo?

- Potter? - Escutou alguém sibilar e parou, olhando em volta e não vendo nada exceto folhas e luzes de lâmpadas ao longe.

- Sim. - Respondeu trêmula, esperando que alguém se revelasse, e como se tivessem atendido aos seus pedidos, um grupo de cinco pessoas, encapuzadas, saiu da escuridão. Ela sentiu o estômago afundar e fitou-os tentando manter-se impassível. Ficou naquela posição por alguns minutos, esperando que eles se pronunciassem, mas ao ver que permaneciam emudecidos, fitando-a por debaixo do grosso capuz de veludo, ela resolveu arriscar.

- Onde está meu irmão?

- Vivo. - Respondeu um dos vultos, a voz era inegavelmente feminina.

- O que vocês querem? - Perguntou começando a ficar nervosa com toda aquela tensão.

- Não tenha pressa, Potter. - Outro vulto falou e Lily teve certeza que se tratava do homem alto que a abordara no dia anterior. A voz era inconfundível. - Ela é inimiga da perfeição.

- Sério? - Lily perguntou em deboche de forma ousada e em seguida recriminou-se, não estava em posição de desafiar ninguém.

Eles deram uma breve risada.

- Impaciente. - Outra voz falou e cabeças moveram em concordância.

Novamente fez um longo silêncio e Lily resmungou algo.

- Certo. Vocês vão me matar?

- Você quer morrer? - A voz feminina perguntou e Lily tentou adivinhar de qual dos vultos pertencia.

- Ninguém quer morrer. - Lily lhe respondeu apertando a varinha no bolso enquanto tentava formular um ataque vitorioso sobre eles. Sem sucesso.

- Não teria tanta certeza. - Uma voz soou atrás dela. Tinha um tom de ordem, porém era cansada. - Lílian Luna Potter.

Ela arriscou se virar um pouco apenas para notar outro vulto, sozinho, parado a alguns metros, distante dela. Algo amargo escorreu por sua garganta, tinha a leve impressão de que fosse quem fosse, aquele deveria ser alguém muito importante, e muito poderoso. Ficou confusa, por que alguém como ele estaria encontrando-se com ela? Qual era o ponto de tudo aquilo?

- O que vocês querem comigo? - Perguntou novamente, dessa vez firme.

- Uma aliança. - O vulto falou e Lily viu algo brilhar em meio ao negrume do capuz.

- Por que eu iria fazer uma aliança com vocês? - A ruiva perguntou quase indignada. - Vocês mataram pessoas! Seqüestraram outras!

- Não matamos ninguém, Senhorita Potter. - A voz feminina soou e Lily lançou um olhar cético ao grupo. - Eles escolheram morrer, é diferente.

- Ah, mais claro. - Resmungou com escárnio. - Uma nova forma de desculpar-se de assassinatos. Muito convincente.

- Você entenderá em breve, Lily. - O homem falou novamente. - Por enquanto não há como compreender nossos ideais sob a visão Dumbledore das coisas.

- visão Dumbledore? - Lily perguntou confusa.

- Você entenderá isso também. - O homem falava num tom quase gentil, porém perigoso. - Precisará de algum tempo, mas valerá à pena.

- Não entendo isso, senhor. - Lily cruzou os braços, arrependendo-se em seguida de ter afastado suas mãos da varinha. Mas era costume quando ficava fora do sério com coisas absurdas.

- Você será uma de nós, Potter. - O homem da voz conhecida falou e ela olhou em volta chocada.

- Como? Uma de vocês? - Perguntou surpresa e em seguida sentiu o sangue ferver. - Como tem ousadia de dizer que eu me uniria a vocês?

- Não é ousadia, é certeza. - A voz feminina respondeu.

- Nunca. - Lily sibilou contendo a fúria, o medo estava espremido e desprezado tamanho o ultraje que sentia perante aquelas afirmações. Ela se unir a uma legião de assassinos que tinha posse da vida de seu irmão e de Zabini? Quem eles pensavam que ela era? E quem eles eram afinal de contas?

- Nunca diga nunca, senhorita. - O homem velho falou, aproximando-se. - Você quer pertencer a nós.

O medo ressurgiu com fúria e as pernas dela começaram a tremer. Todos se aproximavam.

Antes que Lily pudesse pegar a varinha, sentiu um formigamento no pescoço e uma intensa dor de cabeça até tudo escurecer e seu corpo desfalecer dentro de um círculo de vultos que a observavam em silêncio.

- Vamos. - O homem velho falou rodopiando e sumindo. O resto o seguiu.

A claridade a atingiu com força e ela cerrou as pálpebras, o teto branco girava e tudo estava desfocado. Tentou falar, mas sua boca não fazia qualquer movimento, tentou se sentar, mas o resto do corpo parecia entorpecido. Sua cabeça latejava como se fosse rachar. Ela fechou os olhos, tentando abri-los de novo, sem sucesso. Tudo continuava fora do lugar, mas ela pôde distinguir vultos olhando-a de cima.

- Potter?

Imediatamente reconheceu aquele timbre arrastado. Ouviu seu suspiro de alívio e com um esforço extra, mexeu as mãos. A cabeça latejou com força e ela sentiu lágrimas marejarem os olhos cerrados.

- Ela acordou. – Outra voz respondeu, era feminina. – Vamos dar esta poção a ela. Deve estar sentindo muita dor, e pelo tempo desacordada, provavelmente perdeu a sensibilidade das funções motoras.

- Isto será permanente? – Escutou Scorpius Malfoy falar.

- Não. Assim que tomar a poção os efeitos começaram a surgir. – A mulher disse, e Lily sentiu uma pressão no maxilar, forçando-a a abrir os lábios, em seguida um líquido viscoso e amargo escorreu para a sua garganta, ela tossiu, porém acabou engolindo o que quer que fosse.

Tentou se lembrar do que havia acontecido. A dor na cabeça começava a diminuir e aos poucos seus sentidos voltavam, já podia sentir o peso dos cobertores sobre seu corpo, o contato com a cama de baldaquino e o cheiro inconfundível de hospital. Esperou mais alguns minutos, então tremulamente levantou-se, recostando a coluna na cabeceira da cama.

- Há quanto tempo eu estou aqui? – Perguntou, a voz seca e rouca pela desidratação, enquanto fitava os olhos implacáveis de Scorpius. Ele estava parado um pouco distante, com os braços cruzados sobre o peito, a pose arrogante de sempre.

- Três dias. – Ele respondeu. – Quer água?

Ela acenou com a cabeça, notando que as mãos estavam com curativos, provavelmente devido a soros e medicamentos para mantê-la firme durante o período que estivera desacordada. Reconheceu o bordado do St. Mungus no lençol de cama e olhou em volta.

O quarto era amplo, todo em tons claros. Havia um jogo de sofás ali, e uma cama ao lado, para visitas, que estava desarrumada. Seu casaco estava num cabideiro, assim como outro que deveria ser de Malfoy. Ela fitou as costas dele. A camisa branca estava amarrotada nas costas, sinal de que provavelmente ele estivera deitado na outra cama. Ela franziu o cenho.

- Você... Você dormiu aqui? – Perguntou pegando o cálice de água que ele lhe trouxera e bebendo o líquido com avidez.

- Nesta noite. – Ele respondeu lacônico. – A pedido do seu pai. Mais um pouco?

- Sim. – Ela respondeu, vendo ele encher novamente o cálice. – Meu pai? Ele esteve aqui? Como... Acharam-me?

- Eu segui você. – Ele disse, tomando o copo vazio dela e depositando sobre uma mesinha. – Naquele bar, eu estava lá, mas tive que atender a um chamado ali próximo e quando voltei você já tinha sumido.

- Você me seguiu! – Lily exclamou indignada.

- Eu já tinha lhe avisado, Potter. Não faça tanto drama sobre isso. – Scorpius revirou os olhos, ajeitando a manga da camisa. – De qualquer forma, procurei você até que um grupo de meninos passou falando sobre um grupo de pessoas encapuzadas no parque. Quando cheguei você estava no chão.

Ela franziu o cenho, começando a se lembrar do breve diálogo que tivera com eles.

- Eles estão mesmo com Albus. Disseram que ele está vivo. – Ela falou, massageando as têmporas, a dor se extinguindo de vez.

- Pensei que estivesse morta. – Scorpius continuou, ignorando-a. – Mas então senti sua pulsação e a trouxe para cá. Eles disseram não saber que tipos de magia haviam lançado em você, e então apenas a mantiveram com o básico para continuar vivendo, em coma.

- Eu estava em coma? – Lily chocou-se e então ficou pensativa. – Estranho mesmo. Eu lembro de sentir um formigamento no pescoço e então... Apaguei.

- Disseram que parecia ser um coma. – Scorpius disse, aproximando-se do cabideiro e vestindo o casaco. – Chamarei seus pais.

- Certo. – Lily concordou ciente de que deveria estar com uma aparência horrível.

Malfoy parou à porta, olhando para a ruiva por sobre o ombro.

- Potter...

- O que foi? – Ela perguntou, envergonhada que Scorpius a tivesse visto com aquela aparência, assim que saísse dali tinha certeza que seria apenas mais um bom motivo para ele implicar com ela.

- Não pense que você vai escapar da discussão que nós teremos sobre a sua imprudência. – Ele avisou, friamente, com uma dose de lividez na voz e então saiu.

Ela apenas o fitou, mal-humorada. O loiro estava começando a agir como se fosse o pai dela. Controlando tudo em sua vida. Ela suspirou, aquela situação precisava acabar, mas sabia que teria que agüentar Scorpius até que, pelo menos, Albus e Richard estivessem a salvos.

- Você consegue, Lils. – Disse para si mesma, passando a mão pelos cabelos na tentativa de desembaraçar as madeixas. Agora já se sentia melhor, apenas com um leve enjôo e fraca, mas isso ela acreditava que fosse a falta de comer algo sólido durante tanto tempo.

Pensou sobre o encontro com os membros da Legião e um arrepio lhe percorreu a espinha. Eles realmente acreditavam que ela faria parte deles. Um absurdo. Nunca ela se uniria a um grupo de assassinos que haviam seqüestrado seu irmão e seu amigo, principalmente, um grupo que parecia não ter noção sobre o que significava matar outras pessoas. A idéia de que fossem realmente lunáticos começou a ganhar força em sua mente, mas rapidamente ela desviou do assunto quando a porta abriu-se, revelando os pais.

Teria que ter bastante cuidado com os dois legilimentes.

- Oh, Lily! – Sua mãe exclamou. Gina estava com uma aparência desleixada. Grandes olheiras lhe deformavam o rosto outrora cálido e alegre. E os cabelos pareciam tão despenteados quanto os de Lily. Esta tentou sorrir e aceitou o abraço apertado da mãe. – Estávamos tão preocupados!

- Eu sei mãe. – Lily murmurou tentando parecer mais sadia, ou a mãe nunca a deixaria sair dali daquela cama. Ajeitou-se melhor e então abraçou o pai. Apesar de arredio, Harry sempre costumava acarinhar seus filhos. Lily perdera a conta de quantas vezes ficaram deitados na grama do quintal jogando snap explosivo num domingo ensolarado. Tivera uma infância bastante feliz, a despeito de toda a fama que incidia sobre a família.

- Como você está? – Harry perguntou, afagando os cabelos da filha.

- Bem melhor agora. – Lily respondeu sorrindo. – Eu acordei bem. Apenas confusa... Mas já me situei e estou inteira.

- Nem pense que você vai sair deste quarto, senhorita. – Gina pôs o dedo em riste. – Não até que seu medi-bruxo diga que pode. Por sinal, devíamos chamá-lo...

- Scorpius já foi fazer isso. – Harry respondeu e olhou para a filha. – Você foi muito imprudente, Lily!

- Eu sei, pai. Mas terminou tudo bem, não? – Lily suspirou prevendo a enorme quantidade de sermões que levaria.

- Harry, não agora. Falamos sobre isso depois! – Gina pediu, mas o olhar de reprovação mostrava que concordava inteiramente com o marido sobre a atitude da filha. – Scorpius foi muito educado de passar a noite aqui.

- É. – Lily concordou inexpressiva.

- Espero que não tenha feito um escândalo por isso. – Harry disse.

- Não faço escândalos. – Lily resmungou. – Ele quem faz.

Os dois mais velhos apenas sorriram em resposta.

- James esteve aqui ontem, mas hoje tem que dar aulas em Hogwarts. Disse que assim que tiver uma folga vem para cá. – Gina respondeu. – Mas já sabe que você acordou.

- Não quero atrapalhar ninguém. – A ruiva resmungou. – E no Profeta?

- Está tudo bem. – Harry revirou os olhos. – Lily, aquele jornal não vai falir se você não for trabalhar uns dias.

- Eu não disse isso. – Lily retrucou. – É só que eu não avisei que iria faltar.

- Como se você pudesse prever que iria. – Gina suspirou. – Mas não se preocupe. James foi lá levar os documentos médicos pra tirar sua licença.

- Licença?

- Sim. Você vai ficar afastada por um tempo. – Harry disse. – Férias. E não comece, Lily Potter!

Ela fechou a boca. Já estava preparada para começar a argumentar e reclamar da intromissão na sua vida. Ora, veja! Seus pais haviam ido até seu trabalho e mandado que os superiores lhe dessem férias! Ela não queria férias, precisava trabalhar, precisava continuar suas investigações sobre Prometeu e com certeza, em casa, seria no mínimo impossível.

- Mas pai...

- Nada disso. Você não tira férias há muito tempo de qualquer forma. – Gina interveio e eles se calaram ante a entrada do médico.

- Olá, queridos! – O homem de cabelo castanho grisalho e olhos azuis, sorriu. – Gina, Harry e Lily!

- Seamus! – Gina sorriu, deixando que o outro lhe beijasse a mão. – Estávamos esperando que você viesse mesmo.

- Hei. – Harry deu um abraço no outro. – Ela acordou.

- Sim. – Seamus Finningan aproximou-se de Lily e tocou com a varinha em seu pescoço e seu braço. – Pulsação está boa, pressão nada mal.

- Estou bem, Dr. Finningan! – Lily resmungou ainda mal-humorada pelo assunto das férias forçadas.

- Pelo visto sim. – Ele sorriu, afastando-se e pedindo para que ela abrisse a boca. – Bem mesmo. Sente dor em algum lugar?

- Não. Mas... Quando acordei senti uma dor de cabeça tremenda, porém me deram remédio. – Lily disse.

- Sim, certo. Mas o efeito do remédio é curto, então acredito que se deveu apenas por você ter passado tanto tempo adormecida. E os membros? Consegue movimentar-se sem dificuldades?

- Tudo bem também. – Lily disse, movendo os braços do jeito que ele gesticulava.

- Ótimo. – Seamus anotou algo em uma prancheta. – Vou prescrever algumas poções para você tomar apenas se estiver sentido dor ou algum desconforto. Caso tome esses remédios e ainda assim não passar, venha para o hospital. Entendido?

- Sim. – Lily pôs as pernas para fora da cama. – Estou liberada?

- Acredito que não há nenhum problema, Lily. – Ele sorriu e entregou à Gina alguns pergaminhos. – Você já pode ir para casa. Mas, sugiro repouso, nada de esforços, principalmente, que envolvam raciocínio pesado por um tempo.

- Entendido. – Ela abriu um largo sorriso.

- Muito bem. – Ele sorriu de volta. – Harry, Gina, vamos comigo dar entrada no processo de liberação dela?

Os dois concordaram e seguiram o médico para fora do quarto. Lily aproveitou esse tempo para se arrumar, por isso foi direto para o banheiro. Como suspeitava, sua cara não era das melhores, mas seu cabelo, realmente... Ele estava de dar medo. Praguejou baixinho e seguiu para o Box. Agora precisava dar um jeito de contornar o empecilho que suas férias trariam. Era mais do que óbvio que os pais haviam feito aquilo para ficarem de olho nela tempo integral.

Toda aquela super proteção a irritava profundamente. Agiam como se ela não pudesse cuidar de si, e como se fosse uma criança teimosa que sempre se metia em problemas que não podia resolver sozinha. E não eram só os pais, mas os irmãos também agiam assim. 'A pequena Lily', ela bufou, lavando os cabelos. Não era mais tão pequena, por que eles não conseguiam enxergar isso de uma vez?

Enxugou-se e achou uma muda de roupas limpas suas num dos armários do banheiro. Vestiu a calça de veludo negra e o pulôver verde. Escovou os cabelos e secou-os com magia. Sua cara continuava pálida, e ela mordeu o lábio, procurando alguma maquiagem para esconder a aparência doentia. Bufou, mas então achou seus óculos escuros. Recorria a eles mesmos.

Saiu do banheiro limpando as lentes no pulôver quando notou que Scorpius estava de volta ao quarto e olhava pela janela. Pigarreou e pôs as mãos no quadril, inquirindo com os olhos o motivo da presença dele ali. Ora, e se ela estivesse só de toalha? Como seus pais deixavam aquele desconhecido entrar e sair do seu quarto a hora que bem entendesse?

Tudo bem, ele não era desconhecido. Mas mesmo assim.

- Por um momento achei que fosse se afogar no banho. – Ele disse sarcástico quanto à demora dela. – Nada mal, Potter. Agora você parece um cadáver decente.

Ela cerrou os olhos, as orelhas ficando vermelhas de irritação.

- O que você quer, Malfoy?

- Eu? Nada que você possa me oferecer. – Ele respondeu, enfiando a mão nos bolsos e se aproximando. – Já está pronta?

- Cadê meus pais? – Ela ignorou as palavras dele, olhando o quarto já devidamente arrumado e suas coisas numa mala fechada sobre uma das poltronas.

- Harry precisou ir para o Ministério e Gina foi para a casa arrumar seu quarto e avisar os seus parentes. – Scorpius respondeu. – Eu vou te levar, se é isso que você que saber.

- Posso muito bem ir sozinha. – Lily resmungou, caminhando até a porta e pegando a mala nas mãos.

- Não duvido disso. – Scorpius respondeu, colocando a mão na maçaneta da porta. – Mas não acredito que seus pais fossem ficar satisfeitos se a filha deles se dividisse ao meio tentando aparatar sozinha.

- Não vou me dividir ao meio!

- Nunca se sabe. Seu médico disse para não se esforçar mentalmente, Potter. – Scorpius abriu a porta, esperando que ela passasse e então fechou. O corredor estava vazio, exceto por alguns pacientes que caminhavam acompanhando de enfermeiros. – Não que isto seja muito difícil pra você, não é mesmo?

- Vai à merda. – Lily mostrou o dedo do meio para ele e precipitou-se para a saída, andando rápido, com a mala pesando nas mãos. Podia muito bem ter diminuído-a, mas era proibido usar magia nos corredores do hospital.

- Não notou que eu já estou nela? – Scorpius falou ao seu lado, e ao contrário dela, parecia estar caminhando tranquilamente. – Enterrado com você, ainda por cima.

- Ninguém está pedindo pra que você fique aqui. – Lily disse entre dentes. – Acredite, você pode ir embora que eu não vou chorar, prometo.

Ele esboçou um sorriso irônico.

- Sei que não. – Disse, quando finalmente desembocaram no saguão. – Agora vamos, Potter.

E antes que ela pudesse reclamar, Scorpius segurou no braço dela e eles aparataram.

A semana seguinte a alta de Lily do hospital havia sido um inferno. Ela não podia sair de casa para nada sem dar um relatório detalhado à Ginny sobre onde iria, e quem iria encontrar. E se fosse muito distante, tinha que contar com a presença de Scorpius ou outro Auror desconhecido. Era estafante.

Scorpius não perdia uma oportunidade que fosse para chateá-la sobre estar sendo vigiada como uma criança desobediente que precisava de babá a todo o momento. Ele também não fora nada agradável quando a repreendera por ter ido se encontrar secretamente com os membros da legião. Lily considerava que o sermão que Scorpius lhe passara havia sido mais humilhante e seco do que o dos pais. O loiro a chamara de irresponsável e declarara que ela não dava valor nenhum aos pais e aos esforços deles em protegê-la.

- Você é tão egoísta Potter, que não consegue enxergar o sacrifício dos outros para o seu bem-estar. – Ele disse secamente, o dedo em riste para ela. – Você só acha que todos estão querendo atrapalhar seus planos de menina aventureira. E que todo mundo aqui tem que prestar atenção em você. Como se só você tivesse uma vida que está sendo perturbada por tudo que está acontecendo. E pior, que ela é mais importante do que qualquer outra.

Lily, que agora estava lendo um livro sobre mitologia na biblioteca, bufou. Aquelas últimas palavras do loiro haviam ficado cravadas em sua cabeça. Ela jurou que se tivesse uma varinha começaria a duelar com ele ali mesmo, e se isto não o matasse, sem problemas, ela conjurava uma faca e partia pra cima dele. Muitas noites após aquela discussão e as lágrimas de raiva ainda brotavam em seus olhos ao lembrar-se de tudo. Scorpius não media esforços para fazê-la se sentir um nada.

- Imbecil. – Fungou enxugando as lágrimas e deixando o livro de lado. – Quem aquele idiota pensa que é? O todo poderoso?

Levantou-se da confortável poltrona estofada e se afastou em direção as imensas janelas que pendiam do teto até o chão. A noite lá fora estava tão negra que ela mal podia reconhecer os contornos das árvores dos jardins. A lareira crepitava, sustentada por grossas toras de madeira. O inverno demonstrava que seria intenso. Ela soltou um suspiro, encostando a testa no vidro frio que imediatamente ficou embaçado pela sua respiração.

Mal via James devido às aulas em Hogwarts terem iniciado. O irmão era diretor e não podia sair sempre que quisesse, como costumava fazer quando era professor. E eles apenas trocavam cartas quando ele dispunha de tempo para responder. Sua mãe sempre se mantinha presente, mas a cada dia que Albus não retornava para a casa, parecia definhar mais um pouco, idem seu pai.

Ela só queria que tudo acabasse, mas o silêncio da legião a punha inquieta. Não havia mais notícia de nenhum ataque ou qualquer coisa suspeita, era como se eles simplesmente houvessem sumido do mapa. Todavia, aquilo só aumentava sua angustia ao saber que Albus e Richard ainda estavam nas mãos daqueles lunáticos. Lily odiava a sensação de impotência que lhe acometia quando pensava nisso. Soltou outro suspiro e franziu o cenho. Até mesmo em suas pesquisas na biblioteca continuava andando em círculos. Sabia de cor toda a história de Prometeu, mas ainda assim, não conseguia conectar a mitologia a realidade.

Uma batida à porta a trouxe de volta a realidade e ela se virou, recompondo-se. E devolvendo o livro à prateleira com um aceno na varinha.

- Sim?

- Potter? – Scorpius surgiu pela abertura da porta. Com cuidado, fechou-a e caminhou até estar a uma distância considerável da mulher. Trajava vestes negras o que indicava que estava vindo direto do Ministério. Sua feição era cansada e os cabelos sempre bem alinhados estavam revoltos.

- O que foi? – Lily perguntou, alarmando-se pelo tom de voz dele.

- Precisamos conversar. – Ele respondeu, indicando o sofá para que ela se sentasse. Lily pensou em declinar, mas decidiu fazer o que ele pedia. Assim que ela se sentou ele também se dirigiu a uma poltrona próxima, largando a capa de viagem sobre o descanso de braço. – Tive notícia de Albus hoje.

- O que disseram? – Lily aprumou-se, arregalando os olhos, o coração começando a bater descompassado enquanto um frio no estômago a atingia.

- Apenas que ele está vivo. – Scorpius passou a mão pelos cabelos. – E eles querem detalhes sobre os imigrantes germânicos.

Ela franziu o cenho.

- Por que eles querem saber sobre os alemães? – Perguntou confusa.

- Nem idéia. – Scorpius respondeu, largando-se na poltrona. – Estamos reforçando a guarda sobre o Departamento de Cooperação Internacional, o Ministério está uma loucura com tudo isso. O Ministro teme uma invasão deles. Acha que eles querem dar um golpe e assumir o poder.

- Também pensei que eles quisessem algo assim. – Lily disse, ainda pensando sobre os possíveis motivos para a Legião querer saber sobre os alemães. – Mas como eles se comunicaram com vocês?

- Uma carta. – Scorpius respondeu sombrio. – Na mesa do Ministro.

Lily arregalou os olhos e conteve a respiração. Eles estavam infiltrados no Ministério. Por isso estavam todos tão preocupados, eles haviam conseguido chegar até o gabinete do Ministro sem serem capturados. Por que se tivessem sido, certamente que já teria sabido disso e a expressão de Scorpius seria mais suave. Mas qual o objetivo de tudo aquilo? Toda aquela meticulosidade em não serem notados e ao mesmo tempo alarmarem sobre sua presença?

- Merlin. – Por fim balbuciou. – O que vocês vão fazer?

- Estavam querendo recrutar os aprendizes. – Ele disse, não contento um praguejo. – Seu pai vetou a decisão, disse que não era necessário tirar os alunos da Academia sem ter algo alarmante. O melhor seria que eles continuassem lá e que os treinamentos fossem reforçados. O que eu concordo. Mas o Ministro enlouqueceu, ameaçou até destituir seu pai, óbvio que reconsiderou por que nenhum chefe de departamento concordou com isso.

- Que idiota! – Lily bradou. – E... Foi apenas isso que eles fizeram? Só uma carta?

- Ainda bem. O que você esperava? Corpos? – Scorpius, finalmente levantou os olhos para encará-la.

- Não! – Lily retorquiu indignada. – Mas afinal de contas, Isso não seria assunto sigiloso?

- Sim, é. – Ele respondeu dando ombros e fechando os olhos, enquanto descansava a cabeça.

- E por que você está me contando isso? – Lily perguntou visivelmente chocada com a atitude dele.

- Por que eu tenho uma idéia. – Scorpius ajeitou-se e novamente a encarou. – Cansei de esperar ordens de Grissom.

- Afinal, quem é esse cara? – Lily perguntou já cansada de ouvir falar sobre ele e nem saber o que ele fazia que tanto importava ao seu pai e a Scorpius.

O loiro revirou os olhos.

- Ora, a jornalista não sabe? – Perguntou sarcástico, recebendo um olhar enviesado dela. – Ele é o chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, o qual, infelizmente, nós somos subordinados.

- Ele? Por que ele e não meu pai? – Lily perguntou indignada. Até onde sabia seu pai havia sido nomeado para exercer aquele cargo.

- Por que seu pai recusou todas as nomeações. – Scorpius revirou os olhos. – Impressionante que nem isso você saiba. Mas também, você tem seu próprio mundo, pra que se preocupar em ver os dos outros, não é mesmo?

- Vai se danar, Malfoy! – Lily resmungou. – E se continuar com isso, levante-se e vá embora por que eu não tenho paciência pra ficar escutando você.

Ele suspirou.

- Tudo bem. Está de TPM hoje, entendido. – Zombou, mas imediatamente ficou sério. – Vamos aos negócios, Potter.

- Não quero nenhum negócio com você. – Lily retrucou, cruzando os braços. – Ou melhor, quero sim. Suma da minha vida!

O loiro apenas a fitou impassível.

- Tudo bem... Mas era um negócio realmente legal. – Disse se levantando lentamente. – No fundo eu sempre soube que esse seu instinto investigativo e aventureiro era apenas mais um dos seus caprichos, Potter.

- O que você está querendo dizer com isso? – Lily perguntou também se levantando e o observando caminhar despreocupadamente em direção à porta.

- Nada demais. – Ele disse já com a mão na maçaneta. – Eu só tinha uma idéia pra fazer você sair dessa casa e tentar ajudar a salvar seu irmão, mas...

- ESPERE AÍ! – Lily exclamou correndo até ele impedindo que ele abrisse a porta. – Vamos conversar melhor, Malfoy.

- Não. Agora eu quero ir embora. – Ele disse tentando demovê-la de frente da porta. Mas ela segurou sua mão o impedindo de girar a maçaneta.

- Não vai a lugar nenhum. – Ela disse firmemente. – Me conte seu plano.

- Quem disse que eu tenho um? – Ele retorquiu calmamente.

- Você tem um que eu sei. – Ela reafirmou tentando empurrá-lo de volta. – Não sou idiota.

- Que bom. Estava começando a suspeitar disso. – Ele ironizou permitindo que ela o fizesse retroceder alguns passos.

- Não vou deixar você me irritar, Malfoy. – Ela empinou o queixo. – Vamos tratar dos negócios, sim? O que você tem em mente?

- Ah, agora você quer saber. – Ele sorriu sarcástico. – Implore.

- Vai a merda. – Ela retrucou, puxando a varinha e trancando a porta com um feitiço que exigia uma senha. – Agora você só sai daqui quando eu quiser.

Ele arqueou a sobrancelha, mas havia um ar de aprovação em seus olhos que Lily gostou. Pelo visto, ele ficara satisfeito com o método que ela usara para impedi-lo de sair. Obviamente que achava que ela não faria grande coisa assim.

- Sua mãe vai começar a suspeitar a demora. – Ele disse. – Vai achar que estamos fazendo algo indecente, Potter.

Ela o olhou com descrença, mas não conseguiu evitar o rubor nas bochechas ao imaginar-se agarrada com ele num daqueles sofás. Era estranho ter esses tipos de pensamentos sobre Scorpius, mas ainda assim, ela queimaria no inferno se dissesse que nunca havia tido esse tipo de devaneio sobre ele durante todo o tempo em que se conheciam. Não dava para ignorar um loiro de olhos perscrutadores, alto e bonito, assim tão fácil.

- Tanto faz. É capaz de ela dar pulos de alegria por isso. – Respondeu seca. – O sonho dos meus pais é você membro da família, Malfoy.

- Mesmo? Não sabia disso, agora posso me vangloriar. – Ele respondeu com um sorriso prepotente. – Sempre suspeitei que Tia Ginny tentava nos deixar próximos.

- Sem sucesso, felizmente. – Lily respondeu andando de volta ao sofá e se sentado, já incomodada pelo rumo da conversa. – Agora esqueça isso e fale tudo de uma vez, Malfoy.

Scorpius a fitou com um ar divertido, porém voltou até a poltrona onde estivera sentado.

- Você não disse que eles queriam que você se unisse a eles? – Perguntou já com seu semblante sério e calmo de sempre.

- Sim. – Ela respondeu e ainda achava aquilo um absurdo. – O que tem isso?

- Se você voltar a ficar mais visível a eles. Quem sabe eles não lhe procuram de novo? – Sugeriu, inclinando-se para mais perto de Lily. – O que você acha de ser uma espiã, Potter?

Lily ficou alguns minutos em silêncio, tentando digerir a sugestão. Aturdida.

- Você bebeu? – Perguntou chocada. – Por que eu me uniria a um bando de assassinos lunáticos?

- Você não vai se unir a eles. Vai fingir isso. – Scorpius pestanejou. – Eu acho que é a melhor forma de chegarmos até eles...

- Mas... Eles suspeitariam disso! – Lily argumentou.

- Não se fizermos direito. – Scorpius disse. – Além disso, você não está curiosa pra saber por que eles te querem junto, Potter?

- Sim, mas... – Ela suspirou. Não podia se enganar quanto à crescente descarga de adrenalina que seu corpo sofria ante a excitação de participar de algo do tipo, e pelo olhar de Malfoy, ele sabia exatamente o que estava fazendo. – Como você vai driblar meu pai e o Ministério?

- Eu já fiz isso. – Ele sorriu. – Nós vamos viajar.

- Viajar? – Lily novamente ficou confusa, sentia-se num redemoinho de informações que a desnorteavam. – Você acha mesmo que minha mãe deixaria eu me afastar dessa casa?

- Não nas circunstâncias normais. – Ele respondeu. – Mas não foi você mesmo que disse que ela é doida pra nos ver juntos?

- E o que, raios, isso tem haver? – Lily perguntou se levantando, já irritada por ele ficar apenas enrolando.

- Tudo, Potter. Tudo. – Scorpius respondeu também se levantando e erguendo um dos braços para puxá-la pela cintura e olhando-a firmemente nos olhos, o ar divertido de volta. – Nós vamos nos casar.


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