Cap. 3 – O Inventor

Lisbon enfiou o caso Kristina dentro do porta-luvas sem sequer dar a impressão de que diria à Cho o que era aquilo. O que, obviamente, não era necessário, uma vez que o agente havia visto sua chefe discutindo com Jane e em seguida, pegando o tal documento. Não era preciso ser um mentalista pra saber que se tratava de Kristina.

Mas o que assustou, por assim dizer, a Cho, foi o fato de Lisbon ter entrado direto no banco de passageiro, uma vez que preferia sempre dirigir. Ela abriu o vidro, inquieta, e visivelmente afetada pela discussão. Cho chegava a se sentir irritado com Jane, pois sabia como seria a viagem dali pra frente. Teria aquele mesmo clima de "devo dizer algo, mas não sei o quê" que Cho tanto odiava.

- Desculpe, chefe, mas não acho que vá se lembrar de tirar esses papéis do porta luvas. E esse é…

- O lugar onde Jane normalmente senta. – ela completou, movimentando-se pra tirar o caso Kristina do porta-luvas. – Cho, passe na minha casa, por favor. Não acho que ele vá invadir um domicílio pra conseguir isso.

Os lábios de Cho arquearam, como quem duvidava de tal afirmação, porém não disse nada. Engatou a ré e saiu da CBI, na direção contrária que normalmente seguiria para ir à Oakland. Isso atrasaria em pelo menos quarenta minutos a investigação. Jane conseguir atrapalhar até quando não estava presente.

Algumas horas depois, o carro da CBI estacionou longe da grande movimentação que se instalara nos arredores de uma construção relativamente antiga. Lisbon desceu e caminhou por entre a multidão. Mostrou o distintivo e passou por debaixo da faixa de contenção. Cho a seguiu.

Agora, de perto, e livre da multidão, Lisbon lia no alto da construção os dizeres "Teatro de Oakland". Ela se perguntava que tipo de crime poderia vir a ter acontecido onde, supostamente, essas coisas deviam ser só de mentira.

Havia uma espécie de palanque na frente do teatro, sobre a calçada. Nele estava um homem que lembrava Minelli, pelo modo de falar. Mas tinha um tanto a mais de cabelo e uns poucos anos a menos.

- …o show tem que continuar! – ele estava dizendo, quando Lisbon deu por si – E o principal motivo disso é que o senhor Morris tinha o teatro forte no coração. O bastante para desejar que a seguisse em frente, caso estivesse entre nós. Portanto amanhã vocês poderão assistir "La Belle et la Bête" em sua programação normal.

O homem desceu do palanque. Enxugou a testa com um pano e ia andando até dentro do teatro, quando avistou Lisbon se aproximando. Ela lhe mostrou o distintivo imediatamente.

- CBI, Agente Lisbon. – deu espaço para Cho – E este é o agente Cho. Estamos aqui para tomar conta do caso. – ela avisou, rapidamente, antes de mudar o tom de voz para expressar que estava ligeiramente inconformada – Acha mesmo que deve voltar à programação normal no dia seguinte de um assassinato?

O homem olhou para a mulher dos pés a cabeça, um tanto quanto assustado pela abordagem repentina. Olhou ao redor e em seguida voltou os olhos nela. Botou as mãos na cintura, respirou fundo e então finalmente disse:

- Vocês só podem estar brincando comigo.

- Não, isso é muito sério. Tenho cara de quem está brincando? – bronqueou Lisbon.

- Não foram vocês, da CBI, que me mandaram voltar o show amanhã? – ele dizia, furioso - Não foram vocês da CBI que disseram que era o melhor a ser feito e que caso eu não seguisse essa recomendação a investigação estaria em risco, e que dificultar investigação policial é crime? – o homem revezou o olhar entre Cho e Lisbon – Por Deus, como se eu não soubesse que um assassinato é motivo suficiente para luto.

Cho e Lisbon baixaram a cabeça ao mesmo tempo. Ambos entenderam exatamente o que estava se passando

Lisbon virou-se e esticou o pescoço para tentar enxergar além da multidão.

Sem êxito, subiu no palanque e continuou procurando.

Ao longe, ao lado de um poste, próximo à esquina, estava o Citroen DS21 azul.

-Jane. – balbuciou Lisbon.

- Será que você podia, assim, por um breve milagre, me dar um único motivo para estar aqui, exatamente onde você prometeu que não estaria? – perguntou Lisbon, andando de um lado para o outro, impaciente e sem olhar na cara de Jane. – Um motivo que eu vá aceitar, de preferência. – especificou ela,

Eles estavam dentro do teatro. Ele sentado na primeira cadeira, ao lado do corredor central. Apoiava o queixo numa das mãos, com expressão ligeiramente entediada. O suficiente pra fazer Lisbon ter pequenas explosões de ódio, contidas segundos após, para que um segundo assassinato não ocorresse.

- Não acho que você vá aceitar. – ele disse, ajeitando-se ereto na cadeira – Mas a promessa foi feita antes de quebrarmos toda aquele… sentimento de confiança – moveu os braços teatralmente, como querendo explicar algo que não sabia bem como fazer só com palavras. Pelo tom de voz, estava sendo irônico. – que foi construído na noite passada.

- Tem razão, eu não aceitei.

Ele deu de ombros, olhando para ela como uma criança que havia aprontado.

- Sabe, o maior problema nem é você estar aqui. – disse Lisbon, ainda olhando para lugar nenhum, enquanto ia e voltava sem parar. – O maior problema foi ter pedido ao senhor Winston para não cancelar as apresentações de amanhã. O que diabos você tinha na cabeça? Afinal, com que intenção você resolveu dificultar o andamento das investigações? Não temos como limpar a bagunça do assassinato até amanhã, os peritos não podem fazer o trabalho todo só hoje! Por Deus, e a morte foi no palco! No palco! -ela repetia, talvez pra si mesma, pensando em como ia resolver todo aquele problema.

Pedir ao senhor Winston pra retirar o que dissera estava fora de questão, uma vez que bilheterias já haviam vendido mais da metade dos ingressos e a noticia já havia sido divulgada pela imprensa local. O que, para Lisbon, ainda não era um bom motivo, mas para Winston era, e muito.

- O senhor Morris era ator.

- Sim, eu sei. Por que minha raiva por você já devia ter sumido com essa afirmação?

- Sua raiva por mim não vai sumir nem que eu dance a macarena brincando de roleta russa, Lisbon. A questão é: o senhor Morris não era apenas ator. Ele fazia uma das personagens principais.

- Continue.

- Tem um motivo muito simples pra mais da metade dos ingressos já terem sido vendidos após meia hora que eles foram liberados.

- Que seria… - ela fez gestos circulares com a mão, como se pedisse pra que ele concluísse sua idéia logo, sem parar para pausas.

- Que seria o fato da peça ser realmente muito boa. A companhia de teatro estava sendo contratada para exibir a peça em outros oito municípios, sendo quatro deles em outros dois estados. – Jane parecia tão empolgado com a história que nem parecia se abalar pela raiva de Lisbon - Isso só pra começar, segundo me informaram, outros quinze municípios estavam interessados.

- O que quer dizer?

- Tem muito dinheiro com isso, Lisbon. O homem que morreu com certeza ia ganhar uma grana nessa turnê.

- Sim, mas ainda não ganhou, não tinha como extrair dinheiro dele antes da turnê.

- A menos…

Um lapso de idéia saltou pelo rosto de Lisbon e a forma dela de ficar completamente estática indicou a Jane que ela finalmente compreendera.

- A menos que o assassino seja aquele que tomou seu lugar na peça!

Jane sorriu, vitorioso.

- Entretanto… - continuou Lisbon – O papel de Morris era importante. Mas ainda não era o da Fera.

- E?

- E a peça é A Bela e a Fera! – exclamou Lisbon, como se fosse óbvio – O nome da personagem está no título, é obviamente a mais importante.

Algo dizia a Jane, pelo jeito que ela dissera aquilo, que nunca tinha lido ou assistido algo relacionado à Bela e a Fera.

Ele se levantou e ficou frente a frente com Lisbon.

- Sim, o papel da Fera é mais importante, entretanto daria muito na cara o motivo do assassinato, ainda mais nas vésperas de assinarem um contrato tão importante. O ator que faz a Fera ganhará muito mais dinheiro que quem faz o Inventor, claro. Porém, os atores substitutos não estão aí pra substituir absolutamente qualquer personagem. Imagino eu que o substituto da Fera não seja o mesmo ator que o do Inventor.

- Então ele simplesmente não tinha opção?

- Acho que sim. Porém, não acredito que ele mataria o ator que faz a Fera. Insisto que daria muito na cara.

- Ok. Agora me dê um motivo.

Jane torceu o rosto como quem não entendia algo que lhe era dito.

- Que motivo?

- O motivo pelo qual você mandou o senhor Morris não cancelar as apresentações de amanhã.

- Ah, sim. Eu acho que você devia assistir à peça, é interessante.

Lisbon tomou uma grande quantidade de ar pra começar a gritar, mas antes disso se controlou e contou até dez mentalmente.

Mais ou menos quando estava no sete, Jane continuou:

- Brincadeira. Eu só quero ver como o ator substituto se comporta.

- Não poderia simplesmente interrogá-lo como qualquer policial faria?

- Eu não sou policial, e o cara é ator, Lisbon.

Ela cruzou os braços e pendeu a cabeça pro lado.

- E desde quando isso é alguma barreira pra você?

- Já teve muitos casos em que o suspeito deixou de ser suspeito simplesmente por se passar por inválido. A velhinha líder de gangue, o paraplégico que andava e aquele garoto que lia Mob Dick e se passava por completo idiota.

- Não acredito que um ator iria se passar por inválido.

- Não, mas poderia confundir meus sentidos.

- Ok, me convenceu. Mas ainda estou furiosa com você.

- Tudo bem, também estou bravo com você. – disse ele, antes de sair pelo corredor central.

Por algum motivo, aquilo deixou Lisbon completamente estática e chocada. E ai de quem tentasse explicar.