Cap. 4 – Trust

Naquela noite, Lisbon entrou em casa irritada. Ou pelo menos ela queria acreditar que era irritação. Durante todo o caminho de volta tentara pensar sobre o caso, sobre os suspeitos, sobre o senhor Morris. Ela chegou a ligar o rádio em alto volume, quando percebeu que sempre acabava voltando o pensamento para a última frase de Jane. Em determinado momento, ela começara a cantar junto com a música, mas desligou o rádio quando percebeu que chegara em seu bairro e os vizinhos começaram a olhá-la.

Lisbon foi direto para sua geladeira. Pegou a metade de uma lasanha congelada e colocou no microondas. Em seguida encostou-se na bancada e cruzou os braços, esperando.

Por que diabos ele estava bravo com ela?

Ok, eles brigaram. Mas eles sempre brigavam.

O fato de o assunto ter sido Kristina era o que deixara ele assim?

Ou talvez ele estivesse simplesmente brincando com ela. Era bem a cara de Jane.

Fosse o que fosse, não ia ligar pra ele. Não ia dar esse gostinho. Ele quase estragou uma investigação, a desobedeceu, a irritou. Ele não merecia uma ligação.

O microondas apitou e ela pegou uma luva para tirar a bandeja quente de lá. Colocou sobre a bancada, transferiu a lasanha para um prato e sentou-se à mesa.

Era tarde e tudo estava extremamente quieto. Ela só conseguia ouvir o som dos talheres e de sua própria mastigação. Praguejou quando percebeu que o interior da lasanha ainda estava frio, mas continuou comendo.

Estava tarde pra ligar, de qualquer forma. Ele devia estar dormindo.

"Que diabos, ele nunca dorme." Pensou ela, enquanto, por alguns segundos, se esquecia que estava comendo. "Com certeza está acordado". Ela tomou um gole de suco. "Mas que se exploda, não vou ligar".

Lisbon acabou de comer, colocou a louça na pia e prometeu a si mesma que lavaria pela manhã, antes de sair.

Foi até a sala e, aleatoriamente, sentou-se na cadeira que ficava ao lado da mesa do telefone.

Era como se Jane estivesse ao seu lado, pedindo que ligasse.

E ela nunca foi capaz de resistir por muito tempo.

Discou na casa dele. Caiu na caixa postal. Ela desligou.

Em seguida, discou de novo. Quando caiu na caixa postal, começou a falar.

- Jane, eu sei que você está aí, ok? É óbvio que você está aí. Então atenda, por favor. – ela esperou alguns instantes e então continuou – Você não está facilitando as coisas, Jane. Olha, eu só liguei pra saber por que você está bravo. Mas se não quer dizer, não sou eu quem vai insistir. Eu vou desligar. – ela esperou novamente – Jane, se está bravo porque tirei o caso Kristina da sua visão, esquece, pouco me importa, ok? Mas se não for por isso, me ligue. Ou simplesmente atenda a porcaria do telefone. Simplesmente não igno…

- Ok, ok, estou aqui. – ele havia atendido. – Não é engraçado como você se sente mal em não ter o controle?

- Do que está falando?

- Quando você está brava comigo, está tudo bem. Quando eu estou bravo com você, as coisas fogem do controle e você fica pensando nisso o tempo todo.

Ela engoliu em seco, mas não se deixou mostrar abalada.

- E quem disse que eu fiquei pensando nisso?

- Sua voz. Sua preocupação. Sua ligação, principalmente. É claro que você pode negar e eu posso fingir acreditar. Se isso te ajuda.

Ela estava começando a ficar mais irritada do que deveria.

- Jane, diga logo, por que está bravo?

- Você não tem nem idéia?

- Se for por causa da Kristina eu desligo agora mesmo.

- Lisbon, o que foi tudo aquilo ontem? – disse ele, parecendo ignorar o que eladissera – Num momento você parece confiar em mim, e eu sinto que confio em você. Parecia disposta a me ajudar a superar. Mas no dia seguinte, quando demonstro confiar em você, o que faz?

- Então sua raiva é por causa da Kristina. – concluiu Lisbon.

Ele suspirou do outro lado da linha. Estava deitado em sua cama, olhando para cima.

- Não, Lisbon. Isso só tem a ver comigo e com você.

O estômago dela contraiu. De alguma forma, ela se sentiu bastante desconfortável com aquela afirmação.

- Não entendi.

- Você sabe perfeitamente que eu tenho olhado o caso da Kristina com freqüência, escondido. Ou pelo menos deduziu isso hoje, quando o pedi. O ponto é que eu não causei tumulto algum, mesmo tendo livre acesso ao caso. Pra te proteger, pra que Hightower não desconfiasse. Eu poderia ter ido atrás das pistas deixadas, as quais você ignorou, mas não fui. Eu fiquei esperando você abrir o caso a discussão pra sugerir. Simplesmente pra te proteger. Ontem, eu em senti mal por estar fazendo isso às escondidas, e decidi te contar. Decidi que ia confiar em você pra que me entregasse os papéis do caso, e você confiaria em mim em não causar nenhuma confusão. Exatamente como venho fazendo até hoje. E o que você fez?

Lisbon ficou calada e ouviu calmamente até o fim. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Não sabia, sequer, o que pensar. Estava completamente dividida, confusa e, mais que nunca, com medo de ser passada pra trás por mais uma das artimanhas do grande Patrick Jane. Teve receio de acreditar na veracidade dos sentimentos expressos naquelas palavras, teve medo de ser feita de idiota, medo que todos rissem dela ou a bronqueassem por acreditar numa mentira que ele forjara muito bem, simplesmente para obter o caso.

Mas também pensou, seriamente, na possibilidade de estar errada. Na possibilidade dele realmente estar certo sobre isso tudo. Talvez devesse deixá-lo olhar o caso.

- Lisbon? Ainda está aí?

- Sim, sim. Estou. – ela balbuciou, sem jeito. – Olhe, Jane… eu vou me sentir melhor se nós olhássemos o caso juntos.

- Esse caso não é seu, Lisbon. Hightower não ia gostar de saber que está insistindo nele.

- É, talvez. Por isso faremos em segredo. Depois do encerramento das atividades na CBI.

- Não quero que se arrisque, Lisbon.

- É isso ou nada, Jane.

- Ok, ok. Não vou reclamar.

- Ainda está bravo?

- Não.

- Ok. Então eu vou dormir agora.

- Obrigado, Lisbon. A gente se vê amanhã. Vai assistir à peça, certo?

- Certo. – ela nem lembrava mais da peça – A peça. É. Tchau.

E então? Quem vocês acham que está certo nessa história? Lisbon fez bem em ceder?

Continua!