Cap. VI - A peça
O teatro de Oakland estava simplesmente lotado. Tão lotado quanto podia e talvez um pouco mais. Tinha gente de pé. Lisbon viu que colocaram cadeiras de plástico na última fileira. E ainda tinha uma dúzia de pessoas sem lugar.
Lisbon estava sentada lá pela sexta ou sétima fileira. Ao seu lado, Jane. Ele parecia mais alegre que o normal. Haviam passado o dia todos juntos, andando pra lá e pra cá na cidade, esperando a hora da peça. Ele havia insistido que não havia o que perguntar aos atores, pois teria uma resposta em breve, durante a apresentação. E também negou veementemente quando ela pediu pra que não assistissem. "Primeiro," ele dissera, "você precisa ver essa peça. Segundo, o assassino pode se mostrar hoje".
Assim, resignada, ela aguardava o início de A Bela e a Fera. História que, até onde sabia, era meramente infantil e sem graça.
Lisbon não era e nunca foi o tipo de gostar de historias de contos de fadas. Era racional o bastante para não tirar os pés do chão. Não acreditava que, se sua vida estava ruim, apareceria uma fada madrinha e colocaria um príncipe no seu caminho. Primeiro, achava tudo isso um monte de machismo em forma de historinha pra criança. Segundo, mesmo quando tinha idade pra gostar dessas coisas, um pai pedófilo e bêbado não costumava presentear a filha com livrinhos ou fitas de desenhos. Não teve contato e acabou convencendo a si mesma que não tinha a menor importância.
Portanto ela imediatamente começou a reclamar, baixinho, quando as cortinas se abriram, e o narrador começou a falar sobre um príncipe lindo, arrogante, mesquinho e grosseiro.
"Quase um Patrick Jane" pensou Lisbon, e riu de seus próprios pensamentos.
"O príncipe um dia recebeu a visita de uma velha, que lhe ofereceu uma rosa em troca de passar a noite em seu castelo. O príncipe, muito arrogante e assustado com a feiúra da mulher, lhe recusou abrigo. Qual foi sua surpresa quando a mesma se transformou numa bela feiticeira, que imediatamente lhe rogou uma maldição. Transformou o jovem príncipe numa fera horrenda."
- Isso é ridículo! – acusou Lisbon, num sussurro, para não atrapalhar os demais – Quer dizer, o que essa feiticeira enxerida tinha a ver com a vida do príncipe?
Jane se limitou a sorrir.
"Envergonhado de sua monstruosa aparência, a Fera se trancou em seu castelo, com um espelho mágico, que era sua única janela com o mundo exterior. A rosa que ela havia oferecido era encantada. E ia florescer no vigésimo primeiro ano. Se ele aprendesse a amar alguém, e fosse retribuído na época em que a última pétala caísse, o feitiço estaria desfeito Senão, ele seria Fera para sempre. Com o passar dos anos, ele caiu em desespero. Pois quem seria capaz de amar um monstro?"
- A garotinha pura e linda, típica de um conto de fadas! – respondeu Lisbon – Acertei?
No mesmo instante, uma mulher, vestida com roupas de aldeã, entrou no palco. Era bonita e cantava docemente. Havia um som de pássaros ao fundo. Ela carregava uma cesta e seus cabelos estavam parcialmente desarrumados, como que indicando trabalho e esforço.
Vários outros atores entraram então. Começaram a cantar uma música animada, junto à garota da cesta. Eles a chamavam de Bela. Passeavam pelo palco, falavam sobre a vida no interior.
Lisbon parecia estar tendo uma congestão.
Então um caçador.
Ele falava sobre ser lindo e maravilhoso, e dizia que merecia a mais bela das garotas. Apontava para a personagem de Bela e dizia que era ela com quem se casaria.
Aproximava-se da garota e zombava do livro que lia.
- Ah, claro. Anote esta cantada, Jane. – disse Lisbon.
A garota obviamente não gostava do homem. Logo o rejeitava para ir cuidar do pai.
Nesse ponto, Jane pareceu se ajeitar melhor na cadeira.
- É ele. – disse o consultor – O substituto do senhor Morris.
Lisbon notou que o homem tinha o cabelo completamente bagunçado. Era magro e com aparência de cientista maluco. O pai de Bela, o Inventor.
Na cena, ele parecia tentar consertar uma invenção estranha de cortar lenha. Ao mesmo tempo em que cantava. Muito mal, aliás. Cantava pior que os figurantes.
Ele andava de um lado pro outro, dizendo que não conseguiria terminar a invenção. Então sentou-se num banco, e Bela sentou-se ao lado, dizendo que conseguiria.
Por alguns instantes, não houve resposta. O homem ficou parado, em silêncio, olhando pra baixo. Provavelmente esqueceu a fala. Havia virado substituto de uma hora pra outra, e já estava atuando, graças a Jane.
- Parabéns, você conseguiu estragar uma peça. – disse Lisbon. – Não que já estivesse muito boa.
- Ele não esqueceu a fala, Lisbon. – disse Jane.
- Ah, não?
- Não. Ele está olhando o sangue no palco.
Então ela olhou melhor e percebeu que realmente os olhos dele estavam focados pra onde havia sido o assassinato.
A atriz da Bela achou estranho e olhou para o mesmo lugar. Ela também pareceu perder a fala. Mas então continuou cantando, tentando chamar a atenção do outro, para que continuassem o espetáculo.
O Inventor então fez sua fala, voltando a seu estado normal.
- E então? – perguntou Lisbon – O que acha?
- Ele é inocente.
- O que? Depois daquela reação?
- Ele é um péssimo ator, péssimo cantor, não está preparado para o papel, sabe disso, e está morrendo de medo de ser morto também.
Lisbon deu de ombros. Iriam interrogá-lo de qualquer forma.
- Se quer minha opinião, - continuou Jane – devíamos investigar a família dele. O rapaz é péssimo, mas talvez um pai precisando de dinheiro, ou alguém que se beneficiaria se ele ganhasse o dinheiro que ganhará.
- Por que insiste nesse personagem?
- Porque é o único que iria ganhar algo com essa morte, a princípio. Bom, façam sua pesquisa, interroguem. Depois falem comigo. – ele desviou sua atenção de volta à peça.
A partir daí, Lisbon continuou reclamando e destacando supostas falhas da história.
Porém foi no fim que Lisbon se calou, e Jane percebeu. Ela sorriu singelamente. Uma lagrimas ameaçou descer por seu rosto. Temendo ser boba, ela limpou a face. Era a menininha Lisbon se mostrando com aquele final feliz. Pensou se ela também não o merecia. A Fera, que precisava abandonar sua maldição, antes de ser feliz para sempre com Bela. De alguma forma, Lisbon se sentiu atingida por tal coisa. Ela não se sentia neste caso. Ela via Jane na posição. Olhou para ele, e ficou parada, por algum tempo, apenas mirando-o com curiosidade. Ele sorria com a peça.
Lisbon não podia jamais imaginar, mas Jane estava, naquele momento, se lembrando de quando lia a história para sua filha. Era a história favorita dela.
Em determinado momento, olhou para Lisbon, que disfarçou e olhou para frente.
- Já acabou, Lisbon.
- Ah, que bom. Vamos embora?
- Posso dirigir?
- Não.
- Não custa tentar. – ele deu de ombros – Direto pra CBI?
- Claro. O caso Kristina. Claro.
Galera, só atualizei hoje porque amanhã voltam minhas aulas. Eu moro em outra cidade quando esse infortúnio acontece, e não tenho acesso à internet durante a semana. Portanto só tem atualização aos sábados.
No próximo capitulo, a reabertura do caso Kristina.
Continuem comentando pra que haja atualização no sábado! Thanks por todos os comentários!
