Capítulo I

Como toda boa história, talvez seja melhor eu explicar do começo quando a minha desgraça começou. Pois bem, basicamente eu sou o caçula de três filhos. Sou filho de um monge com uma sacerdotisa. Minha irmã mais velha, Mika, é casada com o tecladista de uma famosa banda e ele também é dono do próprio negócio, uma gravadora chamada NG Record.

Meu irmão do meio, Eiri, é um bastardo sem coração, filho da mãe que não tem nenhuma consideração pelo irmão caçula quando este pede abrigo cada vez que vai para Tóquio se matar por um ingresso do Nittle Grasper. Ah, mencionei que a tal banda do meu cunhado é esta e que o vocalista da mesma é o meu ídolo? Melhor não entrar em detalhes agora, não é mesmo?

Mas voltando ao assunto, Eiri é o meu irmão do meio e também um escritor famoso. Ele é meio caladão, escreve uns romances que fazem as meninas sentimentalóides chorar, tem algum trauma de infância que adquiriu quando morou em Nova Iorque, mas que a minha família recusa a me contar e mora com um furacão rosado chamado Shuichi Shindou.

Shuichi Shindou, embora ele não tenha uma importância relevante na minha história de vida, acho que seria justo mencioná-lo. Meu cunhado, vocalista de uma banda em ascensão chamada Bad Luck, contratado da NG Record e assim como eu apaixonado pelo Ryuichi Sakuma, a.k.a o Deus Supremo e vocalista do Nittle Grasper. Ponto. E a conexão dele com esta história acaba aí.

Mas voltando a minha família. Eiri é um escritor famoso que resolveu chutar o pau da barraca, largar a família em Kyoto e se mudar para a grande capital do Japão. Até aí tudo bem, o que meu irmão faz ou deixa de fazer da vida é problema dele. O problema é que com isso, a responsabilidade de herdar o templo da família recaiu sobre mim. E isso não é algo que me agrada muito, em partes. A educação de monge me serviu para muita coisa, mas a disciplina exigida pela mesma não condiz com a minha personalidade.

Agora, em que a educação religiosa me serviu? E é essa parte da história que fica interessante. É nessa parte que a minha vida se fode de vez.

Sabe, quando eu tinha três anos eu tinha um amiguinho imaginário. Normal, toda criança tem um. Se bem me lembro o nome dele era Takeru, Takashi, alguma coisa que começava com Ta. Somente eu o via, óbvio, como todo bom amigo imaginário, e a minha família achava uma gracinha esta minha faceta. Isto até que um dia o Ta de alguma coisa desapareceu.

Até aí tudo bem, normal à medida que uma criança cresce os amigos imaginários são deixados de lado. O problema era que no meu caso, eles pareciam surgir cada vez mais. Pois meu segundo amigo imaginário veio quando eu tinha cinco anos. Era uma mulher, adulta, que chorava cada vez que me via e entre soluços tentava balbuciar alguma coisa.

Eu me apiedava dela, óbvio, queria ajudá-la, mas não sabia como. Então na minha ignorância infantil resolvi recorrer aos meus pais. Afinal, é para isso que eles servem não? Responder as perguntas que não conseguimos responder sozinhos e nos ajudar a solucionar problemas que estão fora do nosso alcance. Entretanto, quando falei para a minha mãe sobre a amiga imaginária triste que sempre aparecia no meu quarto à noite, ela preocupou-se. E então recorreu a uma terapeuta infantil.

A médica solicita em acalmar o temor materno disse que talvez a criação de um amigo imaginário mais adulto por minha parte e que parecia estar emocionalmente instável talvez fosse um modo meu de dizer que estava carente, atiçando assim a culpa da pobre Sra. Uesugi que achava que estava relaxando na atenção em relação ao caçula.

Devo dizer que quase agarrei de maneira indecente a mulher precocemente, pois na semana seguinte minha mãe fez questão de fazer todas as minhas vontades e obrigar meus irmãos e pai a fazerem o mesmo. Eu praticamente vivi todo o ano dos meus cinco anos no paraíso. Mas então, o inferno chegou.

No ano seguinte minha mãe partira e por mais que a minha mente de seis anos conseguisse compreender o conceito do que era morte, ainda sim não dava para assimilar. Eu ficava pensando comigo mesmo como todos poderiam dizer que a mamãe tinha morrido se ela estava bem ali, ao lado de Eiri no enterro, acariciando os cabelos loiros dele e o olhando com pesar enquanto meu irmão se debulhava em lágrimas.

Claro, novamente na minha ignorância infantil, eu falei isto para ele. Eiri pareceu que iria desmanchar em mais lágrimas depois de me ouvir. Mika ficou horrorizada diante da minha "piadinha de mau gosto" e me deu um tapa que fez meus ouvidos zumbirem e o meu pai bufou um "já para o seu quarto" que não deu nem para contestar.

Como eu era uma criança obediente… hei, não riam, eu era, naquela época, fui para o meu quarto de cabeça baixa e com a bochecha latejando por causa do tapa. Mika já demonstrava tendências sado masoquista desde cedo. Então, eu entrei no meu quarto com a minha mente remoendo tentando entender o que eu fiz de errado quando vi a figura da minha mãe, bela como sempre, sentada na beirada da minha cama e de braços apertos na minha direção para me consolar.

Obviamente que eu fiz o que qualquer garoto da minha idade faria, corri e me joguei contra o corpo dela, adorando sentir a fragrância de jasmim que emanava da pele suave e brilhante. Meu coração palpitou ao sentir os dedos dela percorrerem meus cabelos escuros e a voz suave murmurar palavras de compreensão ao pé do ouvido.

Horas pareceram minutos enquanto eu estava nos braços dela e quando finalmente as lágrimas que eu nem percebi que havia derramado por causa do tapa secaram, ergui minha cabeça para mirar os olhos claros iguais aos de Eiri. E então ela sorriu para mim, aquele sorriso de mãe que sempre nos dizia que o mundo poderia estar acabando, mas que mesmo assim tudo ficaria bem.

- Tat-chan. – ela murmurou e eu prendi a respiração ao sentir os dedos frios contra a minha pele quente. – Você não deveria ter dito aquilo. – claro que eu fiz um bico. Afinal, não tinha contado nenhuma mentira.

- Mas kaasan… você está aqui. Você não morreu, porque ainda está aqui. – ela apenas alargou o sorriso e afagou mais uma vez os meus cabelos num gesto que parecia dizer "menino tolinho, mas eu te amo mesmo assim".

- Eu morri Tat-chan… - abri a boca para protestar. Gente morta não ficava andando por aí. Ficava morta, cremada ou sob sete palmos de terra. Eu não era burro, já tinha visto meu pai reger vários funerais para saber ao menos como a coisa funcionava. – Shh… - ela pousou a ponta dos dedos sobre os meus lábios. – Agora eu entendo de onde vêm os seus amigos imaginários. – completou e então a seguir me explicou tudo.

Aparentemente, assim como uma tia dela no passado, eu tinha o dom de ver, falar e ajudar os mortos a encontrarem o caminho para a luz. Ao que parece, todo aquele papo de assunto inacabado ser capaz de prender a alma de um falecido neste mundo era verdade e a minha função era a de ajudar essas almas a resolverem este assunto.

O problema era que nem sempre elas sabiam que assunto era esse. Muitas vezes elas nem se tocavam que estavam mortas. E então lá ia o otário ter que fazer um trabalho sacal de detetive, parecer um louco diante dos olhos de pessoas estranhas para as quais eu tinha que passar o recado de entes queridos falecidos e mais de uma vez estar presente em lugares suspeitos e ser escoltado para casa pela polícia.

Tatsuha Uesugi, quem é? Ah, o garoto louco que se mete em confusões filho do monge do templo Uesugi. É a minha fama era boa na vizinhança (insira tom sarcástico nesta frase). Mas voltando a minha mãe, ela me explicou tudo isto, disse que era para eu não repetir o incidente do velório e que era para guardar segredo sobre este meu pequeno dom. E o plano até que funcionaria bem se não fosse o fato de eu ser praticamente um pára-raios para as almas perdidas.

Sério mesmo, depois de morta a pessoa não tinha mais noção do tempo e espaço? Porque era extremamente desagradável ser acordado de madrugada para auxiliar um espírito ou o mesmo surgir do nada no boxe do meu banheiro durante um momento para lá de privado. E cada vez que isso acontecia a minha vontade era de porrar as fuças do infeliz. E este era o único ponto positivo.

Enquanto para os pobres mortais fantasmas não passavam de uma coisa translúcida, sem forma e que metia medo, para mim eles eram tão materiais como qualquer ser vivo, o que me possibilitava tocá-los e até mesmo bater neles. E por que eu bateria em uma alma desgarrada? Oras, porque simplesmente nem todos os espíritos eram de vovós mortas dizendo que perdoavam o netinho por ter quebrado seu jogo favorito de porcelana.

Alguns deles eram o que eu chamava de poltergeist. Era assim que eu classificava aqueles fantasmas teimosos que não queriam desencarnar, estavam mais do que a fim de ferrar com a vida de desavisados, além de ferrar com a minha vida, e por isso atitudes drásticas eram requeridas. Em outras palavras: exorcismo. E eu era bom nisso. Por isso que a educação budista sempre vem a calhar neste momento. Isso e o treinamento em artes marciais também.

Mas nem sempre o resultado de um exorcismo era uma coisa bonita de se ver e geralmente causava estragos, como o velho armazém no cais do porto no qual eu estive esta madrugada. Além de causar estragos em mim. Só porque eu bato em fantasmas não quer dizer que eles não batam de volta. E acredite, uma porrada deles dói pra cacete. Já perdi a conta de quantos ossos quebrei, quantos hematomas ganhei e quantos pontos levei durante os últimos cinco anos, desde que caí de cabeça nesse negócio que a minha mãe chamou de "mediador".

- Tat-chan! – parei de supetão na porta de entrada do banheiro, uma toalha estava enrolada em meu quadril e com outra eu secava o meu cabelo.

- Mãe! – soltei em um tom alarmado, sentindo as minhas bochechas ficarem quentes. Minha mãe era um dos poucos fantasmas que eu até hoje não consegui descobrir qual o assunto inacabado tinha, pois depois de onze anos a mulher ainda rondava o templo Uesugi. Claro que quando eu era pequeno isso era ótimo, afinal, todo garoto sente falta da mãe.

Mas eu sou um adolescente, no auge da puberdade, com os hormônios a mil e ter a minha mãe pipocando sem aviso no meu quarto, ainda mais em horas nada convenientes como a de agora, era completamente vergonhoso. E como resposta ao meu embaraço ela apenas soltou uma risadinha travessa e cruzou as pernas, acomodando-se melhor sobre o tampo da minha mesa de estudos.

Devo dizer que a morte fez bem a minha mãe, pois ela parecia mais jovial do que nunca, com um comportamento quase de adolescente. Do tipo que fazia o que queria, na hora que queria e que os outros se ferrassem. Não é nada legal você estar prestes a transar com uma menina no seu quarto quando finalmente o seu pai resolveu viajar para aquela convenção de monges, para ter o seu barato interrompido com a sua mãe aparecendo flutuando acima de sua cama e dizendo com uma expressão carrancuda: "que coisa feia Tatsuha". Isto é broxante.

Por várias vezes tentei convencê-la a desencarnar, dizendo que eu já era um homem feito, já estava experiente nesse negócio de mediação, que não precisava de uma guia espiritual, mas ela apenas soltava um "tsc", sacudia o indicador em negativa e repetia a frase usual: "seus irmãos e você ainda precisam de mim" e desaparecia sem aviso.

- A que devo a honra da visita mamãe? – larguei a toalha com que secava o cabelo sobre os ombros e caminhei até o armário, abrindo uma gaveta de cuecas limpas e pegando uma, a vestindo por sob a toalha. Fiz um processo parecido com a calça do meu uniforme da escola e quando me senti razoavelmente decente, retirei a toalha da cintura e a joguei sobre a cama.

Em um gesto rotineiro minha mãe encarou a toalha e a fez levitar até o cesto de roupa suja no banheiro a jogando lá. Ainda penso o que aconteceria se um dia ela estivesse fazendo isso e algum terceiro entrasse de supetão no meu quarto. Mika eu sei que teria uma síncope, Eiri gritaria feito uma garotinha e meu pai ou enfartava ou começaria uma cerimônia de purificação pela casa. O que viesse primeiro.

- Gostaria de saber como foi o exorcismo da noite passada. – ela franziu as sobrancelhas ao me perguntar isto e em um pulo desceu da escrivaninha, caminhando na minha direção e com as pontas do dedo percorrendo um vergalhão que havia na pele da minha barriga. O fantasma da noite passada não havia sido fácil de persuadir, mas também não havia sido perigoso.

Entretanto, como toda boa mãe ela tinha que se preocupar quando o seu "bebê" era ferido. Acho que se pudesse ela iria ao outro mundo só para dar uma surra em cada fantasma que ousou machucar o seu adorado Tat-chan.

- O de sempre. Sob protestos e birra ele se recusou a querer partir – relatei, lembrando da alma do velho pescador frustrado que estava assombrando o dono da frota de barcos para o qual ele trabalhou. E como todo bom marinheiro, ele viveu e morreu no mar, mas aparentemente guardando um certo rancor pelo seu ex-patrão. – mas com uns cânticos e incensos consegui mandá-lo para onde deveria ir. Ainda bem que era um novato, não sabia usar nem metade da sua capacidade de poderes fantasmagóricos. Mas quem se importa, o que importa é que o meu trabalho está feito e todos vão viver felizes para sempre, menos eu. Porque eu tenho que no máximo me manter acordado nas próximas horas para não receber outra detenção por dormir em classe.

Mamãe apenas sorriu e me deu leves tapinhas no ombro, afastando-se de mim com aquela expressão marota de sempre. Meus olhos percorreram a sua figura enquanto eu vestia a camisa do uniforme, vendo que neste dia ela resolveu se vestir com algo mais outono. Camisa de manga comprida, calça jeans e botas. Até hoje tento entender como a cada vez que ela aparecia para mim estava com uma roupa diferente, até porque os espíritos permaneciam com a roupa com que morreram. Quero dizer… há shoppings para fantasmas? Acho que não, mas depois da minha nonagésima pergunta ser respondida apenas com um sorriso misterioso, resolvi presumir que a habilidade de trocar de vestimenta fazia parte do pacote de poderes dela.

- Bom, bom. – ela adquiriu uma expressão pensativa da qual eu não gostei. Quando isto acontecia era porque algo grande estava por vir. Com um girar de corpo ela virou-se para o pôster que decorava uma das paredes do meu quarto. Ryuichi sorria de uma maneira sedutora para ela e ela sorriu de volta, como se a foto fosse compreender este seu gesto. – Quando você pretende visitar os seus irmãos? – não tão cedo, foi o que pensei.

Da última vez que estivera em Tóquio não fiquei nas boas graças de Eiri. Sabe como é, fui lá para me livrar do estresse, mas parecia que o mundo dos mortos pressentia quando Tatsuha estava na área, pois vários fantasmas me perturbaram o final de semana inteiro pedindo ajuda. Um deles mais perigoso eu tive que oferecer ajuda a força e com isto tive a minha primeira experiência em uma delegacia da cidade grande. E o pior de tudo, ainda estou devendo ao Eiri uma grana por ter pagado a minha fiança e ficado calado sobre o incidente e não contado ao nosso pai.

- Mãe, por Buda, não me diga que meu próximo trabalho vai estar relacionado a algum deles? – era engraçado este negócio de mediador. Fora as almas que me procuravam espontaneamente a minha mãe era que também vinha me trazer trabalho. Era estranho e eu não gostava de pensar nisso, mas era como se eu tivesse uma espécie de chefe supremo desconhecido e a minha mãe servia como intermediária entre ele e eu. O desconhecido era assustador e fascinante ao mesmo tempo, ainda mais que esse desconhecido parecia ser extremamente poderoso.

Oras, eu era budista e não fazia parte do pacote acreditar em um Deus. Mas também nunca me perguntei para onde as almas iam e quem cuidava delas no outro mundo depois que o meu trabalho estava feito. Há certas coisas que é melhor não serem respondidas.

- Talvez. – minha mãe adorava ser enigmática e eu odiava quando ela fazia isso.

- Mãe… - falei longamente, sentido os papéis invertidos. Parecia que ela era a criança sendo repreendida e eu o pai desapontado.

- Apenas faça isso, vá para Tóquio, pela mamãe. Hum? – ela falou isto com uma expressão de cão sem dono no rosto que eu quase disse sim, mas a conhecia o suficiente para saber que alguma por detrás deste pedido havia. Abri a boca para tentar argumentar, arrancar alguma coisa dela, mas o apito do meu celular marcando a hora exata me fez acordar e ver que eu estava atrasado para a escola. Rapidamente, com um beijo de despedida na bochecha dela, eu recolhi a minha mochila e desci os degraus da casa correndo.

Passei por meu pai nos jardins do templo, desejando um bom dia para ele e ignorando o olhar de reprovação que ele me deu quando eu subi em um pulo na minha moto. Ele não gostava dela, achava que eu era irresponsável demais para possuir tal veículo, mas nada podia dizer já que a mesma foi comprada com o meu dinheiro, fruto do meu trabalho duro nos últimos dois anos. E geralmente eu não a usava para ir para a escola. Mas como estava atrasado mesmo…

Com um ronco do motor saí em disparada pelas ruas de Kyoto com a minha mente ainda divagando sobre a conversa que tive com a mamãe. Ela poderia ter sido bem enigmática, mas também tinha falado sério. E isso só poderia significar uma coisa: problemas. Muitos problemas.