Capítulo II

Okay, eu realmente devia parar de ceder às chantagens emocionais da minha mãe. Sério mesmo, isto apenas iria destruir a minha vida. E era este mantra que passava e repassava na minha cabeça quando vi a porta do apartamento de Eiri bater com força e quase acertar o meu nariz. E quem era o culpado por gesto tão delicado? Eiri, óbvio!

Rolei os olhos, mirando o teto do corredor e inspirando longamente, contando até dez. Eu poderia arrombar a porta, claro que poderia, seria extremamente fácil para mim. E quer saber o porquê? Foi uma coisa que eu descobri quando comecei a trabalhar como mediador. Sou mais forte que um humano comum. Não com uma força digna de ser comparado ao Super-Homem e coisa e tal, mas algo que me faça bater de frente com um fantasma irritado e sair vivo. A minha resistência física também era acima do normal.

E claro que tinha que ser com o tanto que eu já fui arremessado contra paredes, janelas, portões, grades e etc. Mas voltando ao assunto, eu poderia arrombar a porta de Eiri, eu queria arrombar a maldita porta e jogá-la na cabeça do meu irmão, mas não faria isso. E sabe por quê? Porque eu corria o risco de mais tarde ter a minha mãe me assombrando com longos sermões sobre como eu deveria controlar meu temperamento e ser mais educado com os meus irmãos.

Sério mesmo, era nessas horas que eu gostaria que a mulher permanecesse morta, sem o adicional do pós-vida preso a terra para me atazanar. Eu não precisava de ninguém mais me atormentando. Sou adolescente, sozinho já conseguido me atormentar o suficiente.

- Sério mesmo aniki, o que custa? – é o que custa me ceder abrigo seu ingrato já que o motivo de eu estar aqui é para salvar o seu traseiro. Bem, ao menos eu acho que é isso. Mamãe não me especificou nada durante a última semana desde meu recente exorcismo. Na verdade ela não deu nem as caras até sexta-feira de manhã quando surgiu de seu modo "discreto" no meu quarto e declarou que quando eu retornasse para casa da escola encontraria as minhas malas arrumadas e prontas para eu partir para Tóquio urgentemente.

- Não tem show do Nittle Grasper esta semana seu idiota, então o que você faz aqui? – a voz veio abafada pela porta e eu me segurei para não rebater algo infantil sobre como Eiri sabia ou deixava de saber a agenda de uma banda de pop/rock japonesa. Com certeza isso era influência do Shuichi.

- Eu não venho a Tóquio somente para babar no Sakuma-sama, sabia? – juro que ouvi um pigarro de escárnio vindo do outro lado da porta, mas decidi ignorar. – Não posso simplesmente vir visitar meu irmão adorado? – agora tenho certeza que ouvi um pigarro de escárnio do outro lado da porta e esta se abriu abruptamente, revelando o rosto sempre contrariado de Eiri com o seu cigarro a tira colo. Sem dizer nada ele deu um passo para o lado, abrindo passagem e eu retribuí o gesto com um sorriso inocente no rosto, recolhendo a minha bolsa do chão e entrando no apartamento.

- E o Shuichi? – foi à primeira coisa que perguntei assim que pus os pés dentro da cova do escritor devorador de mocinhas virgens. Sei que o apelido é um exagero, sei que Eiri tem no seu deturpado código de ética jamais comer nenhuma garota virgem, dizia que dava muito trabalho ter que ensinar o passo a passo para elas, mas do jeito que as fãs dele têm orgasmos cada vez que o vê acho que o título lhe vem a calhar.

Aniki apenas fez um aceno de cabeça indicando a sala, o território do furacão rosado destruidor de nações com a sua música pop e seu rebolado arrasador. É, eu sei, apelido grande, não faz muito jus ao dono, mas não dava para encaixá-lo na categoria de virgem sacrificada para o autor cruel chamado Eiri Yuki. Não mais. De qualquer maneira, quando me virei na direção da sala lá estava meu amado cunhado com o nariz colado na TV e babando feito um cão faminto.

Okay, feito filhotinho de cão faminto. Shuichi era muito fofo para ser comparado a um vira-lata qualquer.

- Shu! – chamei, sentando ao lado dele de maneira desleixada e isso pareceu fazê-lo acordar de seu transe e desgrudar a cara da televisão para me olhar.

- Tatsuha! O que faz aqui? – o que eu faço aqui? Boa pergunta. E aí mamãe, o que diabos eu faço aqui? Nops, ela não apareceu para me responder. Acho que ainda não sabia ler mentes, graças a Kami-sama. Minha mente era uma coisa da qual eu não quero que a minha mãe tome conhecimento, é capaz de traumatizá-la para toda a eternidade a qual ela parece estar condenada saber que o seu bebê não merece título tão inocente.

- Vim fazer uma visita. – respondi displicente e os grandes olhos azulados de Shuichi piscaram como se tentando me compreender. Às vezes eu acho que este é o modo como ele faz o cérebro pegar no tranco. Piscar intensamente até algum neurônio se ativar lá dentro. Okay, eu estava sendo mais sarcástico que o meu habitual, mas fala sério, eu fui praticamente arrancado de Kyoto em uma noite de sexta-feira que prometia.

Verdade, eu já tinha tudo programado e tinha colocado até alguns amuletos extras em torno da sala de TV para garantir que nenhum fantasma me amolasse. Por quê? Porque naquela noite seria o especial do Nittle Grasper e eu não queria perder. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelo qual eu praticamente voei baixo com a minha moto de Kyoto para Tóquio e dei a puta sorte de chegar bem a tempo do início do programa e encontrar Shuichi em casa para me acompanhar em meu momento de adoração divina.

- Então veio na hora certa. – parece que os únicos dois neurônios de Shindou pegaram finalmente. Não me leve a mal, eu adoro o Shuichi, o considero como mais um irmão e é por causa dessa intimidade que me dou à liberdade de fazer essas brincadeiras. E Shu não se importa mesmo, na verdade ele acha graça e concorda. Até porque nós dois sabemos que ele não é cabeça de vento e que amadureceu muito no último ano desde que começou a se relacionar com o meu irmão, mas eu gosto de fazer essas piadas para descontraí-lo. Afinal, um Shuichi muito sério ia contra alguma lei da natureza desconhecida pelos pobres mortais.

Shuichi mais uma vez praticamente grudou-se na frente da TV e eu vi de canto de olho Eiri nos mirar enojado diante da nossa atitude fanática e depois sacudir a cabeça em um gesto conformado, dando uma tragada em seu cigarro e indo se refugiar no escritório. Quando a porta do mesmo bateu, voltei a minha atenção completamente para a tela da televisão no momento em que o programa encerrava a sua abertura e a apresentadora dizia o seu texto sobre o que iria acontecer naquela noite.

Por dez minutos nós dois comparamos a nossa longa lista de qualidades referentes à Sakuma-sama e também os defeitos em relação à Seguchi. Gargalhei quando Shuichi me confessou que cada vez que Tohma entrava na sala parecia que a temperatura diminuía e que aquele sorriso dele o lembrava o sorriso de um predador antes de atacar. Sobre Noriko não tivemos nada o que comentar enquanto a víamos sorrir e responder polidamente as perguntas da entrevistadora. Ela era uma graça, ainda gata para uma mulher na casa dos trinta e que já teve filhos, mas não se comparava em nada ao charme do Ryuichi. Não mesmo.

Vinte minutos de programa e com Shuichi e eu fazendo imitações baratas de cães famintos babando na tela da televisão por causa da presença do todo-poderoso Ryuichi Sakuma quando a apresentadora falou em sua voz de felicidade afetada que o NG iria fazer uma apresentação exclusiva do seu novo single. Com isto, meus olhos e o de Shu vidraram rapidamente no momento que a banda subiu ao palco do programa e as fãs histéricas se calaram para ouvir a canção.

Entretanto, minha mente não estava tão nublada pela presença superior de Ryuichi para não notar aquele homem estranho ao fundo do palco, quase escondido pelas sombras causadas aonde a luz do refletor não chegava e que parecia encarar com um desprezo desmedido os integrantes da banda. Em um gesto reflexo me inclinei um pouco para frente, me aproximando da tela da televisão para observar melhor o desconhecido que mais ninguém do estúdio parecia notar.

O estranho mirou de Noriko a Ryuichi e cravou a sua atenção no Tohma e depois seu olhar ergueu-se para as barras de ferro que prendiam os refletores. Os pêlos dos meus braços se arrepiaram. Os da minha nuca também. Isso somente acontecia diante de uma coisa: quando eu estava na presença de um poltergeist. Merda, isto não era nada bom, pensei quando vi a barra de ferro tremer de maneira perigosa.

O som de algo estalando chegou baixo ao microfone da câmera. Na minha mente eu só conseguia recitar "Olha pra cima Seguchi. Olha pra cima seu imbecil". No entanto quem pareceu captar as minhas ondas mentais não foi o estúpido do meu cunhado, mas sim outra pessoa, pois no momento que o holofote se desprendeu do cabo Ryuichi Sakuma franziu as sobrancelhas, afastou-se do microfone e mirou Tohma, arregalando os olhos ao ver o pesado refletor prestes a esmagar o amigo.

Em um salto digno de ganhar o Oscar dos Dublês, Sakuma-sama pulou sobre o teclado de Tohma e jogou o seu corpo contra o dele, os arremessando para o mais longe possível do perigo. O barulho ensurdecedor de vidro se espatifando e metal se amassando contra o chão ribombou pelo estúdio, logo seguido dos usuais gritos de pânico. E com isto, segundos depois, o silêncio. O programa saíra do ar e agora na tela da televisão apenas apareciam àquelas usuais listras coloridas.

- SAKUMA-SAN! – Shuichi gritou, me fazendo dar um pulo de susto e levar as mãos as orelhas.

- Cruzes, 'tá louco menino, gritando desse jeito. – resmunguei, sentindo meus tímpanos vibrarem diante do berro do cantor. Tenho que admitir, Shindou não precisa de microfone para cantar, diante dessa voz poderosa ele conseguiria ser ouvido até mesmo no Brasil.

- Mas você viu? O Ryuichi pode estar ferido, você viu o tamanho daquele holofote? E se aconteceu alguma coisa com ele? E se ele se machucou, e se… - e nisto Shuichi começou a rodar pela sala como um tornado sem direção, murmurando sempre um "e se" acompanhado por um dos vários cenários que ocasionou a morte do famoso Ryuichi Sakuma. Se eu fosse uma pessoa normal também estaria me desesperando, ainda mais que sou tão mais fã do Sakuma-sama do que Shuichi, mas meus olhos atentos e sentidos despertos de mediador tinham visto Ryuichi se mexer e falar alguma coisa com Tohma antes da emissora tirar o programa do ar.

Ignorando os lamentos de Shuichi e o fato de que os mesmos acabaram tirando Eiri de seu covil para reclamar do barulho, comecei a ruminar sobre os acontecimentos. O primeiro deles foi o meu sexto sentido de mediador ficar alerta na presença de um poltergeist que aparentemente estava naquele programa de TV. O segundo era as intenções do mesmo. Estava claro, pelo modo como ele mirava a banda, mais especificamente o Tohma, que o alvo do cara era o meu "amado" cunhado. Entretanto era chegar a conclusões precipitadas afirmar que Seguchi estava sendo assombrado. Quero dizer, certo que sou praticamente ignorado pela minha família de lunáticos e agregados, mas eu saberia se acidentes estranhos estivessem rondando o presidente da NG Record, não saberia?

- Já sei, vou ligar pro Ryuichi. – a voz de Shuichi cortou os meus pensamentos e eu me virei a tempo de vê-lo correndo na direção da cozinha onde um dos telefones da casa ficava. Segundos depois Eiri sentou-se no sofá ao meu lado, acendendo um cigarro e me olhando como se eu fosse algum tipo de aberração de circo. Como resposta apenas ergui as sobrancelhas para ele perguntando silenciosamente qual era o problema.

- O idiota me contou o que houve. Holofote hum? Em rede nacional. Tohma vai processar até o último centavo da emissora. – já sinto pena do presidente da desafortunada emissora que vai ter que agüentar a ira do demônio que era Tohma Seguchi. Como se o imbecil precisasse ficar mais rico do que já era. – O que foi? Ficou impressionado?

- Hum? – não entendi a piada.

- Você está pálido. – Eiri declarou e eu fechei os punhos em um gesto instintivo. Não gostava de demonstrar meu desconforto fisicamente quando batia de frente com um poltergeist, mas não conseguia evitar o desagrado que eles me causavam. Era nauseante ficar na presença deles. A maioria estava tão carregado de ódio e rancor trazidos da vida passada que conseguiam me incomodar profundamente.

Mamãe dizia que era o meu sexto sentido aguçado que era sensível a emoções negativas. Eu respondia que era a merda acumulada pelos anos de vida que estava começando a feder nas costas dos fantasmas depois da morte. Claro que não falava isso com essas palavras. Tá doido? Mamãe podia ser um fantasma, mas ainda era capaz de lavar a minha boca com sabão.

- Está tudo bem. – Shuichi voltou para a sala bem a tempo de impedir que eu desse alguma desculpa para Eiri, ainda mais que ele me olhava desconfiado como se quisesse desvendar alguma coisa. Aniki sempre andou com o pé atrás comigo desde a minha gafe no enterro da mamãe ao falar que ela ainda estava ali. Com isto, ele sempre deu para me observar de perto como se esperasse que eu repetisse o meu erro, mas parecendo se desapontar quando nada acontecia.

Quando ele voltou de Nova Iorque, abatido, fechado e rebelde, pareceu esquecer-se da família e principalmente do irmão caçula. Agora que eu penso bem, Mika também costumava me olhar estranho depois da morte de nossa mãe e com isto uma conversa que eu tive com kaasan retornou a minha cabeça. Uma vez ela me pediu para eu parecer deprimido com a morte dela. Naquela época eu não entendi o pedido, mas o acatei. Hoje entendo o porquê. Afinal, era de se esperar que o caçula sentisse e chorasse mais pela perda da mãe. O problema era que para mim mamãe não tinha partido, eu ainda a via, ela ainda me visitava, mas os outros não sabiam disso e não poderiam saber e com certeza achavam estranho o pequeno Tatsuha estar agindo como se nada tivesse mudado.

- Ele disse que amanhã conversaremos melhor. O programa não vai voltar ao ar e o especial foi remarcado. – novamente Shuichi interrompeu os meus pensamentos. O especial vai ser remarcado? Estou chocado. Tohma não quis o fígado do produtor do programa e o rim do dono da emissora por causa do acidente? Será que meu cunhado estava perdendo o tato? Nah… talvez fosse o choque que ainda não o fez registrar o quanto ele poderia lucrar com tudo o que aconteceu.

Mas epa, peraí, pára e retorna.

- Amanhã não é sábado? – me intrometi na conversa. Na verdade era mais monólogo, pois Shuichi falava, Eiri fumava fingindo que o ouvia e Shindou continuava tagarelando sem perceber que era completamente ignorado pelo meu irmão.

- Artistas não param de trabalhar só porque é final de semana ou feriado Tatsuha. – ele me respondeu rindo e eu lancei um longo olhar para o aniki. Ele era a prova viva de que pessoa famosa não parava de trabalhar nunca, ainda mais quando o vi se levantar do sofá, ir para a cozinha, pegar uma cerveja e retornar de pronto para o escritório e se trancando lá.

Cara, sério mesmo, Eiri quer convencer quem de que fica todas as vinte quatro horas do dia escrevendo aquelas merdas que o mundo literário tem o mal gosto de chamar de Best Seller? Não, verdade, eu já tentei ler um livro do meu irmão, e coloque ênfase no tentar, mas não consegui passar do primeiro capítulo. Aquilo é literatura para donas de casas frustradas com os maridos assalariados e que eram covardes demais para arrumar um amante para apimentar a sua vida.

- Eu posso ir? – melhor voltar ao foco aqui. Que era? Tohma e o suposto caso de assombração. Shuichi me olhou estranho diante da minha pergunta e fez uma expressão de agonia. Acho que eu entendia o dilema dele. Eu fui banido do prédio da NG Record depois de uma tentativa frustrada há dois anos de ver o Ryuichi Sakuma quando soube que ele estava em passagem rápida pelo Japão.

Arqueei uma sobrancelha diante da demora dele para me responder e podia jurar que vi Shuichi começar a suar frio. Decisão, amarga decisão. Deixa o adorado cunhado ir visitar a NG depois de ser banido e estar propenso a perder o emprego por causa disso ou vetava a ida dele e se salvava da fúria do Tubarão Branco Tohma? A vida sabia ser cruel quando te colocava entre a cruz e a espada desta maneira.

- Quer saber, esquece! Lembrei que tinha marcado um encontro com uns amigos meus que estão na cidade… - resolvi salvar o pobre coitado e a expressão de alívio que Shuichi fez quase me fez rir. Eu gostava de torturá-lo de vez em quando, fazer o quê. Sem contar que eu não precisava de passe livre para entrar na NG, não neste caso. Quando o assunto era mediação o melhor era passar o mais incógnito possível.

Além do mais muita coisa mudou em dois anos. Muita coisa foi aprendida em dois anos e uma dessas coisas foi à maravilhosa arte do arrombamento. Portanto, quem precisava entrar pela porta da frente se tinha acesso livre e sem impedimentos pelas portas dos fundos? Preciso responder? Não! Então que os jogos comecem e poltergeist se prepare que eu vou pegar você. Ninguém quase machuca meu adorado Sakuma-sama e sai impune disso. E depois dessa frase insira risada insana só para causar efeito. E quem sabe depois de bancar o herói eu ganhe o mocinho no final e de preferência um que seja moreno de olhos claros e astro do rock.