Capítulo III
Deixei a minha cabeça pender, fazendo com que a minha testa batesse fortemente contra a porta de ferro. Ao meu lado minha mãe ainda resmungava algo que eu fiz questão de ignorar no segundo que ela começou o seu sermão. Agora o que a minha mãe estava fazendo no momento que eu estava prestes a entrar de gaiato na NG usando as portas dos fundos, eu não sei. Ela não costumava me acompanhar quando eu saía para fazer trabalho de mediador então por que justo hoje ela resolveu mudar de idéia?
- Reika Uesugi! – chamei quando ela soltou a nonagésima frase de repreensão sobre como o que eu estava fazendo era errado, ilegal e onde diabos eu tinha aprendido isso? Não, sério, ela falou "diabos". Quando a minha mãe começava a praguejar era para você saber o grau da irritação dela. Diabos era o grau mais leve, quando ela chegava a xingamentos pesados era o alerta para você correr e salvar a sua vida.
- Tatsuha Uesugi! – rebateu, me fixando com aquele olhar dourado que às vezes me causava arrepios. Os punhos foram para os quadris e o pé começou a bater insistentemente contra o chão de cimento. Pois bem, me deixe recapitular a situação para explicar o porquê do aparecimento repentino da minha mãe nesta adorável manhã de sábado em Tóquio.
Depois de brincar de torturar o Shuichi na noite passada sobre acompanhá-lo até o prédio da NG de onde fui banido, fazendo meu pobre cunhando entrar em um dilema, eu saí com uma desculpa pela tangente dizendo que teria um compromisso. O que essa história de compromisso significa? Um álibi. Se alguma coisa de errado acontecer e eu tiver que me mandar do local às pressas, mas sofrer a infelicidade de alguém me ver na cena do crime, ao menos eu tenho esse álibi que depois terei que formular melhor. Nada que uns telefonemas e cobrança de favores não resolva.
Então, eu acordei cedo, vesti uma calça cargo cheia de bolsos onde eu costumava enfiar o material que usava no meu trabalho de mediação e segui para o metrô, partindo para a NG. Sim, metrô. Quando você precisa fugir é mais fácil desaparecer em uma multidão do que tentar escapar sobre uma moto no meio do trânsito caótico de Tóquio. Mas voltando ao meu dilema… Então eu cheguei ao prédio da NG e não fiquei surpreso ao ver que laqueando a porta principal havia dois seguranças. Dois armários três por três com ternos pretos e óculos escuros.
Se eu quisesse conseguiria derrubar os dois com um chute só, mas não estava a fim de chamar a atenção. Ser incógnito lembra? Este era o meu objetivo. Então, sorrateiro, eu dei a volta pelo edifício e entrei em uma ruela aos fundos dele onde havia várias portas de acesso para carga e descarga de equipamentos e saída de material e outras coisas que todo prédio precisa para funcionar. Um caminhão estava estacionado com a traseira para duas grandes portas de ferro que pareciam portas de um galpão e descarregava algumas caixas que não consegui reconhecer.
Rapidamente parei os meus passos e retrocedi. Não queria ser visto, não queria que ninguém soubesse que eu estava ali. Refiz o caminho de mais cedo e quando cheguei à lateral do prédio vi que havia uma grande porta sem nenhum aviso para o que ela servia ou o que guardava. Mas isso não me interessava, o que me interessava era o fato de que ela não estava protegida e era um acesso para dentro da NG.
Então, retirando dos meus bolsos multifuncionais um jogo de finas barras de ferro e pinças eu comecei o meu trabalho genial de arrombamento. E foi neste momento que a minha mãe apareceu, começando o seu sermão infindável sobre como o que eu estava fazendo era errado e que esta não havia sido a educação que ela havia me dado.
- Escuta! – a cortei mais uma vez antes que ela retornasse a ladainha de sempre. – Preciso entrar no prédio, mas o Seguchi não permitirá isto de boa vontade. Não posso ser visto caso tenha que fazer um exorcismo, e você sabe como as coisas podem ficar feias em um exorcismo. Então esta é a minha única opção. Agora cale a boca e me deixa trabalhar. – certo, fui grosseiro. Acho que existia algum tipo de regra no budismo que falava sobre respeitar os pais acima de qualquer coisa… Não, espera, isto era no catolicismo. Crença errada. Mas que se dane! O importante é que ela fique quieta.
E surpresa, surpresa, ela ficou. Quero dizer, mamãe estufou as bochechas em um bico e as mesmas estavam começando a ficar vermelhas, se isto fosse possível para um fantasma, as sobrancelhas estavam franzidas e os olhos brilhavam de maneira perigosa. Eu sabia que quando ela fazia esta cara era pernas para quem te quero, pois com certeza ela iria soltar a sua fúria de uma maneira que iria além dos gritos normais que as mães dão ao repreender os filhos, ela iria fazer isto usando seus poderes também. Mas para o meu completo choque ela apenas soltou um grunhido e desapareceu.
Ah, paz finalmente, pensei aliviado, pois já estava esperando pelo pior, e retornei ao meu trabalho.
Cinco minutos foi o que eu precisei para conseguir arrombar a porta, mas não comemorei diante do meu ato de genialidade. Na verdade estava mais do que acostumado. Quando percebi que para entrar em alguns lugares sem causar muito alvoroço eu precisaria aprender a abrir fechaduras de maneira ilegal, recorri à internet e me auto didatizei. Meu dever de casa foram as portas do templo e a minha primeira prova foi quando precisei invadir uma velha casa tombada para tentar convencer um velho fantasma a desencarnar.
O problema era que a maioria dos lugares que eu arrombei foram lugares públicos ou de pouca segurança. Mas esta era a NG Record e Seguchi era paranóico. Minha única esperança era que a porta não tivesse alarme e rezando por isto eu a empurrei, esperando alguns segundos para ouvir o som estridente avisando os seguranças de que havia um intruso. Quando depois de um minuto eu não ouvi nenhum alarde vindo na minha direção resolvi entrar, a barra estava limpa.
Ao que parecia a porta da felicidade que eu havia escolhido tinha me levado para uma sala que servia como guarda tranqueira, pois além de empoeirada, escurecida e com cheiro de mofo, havia equipamentos empilhados a um canto, cadeiras e mesas em outro e uma mesa de equalização na qual eu quase tropecei estava no caminho entre a porta de acesso aos domínios da NG e eu.
Pegando o boné preso em meu cinto, o coloquei na cabeça para ajudar a ocultar a minha identidade. Com uma pequena lanterna que sempre carregava comigo, comecei a vasculhar a sala a procura de algo que me ajudasse a passar despercebido e vi uma caixa de papelão a um canto vazia. Fui até ela e comecei a enchê-la com velhas fitas de gravação e alguns microfones de estúdio que haviam por perto. Com isto pronto me ergui trazendo a caixa junto e fui até a porta de acesso a parte interna do prédio, checando a mesma e agradecendo por estar destrancada.
Fase um do plano completa: estou dentro da NG. Agora vamos para a fase dois, e essa seria um pouco mais complicada. Meu coração palpitava enquanto eu percorria os corredores carregando aquela caixa embolorada e fingindo ser um mero funcionário levando alguns equipamentos para algum canto do lugar. Pessoas passavam por mim e me davam bom dia, as quais eu igualmente respondia. Abaixei mais a aba do meu boné quando cruzei com um segurança, mas este nem me deu uma segunda olhada.
Cheguei ao elevador, praticamente me projetando para dentro dele quando as portas se abriram e suspirando de alívio ao vê-las se fechando. Com isto remexi em mais um bolso de minha calça, sem largar a caixa, pois ela era o meu escudo para o meu rosto e meu disfarce, e peguei um pequeno amuleto que lá estava.
Sabe, a história do amuleto era engraçada. Uma vez fui praticamente carregado por uma garota da escola a qual eu estava xavecando para uma loja exotérica que tinha recém inaugurado no bairro comercial de Kyoto. Eu não costumava freqüentar estes lugares, achava pura bobagem comercial, mas não queria perder os pontos adquiridos naquela semana com a menina, então eu fui. Entrando no lugar não fiquei surpreso com a música para meditação que ecoava no ambiente ou o forte e enjoativo cheiro de incenso. Uma fonte formava uma pequena cascata e o barulho da água me dava sono.
De qualquer maneira enquanto a garota rodava pela loja feito criança em loja de brinquedos, eu resolvi dar a minha avaliada no local. Havia livros sobre espiritualidade, alguns acessórios, roupas e outras coisas ligadas ao misticismo. Enquanto eu via algumas pedras, uma atendente me abordou subitamente, surgindo do nada, e eu quase pensei que ela era algum fantasma.
- É uma pedra de espíritos. – ela havia me dito e eu a encarei com as sobrancelhas erguidas enquanto a via recolher uma pedra em formato de diamante e de uma cor branca que parecia que ela possuía névoa por dentro. – Ela é boa para detectar espíritos. – me explicou e eu quase ri. Eu também era bom nisso lindinha, e não precisava de pedra para poder me auxiliar. – Estranho você fazer esta escolha… - escolha? Que escolha? Eu só estava olhando. – Tome – ela havia puxando a minha mão e colocado a pedra na palma aberta. – leve, é por conta da casa.
Quis indagá-la do porque desta atitude tão camarada, mas ela já tinha se afastado para ir atender outros clientes. Resignado eu enfiei a pedra no bolso e fiquei esperando pela minha "namorada". Por dias depois deste incidente eu tinha me esquecido daquela pedra, até que uma noite eu acordei com um grito irritado de dor e abri os olhos para ver a minha mãe tentando fugir de um objeto estranho que parecia estar lhe atacando.
Mais do que depressa eu pulei para fora da cama e fui ao socorro dela, recolhendo o objeto no ar e vendo com espanto que era a tal pedra e que a mesma realmente detectava espíritos. Quem diria heim? De vez em quando essas coisas exotéricas funcionavam. E era por isso que eu a tinha neste momento. Não havia como eu sair rodando o prédio da NG de cima a baixo procurando um fantasma sem levantar suspeitas. Eu os sentia quando estavam por perto, mas a pedra tinha um raio de abrangência maior que o meu sexto sentido.
As portas do elevador se abriram e meu coração quase saiu pela boca. Eu sei que não era do tipo que sempre ganhava na loteria, mas por que essas coisas aconteciam quando eu menos esperava? O que acontecia? Está curioso? Que tal o fato de junto com alguns produtores e outros funcionários, Ryuichi Sakuma e Noriko Ukai tenham entrado no elevador que eu estava?
Meu corpo todo formigou querendo largar caixa e tudo de lado para dar uma de fã apaixonado, mas o meu lado mediador me fez ficar parado no lugar e apenas me encolher num canto do aposento apertado e trazer a caixa mais para cima para assim cobrir o meu rosto. Tive que segurar um pouco a respiração, pois o cheiro de mofo no papelão quase me fez tossir e acima das pontas de fitas e microfones eu consegui observar o meu Deus conversando animadamente com a companheira de banda.
- E então depois o Kuma-chan me disse que eu fui muito corajoso ao salvar o Tohma-kun… - rolei os olhos. Por mim ele poderia ter deixado o holofote esmagar aquele loiro azedo, mas aí pensei que talvez seria mais uma alma para me assombrar e não queria ter o Seguchi me aporrinhando pelo resto da eternidade. Mas vamos confessar, o Nittle Grasper sem o Ryuichi não é nada, então que diferença faz um tecladista a mais ou um a menos na banda?
- Ainda sim acho que vocês dois tiveram muita sorte, mas ainda não entendo como aquilo foi acontecer. Tohma disse que o laudo dos bombeiros afirmou que a estrutura estava firme e segura e que era muito estranho aquele refletor ter se soltado… - Noriko comentou e eu não consegui segurar um pigarro de escárnio. Automaticamente os olhos de todos se voltaram na minha direção e eu fiz apenas um gesto sem graça de coçar a cabeça coberta pelo boné e pedir desculpas. Rapidamente eles me esqueceram e retornaram as suas conversas.
Ou quase.
Ryuichi parecia ainda me olhar longamente, como se quisesse decifrar alguma coisa, mas quando viu a minha sobrancelha erguida na sua direção, pareceu que ele tinha notado a sua indiscrição e retornado a conversa com Noriko. Subitamente senti o cristal ainda na minha mão começar a esquentar e a tremer, querendo ser liberto para assim ir buscar o fantasma que pressentia. Sério mesmo, essa coisinha era melhor que cão farejador. Com isto em um gesto rápido eu abri passagem pelas pessoas e cliquei o botão do oitavo andar quando vi que estávamos quase chegando nele.
Com um "plin" as portas do elevador se abriram e eu quase pulei para fora dele na pressa de sair, ganhando alguns resmungos por causa da minha atitude nada educada. Por reflexo olhei por cima dos ombros para as portas que agora se fechavam e vi que estranhamente Ryuichi estava mais uma vez com o olhar fixo em minha pessoa. Prendi a respiração e assim que ele sumiu de vista a soltei novamente. A pedra em minha mão parecia inquieta e logo larguei a caixa no chão e abri a palma, liberando o cristal.
Em um segundo ela disparou feito uma bala brilhante e eu tive que correr para conseguir acompanhar o seu ritmo, torcendo para que ninguém cruzasse o nosso caminho. Afinal seria uma visão interessante: um garoto correndo atrás de uma pedra que se movia sozinha. Deslizei em uma esquina quando ela fez uma curva brusca e parei ofegante quando ela também finalmente parou, flutuando na minha frente a poucos centímetros acima do chão.
Ergui a sobrancelha enquanto recolhia o cristal novamente em minha mão e o guardava em um dos meus bolsos. Tecnicamente não havia nada naquele corredor e eu não queria nem imaginar que aquilo havia sido um alarme falso. Mas então aconteceu. Os pêlos dos meus braços e nuca se arrepiaram e eu só tive tempo de me jogar no chão antes que um vaso decorativo que vinha na minha direção pelas costas me acertasse.
- Quem é você? – uma voz nada feliz praticamente rosnou a pergunta e eu me levantei num salto, virando para poder ficar cara a cara com o poltergeist. Fiquei surpreso ao ver que o fantasma era um homem jovem, de cabelos caramelo e olhos acinzentados. Parecia bem simpático, usava roupas sociais e eu até que gostaria de bater um longo papo com ele se não fosse o fato dele ter uma carranca nada bonita no rosto.
- Hei… e aí cara? Tudo bem? – pergunta imbecil não é? Nada estava bem, o sujeito estava morto e ele fez questão de me lembrar da minha estupidez quando arremessou um quadro na minha direção. Me movi mais uma vez, saindo da linha de tiro e me arremessando atrás de uma coluna. O quadro tinha passado tão perto do meu rosto que o vácuo causado pelo seu rastro de vento arrancou o meu boné. – Olha só, por que você e eu não nos sentamos e vamos conversar? Tenho certeza que qualquer que seja o seu problema, este pode ser resolvido. – tecnicamente não podia, poltergeist's não gostavam de interagir de maneira civilizada, mas é que eu não estava a fim de brigar a esta hora da manhã. Ainda era muito cedo para arrumar alguns hematomas.
Como resposta ele apenas gargalhou e jogou outro vaso na minha direção que felizmente espatifou-se na coluna onde eu estava. Acha mesmo que eu ficaria parado esperando ver o que aconteceria? Claro que não! Rapidamente mudei de lugar e com os olhos comecei a procurar outro esconderijo, ainda mais quando o vi começar a levitar um sofá que havia ali perto.
Agora juro que quando tudo isto terminar eu iria perguntar ao Tohma por que diabos ele tinha tanta tralha enfeitando os corredores da NG. Corredor é local de passagem, não sala de espera, então não precisava de tanto bagulho, ainda mais quando este bagulho estava sendo jogado sem motivo aparente contra mim.
- Olha só cara… eu realmente 'to tentando ser racional, mas você não está colaborando. – já estava começando a ficar irritado e virei para poder encará-lo melhor, com os punhos fechados e pronto para avançar sobre ele para assim nocauteá-lo antes que ele fizesse isto comigo. Entretanto me surpreendi quando os olhos claros ficaram largos e o sujeito ficou mais pálido do que o normal para um morto. O sofá que levitava ao seu lado caiu com um baque barulhento no chão e antes de sumir com uma expressão atordoada eu juro que o ouvi murmurar:
- Eiri. – e com isto desaparecer. Fiz uma expressão confusa que logo desapareceu quando ouvi o barulho de passos. Mas que merda, pensei enquanto olhava ao meu redor a procura de uma rota de fuga, havia me esquecido que o quadro e vasos arremessados pelo fantasma desconhecido fizeram barulho e chamaram a atenção de alguém. Com isto, não fiquei surpreso ao ver meu caminho bloqueado por seguranças que eram acompanhados por… surpresa, surpresa: Tohma Seguchi e Cia.
- Agora fudeu. – murmurei quando vi os brutamontes virem na minha direção. Agora fudeu de vez!
