Interlúdio
Ryuichi
O barulho do holofote espatifando no chão soou por todo estúdio e eu pude claramente sentir o coração de Tohma bater a alta velocidade no peito, ecoando no mesmo ritmo que o meu. Poeira de vidro subiu pelo lugar e os gritos histéricos do público quase me ensurdeceram. De rabo de olho vi a brigada de incêndio prontamente jogar a fumaça de seus extintores contra os fios do projetor de luz que faiscavam e logo senti a presença de Noriko ao meu lado junto com os para-médicos. Em gestos rápidos eles nos ergueram do chão e começaram a avaliação de rotina sobre nós.
Estranhamente eu estava calmo diante de tudo o que aconteceu, mas Tohma ao meu lado parecia prestes a ter um colapso. Era estranho ver o loiro aparentar fragilidade desta maneira, mas acho que o susto ainda não registrou no cérebro dele e nem a reação reflexo que ele sempre tinha de manter a compostura de sempre mesmo diante do fim do mundo. Pessoas corriam a nossa volta tentando controlar o pânico que o acidente tinha causado e eu olhei na direção das câmeras apenas para ver que elas estavam desligadas.
Era estranho, agora que eu parava para pensar nisto. Em um momento eu estava lá, atrás do microfone, deixando o ritmo e a música tomar conta do meu corpo, me emergindo na canção como sempre fazia, quando senti algo cutucar no fundo da minha mente me incomodando. Não sei explicar, parecia que alguém estava falando alguma coisa e de repente todos os meus sentidos ficaram alerta e por um instante eu congelei na letra da música e olhei para trás, como se algum desconhecido tivesse me ordenado a fazer isto. E graças a tudo que é mais sagrado eu fiz isto, pois acho que se tivesse sido um segundo mais lento agora estaria era em um carro correndo atrás de uma ambulância que levava um Tohma extremamente ferido para o hospital.
- Ryuichi, tudo bem? – Noriko tocou em meu braço, chamando a minha atenção e eu dispensei um para-médico que tentava tomar a minha pressão. Eu estava bem, não tinha sofrido um arranhão e sinceramente era um milagre isto não ter acontecido. Aliás, foi um milagre tudo o que eu fiz, pois na hora eu estava tão movido a adrenalina que somente agora percebo que cruzei uma distância de três metros em dois segundos e me arremessei sobre um teclado que estava erguido a pelo menos 60 centímetros acima do chão.
Nossa, eu estava em boa forma. Parece que todas aquelas aulas de pilates e todas as horas correndo naquela esteira tediosa valeram a pena. Minhas mãos comicharam para sentir os pêlos ásperos de Kumaguro. Ele era o meu escudo de proteção e o meu calmante. Certo que muitos poderiam achar ridículo eu ter como melhor amigo um bichinho de pelúcia, mais ridículo ainda as minhas atitudes infantis, mas somente Noriko e Tohma conseguiam ver além da máscara que eu criei.
Não sou lesado da maneira como as pessoas pensam que eu sou, na verdade minha personalidade infantil é apenas um personagem, como tantos outros existentes por aí. Não existem cantores que se vestem de mulher, outros que se dizem serem vampiros milenares? Eu criei como persona uma criança. Tive a idéia quando ganhei o Kumaguro de presente… de uma criança. Não lembro direito o nome dele, só sei que era um conhecido de Tohma e tal fato aconteceu há uns doze anos, mas lembro de ter ficado comovido com a atitude do garotinho que tentou me animar me dando de presente seu brinquedo favorito.
Na época o Nittle Grasper estava iniciando carreira e eu tinha tido mais uma briga com a minha família sobre as minhas escolhas para a vida. Meu pai queria que eu completasse os estudos, fizesse faculdade e fosse um homem de respeito na sociedade. Eu queria ser cantor e famoso e por isso, depois de mais uma discussão, eu sai de casa e fui me refugiar na casa do Tohma apenas para perceber que tinha aparecido em uma hora errada. Meu amigo estava recebendo em casa para o jantar a família de uma garota que ele tinha começado a namorar, mas, educado como sempre, ele não me dispensou e me acolheu.
No entanto, eu não queria atrapalhar os compromissos dele então fui me refugiar em seu quarto e foi aí que conheci este menino. Aparentemente ele era o irmão caçula da namorada de Tohma, tinha cinco anos e estava agarrado ao Kumaguro como se este fosse o seu bote salva-vidas e por detrás das orelhas do coelho ele me olhava com grandes e expressivos olhos castanhos. Com a voz infantil me perguntou qual era o problema e sem entender o porquê eu acabei desabafando com ele.
Não sei se um menino de cinco anos chegou a compreender a gravidade da minha situação, mas o gesto dele foi o suficiente para me tirar da minha depressão. Ele me estendeu o Kumaguro dizendo que eu precisava de um amigo mais do que ele e me desejou sorte, prometendo que seria o meu fã número um a partir daquele momento. E era por isso que até hoje eu carregava o coelho de pelúcia comigo e fazia questão de cuidar bem dele. Foi presente do meu fã número um e mesmo que eu nunca mais o tenha visto, não iria me desfazer dele.
- Estou. – falei quando percebi que Noriko ainda esperava pela minha resposta. Em instantes K estava ao nosso lado, afastando toda a multidão que nos cercava em paparicos e trazendo os seguranças da banda junto com ele e que formaram um círculo a nossa volta e começaram a nos guiar na direção dos camarins. Me deixei levar sem protestos, ainda lançando um olhar por cima do ombro para o palco que agora era preenchido pelos bombeiros que tentavam decifrar o que tinha acontecido.
Depois disso tudo passou como um borrão para a minha mente registrar. Lembro do presidente da emissora invadindo nosso camarim e pedindo repetidas desculpas ao Tohma que apenas lhe sorria complacente. Tenho certeza que dependendo do laudo da perícia o loiro ainda estava decidindo se processava ou não a emissora. Lembro de receber um telefonema de um Shuichi histérico perguntando se estava tudo bem e passado ao menos uns cinco minutos assegurando a ele que nada de grave havia acontecido comigo ou com qualquer outro membro da banda. Depois me lembro de ter sido escoltado para a van que nos esperava e ser levado para casa.
Cansado e sabendo que o dia seguinte seria um dia de trabalho como outro qualquer, ainda mais que estávamos prestes a lançar um novo single prelúdio para um novo álbum, tomei uma ducha rápida e cai na cama, apagando no segundo que a minha cabeça tocou o travesseiro. Acordei com o toque do meu celular provindo da cômoda ao lado da minha cama e não precisei verificar a tela para saber quem estava me ligando.
- O que foi Nori-chan? – murmurei sonolento. Noriko fizera da missão dela de vida sempre me escoltar para qualquer lugar que eu tivesse que estar a trabalho, sabendo que se não fizesse isto era capaz de eu perder o compromisso ou por esquecimento ou por tomar o rumo errado. O que eu poderia dizer? Minha memória era péssima. Com a minha agenda sempre lotada eu nunca conseguia lembrar se terça era a sessão de fotos e quarta a entrevista para tal revista ou se o contrário. Assim como o meu senso de direção era igualmente ruim. Eu conseguia me perder na garagem do meu prédio, então imagine indo para a NG Record?
Já me sugeriram que eu arrumasse um assistente para resolver esses meus problemas, mas nenhum candidato era bom o suficiente para os padrões de Tohma Seguchi, já que ele que costumava fazer as entrevistas. Meu amigo não gostava de confiar a segurança e bem estar da sua galinha dos ovos de ouro a um estranho. No começo ele tinha K para esta função, mas agora que o americano estava mais ocupado com o estrondoso sucesso do Bad Luck não tinha mais tempo para ficar bancando a babá de estrelas de mais de trinta anos.
- Ryuichi é bom você estar acordado senão subirei até aí e te afogarei em uma banheira de água fria. – não duvido que ela fizesse isso e por isso acabei me levantando mesmo que meu corpo protestasse pela preguiça e clamasse pela cama.
- Espera aí? Como assim subir? – falei quando minha mente registrou o que ela disse.
- Já estou te esperando na portaria do seu prédio e você tem dez minutos para estar aqui em baixo. – dez minutos? Olhei para o relógio e vi que já era nove e meia da manhã. Eu tinha que estar na NG às nove.
- Merda! – soltei sem querer. Não era muito adepto a palavrões, mas às vezes eles escapavam. Joguei o celular sobre a cama e comecei a rodar o quarto a procura do que vestir. Pude ouvir a risada de Noriko vir do aparelho antes dela desligar. Em cinco minutos estava arrumado, saindo apressado pela porta do apartamento e usando as escadas em vez do elevador para chegar ao térreo. Em sete minutos me vi na portaria do prédio, colocando os bofes para fora por causa da correria e encarando uma Noriko bem sorridente. Ela estava feliz demais para alguém que, assim como eu, estava atrasada.
- Oito e quarenta e cinco em ponto. Acabou de bater um recorde Ryu. – me falou enquanto olhava o relógio. Como assim ainda era quinze para as nove? – Eu adiantei o relógio do seu quarto para garantir que assim você chegue na hora. – sua traíra, quase me fez enfartar jovem por causa dessa sua pequena peça. Você ainda me paga, pode esperar Noriko Ukai. A minha vingança será maligna.
Ainda sorrindo ela pegou na minha mão e me guiou para o carro que nos esperava. Tohma sempre deixava um carro e motorista a nossa disposição e Noriko fazia questão de usá-lo. Era o único privilégio como estrela internacional que ela gostava de abusar, pois não suportava locais tumultuados como metrô e dizia que já havia os usado demais quando era uma simples qualquer e que agora queria aproveitar certas mordomias. Eu não dizia nada, concordava com ela, ainda mais que não conseguia dirigir se isto dependesse a minha vida. Lembra do senso de direção ruim? Então, se a pé eu conseguia me perder, imagine dentro de um carro? Sem contar que muita coisa era exigida para dirigir e a minha atenção se dispersava muito facilmente, me tornando um terror atrás do volante.
Então, vamos só dizer que era mais seguro eu ter um motorista particular do que bancar o motorista.
Nosso caminho para a NG foi preenchido de conversas e planos sobre o novo CD, o curto percurso da minha casa até o prédio da gravadora pareceu ser feito em poucos segundos em vez de minutos. Assim que entramos na NG e fomos a caminho dos elevadores a conversa mudou para o que acontecera na noite passada e perdurou até descermos no sexto andar para descobrir assim que colocamos os pés no corredor um funcionário vir nos dizer que a gravação havia sido transferida para os estúdios do décimo andar.
Com isto esperamos calmamente pelo elevador voltar, ou outro subir, e em nossa espera alguns produtores e outros funcionários se uniram a nós, prontamente começando a nos perguntar o que foi aquilo que acontecera no programa noite passada e Noriko explicou calmamente para eles o incidente. Logo a conversa foi desviada para como eu tinha sido rápido em meus reflexos e assim que o elevador chegou entrei nele empolgado, a minha personagem infantil prontamente assumindo o lugar do Ryuichi que era somente conhecido pelos amigos e pessoas mais próximas a mim.
- E então depois o Kuma-chan me disse que eu fui muito corajoso ao salvar o Tohma-kun… - relatei empolgado e pude jurar que ouvi um suave pigarro de escárnio atrás de mim, mas ignorei. Logo Noriko acrescentou seu comentário com uma informação da qual eu ainda não tinha conhecimento.
- Ainda sim acho que vocês dois tiveram muita sorte, mas ainda não entendo como aquilo foi acontecer. Tohma disse que o laudo dos bombeiros afirmou que a estrutura estava firme e segura e que era muito estranho aquele refletor ter se soltado… - desta vez tive certeza que ouvi um pigarro de escárnio e confirmei isto quando além de mim os outros se viraram na direção do barulho. Atrás de nós havia um funcionário da NG que carregava uma caixa de equipamentos. Metade de seu rosto estava coberto pelo papelão, mas pude ver o sorriso sem graça que ele deu e a coçada da cabeça que fez o seu boné se mexer.
Ofeguei quando percebi intensos olhos castanhos me olhando e uma sensação de dejá vu apoderou-se de mim. A voz suave e grossa pediu desculpas pela interrupção e um arrepio desceu pela minha espinha. Continuei o encarando, querendo entender o que havia naquele homem, rapaz, não dava para dizer a idade dele direito, que parecia estar me atraindo tanto. Contudo, quando vi a sobrancelha negra se erguer indicando a minha indiscrição, me virei rapidamente para esconder o rubor que subiu as minhas bochechas.
Subitamente senti um movimento atrás de mim e o rapaz de antes agora abria passagem frenético entre as pessoas dentro do elevador, apertando o botão do oitavo andar e se projetando para fora da máquina assim que as portas se abriram. Por algum motivo eu senti um choque elétrico cruzar o meu corpo quando o senti esbarrar em mim durante a sua fuga repentina e não pude deixar de encará-lo enquanto via as portas novamente se fecharem. Outro arrepio cruzou a minha espinha quando orbes escuros se fixaram em meu rosto e depois foram ocultados pelas portas que se lacraram.
- Mas que grosseria. – Noriko reclamou, apertando novamente o botão do décimo andar que tinha se apagado diante desse pequeno show do homem desconhecido.
A chegada ao estúdio foi rápida depois disso e não me surpreendi em encontrar produtores e operadores de som já nos esperando. O teclado de Tohma estava montado a um canto, mas sem o seu dono por perto. Arqueei as sobrancelhas e me virei na direção de Noriko com uma pergunta muda estampada em meu rosto.
- Ele tem uma reunião agora pela manhã, mas falou que já deixou sua parte gravada e que qualquer alteração necessária era só comunicar a ele. – eu duvidava que fossemos precisar alterar o trabalho que Tohma já deixou adiantado. O homem era um gênio perfeccionista que não admitia erros em nada e cada vez que ele tinha que deixar sua parte pronta com antecedência fazia questão de a mesma estar mais do que perfeita. Suspirei, sabendo que seria um longo dia de gravações para conseguir acompanhar a paranóia do Seguchi. Não me entendam mal, eu era tão perfeccionista quanto meu amigo, mas ele levava o significado da palavra a níveis difíceis de alcançar.
Mesmo assim entrei no estúdio confiante de que nosso trabalho seria um sucesso antes mesmo de estar pronto. Sempre era. Não é para ser uma colocação arrogante, mas não construímos a carreira do Nittle Grasper baseados na sorte. Cada CD produzido, cada show feito, tem o nosso sangue, suor e alma neles. E se Tohma queria níveis além da perfeição, Noriko e eu iríamos atender ao pedido dele. Sempre atendíamos, porque era o mesmo que queríamos.
Normalmente, em um bom dia, a gravação de apenas uma faixa de música levava no mínimo meia hora para cima. Mas neste dia, não começamos nem dez minutos de trabalho quando o mesmo foi interrompido por um estrondo que pareceu vir de alguns andares abaixo de nós. Em unísso, todos nós paramos de fazer o que fazíamos e olhamos abobalhados uns para os outros. Bem, isto aqui era Tóquio e terremotos eram comuns na cidade, mas o barulho não foi acompanhado pelo tremor dos quais todos nós estávamos acostumados. Pelo contrário, foi seguido de outro barulho.
Um arrepio desceu pela minha espinha e uma sensação estranha começou a comprimir o meu peito, bem do lado do coração. Se eu não soubesse que a minha saúde era perfeita graças a todos os exames anuais que faço, ficaria preocupado com a possibilidade de um enfarto precoce. Mas o dito aperto mais parecia de ansiedade do que algum problema físico. Com um olhar para Noriko, retirei os fones de ouvidos e me voltei bem a tempo de ver a porta do estúdio ser aberta por um dos funcionários da NG.
- Seguchi-san ordenou que todos ficassem dentro dos estúdios. – ele comunicou e prontamente sumiu para assim passar o recado adiante. Arqueei as sobrancelhas. Ficar dentro dos estúdios? Por quê? Estava acontecendo alguma coisa dentro do prédio? Bem, fogo ou caindo ele não estava, senão Tohma teria mandado todos evacuarem o edifício. Burburinhos começaram a percorrer pela sala com as pessoas especulando o que estava acontecendo, mas um chamado de Noriko calou a todos.
- Bem, se Tohma mandou a gente ficar aqui, não deve ser nada muito sério. – ela falou, mas não parecia muito firme em sua teoria. – Vamos voltar ao trabalho! – ordenou e mais que depressa produtores e operadores de som retornaram aos seus lugares e eu recoloquei meus fones. Noriko poderia ser um pingo de mulher, mas era um pingo com bastante influência sobre os outros. Todos dizem que sou o líder do Nittle Grasper, mas não poderiam estar mais enganados. Eu sou mais do tipo de seguir o fluxo do que mandar em qualquer coisa.
Originalmente o líder é o Tohma, tendo como segundo em comando a Noriko, como eu costumo brincar. E, portanto, seguindo as instruções dela, voltamos ao trabalho, para sermos interrompidos vinte minutos depois com um estrondo que desta vez fez tremer o prédio inteiro. Prontamente pânico se alastrou pelo andar e não pude fazer nada além de seguir o fluxo. O pessoal do estúdio já fugia para o corredor e eu senti Noriko me segurar pelo pulso e me arrastar na direção do elevador.
Outro tremor pareceu balançar as bases do edifício e confesso que gelei ao pensar no pior, já que agora eu estava dentro do elevador com Noriko ao meu lado e ao que parecia sendo levado ao andar onde ficava a sala do Tohma. Todo o nosso trajeto desde a saída do estúdio foi feito em silêncio, com certeza porque a minha amiga estava apreensiva para saber o que estava acontecendo e porque a sensação ruim que tinha começado mais cedo parecia ter se intensificado.
As portas do elevador se abriram e fomos cumprimentados com uma cena peculiar. K, a secretária de Tohma e mais alguns funcionários esmurravam as portas da sala do presidente, tentando se fazer ouvir acima do barulho ensurdecedor que parecia estar vindo lá de dentro. Fiquei com o coração na garganta ao pensar que meu amigo estava lá dentro e o que de ruim poderia estar acontecendo para causar esta confusão toda.
De repente o barulho vindo do escritório cessou e K recuou um passo, sacando a sua fiel magnum e disparando contra a maçaneta que logo depois caiu diante do abuso das balas. Com um chute o americano escancarou a porta e por entre os espaços que a silhueta dele oferecia conseguimos ver o estrago que estava a sala do Tohma. A secretária de Seguchi se afastou, indo para a sua mesa e pegando o telefone, a vi digitar um número e logo ela estava falando com alguém que pelo pouco que consegui captar da conversa deveria ser a emergência.
Aos poucos fomos entrando no escritório que parecia ter sido bombardeado. Cacos de vidro se espalhavam sobre o chão, quebrando-se sob as solas dos nossos sapatos à medida que avançávamos sala adentro. Plantas de vasos estavam despedaçadas, como se tivessem sido podadas de maneira errática por algo bem afiado e eu tive a mórbida suspeita que foi pelos cacos que pisávamos. Quadros estavam destruídos, outros caídos, folhas eram varridas pelo sopro forte de vento que entrava e foi este detalhe que nos fez perceber o cenário completo.
O que era antes a grande janela que ficava atrás da mesa de Tohma agora não passava de um enorme buraco por onde entrava o barulho do trânsito da rua abaixo de nós e vento. A secretária de Seguchi retornou a sala no momento em que meu amigo era erguido do vão formado pelas gavetas da mesa por um rapaz que me surpreendeu ao ser o mesmo que encontramos no elevador mais cedo. E como eu sabia, sendo que parte do rosto dele pela manhã estava encoberto? Os olhos. Havia algo naqueles olhos que me eram familiar e cativantes. Sem contar que ele… era de tirar o fôlego.
De uma maneira ilegal de ser, pois ele parecia ser jovem, muito mais jovem que eu. Embora tivesse a altura e o corpo de um homem, algo nas atitudes dele enquanto era interrogado por K e nas feições dele indicavam que o garoto mal tinha saído da adolescência. Acordei de meus devaneios quando vi Noriko dispensar a secretária que bajulava Tohma e tomar o lugar dela no quesito mimos.
- Que estrago. – comentei displicente e me surpreendi ao ver a atenção do garoto voltada para mim. Segurei um arrepio. Logo ele deu as costas para mirar o buraco que foi a janela um dia.
– Mas o que afinal aconteceu aqui? – K parecia querer compreender o que tinha acontecido, mas juro que estava sendo difícil. Tecnicamente se tamanho estrago havia sido feito pelo garoto o vidro deveria explodir para fora e não para dentro como a trajetória dos cacos indicavam. - A emergência já foi chamada. – sem contar que o vidro da janela da sala de Tohma era a prova de balas.
Eu já falei que o meu melhor amigo é paranóico? Acho que sim.
- O vidro… estourou. – explicou-se Seguchi e todos os olhares recaíram sobre ele. O pobre coitado estava mais branco que o normal e os olhos ainda estavam largos por causa do susto. Era a segunda vez que alguma coisa estranha acontecia com ele em apenas dois dias. – E você me salvou. – continuou, virando-se para mirar o garoto moreno que não parecia feliz por ter todas as atenções sobre ele de novo. – Como você sabia… - o que Tohma ia perguntar foi interrompido pela chegada da emergência e o garoto pareceu satisfeito com isto.
Com todas as atenções divergidas para o meu amigo e com os bombeiros que agora tinham entrado na sala e avaliavam os estragos, eu aproveitei para observar o jovem que mirava o buraco da janela com o cenho franzido em uma expressão pensativa. Era absurdo, eu sei, a minha estranha fascinação por este garoto, mas eu não conseguia explicar. Algo dentro de mim parecia me puxar para ele, uma força desconhecida que me dava medo e ao mesmo tempo me deixava excitado diante desta perspectiva de nós dois termos alguma ligação misteriosa.
Como se ele fosse um imã, fui me aproximando aos poucos dele, até parar ao seu lado e mirar melhor o seu perfil. Seu rosto era bem desenhado, de traços suaves que eram anormalmente marcados pela carranca que ele ostentava. Seus cabelos negros brilhavam com reflexos azulados contra os raios de sol que entravam pela antiga janela. Não preciso então comentar mais uma vez sobre os olhos que me encantavam e não consegui desviar a minha atenção quando ele cruzou os braços sobre o peito e vi músculos se movimentarem sob a pele morena, formando contornos que com certeza era o resultado de muito exercício.
Embora esguio, estranhamente ele parecia ser mais forte que o normal. Algo nele dava a sensação de que ao mesmo tempo em que ele podia ser uma pessoa acolhedora, afetiva, também poderia ser extremamente perigosa. Não sei se eram os músculos com os quais eu parecia fascinado, ou se era a expressão fechada, ou o fato de que perto dele todos os pêlos do meu corpo se arrepiavam. E sabe o que é mais engraçado nisto tudo? Eu não estava entrando em curto. Quero dizer, aqui estou parado feito um paspalho observando a beleza de um homem que não deve nem ter chegado à maioridade e não estou surtando com perguntas contestando a minha sexualidade, pois antes de conhecer este garoto eu nunca dei dois relances a alguém do sexo semelhante.
Certo, as pessoas podem achar que eu tenho alguma paixonite pelo Shuichi, pelo modo como sempre estou colado nele, gritando o nome dele e o agarrando, mas isto se deve ao fato de que essas mesmas pessoas não me conhecem. Eu sou expansivo por natureza, quando gosto de alguém não tenho medo de demonstrar isto com gestos afetivos, seja homem ou mulher. Sem contar que o Shuichi é fofo e lembra a mim mesmo quando tinha a idade dele e estava em início de carreira.
Estas mesmas pessoas também pensam que eu tenho ou tive um caso com o Tohma, e só de ouvir isto tenho vontade de vomitar. Eu conheço aquele loiro desde o berço. Literalmente mesmo. Nossas famílias sempre foram próximas, onde Tohma estava, eu estava. Nossas mães costumam contar com um sorriso nos rostos que achavam isso uma graça quando via um bebê atrás do outro, brincando nos jardins. E embora em alguma parte distante da nossa infância houve um momento em que o loiro e eu não agüentávamos mais olhar para cara um do outro diante de tamanha convivência e vivíamos brigando, ainda sim éramos amigos.
E por que ninguém nunca especulou casos entre Noriko e eu? É porque ela está mais para a mãezona do grupo ou porque muitos acham que a minha atitude metrossexual está mais para homossexual mesmo? Povinho mente fechada.
- Você está sangrando. – soltei bestamente ao lado dele e percebi que agora meus olhos tinham se fixado em seu pescoço e o mesmo tinha um corte. Parece que ele não percebeu a minha presença, pois se virou surpreso para me encarar e eu juro que seus orbes escuros pareciam ter enegrecido mais ao me ver. Em reflexo ele levou a mão ao ferimento, como se somente agora percebesse que estava lá.
- Eu 'to legal. – me respondeu e ofeguei ao ouvir a voz rouca chegar aos meus ouvidos. Continuei o encarando bestamente até que a voz de Noriko me chamando me fez desviar a atenção dele.
- Estamos pensando em levar o Tohma para o hospital. – ela comentou quando se aproximou de mim e eu com certeza fiz uma expressão confusa e preocupada porque logo ela acrescentou: - Ele não está ferido, mas os pára-médicos acham melhor, pois a pressão dele está um pouco alta por causa do susto e já é a segunda vez que uma coisa dessas acontece com ele…
- E acham que no hospital ele vai estar protegido de proeminentes acidentes estranhos? – completei com escárnio. Não creio que qualquer que seja o motivo da maré de azar do Seguchi irá parar só porque ele está no hospital.
- Não banque o engraçadinho comigo Ryuichi. – me repreendeu, fazendo algo que eu detesto que é apertar as minhas bochechas. – O que você estava fazendo com o Tatsuha? – completou e eu franzi as sobrancelhas.
- Tatsuha? – nome familiar, mas sem rosto para associar.
- O cunhado do Tohma. – e indicou com a cabeça o lugar onde Tatsuha está. Virei para poder vê-lo apenas para contestar com horror que ele não estava mais lá. Sem dizer nada a Noriko, dei a volta por ela, saindo da sala e suspirando de alívio ao ver que o garoto estava em frente ao elevador, esperando o mesmo chegar.
- Deveria deixar o para-médico olhar este ferimento. – repeti e quase sorri ao vê-lo dar um pulo de susto. Ele virou-se para me encarar com uma expressão nada satisfeita no rosto, mas logo esta relaxou quando o elevador chegou ao 21º andar e ele se arremessou para dentro da máquina. Sem compreender o que fazia eu o segui e isto pareceu não agradá-lo. Chegava a ser cômico, em um bom dia qualquer pessoa que se visse em um cubículo na minha presença iria achar que foi abençoado pelos Deuses. Não estava sendo arrogante, longe disso, mas foi algo que uma vez eu ouvi o Shuichi dizer para mim quando confessou pela primeira vez o quanto era o meu fã.
A dúvida estava me corroendo por dentro e o nome de Tatsuha continuava latejando na minha cabeça. Sem pensar mais uma vez, apertei o botão de emergência, parando o elevador prontamente e virei para poder encarar o garoto. Com certeza ele deveria estar me taxando agora de criatura bizarra em diante para estar o seguindo e fazendo essas maluquices com ele. Mas eu não conseguia evitar, era algo inerente a minha pessoa. Quando algo entrava em minha cabeça, um mistério deste porte, eu não sossegaria até conseguir resolvê-lo. Mesmo que isto me fizesse parecer um cara estranho. Continuei o encarando e ele pareceu ficar ainda mais impaciente com as minhas atitudes. Abri a boca para confrontá-lo, ver se ele me ajudava a esclarecer meu dilema, mas mudei de idéia.
Logo ele perdeu a paciência e me empurrou para fora de seu caminho, apertando novamente o botão e desbloqueando o elevador que recomeçou a descer. Meu corpo todo formigou com o seu toque e eu voltei a encará-lo. E quando finalmente a máquina chegou ao térreo pareceu que eu fui finalmente iluminado e a resposta veio a minha cabeça.
- Eu sei quem você é. – disse assim que ele saiu do elevador e ele virou-se surpreso na minha direção para logo depois ver sua expressão chocada sumir por detrás das portas que se fecharam. Apertei o botão para o 21º andar e encostei na parede dos fundos do elevador. – Eu sei quem você é… Tatsuha. – murmurei, repetindo o nome e experimentando a sonoridade dele em minha boca e gostando muito do que senti. Tatsuha… vamos nos encontrar novamente, sinto isto, então pode esperar.
