Capítulo V
Uesugi? Não, seria muito fácil. Livros? Não, muito idiota. Bad Luck? Improvável. E a cada minuto que passava a minha vontade de jogar o laptop pela janela aumentava. Confusos? Bem, para encurtar a história, depois daquele fiasco na NG e o fato de que parece que Sakuma-sama sabe o meu segredo eu resolvi cair de cabeça em uma investigação do que ficar remoendo as palavras de Ryuichi. Então, para a minha grande sorte, Shuichi conseguiu arrastar um Eiri contrariado para fora de casa para algum tipo de evento beneficente que o Bad Luck estava participando e com isto eu me apossei do computador do meu irmão a procura de pistas sobre o meu poltergeist.
O problema? A porcaria tinha uma senha de acesso que eu não conseguia decifrar.
Suspirei, recostando na cadeira reclinável e cruzando os braços sobre o peito. Corri meus olhos pelo escritório de Eiri, notando pela primeira vez como o lugar tinha uma decoração absurdamente minimalista. Havia uma estante com livros e a mesa onde estava o laptop e mais nada. Com certeza esta era uma área da casa que estava bem longe do alcance das mãos de Shuichi, visto que o resto do apartamento tinha alguma coisa ou outra na decoração que lembrava o cantor.
Depois desta breve avaliação que não me trouxe nenhuma inspiração, voltei o meu olhar para o laptop e arqueei as sobrancelhas ao perceber um detalhe que tinha me escapado mais cedo. No canto superior esquerdo da tela havia um adesivo, mas o mais curioso que não era um adesivo qualquer, mas sim uma foto 3x4, daquelas que você tira em máquinas de parque de diversões e sai distribuindo para as pessoas ou colando por aí. Conhecia bem o tipo, tenho várias ex-namoradas que praticamente me arrastavam para esta maldita máquina para ter uma lembrança do nosso encontro ou uma prova de que saíram com o cobiçado Tatsuha Uesugi.
Não, eu não estou sendo prepotente, eu conhecia bem os rumores sobre mim que rolavam na escola. O fantasma de uma estudante que tinha morrido em um acidente e acabara vagando pelo colégio porque tinha um recado a passar a melhor amiga que vivia chorando pelos cantos em luto havia me contado este babado quando me viu e percebeu que eu era um mediador. Segundo ela, agora entendia de onde vinha a minha fama de desregulado e encrenqueiro, visto que lidar com fantasmas a toda hora com certeza causaria problemas a minha vida pessoal e social, mas que, ao mesmo tempo, as meninas da escola adoravam a minha fama. Aparentemente a regra era real: garotas gostavam de um "menino malvado". Coisa que eu não sou, mas quem se importa? Me ajuda a pegar mulher.
Mas voltando a foto, ela era do Shuichi com Eiri que, choquem-se, parecia estar esboçando um quase sorriso para a câmera. E mais chocante ainda, permitiu que tal adereço espalhafatoso adornasse seu sagrado laptop. Continuei encarando a foto surpreso ao perceber que por um lado meu irmão ainda tinha um coração escondido sob mil camadas de sarcasmo e desprezo e ao mesmo tempo uma idéia doida surgiu na minha mente.
- Não, não pode ser. – murmurei para o escritório vazio. Era absurdo demais, mas ao mesmo tempo extremamente lógico. Com isto, me inclinei na direção do laptop e vagarosamente teclei as letras: S, H, U, I, C, H, I e apertei o enter. Arregalei os olhos surpreso ao ver o computador carregar e ícones brotarem na tela e tudo mais. Alarguei um sorriso maldoso, mas logo lembrei que não poderia usar isto para zuar o meu irmão, pois no momento que as palavras saíssem da minha boca ele saberia que usei o laptop dele e me mataria.
Logo o programa carregou e eu me vi rolando o mouse pela tela e navegando entre pastas e mais pastas a procura de uma pista, qualquer pista. Não fiquei surpreso ao ver que o computador de Eiri tinha vários jogos de nível mediano, apenas para entreter. Sabia que ele não passava horas dentro deste escritório apenas escrevendo livros. Havia também uma pasta apenas com os arquivos referentes aos livros dele que eu passei batido. Sinceramente, meu irmão poderia ser considerado cheio de talento para os outros, mas para mim ele era apenas mais um escritor comercial.
Sério mesmo, as histórias dele não tinham nada muito interessante além da baboseira sentimentalóide de sempre. Não sei se ele fazia isto de propósito para poder vender mais ou se este era realmente o estilo dele. Se for, não merecia toda a fama que tinha.
Mas voltando, tecnicamente o computador não tinha nada de interessante para me apresentar. Nenhum nome, nenhuma imagem, nada. Inspirei profundamente, pedindo a mim mesmo paciência diante do tempo perdido e abri o último programa que faltava: o e-mail. Havia e-mails da editora de Eiri, alguns spams, e-mails de fãs, outros da Mika e um… de um médico. Curioso. Abri o e-mail, o lendo brevemente e vendo que era uma médica e que a mesma estava remarcando uma consulta de terapia. Eu sabia que meu irmão fazia terapia, mas não sabia por quê. Apenas sabia que era o resultado do que quer que tenha acontecido a Eiri em Nova Iorque que o deixou da maneira que ele é hoje.
Lembro muito bem do dia em que meu irmão voltou, o extremo oposto do garoto alegre e carinhoso que ele era. Lembro da expressão de fúria da minha mãe quando ela viu o estado de destruição que um dos bebês dela estava. Lembro que ela desapareceu por duas semanas sem me explicar nada e até hoje não me disse nada, apenas sempre me pedia paciência com Eiri, pois ele estava passando por momentos difíceis. O problema era que o infeliz estava com problemas difíceis nos últimos sete anos e eu estava perdendo a paciência.
Depois todos da minha família queriam que eu explicasse porque eu agia do jeito que agia. Para quê, se eles não tinham igual consideração por mim?! Por acaso alguém até hoje me disse qual era o problema do escritor mal humorado? Não! Então por que eu tinha que sair contanto por aí que os meus problemas estavam relacionados a fantasmas e que os ferimentos que às vezes apareciam sem explicação no meu corpo não eram causados por uma briga de rua com outros moleques, mas sim por poltergeist's? Então não vamos ser hipócritas, não é mesmo?
- Acha mesmo que vai encontrar algo aí? – uma voz sussurrou ao pé do meu ouvido e eu tive que reagir da maneira que reagiria quando sou pego fazendo algo que não deveria.
- Puta que pariu! – gritei, dando um pulo na cadeira e rapidamente recebendo um doloroso tapa de repreensão na nuca.
- Olha o linguajar! – girei a cadeira para ver a minha mãe parada me encarando com uma expressão desgostosa por causa do palavrão. Tecnicamente eu tinha acabado de chamá-la de puta. Fico surpreso por ela não ter arrancado a minha língua fora.
- Eu não sei… Daria para você arrastar algumas correntes como um fantasma normal? – retruquei azedo e parece que a piada de mau gosto não melhorou o humor dela.
- O que eu lhe falei sobre bisbilhotar coisas alheias…
- Que eu não precisaria fazer isto se você ao menos me contasse alguma coisa. – explodi. Já estava farto de pisar em ovos quando o assunto era lidar com a minha mãe. A mulher poderia estar morta, mas ainda era a minha mãe e tal fato incutia um respeito natural da minha parte a sua pessoa. Eu poderia não nutrir o mesmo respeito por meu pai e irmãos, mas mãe é mãe, algo para ser temido e adorado. Mas no momento eu estava era muito irritado com ela.
Por causa dela tive que me deslocar de Kyoto para Tóquio em um final de semana que eu tinha planejado para ser meu final de semana de folga. Por causa dela arrumei encrenca ao invadir a NG e ainda fui atacado por um poltergeist… duas vezes. E por causa dos segredinhos dela e da minha "adorada" família eu estava neste rolo.
- Tatsuha, bebê… - ah, o tom manso e condescendente. Agora a raiva tinha esvaído do corpo dela e ao sentir que o furioso neste momento era eu tentava me acalmar. Mas desta vez não iria rolar. Eu queria respostas e queria agora!
- Eu quero saber o que está acontecendo Reika, e quero saber agora! Há um poltergeist assombrando Tohma e com uma intenção absurda de fazer meu "adorado" cunhado partir desta para a melhor. E sabe o que é mais engraçado? O fantasminha camarada parece conhecer o Eiri. – a interrompi com acidez gotejando do meu tom de voz. – E algo me diz que isto tudo está relacionado a aquela viagem frustrada a Nova Iorque. – ela pareceu empalidecer ainda mais para alguém que já estava morto e percebi que tinha acertado a tecla certa desta vez. – Me conte tudo – exigi. – não me esconda nada.
Mamãe abriu a boca como se para me responder e por um breve segundo a antecipação apoderou-se do meu corpo, mas então ela fechou a boca novamente e franziu as sobrancelhas em um gesto que indicava claramente que ela tinha repensado no assunto.
- Eu não posso. – declarou em um tom fúnebre e eu senti vontade de quebrar alguma coisa. – Sinto muito Tatsuha. – e com isto ela sumiu, simplesmente desapareceu. E então eu quebrei alguma coisa. Em um acesso de fúria peguei o relógio que ficava ao lado do laptop e o arremessei na parede na minha frente vendo com satisfação ele espatifar-se e cair em vários pedaços no chão.
Voltei aos e-mails, tentando ao mesmo tempo achar alguma pista e clarear a minha mente, mas depois de meia hora e nada acabei fechando a tampa do laptop com mais força que o necessário diante da minha frustração. Joguei a cabeça para trás, mirando o teto branco do escritório e tentando fazer brotar por entre a dor de cabeça que já começava a me atormentar alguma idéia ou teoria de quem era o fantasma e por que ele estava assombrando Seguchi. Não podia simplesmente fazê-lo desencarnar a força sem ter um histórico. Embora poltergeist's fossem irracionais por estarem consumidos pela fúria, às vezes, num total de cinco minutos, eles ouviam a razão e se acalmavam. E eram nestes cinco minutos de paz que eu os pegava pelos cabelos e os mandava com uma passagem só de ida para o outro mundo.
Não dá para exorcizar uma alma quando esta está lançando coisas sobre você ou tentando te matar. Havia um ritual a ser seguido, um túnel a ser aberto e um espírito para ser despachado e quanto mais você soubesse do passado do atual defunto, mais isto o ajudava no trabalho de mediador. Ao menos para mim era assim. Sem contar que saber sobre quem era o fantasma quando vivo me ajudava a prever seus movimentos depois de morto.
O barulho de porta se fechando me tirou de meus devaneios e eu me ergui da cadeira, franzindo as sobrancelhas no que com certeza estava sendo uma expressão confusa. Não fazia nem duas horas que Eiri e Shuichi tinham saído e este tipo de evento o qual eles foram tendiam a demorar. Vozes ecoaram pelo apartamento, fazendo parecer que era mais do que duas pessoas adentrando o local e por um momento eu pensei em ladrões, até que descartei a idéia. O condomínio onde meu irmão morava era extremamente seguro, tinha que ser seguro para afastar os repórteres que sempre ficavam na cola do escritor e o seu namorado cantor, então isso só poderia significar uma coisa…
Calmamente deixei o escritório a caminho da sala e ao chegar lá encontrei uma cena interessante. Mika e Shuichi acabavam de ajudar um Seguchi que parecia branco como a neve a sentar no sofá ao lado de um Eiri que parecia ter engolido a fumaça de seus cigarros ao em vez de expeli-la, pois eu jurava que ele estava meio cinza. Noriko do Nittle Grasper os acompanhava e juro que não fiquei surpreso ao ver Ryuichi fechando a peculiar comitiva junto com K Winchester.
- O que aconteceu? – minha voz pareceu acordar Mika e Shuichi que estavam na frente de Eiri e Tohma com umas expressões preocupadas nos rostos. Minha irmã virou-se para me encarar e ficou me olhando por vários segundos como se decidindo o que dizer ou não. Abriu e fechou a boca várias vezes até que chegou a uma conclusão: a de ficar quieta e voltou-se para o marido, ajoelhando-se o máximo que o seu vestido longo e justo permitiu em frente a Tohma e segurando as mãos dele entre as suas. E agora, avaliando bem, pude perceber que o meu cunhado tremia como bambu ao vento e parecia prestes e hiperventilar.
Shuichi postou-se ao lado de Eiri que também não estava em melhores dias, a cor cinza de seu rosto estava gradualmente dissipando para um pálido doentio. Percebendo que eu não conseguiria nenhuma informação deles, me virei na direção dos únicos que pareciam um pouco mais lúcidos naquela sala. Ou seja, Ryuichi, Noriko e K.
- Poderiam me explicar o que houve? – repeti a pergunta para ninguém em particular e Ryuichi pareceu ser o único a captá-la no ar.
- Houve um incidente na festa. – foi tudo o que ele disse e para mim foi o suficiente. Um incidente envolvendo Tohma e que era capaz de deixá-lo neste estado de nervos só poderia significar uma coisa: o meu adorado e desconhecido fantasma atacou de novo. Literalmente a meu ver. E o pior, em público. Ele estava começando a ficar desleixado.
- Pois para mim aquilo foi uma brincadeira de extremo mau gosto! – Mika elevou a voz que antes estava baixa e sussurrando coisas para Seguchi, com certeza tentando acalmá-lo. Era uma cena bizarra de ser ver, pois geralmente Mika era a histérica diante dos mínimos ou até máximos acontecimentos enquanto Tohma era o poço de calmaria. A mesma coisa acontecia com Shuichi e Eiri. O cantor tentava acalmar meu irmão que parecia tudo, menos indiferente ao mundo ao seu redor e deixava Shindou paparicá-lo sem muitas reclamações.
- Mika… - a voz de Seguchi interrompeu qualquer tirada da minha irmã. Ele falava baixo e em tom trêmulo, com certeza ainda abalado pelo o que quer que tenha acontecido. – ninguém naquela festa teria tamanho conhecimento sobre o assunto ou seria capaz de planejar uma peça daquelas. – disse com a voz quase falhando e meu corpo todo comichava de curiosidade para saber o que tinha acontecido afinal.
- Não me interessa… - Mika voltou a protestar, mas o que quer que ela tenha dito se perdeu em meus ouvidos quando senti o comichão da curiosidade sendo substituído pelo arrepio característico e não pude deixar de arregalar os olhos. Não era possível, ele não seria tão ousado ou cara de pau. Ou simplesmente burro. Mas ele foi, no momento que ouvi Noriko gritar em um tom agudo e ensurdecedor no meu ouvido e Tohma e Eiri pularem para fora do sofá como se tivessem levado um choque, percebi que a coisa era pior do que eu imaginava. Em sincronia todos nós começamos a recuar, nos afastando do sofá enquanto víamos na larga parede atrás do mesmo palavras começarem a se formar como se escritas por uma pessoa invisível.
E o mais aterrorizante, ao menos para os outros, pois eu já estava acostumado com isto, é que estas mesmas palavras pareciam ser escritas com sangue. Se era humano não faço a mínima idéia e não vou perder meu tempo racionalizando de onde fantasmas arrumavam sangue para usar como ferramenta de assombração. Entretanto, não acredito que foi a tinta que deixou meus irmãos e companhia em pânico, mas sim a frase. Escrito em letras garrafais e com o líquido viscoso escorrendo pela parede branca estavam ditas palavras:
Isto ainda não terminou Seguchi. Nos vemos no inferno… Y. Kitazawa
Fantasmas, tão previsíveis com as suas ameaças. Enquanto todos miravam embasbacados a parede eu rodava meu olhar pelo apartamento a procura de um culpado e quando a porta que levava para a sacada abriu-se em um estrondo, permitindo a entrada de uma rajada de vento, divisei o poltergeist sentado no beiral da varanda e com um sorriso de escárnio no rosto. Os pêlos do meu corpo eriçaram, mas desta vez de raiva. Esse segredo de família sobre o que aconteceu no passado com Eiri para torná-lo o bastardo frígido que era hoje sempre foi uma ferida aberta para mim. Quando criança meu irmão era o meu herói e depois do que aconteceu eu sempre senti raiva do fato que todos se recusavam a me contar o que tinha ocorrido. E agora, aparentemente, todas as minhas respostas estavam neste poltergeist.
Irritado, fechei as minhas mãos em um punho firme e enquanto todos ainda miravam a parede voltei-me para a varanda, caminhando a passos largos e pronto para desferir um soco bem dado no rosto do fantasma e arrancar aquele sorriso na marra. Entretanto, mal cruzei o beiral da porta da sacada e o infeliz desapareceu, a sombra do seu sorriso ainda pairando no ar e aumentando ainda mais a minha raiva. Soltei um grunhido e apertei mais os punhos, girando sobre os pés e agora indo decidido na direção de um certo alguém. Tohma nem teve tempo de pensar quando eu o segurei pelo colarinho de sua camisa cara e praticamente o arremessei sobre o sofá, me lançando sobre ele logo em seguida.
Ele ficou mais pálido do que estava, os olhos largos refletindo um certo temor direcionado a minha pessoa. Dei um sorriso maldoso. Era bom ele estar com medo, porque eu estou desde cedo querendo descontar as minhas frustrações em alguém. Não sei explicar porque este fantasma estava me irritando mais que o normal, me afetando mais que o normal. Talvez porque ele soubesse de segredos que a minha família se recusava a me contar e me irritava que um morto soubesse mais de pessoas que dividiam os meus genes do que eu. Talvez fosse porque ele estivesse ameaçando a minha família. Posso não me entender na maioria das vezes com o meu pai e irmãos, mas não sou insensível a ponto de deixar um bastardo qualquer mexer com eles e sair impune.
Talvez seja por minha própria mãe, aquela com quem sempre compartilhei tudo por me compreender melhor do que ninguém, também estar me contando mentiras. Ou talvez seja porque o filho da mãe tentou me matar duas vezes no outro dia sem motivo aparente. Com força segurei novamente no colarinho de Tohma, trazendo o rosto dele para mais perto do meu. Agora os gritos que ouvia ao meu redor eram de uma Mika exigindo que eu soltasse o marido dela e senti alguém segurar com força o meu braço e me puxar, tentando me deslocar de cima do Seguchi. No entanto, o desafortunado que tentou isto não sabia que eu era mais forte que o normal e por isso não teve muito sucesso.
- Quem é Kitazawa? – sabe aqueles momentos em que você desiste de seguir o caminho mais longo para a sabedoria e resolve pegar um atalho? Este era um desses momentos. Normalmente eu me dava ao trabalho de investigar a fundo o passado de um fantasma quando estranhos estavam envolvidos, não caía bem tentar arrancar uma informação de alguém com os punhos, o processo judicial poderia ser muito mais penoso. Mas esta era a minha família, eu conhecia muito bem cada um para saber que se existia algum podre nesta história ele foi lavado habilmente pelas artimanhas de Seguchi e não haveria investigação amadora que conseguisse descobrir alguma coisa.
Logo, o melhor era partir para a ignorância. Eu sempre fui da opinião que Tohma era pomposo deste jeito a ponto de levar alguém à beira de um ataque de nervos não porque ele nunca encontrou um oponente intelectualmente a altura de suas tramóias, mas sim porque ninguém até hoje teve coragem de descer o cacete nele. Mas eu não era qualquer um e tinha motivos de sobra para querer bater no meu "amado" cunhado.
- Tatsuha! – Mika praticamente guinchou no meu ouvido e eu poderia ficar surdo se já não estivesse acostumado a gritos mais agudos e atordoantes vindos da nossa mãe.
- Responda! – ordenei, o sacudindo como uma boneca de pano. – Você sabe tão bem quanto eu que isto não vai parar até ele conseguir o que quer. Acha mesmo que aquele vidro explodiu por força da natureza? O que aconteceria se eu não estivesse lá para te salvar, Seguchi? – resolvi jogar verde na tentativa de colher maduro. As coisas estavam começando a sair do controle. O fantasma não pararia até matar Tohma e mesmo que eu não fosse com a cara o loiro, ainda era um profissional. Em todos os meus anos de mediador jamais perdi um ser vivo para a fúria espiritual de um morto e não começaria agora com isto.
Tohma pareceu compreender as implicações das minhas palavras, pois juro que ele ficou verde de pavor. Era cômico e patético ver o poderoso presidente da NG Record ser resumido a uma garotinha assustada por causa de atentados misteriosos. Contudo, acho que o fato do autor ter se revelado foi o que mais o chocou do que os ataques em si. Surpreso, recuei aos tropeços, soltando Seguchi abruptamente quando esta linha de raciocínio cruzou a minha mente. Mirei meus olhos nos escritos da parede, ignorando uma Mika que me empurrou para o lado para ter acesso ao seu marido agredido e as coisas começaram a se somar na minha cabeça.
Nos vemos no inferno… Nos vemos no inferno… A ameaça era pessoal demais e o ódio por detrás dela extremamente elevado. Eu sei que Tohma não mede esforços para conseguir o que quer, mas será que ele seria capaz de tanto? Lembro do ódio e desprezo contido nos olhos dele cada vez que falava sobre Shuichi, acha que eu não sei que o Nittle Grasper voltou apenas para competir com a emergente Bad Luck? Ele nunca aprovou o relacionamento entre Eiri e Shindou. Aliás, ele sempre foi super protetor do Eiri. Desde Nova Iorque, na verdade ficou mais intenso depois de Nova Iorque. Quantas vezes tive que me segurar para não jogar na cara do loiro que ele tinha casado com o irmão Uesugi errado?
Mirei Eiri ainda apático e ofegante ao meu lado, encarando com os olhos desfocados o recado na parede, como se tivesse revivendo um pesadelo neste exato instante. E como dois mais dois são quatro… eu liguei os pontos. O fantasma havia me confundido com Eiri e me olhado com afeição naquele encontro na NG, odiava Tohma imensamente e parecia querer dar a ele o mesmo destino que teve. Tohma era protetor do Eiri, mas protetor a ponto de…? Essa família é mais louca do que posso imaginar.
- Quem é Kitazawa, Tohma! – ordenei e isto pareceu fazer Eiri acordar de seu transe, pois em um pulo ele virou-se para me encarar com olhos largos, a máscara de indiferença havia se partido e agora ele apresentava uma fragilidade que era apenas sinal de que boa coisa esse Kitazawa não fez. E se eles não começassem a cantar a verdade para mim feito passarinho em manhã de verão eu daria meia volta e retornaria para Kyoto e eles que resolvessem o problema com o falecido. Sei que teria que enfrentar a ira da minha mãe por abandonar um caso, abandonar a família, mas eu já estava farto de toda esta frescura.
Tohma abriu a boca, como se para me responder e eu o encarei firmemente, o incitando a falar e a não mudar de idéia, pois seria mais saudável para ele. Mas foi Eiri que me surpreendeu ao esclarecer as minhas dúvidas.
- Ele foi o homem que eu matei… em Nova Iorque. – puta que pariu! Juro que depois dessa eu me aposento de vez ou não me chamo Tatsuha.
