Interlúdio II

Eiri

Era como se tudo estivesse rodando em frente aos meus olhos como em um filme. Todas as lembranças do passado me arrebataram em uma porrada só no segundo que vi a mensagem surgir na parede do salão da casa de eventos. As pessoas obviamente ficaram chocadas diante de tal acontecimento. Uma mensagem estava sendo escrita na parede impecavelmente branca com o que parecia ser sangue e, o pior, não havia ninguém visível fazendo isto. As letras pareciam estar brotando do ar. Convidados soltaram resmungos de desagrado quando leram a frase, muitos desaprovando a brincadeira de mau gosto e não compreendendo seu significado, mas Tohma e eu sabíamos muito bem o que estava por detrás daquela ameaça.

Antes que eu pudesse processar qualquer coisa estava sendo guiado por Shuichi para fora da festa, sendo seguido por Mika que fazia o mesmo com o marido e por Sakuma e Noriko, fiéis escudeiros de Tohma. K comandava o nosso esquema de segurança e abria espaço por entre os repórteres que se apinhavam na entrada da casa de festas, nos levando para a limusine que já nos esperava. O trajeto até o meu apartamento que ficava a poucas quadras foi feito em silêncio e também não registrei quando fui retirando do carro com a ajuda do Shuichi e levado para casa, sendo depositado no sofá.

Vozes pareceram flutuar ao meu redor, consegui reconhecer a voz irritante de Tatsuha perguntando o que houve e o instinto de dispensá-lo como sempre fazia, o impedir de se meter nos problemas alheios, tomou conta do meu ser, mas não tive forças para fazê-lo. As pessoas quando nos vêem devem achar que eu sou insensível, mas não é bem assim. Não em certos aspectos. E Tatsuha era um deles. Durante os anos cada vez que o vi crescer e ficar mais e mais parecido comigo eu me apavorei. A semelhança física já estava lá, a personalidade adolescente em desenvolvimento estava começando a ficar parecida com a minha. As mesmas tiradas ácidas, o mesmo sarcasmo, a mesma indiferença em relação a alguns assuntos e com isto eu fiquei desesperado. Era como ver o passado se repetir diante dos meus olhos.

Embora foi o menino alegre e brincalhão, sempre sorridente correndo atrás de mim e da Mika pedindo por atenção. No lugar entrou um adolescente rebelde e arredio e eu por várias vezes fiquei noites e mais noites sem dormir me perguntando se tal mudança era apenas um processo normal do amadurecimento ou se tinha algo mais nesta história. E só de pensar que este algo mais poderia ser o mesmo motivo que me tornou a pessoa fechada que sou hoje me desesperou. Todas as vezes que rejeitei abrigá-lo em minha casa em um final de semana em Tóquio não foi por má vontade, mas sim porque achei que ele estaria mais seguro, fora de perigos e ameaças ficando na histórica e pacata Kyoto em vez da agitada capital japonesa.

E preciso lembrar que quase enfartei e ganhei cabelos brancos precocemente na noite em que recebi um telefonema dizendo que meu irmão de dezesseis anos estava em uma delegacia de polícia? Não preciso, não é mesmo? Embora por fora a minha máscara demonstrasse frieza e desprezo quando fui pagar a fiança dele, por dentro eu estava me corroendo para saber o que tinha acontecido. Mas ele nunca me contou. Na verdade, faz anos, desde que voltei de Nova Iorque, que Tatsuha anda se afastando de mim. Certo que fui eu que comecei o processo de colocar uma muralha entre o mundo e eu, mas Tatsuha sempre insistiu em tentar quebrá-la, ou ao menos escalá-la para poder me alcançar. Até que um dia ele parou de fazer isto. Foi quando as histórias começaram.

Depois que me mudei para Tóquio as minhas visitas a Kyoto ficaram ainda mais escassas. Voltar para casa apenas para ou receber o olhar piedoso do meu pai ou os sermões dele sobre responsabilidades começaram a me cansar. Mas um dia, durante um desses sermões, não pude deixar de memorizar a frase que ele soltou:

"E o pior de tudo é que Tatsuha está ficando igualzinho a você!"

Igualzinho a mim foi o que ele disse. Na hora não compreendi e então resolvi investigar e o que descobri foi chocante. Fichas na policia por arrombamento e invasão. Arruaça, faltas na escola, notas baixas, desaparecimentos por dias, machucados no corpo por causa de brigas e segredos. Muitos segredos. Senti meu corpo tremer com esta lembrança, fundindo-se a outras do passado, pois podia visualizar Tatsuha na minha posição e pensar que, talvez, a mudança brusca nas atitudes dele fosse pelas mesmas razões que as minhas fez o meu coração dar um pulo, apenas para parar de vez quando senti um frio descer a minha espinha e um sopro gelado contra a minha nuca.

Tohma pareceu sentir a mesma coisa, pois em um pulo estávamos fora do sofá e aos tropeços nos afastando dele apenas para ver, com horror, a mesma frase que surgiu na festa brotar com sangue na parede da minha casa. Isto era um pesadelo, só poderia ser um pesadelo e eu sentia que estava prestes a ter um colapso. Meu coração deu mais um pulo quando a porta da varanda se abriu com um estrondo, com o vento frio entrando por ela, mas ignorei isto, ainda mirando a frase que terminava de se formar. Shuichi tocou a minha mão, tão apavorado quando eu e ao mesmo tempo em que oferecia conforto, pedia por algum. Mas que conforto eu poderia dar? Eu era um ser humano defeituoso que se perguntava dia após dia como alguém tão luminoso como Shuichi decidiu entrar na minha vida e insistir em ficar nela.

Senti o corpo diminuto dele pular ao meu lado em um gesto surpreso e fiquei sem compreender por alguns segundos até que registrei a figura de Tohma ser arremessada contra o sofá e Tatsuha simplesmente voar em cima dele como um perigoso felino dando o bote.

- Quem é Kitazawa? – ele praticamente rosnou e eu senti todo o meu corpo retesar por causa de um medo instintivo. O modo como ele fez a pergunta em um tom que indicava que se não obtivesse resposta cabeças iriam rolar me fez indagar sobre quem era aquele jovem que pareceu crescer de maneira assustadora e ameaçadora sobre Seguchi.

Mika gritou pelo nome dele, tentando trazê-lo a razão e K fez um esforço falho de tirar o adolescente de cima do Tohma. Aparentemente Tatsuha era mais forte do que eu podia imaginar.

- Responda! – o tom de ordem fez alguém inspirar ruidosamente ao meu lado e virei a cabeça para presenciar Sakuma-san mirar Tatsuha com os olhos escurecidos com algo que parecia ser luxúria. Meu sangue ferveu ao ver o modo como o cantor mirava o meu irmão e a minha vontade era a de arrancar os olhos fora do rosto bonito dele. Tatsuha era uma criança, poderia não ser tão inocente assim, mas ainda era muito jovem para o homem. Na verdade eu abri a boca para cortar o barato dele, mas me calei ao ouvir o que veio a seguir. – Você sabe tão bem quanto eu que isto não vai parar até ele conseguir o que quer. Acha mesmo que aquele vidro explodiu por força da natureza? O que aconteceria se eu não estivesse lá para te salvar, Seguchi?

Do que ele estava falando? Claro que partes da conversa eu compreendi. Shuichi me contara sobre o incidente na NG onde Tohma foi atacado por pedaços de vidro da janela que explodiu e que se Tatsuha não estivesse lá e pensado rápido que o loiro poderia estar morto agora. Morto…

Nos vemos no inferno… Era o que a mensagem dizia e mais uma vez naquela noite o meu coração parou. Não poderia ser, era impossível. Ele estava morto, eu sabia disso, eu estava lá quando isto aconteceu. Era praticamente inconcebível saber que o fantasma dele voltou para nos atormentar, era impossível. Eu poderia ser filho de um monge, mas isto não queria dizer que eu acreditava nestas baboseiras espirituais. No entanto, a prova na minha frente era incontestável, a mensagem havia surgido do além na minha própria casa então isto era mais do que suficiente para me fazer crer que talvez e somente talvez meu pai estivesse certo sobre o outro mundo.

- Quem é Kitazawa, Tohma! – a voz firme e irritada de Tatsuha me trouxe de volta do pesadelo que estava se formando na minha mente e eu olhei para o lado apenas para atestar que ele estava parado perto de mim, já tendo soltado um Tohma que parecia indeciso sobre o que dizer. Não contar a Tatsuha o que tinha acontecido comigo, por incrível que pareça, havia sido minha decisão. Na época ele só tinha dez anos, ainda era o mesmo garoto amoroso que eu tinha deixado para trás e eu não queria que ele perdesse aquele brilho afetuoso no olhar e ganhasse o mesmo brilho de culpa e piedade que Mika, Tohma e meu pai tinham nos olhos. Porém, agora, o vendo irradiar fúria, algo me fez perceber que ele precisava saber, que ele tinha que saber, que era de extrema importância que isto acontecesse. Então, antes que Seguchi resolvesse abrir a boca eu soltei o verbo.

- Ele foi o homem que eu matei… em Nova Iorque. – esperei uma reação de desprezo por parte dele. Sei que quando criança Tatsuha olhava para mim como se eu fosse um herói, então como ele reagiria se descobrisse que sou o vilão? No entanto, apenas me vi mirado por intensos olhos castanhos e uma única palavra saiu da boca dele:

- Por quê? – e esta seria a parte difícil, a parte que eu não conseguia falar e nem me lembrar, a parte que me dava pesadelos, que causava crises de úlcera em mim e pela qual Tohma há anos bancava a minha terapia.

- Porque ele me traiu. – foi tudo o que consegui dizer em um ofego, tendo vários olhares sobre mim. Os olhos culpados e piedosos de Mika e Tohma, o preocupado de Shuichi e os compreensivos de Ryuichi, Noriko e K. Eles sabiam da história, estavam lá na época que isto aconteceu. Afinal, a arma que eu usei para assassinar o meu pesadelo vivo foi furtada de um certo empresário americano.

- Não é o bastante. – Tatsuha me cortou, seu olhar reprovador indicando que ele não estava acreditando na minha simples explicação. Eu não queria entrar em detalhes, eu não podia entrar em detalhes. Sete anos se passaram e eu ainda não conseguia aceitar que aquilo aconteceu comigo. Eu sou um homem que se isolou do mundo por causa de um trauma e criou um mundo de negação para si próprio. – Há mais nisto. Muito mais. – com isto ele percorreu os olhos pelas pessoas que nos rodeavam e a sua expressão pareceu escurecer ainda mais de raiva. – E aparentemente eu sou o único mantido fora do segredo. – entre a raiva havia um tom de mágoa em sua voz e eu me senti culpado.

- Pois bem então… - num suspiro ele fechou as expressões em uma máscara de indiferença e isto me assustou, pois era uma cópia exata da minha. – Se é assim que vai ser, assim será. Boa sorte com o amigo de vocês. – falou, apontando para a mensagem manchando a parede. – Eu lavo as minhas mãos. – e caminhou até o canto da sala onde a sua mochila estava largada. O sofá estava sendo a cama do Tatsuha neste final de semana. Era cruel eu sei, o móvel não era bom para dormir e eu tinha um quarto de hóspedes, mas este era geralmente ocupado por Shuichi com o qual eu não conseguia dividir a cama por problemas de confiança em terceiros, segundo a minha terapeuta.

- Aonde você vai? – Tohma pareceu sair de seu estupor por ter sido atacado por Tatsuha e recuperado parte de seu controle.

- Kyoto. – foi tudo o que o meu irmão respondeu e eu senti um peso na boca do estômago. Algo me dizia que estávamos condenados se Tatsuha voltasse para Kyoto e nos deixasse para resolver este problema sozinhos.

- Você não pode. – surpreendentemente a voz de Ryuichi soou clara na sala, sem aquele tom infantil que ele costumava usar e que me irritava tanto. Tatsuha parou, virando-se para mirá-lo e a sua expressão feroz não amainou nem um segundo mesmo diante de seu grande ídolo. Pelo contrário, ele pareceu ainda mais irritado por estar recebendo uma ordem de um suposto desconhecido. – Eles precisam de você. – a troca de olhares entre os dois me fez ter a sensação de que eu estava presenciando algo importante, mas não consegui decifrar o que era.

- Não é o que parece. – meu irmão respondeu vagarosamente e Ryuichi deu um passo à frente, mas subitamente parou quando percebeu os ombros de Tatsuha retesarem em uma postura defensiva.

- Você sabe o que está acontecendo, não sabe? – não era propriamente uma pergunta, era uma afirmação e os olhos castanhos de Tatsuha escureceram de maneira surpreendente diante disto. O olhei surpreso, todos nós o olhamos e com isto eu voltei a minha atenção da frase na parede para o meu irmão e a improbabilidade aumentou. Assim como era absurdo um fantasma estar nos assombrando, também era absurdo Tatsuha ter conhecimento disto.

- O corredor destruído da NG – Ryuichi deu um passo à frente e para mim pareceu que ele estava arriscando-se imensamente com este simples gesto. Tatsuha parecia pronto para uma briga se o cantor ousasse tocar nele. – A sala destruída do Tohma. O holofote… - o homem ofegou, apertando aquele coelho rosa idiota contra o peito. – O holofote… - repetiu bestamente. – Foi você. – assim como os outros que testemunhavam este estranho diálogo e eu, Tatsuha pareceu não entender onde o homem queria chegar. – O holofote que caiu. Naquela hora parecia que algo estava me alertando para olhar para trás, olhar para o Tohma…

Desta vez foi o meu irmão que ofegou e recuou um passo, os olhos ficando largos e sem entender. Entretanto, antes que Ryuichi pudesse concluir qualquer doideira que estivesse falando, Tatsuha o cortou.

- Ainda sim não faz diferença! – disse bruscamente, percorrendo o olhar de Mika a Tohma e finalmente os repousando sobre mim. Era um olhar acusador, um olhar que dizia que o que estava acontecendo era minha culpa e que a não ser que eu começasse a ser mais sincero com ele, ele nos deixaria para resolver este problema sozinho. Seja qual for este problema, porque até o momento eu mesmo não conseguia assimilar ou compreender o que estava acontecendo. Se tudo o que ocorreu nos últimos dias for alguma indicação e se a mensagem na parede fosse uma prova, isso queria dizer que Kitazawa voltou do além túmulo para nos assombrar. E o pior, estava tentando dar a Tohma o mesmo destino que ele teve.

Arregalei os olhos. Isto realmente era minha culpa. Eu o matei e agora minha família estava pagando o preço. Minha nossa, algo embrulhou em meu estômago e uma vontade de vomitar me subiu pela garganta.

- Yuki! – ouvir Shuichi chamar por este nome apenas piorou a minha situação. Adotei o pseudônimo de Yuki como um modo de me auto condenar pelos meus pecados, mas agora parecia que eles resolveram fazer isto por conta própria, visto que Kitazawa retornou para me torturar… literalmente.

- Tatsuha-kun… Ele precisa de você. – em meio ao meu mal estar ainda consegui ouvir Ryuichi dizer isto e depois apontar para mim. Meu estômago doía absurdamente e eu sabia que faltava muito pouco para a minha úlcera estourar de tanto estresse. O olhar escurecido do meu irmão repousou sobre mim e depois de segundos ele soltou um longo e sofrido suspiro, divergindo a atenção para a parede pichada e depois para mim.

- Vocês têm vinte minutos para arrumar as suas coisas. – ordenou e Shuichi o encarou surpreso diante do tom autoritário em sua voz. – Isto inclui você loirinho. – completou, apontando para Tohma.

- Por quê? – Seguchi perguntou desconfiado.

- Vocês vão para Kyoto comigo. Será mais fácil assim para mantê-los vivos. Estou esperando por vocês na garagem. – encerrou, caminhando na direção da porta e trocando um olhar com Ryuichi. Porém eu juro que antes de partir pude ouvi-lo resmungar algo que sei que vai me deixar intrigado por dias:

- Nunca mais dou ouvidos àquela maluca, não importa se ela é a minha mãe!