Capítulo VI

Isto era loucura, com certeza era loucura e confesso que as últimas horas foram as mais corridas e doidas da minha vida. Para esclarecer melhor o meu dilema, depois da confusão na casa de Eiri, depois do ataque do poltergeist que agora tinha um nome: Kitazawa, depois de segredos serem parcialmente revelados para mim, do meu ataque de fúria e da minha quase desistência do caso, resolvi assumir o controle de vez. Certo que na hora, no calor da raiva eu estava disposto a chutar o balde e deixar que a minha família se virasse, mas me conheço bem o suficiente para saber que se algo acontecesse a algum deles eu me sentiria culpado pelo resto da vida. Eu era mole demais para o meu gosto.

Com isto, ordenei que Shuichi, Eiri, Mika e Tohma arrumassem as suas coisas e viessem para Kyoto comigo. Dentro do templo eles estariam seguros, eu poderia espalhar amuletos de proteção para manter o poltergeist longe, ou qualquer coisa do tipo. O importante é que eles estariam por perto e sob as minhas vistas, possibilitando assim que eu agisse rápido caso algo acontecesse. O que eu não poderia prever era que Ryuichi Sakuma viesse à tira colo, dizendo de maneira petulante que não abandonaria o amigo em uma hora difícil como esta. Em um bom dia eu estaria transbordando de êxtase por ter a oportunidade de ter Sakuma-sama sob o meu teto. Acho que quando a adrenalina abaixar isto venha a acontecer, mas este ainda não era o momento.

Eu estava remoendo tudo o que aconteceu nas últimas horas na minha mente, preocupado demais para me importar com quem estava me acompanhando ou não nesta viagem de retorno a Kyoto. Primeiro foi o ataque do fantasma, depois o meu descontrole e o fato de que eu relevei, em partes, um segredo que guardo a sete chaves há onze anos, desde o funeral da minha mãe. Minha família pode saber que eu compreendo o que esteja acontecendo, com certeza devem associar esta minha aceitação de que eles estão sendo acometidos por um fenômeno paranormal por causa da minha educação de monge, mas não sabem que sou um mediador. Com certeza nunca devem ter ouvido esta palavra na vida. Não sabem que eu falo, toco, brigo, despacho ou exorcizo fantasmas. Acho que eles não estão preparados para tamanha revelação, visto que ainda não aceitaram completamente o que está acontecendo com eles.

Agora a outra parte que está me incomodando refere-se ao próprio Sakuma e a revelação dele durante o diálogo que tivemos no apartamento do meu irmão enquanto ele me convencia a ajudá-los. Ele me sentiu, me ouviu, naquele dia do acidente do refletor durante o programa de TV. Como ele fez isto acho que nem mesmo o próprio saberia explicar. Como eu consegui projetar meus pensamentos para ele, nem eu sei explicar. Mas eu sei que não foi coisa minha, não tenho poder para isto. Meus dons se limitam a sensibilidade espiritual, convocar e despachar fantasmas e força acima do normal. Telepatia está fora da lista, eu sei disso porque se eu fosse telepata já teria feito miséria com este poder e me pouparia muito trabalho já que seria mais fácil ler a mente alheia do que ficar perdendo tempo valioso com investigações e coisa e tal.

Então voltando ao problema de que a minha vida era uma loucura. Eu retornei a Kyoto trazendo mais "malas" do que levei, tentei explicar ao meu pai e fracassei o porquê de a filha e o cunhado estarem pedindo abrigo em nossa casa, o porquê do filho e seu amante indesejado quererem a mesma coisa e o pior de tudo, o porquê de uma estrela da música japonesa estar fazendo o mesmo. Agradeço por Noriko não ter vindo junto, ela decidira ficar para trás para assim explicar a imprensa porque o Nittle Grasper teve que tirar umas férias forçadas quando estão prestes a lançar um novo álbum. Tohma hesitou em deixá-la para trás, com medo de que ela fosse atacada, mas eu o acalmei, isto mesmo, pasmem, eu tive que acalmar Tohma Seguchi, eu o acalmei dizendo que ela corria pouco risco visto que quando o Nittle Grasper estava se apresentando naquele programa, somente o Tohma foi o alvo e não os outros, logo eles estavam fora da lista de vingança.

K também ficara para trás para fazer o mesmo com o Bad Luck e ajudar Noriko na empreitada que seria lidar com a mídia diante da confusão que rolaria quando eles soubessem que as duas maiores bandas do país entraram em férias subitamente. Com certeza a fofoca iria rolar solta no mundo do entretenimento. Eiri não teria problema com o trabalho visto que ele só precisa do laptop e uma conexão de internet e eu com certeza me ferraria mais na escola porque agora teria que bancar babá de marmanjo ao mesmo tempo que tentava arrumar um jeito de invocar o espírito de Kitazawa para assim desencarná-lo de vez.

- Você fez bem. – e para piorar, minha mãe pareceu ter virado presença constante na casa desde que toda a família voltou a se reunir sob o mesmo teto.

- Você acha? Meu ouvido ainda está zumbindo com os gritos do papai. – óbvio que meu pai não ficou feliz com as minhas desculpas e nunca agradeci tanto a Tohma por ser um bastardo manipulador. Enquanto eu tropeçava nas palavras para poder explicar porque na casa do homem havia duas personas non gratas (leia-se Shuichi e Ryuichi), Seguchi assumiu as rédeas da situação e bolou uma história de pronto para justificar a presença dos dois cantores. Claro que meu pai engoliu, ele tinha uma adoração por Tohma, o amado cunhado extremamente educado e muito bem sucedido com quem Mika teve a sorte de se casar. Logo arrumações foram feitas com Eiri e Shuichi dividindo o velho quarto de Eiri (para desgosto do meu pai), Tohma e Mika dividindo o antigo quarto de Mika e Ryuichi ficando com o quarto de hóspedes. Depois disto cada um foi para o seu canto e eu me isolei no meu quarto para uma noite que prometia ser insone.

- Por que você não me contou? – ergui a cabeça que antes estava apoiada em minhas mãos e mirei a minha mãe sentada na escrivaninha.

- Eu… - ela inspirou profundamente para tomar coragem. – não pude. – arqueei uma sobrancelha sem entender. – E ainda não posso. O que Kitazawa fez a Eiri… - uma nuvem negra pareceu pairar sobre a cabeça dela ao mencionar o nome do fantasma. – foi o suficiente para me fazer quebrar certas regras de conduta de guias espirituais. Logo eu fui proibida de falar sobre o assunto para qualquer um, inclusive para você. Então não me pergunte mais nada. – novamente aquela sensação ruim de que havia alguém mais poderoso e desconhecido a mim, a todos nós, assolou meu corpo. Para minha mãe ser proibida de tocar no assunto isto queria dizer que realmente havia algum ser por detrás de toda esta parafernália espiritual. Um chefe, e realmente isto era assustador. Minha mãe nunca me contou para onde vai quando não está me assombrando. Será que ela é guia de outros mediadores, fica vagando em cemitérios à noite ou simplesmente desaparece para este lugar de onde ela recebe as ordens? Parece que todos os mistérios sobre o além morte eu só vou descobrir mesmo quando morrer.

- Uma coisa eu ainda não entendi… - resolvi mudar de assunto, ficar insistindo em saber a verdade da minha mãe era o mesmo que tentar tirar leite de pedra, um trabalho inútil e desgastante. – se ele foi morto em Nova Iorque… o que faz aqui no Japão? – estiquei um pouco a coluna, sentando mais ereto sobre a cama e desfazendo a minha posição derrotada de antes. – Quero dizer, não está muito longe do raio de abrangência dele? – perguntei genuinamente confuso. Até hoje eu nunca encontrei um fantasma que não tivesse vivido e morrido no Japão e embora o defunto da vez tivesse nome oriental, creio que ele não punha os pés nesta terra há anos antes de morrer. Sem contar que ele levou sete anos para se manifestar, geralmente eles faziam isto logo após a morte.

- Poltergeists sempre assombram o motivo de sua condenação ao mundo terreno. Acredito que este demorou mais para se manifestar porque ele tecnicamente estava preso ao plano de Nova Iorque e esperou seus poderes aumentarem para assim conseguir se deslocar para o Japão… onde sua motivação está. – okay, a explicação fazia sentido, mas a outra parte não.

- Por que Tohma? – minha mãe fez uma expressão confusa. – Eiri o matou, mas o infeliz está assombrando o Tohma. Por quê? – a expressão dela continuou confusa.

- Não sei. – disse em tom sincero e eu soltei um suspiro de exasperação. Maravilha, agora eu tinha que descobrir o motivo da raiva do sujeito por Tohma visto que, tecnicamente, o assassino dele era Eiri. Um arrepio desceu pela minha espinha. Assassino… eu sei que meu irmão é um bastardo frigido, mas não seria capaz de machucar uma mosca, ainda mais naquela época em que ele ainda era um coração mole. Então o que pode tê-lo levado a explodir desta maneira a ponto de matar alguém? Ele disse que o sujeito o tinha traído, mas como isto aconteceu? O que ele fez para traumatizar tanto o meu irmão?

Olhei para a minha mãe. Ela tinha as respostas, mas jamais me diria nada. Deixei meu corpo cair de costas sobre a cama, me fazendo mirar o teto com um olhar contemplativo. Tohma de um modo ou de outro tinha alguma parcela de culpa pela morte do sujeito, mesmo que tenha sido Eiri a executar a ação e eu precisava saber o que foi que o loiro fez.

- Você tem visita. – minha mãe falou e no momento que eu me sentei para encará-la batidas soaram na minha porta. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a mesma se abriu, revelando a expressão séria de Ryuichi Sakuma através da fresta oferecida.

- Tatsuha? Posso falar com você? – era estranho ver Sakuma-sama falar em um tom normal, adulto. Estava mais acostumado a ver o jeito infantil dele nos programas de TV e em entrevistas ou o jeito sexy e ousado nos vídeo clipes e shows. Vê-lo como uma criatura normal era muito bizarro, era como se ele tivesse descido do seu pedestal de divindade e resolvido virar um mero mortal. Era confuso, muito confuso. Percebi que ele ainda esperava pela minha resposta e eu apenas dei de ombros, o que ele interpretou como um sim e cautelosamente entrou no meu quarto, fechando a porta atrás de si.

Reparei que os olhos azuis percorriam o meu quarto como se avaliando intensamente o local, medindo o valor do mesmo diante da sua presença. Um sorriso surgiu em seu rosto ao ver os pôsteres do Nittle Grasper em uma das paredes, mas rapidamente o sorriso sumiu quando seus olhos recaíram sobre a escrivaninha, exatamente no ponto onde a minha mãe ainda estava sentada e encarando Ryuichi de volta com a mesma intensidade.

- Ele faz jus a fama que tem. – ela disse, soltando risadinhas como uma colegial e eu rolei os olhos. – Ele é fofo e igualzinho as fotos. – me segurei para não respondê-la. Não queria ser tachado de maluco pelo meu ídolo. – Qual o problema dele? – ela continuou quando percebeu, assim como eu, que Sakuma não parava de olhar na direção dela. Sei que atrás de onde minha mãe estava sentada o que havia eram os meus velhos livros de escola misturados com algumas capas de CDs e eu tinha certeza de que não havia nada de interessante neles. Então a não ser que o cérebro de Ryuichi tenha entrado em curto para fazê-lo ficar parado feito uma besta no meio do meu quarto, a única outra explicação era…

Não, não podia ser. Em um pulo me ergui da cama e caminhei na direção da escrivaninha, postando-me ao lado da minha mãe. A atenção de Ryuichi divergiu do ponto onde ela estava para mim e depois retornou para ela. Queria fazer perguntas, mas preferi esperar para ver qual seria a reação dele. Se ele realmente estava vendo a minha mãe… Não, impossível. Se ele fosse um mediador teria pressentido o poltergeist que assombrava Tohma e eu não precisaria entrar na jogada. Se ele fosse um mediador exercendo a profissão óbvio que há essa altura alguma coisa teria saído na mídia sobre o modo estranho de se comportar de Ryuichi Sakuma. Não dá para simplesmente ter um dom deste porte, agir de acordo com ele e não se meter em confusões uma vez ou outra. No entanto, ter o poderoso Tohma Seguchi como melhor amigo para encobrir os seus rastros poderia ajudar também.

Não cogito a hipótese de que este dom seja tardio. O homem tem trinta e dois anos, esse tipo de coisa se manifestava desde a infância e não tinha como bloquear. Acredite, porque eu já tentei. Então qual era a explicação para ele estar olhando tão fixamente para o lugar onde a minha mãe estava empoleirada com uma expressão lívida no rosto?

- Sakuma-san? – chamei por fim, cansado de esperar que ele despertasse de seu transe. Os grandes olhos azuis piscaram e ele me encarou com temor, abrindo e fechando a boca como se decidindo o que dizer ou escolhendo as palavras.

- Tem alguma coisa aqui. – disse por fim em um sussurro, desviando o olhar do local onde minha mãe estava sentada para mim.

- Coisa?! – mamãe guinchou e eu retesei os ombros, pois o grito foi bem perto do meu ouvido. – Mudei de idéia, ele não é mais fofo. Esta me chamando de coisa. Que desrespeito!

- Como assim tem algo aqui? – resolvi ignorá-la no momento, pois tinha assuntos mais importantes a tratar, como o fato de meu ídolo, um famoso astro do rock, ser capaz de sentir a presença da minha mãe no meu quarto.

- Eu não sei explicar. Você pode achar loucura, não sei… mas parece que tem mais alguém aqui… - as reclamações da minha mãe que eu estava ignorando agora pouco cessaram e ela lançou um olhar aturdido para Ryuichi. Em um movimento fluído ela desceu da escrivaninha e deu um passo na direção dele. Sakuma arregalou os olhos e recuou um passo. Um sorriso maroto surgiu no rosto da mamãe e ela deu mais outro passo. Ryuichi prendeu a respiração e retesou todo o corpo quando ela inclinou-se na direção dele e soltou bem ao pé de seu ouvido:

- Bú! – Ryuichi deu um grito estrangulado e recuou aos tropeços, esbarrando na minha cama e caindo sentado sobre o colchão, quicando levemente por causa das molas. – Que gracinha. – mamãe disse entre gargalhadas. – Ele é um sensitivo. – completou e eu fiquei sem entender.

- Um o quê? – tive que fazer a pergunta em voz alta, mesmo que agora fosse o Ryuichi me olhando sem entender.

- Um sensitivo, é o que está entre um ser humano comum e um mediador. Um sensitivo não possui a mesma inabilidade para o sobrenatural como um humano comum, mas não possui a mesma sensibilidade que um mediador. É um meio termo. Por exemplo, Ryuichi pode sentir a minha presença neste quarto, mas não pode me ver e nem identificar o que sou. Creio que ele não praticou este dom durante os anos ou o reprimiu inconscientemente. Um sensitivo bem treinado sabe diferenciar um fantasma de um poltergeist mesmo sem vê-los. Sem contar que ele captou o seu alerta quando Tohma foi atacado pela primeira vez. – não quero nem saber como ela sabia desta história e agora conseguia entender o que Ryuichi quis dizer que fui eu que o avisei do perigo durante aquele programa.

- Você está falando com quem? – voltei a minha atenção ao cantor esparramado na minha cama. Se a minha mãe não estivesse presente eu começaria a salivar. Aquilo era praticamente uma fantasia sexual se realizando perante os meus olhos. Ryuichi Sakuma na minha cama de livre e espontânea vontade era o meu desejo se tornando realidade. Entretanto consegui controlar qualquer rompante dos meus hormônios adolescentes bem a tempo. Tempo o suficiente para registrar a pergunta dele.

- Ah… - abri a boca para explicar, mas mudei de idéia. O que eu diria? Ainda não tinha conhecimento o suficiente para saber o que realmente estava se passando. Mamãe disse que Ryuichi era um sensitivo, ele mesmo havia atestado que havia alguém no meu quarto, mas ele tinha conhecimento do próprio dom? Sabia colocar nome nos bois ou somente era algo que ele estava acostumado a lidar e achava que era normal a qualquer ser humano? Era por isso que ele não ficou me encarando, como os outros, durante toda a viagem de volta a Kyoto como se tentando decifrar o que eu era e porque entendia tanto sobre o mundo dos mortos?

- Quem está aqui? – ele continuou, os olhos agora correndo pelo quarto a procura da pessoa invisível. Deveria ser horrível, ao menos eu acho, sentir a presença de um fantasma e não conseguir vê-lo. Adicionar algo material a sensação. E olha que mamãe não estava colaborando em projetar seu corpo astral daquela maneira clichê que os fantasmas têm. Ou seja, permitir que o Ryuichi veja a sua forma incongruente e translúcida, como geralmente os espíritos são retratados em histórias e filmes. Acho que ela estava sendo piedosa e não querendo assustá-lo mais do que ele parecia assustado.

- Do que você está falando? – resolvi blefar para ver até onde ele ia.

- Eu não estou louco! – falou isto com uma veemência que eu tive a sensação de que esta não foi a primeira vez que Ryuichi pressentiu algo e foi tachado de maluco. Mamãe falou que ele tinha os poderes muito pouco desenvolvidos para alguém da idade dele visto que a pessoa nascia com este dom. E agora, depois desta frase creio que não estou errado em afirmar que quando pequeno Ryuichi foi extremamente repreendido por suas atitudes estranhas referentes a sua sensibilidade e talvez até rotulado de doido o que o fez inconscientemente reprimir suas habilidades para assim ser "normal". E talvez tais habilidades ainda estariam encarceradas no sub-consciente dele se o poltergeist não tivesse aparecido para ferrar com a vida de todo mundo, libertando assim a sensibilidade de Ryuichi para detectar espíritos.

- Isto é tudo uma questão de ponto de vista. Do que exatamente você está falando? – insisti, cruzando os braços sobre o peito e ignorando as risadas matreiras da minha mãe ao meu lado. Ela parecia estar se divertindo em brincar com o sexto sentido aguçado de Ryuichi a ponto de quase fazê-lo mijar nas calças. Às vezes ela era sádica deste jeito, o que explicava a personalidade perversa da Mika. Papai sempre dizia que todos os nossos defeitos foram herdados da nossa mãe e depois ficava se perguntando por que as roupas cerimoniais dele acabavam no lago sagrado do templo. Não tinha como contar a ele que a autora da brincadeira fora a mesma mulher que ele insultou.

- Por favor não pense que sou louco. – o tom implorador quase me fez ter pena dele e pular em cima do homem para abraçá-lo em um gesto de consolo, mas me segurei a tempo. Acho que se eu tocasse o Ryuichi agora não conseguiria mais me controlar e então todo o meu lado perva afloraria de uma maneira que seria capaz de surpreendê-lo ou traumatizá-lo. – Mas desde que o incidente no programa de TV aconteceu – eu estava certo, o aparecimento de Kitazawa abriu o cadeado da caixa onde Sakuma tinha aprisionado os seus poderes. – eu tenho tido essas sensações que não consigo explicar. Tive quando o conheci… - arqueei as sobrancelhas ao ouvir isto.

- Um sensitivo pode sentir os poderes de um mediador. – minha mãe esclareceu ao meu lado.

- E depois no evento beneficente, no apartamento do Yuki e então agora em seu quarto. É como se houvesse alguém aqui conosco e ao mesmo tempo não tem. – ele definiu tudo. A melhor maneira de reconhecer um fantasma era diante da presença dele que causava a sensação de existência e não existência. Era como ver um copo, tocar no copo, sentir a textura do vidro sabendo que ele não estava lá, que era uma ilusão. Era desconfortante. O resultado de algo que estava preso entre dois mundos. Ao menos creio que para o sensitivo que não via os espíritos era assim. Para o mediador havia a vantagem de que podíamos ver os fantasmas e até diferenciá-los. Eles pareciam brilhar como se uma suave camada de luz os rodeasse, os destacando assim dos vivos.

- Há alguém aqui, não há? Você falou com ele… Agora mesmo você… - troquei um olhar com a minha mãe, a perguntando silenciosamente sobre o que fazer.

- Talvez seja melhor contar a verdade. – me segurei para não soltar um "você ficou louca?" para ela. – Ele pode ser de grande ajuda. – voltei meus olhos para o homem sobre a minha cama, a minha fantasia sexual parcialmente realizada. Tecnicamente ele deveria estar nu, cercado de rosas e velas aromáticas, não vestido, com os olhos largos e o rosto pálido, tentando compreender o que acontecia.

- De ajuda? Ele? – não consegui mais fingir que éramos só nós dois no quarto e virei para encará-la. – Em quê? Posso saber?

- Tat-Tatsuha? – uma palavra foi o suficiente para fazer meu sangue descer para regiões baixas e por instinto eu apertei mais ainda meus braços cruzados sobre o peito. Ter Ryuichi gemendo o meu nome era a continuação da minha fantasia, pena que a realidade era outra. – Quem está aqui? Com quem você está falando? – ele parecia em dúvida em ficar assustado ou curioso. Soltei um suspiro e cocei os olhos com as pontas dos dedos, tanto para me acalmar quanto para fazer o meu sangue voltar a correr para o cérebro em vez de outras regiões.

- Eu apresentaria vocês dois… mas aparentemente você não pode vê-la. – ele me encarou confuso. – Mas quem se importa não é mesmo? Ryuichi, a presença que você está sentindo é a minha mãe. – ele ofegou e os olhos ficaram ainda mais largos. Com certeza ele conhecia histórias de Reika Uesugi. Tohma já estava com Mika quando ela morreu. Creio que se eu forçar bem a memória, acho que Sakuma participou do funeral, não sei dizer. Eu estava muito ocupado de castigo no meu quarto por dizer a todos que mamãe não tinha morrido e que estava do lado de Eiri no enterro.

- Sua mãe? – ele sentou-se na cama, deslizando pelo colchão e pondo-se de pé. – Então você pode senti-la como eu? Há quanto tempo você pode fazer isto? – agora parecia que todo o medo tinha esvaído de seu corpo e a curiosidade e excitação tinha se apossado dele.

- É mais complicado do que isso…

- Bem, a meu ver você tem tudo sob controle. – mamãe falou, dando um sorriso traquinas do qual eu não gostei nada, nada. – Vou fazer a minha ronda e depois partir. – com isto ela acariciou o meu rosto e me deu um beijo na bochecha, sumindo em seguida.

- Sumiu! – Ryuichi exclamou surpreso. – Não sinto mais ela. – completou e eu rolei os olhos. Os poderes dele realmente andavam fracos. Eu ainda podia sentir a presença da minha mãe no quarto de Eiri. Com certeza depois ela visitaria Mika e meu pai para então assim partir para onde quer que ela fosse quando não estava comigo.

- Ela se foi… por hoje. – ele pareceu ainda mais fascinado com isto e o brilho infantil que eu estava acostumado de ver pela TV apareceu em seus olhos.

- Você disse que é mais complicado. O que é mais complicado? Você é igual a mim…

- Não sou. – o cortei prontamente e a excitação dele sumiu o fazendo parecer desinflar como um balão. Me senti culpado. – Em partes. Você é um sensitivo Ryuichi… eu sou… – inspirei profundamente. Nunca admiti a terceiros o que eu era e fazer isto causava uma sensação estranha. – eu sou um mediador.

- Como?

- Você pode sentir fantasmas… eu posso senti-los, vê-los… tocá-los. – falei o encarando firmemente nos olhos.

- Então Kitazawa…

- Voltou do mundo dos mortos para assombrar o Tohma.

- E ele quer…

- Matar seu adorável amigo. – o rosto de Ryuichi perdeu a cor de vez. – E eu preciso saber por que. – falei firmemente, o encarando nos olhos e esperando que ele captasse o que eu queria dizer nas entrelinhas.

- Eu não sei o que Tohma fez a Kitazawa… só sei o que ele fez ao Eiri. – me segurei para não explodir de raiva. Até mesmo Sakuma que não tinha nada a ver com a nossa família sabia mais dos podres dos Uesugi que eu, um Uesugi de nascença e direito, sabia.

- E o que ele fez ao Eiri? – ele ficou ainda mais pálido e sacudiu a cabeça em negativa.

- Eu não posso contar. Não é o meu segredo.

- Talvez eu não tenha esclarecido o suficiente as nossas posições aqui. Eu sou um mediador, Kitazawa um fantasma preso em plano terreno. Minha função é ajudar fantasmas a alcançar a luz. No caso de Kitazawa é mandá-lo a força para o outro mundo e para isso eu preciso saber qual o motivo dele ainda estar preso aqui e disposto a dar a Tohma o mesmo destino que ele teve.

- Tatsuha… - ele ofegou quando eu dei um passo à frente e seus olhos escureceram ao mirarem os meus. E era impressão minha ou o rosto antes pálido parecia estar adquirindo um tom rosado? Dei um sorriso torto e me aproximei mais, inclinando-me sobre ele. Ryuichi era menor do que eu, mais ou menos uma cabeça abaixo de mim e era engraçado como com um simples olhar parecia que eu conseguia fazê-lo se sentir menor ainda, pois instintivamente ele se encolheu como se quisesse fugir de mim.

- Ryu-chi. – falei em tom arrastado e vi um tremor percorrer o corpo esguio dele. Os olhos antes azuis pareciam agora negros, dilatados de modo que a íris nada mais era do que um anel em volta de um círculo escuro. – Por favor, me diga o que aconteceu. – sussurrei ao pé do ouvido dele e pude jurar que escutei um gemido brotar dos lábios de Sakuma.

Certo, eu estava abusando, estava empregando todo o meu charme e sedução, as mesmas técnicas que utilizava com as meninas que conhecia, para conseguir alguma informação. Normalmente eu usava a violência para isto quando o caso era extremo, mas Ryuichi era especial e até agora eu nem tinha idéia que a minha técnica de sedução barata iria funcionar. Quer dizer, quem sou eu um mero adolescente de dezessete anos perto do Deus da música e sensualidade que era Ryuichi Sakuma? Ninguém é claro. Mas o vendo quase se desmanchar sob mim estava me dando uma sensação de poder absurda, quase orgásmica.

- Eu… - ele balbuciou, levando as mãos ao peito e apertando a camisa entre os dedos em um gesto nervoso. – Eu tenho que ir! – disse em uma voz esganiçada e aos tropeços afastou-se de mim, saindo do meu quarto às pressas e deixando apenas um rastro de vento para trás. Assim que a porta bateu eu me joguei na cama, tapando a boca para poder segurar as gargalhadas. Não sei o que deu em mim, se eu estivesse em meu normal na verdade as posições estariam invertidas. Seria eu balbuciando por estar milagrosamente na presença do meu ídolo e tudo estaria passando pela minha cabeça, menos tentar seduzi-lo.

A vontade de rir cessou e eu mirei o teto com um sorriso no rosto. Talvez papai estivesse certo, talvez nós tenhamos herdado todos os defeitos da mamãe. Ao menos o espírito traquinas eu sei que herdei dela.