Interlúdio III

Ryuichi

Bati a porta do quarto de hóspedes com força, recostando nela e a usando como suporte para as minhas pernas bambas. O que diabos tinha acontecido agora pouco? Eu tinha ido ao quarto de Tatsuha na intenção de esclarecer as minhas dúvidas, tentar buscar respostas para esta atração misteriosa que sentia por ele e o que aconteceu? Eu fui seduzido por um adolescente. Sim, agora eu sabia que era um adolescente. Yuki fez questão de me lembrar disto quando vínhamos para Kyoto na van que K tinha arrumado em questão de minutos para a nossa viagem.

Aparentemente durante todo aquele interlúdio no apartamento de Eiri o mesmo me flagrou olhando de maneira apreciativa demais para o irmão caçula. Mas o que eu poderia fazer? Quando vi aquele jovem avançar sobre Tohma como uma fera possuída todos os pêlos do meu corpo eriçaram. Por breves segundos eu senti inveja do meu amigo, por breves segundos eu desejei ser a pessoa sob aquele homem, sendo segurado por aqueles braços. Isto é loucura, eu sei. Eu mal conheço este menino, e sim, ele é um menino. Quinze anos é o que nos separa e mesmo assim quando eu o vi fumegando de raiva e pronto para dar as costas a todos nós e ir embora, isto nada me importou.

Algo dentro de mim estourou, algo dizia que eu não podia deixá-lo ir embora. Não porque ele poderia nos ajudar com o que parecia ser um caso de assombração. Não, o motivo era mais egoísta, todo o meu discurso sobre a família dele precisar de auxílio e que ele não podia abandoná-los era porque assim eu teria uma desculpa para ficar mais perto dele. Então, quando Tatsuha ordenou que todos arrumassem as malas pois iríamos para Kyoto eu mais que depressa me prontifiquei a ir junto. Entretanto a idéia pareceu não agradá-lo.

Discutimos, óbvio que discutimos e eu me vi por vários minutos sob um olhar enegrecido pela frustração e raiva e mais arrepios cruzaram meu corpo por causa disto. E o mais curioso, quando eu costumava bancar o teimoso tentando impor as minhas vontades o meu personagem infantil vinha à tona prontamente para deixar claro o quanto eu era petulante. Mas com Tatsuha não foi assim, brigamos de igual para igual e mais parecia que eu queria que ele me visse como um homem maduro e não uma criança. Ele me fez sentir como se eu tivesse dezessete anos e ele trinta e dois. Era impressionante como sem nenhum esforço ele conseguia penetrar as minhas barreiras e trazer a superfície o melhor e o pior de mim.

Então depois de muito brigar Tohma encerrou qualquer desavença declarando que eu iria junto com ele por segurança e que se Tatsuha não aceitasse este fato que Seguchi não arredaria pé de Tóquio. O jovem então apenas soltou um bufo e fez um bico adorável antes de ir para a moto que possuía e montar na mesma, preparando-se para partir. Meu corpo todo comichou com vontade de ir até o veiculo e me alojar no selim atrás dele. Os dedos das minhas mãos abriram e fecharam em gestos reflexos diante da vontade de me aconchegar contra aquelas costas largas e envolver os meus braços pela cintura esguia.

E foi neste momento que Yuki interrompeu os meus devaneios. Ele simplesmente havia me puxado na direção da van que estava estacionada em frente ao prédio do escritor e que era carregada com as malas que iríamos levar e me encarou com os olhos dourados faiscando de raiva.

- Ele só tem dezessete anos! – sibilou entre dentes para mim, apertando meu braço com força a ponto de fazê-lo doer. O encarei fixamente e pude notar que apesar do que tinha ouvido de Mika, Noriko e Tohma, Tatsuha e Eiri eram bem diferentes fisicamente. Havia traços nos dois que os distinguia de maneira absurda. Yuki era todo feito de traços suaves, com uma leve pitada de feminilidade, mas não a ponto de lhe dar uma beleza andrógena como em Tohma ou Shuichi. Tatsuha… Tatsuha era mais másculo, mais sombrio com seus olhos e cabelos negros, traços firmes e marcantes e postura imponente.

- Não entendi! – dei a ele um dos meus sorrisos infantis, mas isto não pareceu demovê-lo de sua ameaça, pelo contrário. Ele me sacudiu levemente como se assim fosse se fazer entender mais rápido. Engraçado, Tatsuha ameaçador era sexy. Eiri ameaçador era somente de dar medo.

- Ele ainda é uma criança, mal chegou à maioridade. Não se engane pelo rosto e corpo de adulto… - e que corpo. Não dava para ver muito sob a camisa de malha que ele usava, mas a calça jeans justa ajudava e muito a imaginação. E a minha era bem fértil. – Você está me ouvindo? – Eiri rosnou quando percebeu que a minha atenção tinha se desviado para as pernas de Tatsuha que envolviam a moto e eu soltei um baixo gemido quando ele apertou o meu braço com mais força.

- Estou. – respondi contrariado.

- Ótimo. Fique longe dele! – ordenou e com uma última sacudidela me soltou, voltando para o lado de Shuichi. Ficar longe do Tatsuha. Eu até o obedeceria se o garoto não me atraísse como um imã. Sei que tentar qualquer coisa iria me causar confusão, o menino era menor de idade, muito mais novo e pelo que eu soube no pouco tempo desde o nosso último encontro na NG, um fã fervoroso do qual Tohma queria me manter distante. Mas havia algo nele… algo que eu não conseguia explicar.

E foi por causa disso que depois de chegarmos a Kyoto e nos acomodar que eu fui a sua procura. Não foi difícil encontrar o quarto dele, mas foi curioso perceber que quando eu me aproximei de sua porta pude ouvi-lo falando com alguém. Sem querer ser indelicado eu bati na madeira e depois a abri, apenas para atestar que ele estava sozinho. Criando coragem entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, mas assim que me situei no aposento uma sensação estranha percorreu o meu corpo. Parecia, para mim, que havia mais alguém naquele quarto, alguém que eu estranhamente podia sentir, mas não podia ver. Meu coração veio à boca diante disto. Havia tido esta sensação antes em todas as vezes que Tohma foi atacado e eu estava por perto então isto só poderia significar que Kitazawa estava naquele quarto e Tatsuha corria perigo.

Virei na direção da escrivaninha onde a presença parecia ser mais forte e fiquei encarando o local por vários minutos, só acordando quando ouvi Tatsuha me chamar.

- Sakuma-san? – desviei meu olhar para ele e depois o voltei para o mesmo ponto.

- Tem alguma coisa aqui. – murmurei com o coração aos pulos e as palmas das mãos geladas. A presença parecia ficar mais forte, mas não havia ninguém diante dos meus olhos. Eu sentia como se um cubo de gelo estivesse descendo pela minha espinha e era algo horrível de se sentir.

- Como assim tem algo aqui? – me perguntou calmamente, esperando com paciência pela minha resposta. Outra pessoa já estaria me olhando estranho e me tachando de louco. Tatsuha parecia mais curioso sobre o que eu ia dizer, por isso tive coragem para continuar.

- Eu não sei explicar. Você pode achar loucura, não sei… mas parece que tem mais alguém aqui… - me calei quando pareceu que a presença tinha se movido e eu atestei com pavor que ela estava vindo na minha direção. Tatsuha continuava parado feito uma estátua perto da escrivaninha, com os braços cruzados sobre o peito e observando em silêncio as minhas reações estranhas. Recuei mais um passo e retesei todo o corpo quando a senti praticamente em cima de mim. E então, o pior aconteceu, um bafo gelado soprou perto do meu ouvido e meu coração parou de vez, minha boca emitiu um som indigno e agudo, meus músculos contraíram todos de pavor e meu cérebro desligou, me fazendo cair aos tropeços sobre a cama de Tatsuha.

Ele apenas continuou me olhando com a expressão curiosa em vez de rir ou dizer que eu sou maluco. Ao menos uma pessoa normal faria isto. Mas então uma coisa estranha aconteceu. Subitamente ele desviou a sua atenção de sobre mim e fixou os olhos em um ponto ao seu lado.

- Um o quê? – ele disse e eu tinha certeza que ele não estava falando comigo. Aparentemente ele parecia falar com a presença que eu não conseguia ver. Aparentemente ele sabia que tinha mais alguém neste quarto além de nós dois e parecia não se importar com isto.

- Você está falando com quem? – indaguei, chamando a atenção dele para mim e ele pareceu um pouco perdido sobre o que dizer ou como justificar sua recente atitude esquisita.

- Ah… - foi à coisa mais eloqüente que ele conseguiu dizer e eu persisti.

- Quem está aqui? – insisti, percorrendo meus olhos pelo quarto para ver se conhecia alguma pista da estranha presença, algo que provasse que ela estava ali e eu não estava alucinando. Não se os arrepios e o coração palpitando fosse alguma indicação.

- Do que você está falando? – ele estava mentindo, eu sei que estava mentindo. Eu era bom em farejar estas coisas e não entendia porque Tatsuha insistia em negar algo que ele tinha conhecimento. Por acaso ele queria me enlouquecer? De jeito nenhum. Não seria um adolescente ainda cheirando a leite que passaria a perna em Ryuichi Sakuma. Eu tinha, literalmente, muito mais anos de experiência em lidar e manipular pessoas do que ele. Não dá para ser melhor amigo de Tohma e acabar não aprendendo alguma coisa.

- Eu não estou louco! – falei com convicção, quase em tom de desespero quando certas lembranças pareceram retornar das profundezas da minha mente. Recordo que esta não foi a primeira vez que eu senti presenças ao meu redor. Quando era criança tais acontecimentos eram comuns. Entretanto, depois de vários tratamentos psiquiátricos, terapia e muitos sermões e palmadas dos meus pais eu aprendi a esquecer e bloquear isto tudo. Foi por isso que me tornei cantor. A música foi um modo que eu encontrei de ocupar meu tempo para assim as aparições e sensações estranhas desaparecerem, até que um dia elas sumiram de vez… para voltarem por causa de um maldito programa de TV. Não estava disposto a ser rotulado de maluco depois de tantos anos, não faria bem para a minha imagem. Mesmo agindo como uma criança as pessoas ainda me acham meigo e fofo, agora se elas descobrirem que eu sinto e vejo coisas que não existem acho que não seria muito bom.

- Isto é tudo uma questão de ponto de vista. Do que exatamente você está falando? – Tatsuha realmente estava disposto a não dar o braço a torcer e me contar o que estava acontecendo. Pois bem então, se estamos na chuva é pra nos molharmos e eu tinha vindo a este quarto com o objetivo de esclarecer tudo e farei isto, mesmo que eu perca todo o respeito diante dos olhos de alguém que era meu grande fã.

- Por favor não pense que sou louco. – disse em tom implorador mesmo contra a minha vontade. Não queria incitar pena nela, queria obter verdades. – Mas desde que o incidente no programa de TV aconteceu eu tenho tido essas sensações que não consigo explicar. Tive quando o conheci… - ele arqueou as sobrancelhas ao ouvir o meu relato e eu vi nisto o sinal para continuar. - E depois no evento beneficente, no apartamento do Yuki e então agora em seu quarto. É como se houvesse alguém aqui conosco e ao mesmo tempo não tem. – continuei com uma inspirada de ar e o fato dele permanecer quieto estava começando a me deixar nervoso. - Há alguém aqui, não há? Você falou com ele… Agora mesmo você… - o vi olhar para o lado novamente como se estivesse trocando olhares com alguém. Alguém que eu não conseguia enxergar, apenas sentir e isto me dava calafrios. Ele permaneceu calado para logo depois soltar algo que me deixou levemente ofendido.

- De ajuda? Ele? – bruscamente ele se virou para encarar a pessoa e eu me assustei. Tatsuha conversava com alguém que com certeza para ele era bem material, mas para mim nada mais passava de ar e isto o fazia parecer um pouco insano por estar falando com o nada. – Em quê? Posso saber? – finalizou em tom de desagrado e meu coração deu mais um pulo. O garoto parecia estar discutindo algo importante com este ser invisível, algo relacionado a mim.

- Tat-Tatsuha? – gaguejei. Estava começando a ficar assustado com aquela confusão toda, com as atitudes dele e o fato de que a sensação ruim que a presença ocasionava comprimia o meu peito. – Quem está aqui? Com quem você está falando? – por favor, me responda pois eu não agüento mais este mistério.

- Eu apresentaria vocês dois… mas aparentemente você não pode vê-la. – como? – Mas quem se importa não é mesmo? Ryuichi, a presença que você está sentindo é a minha mãe. – o quê? Arregalei os olhos. Reika Uesugi? Se eu não estivesse enganado com o nome. Ela morreu… faz onze anos, eu acompanhei Tohma no enterro dela. Ela estava neste momento no quarto? Era ela que estava me causando este desconforto?

- Sua mãe? – deslizei sobre a cama, me colocando de pé na frente dele. – Então você pode senti-la como eu? Há quanto tempo você pode fazer isto? – em questões de segundos o medo sumiu do meu corpo. Se era a mãe do Tatsuha que estava aqui, ela não nos faria mal. Meu medo era se fosse o Kitazawa, acho que era esta idéia que estava me apavorando mais diante da presença antes desconhecida e fazendo as sensações serem maiores e mais sufocantes do que creio que deveriam ser. E descobrir também que eu não era o único no mundo com esta peculiaridade era reconfortante. Então era por isso que Tatsuha sabia o que estava acontecendo. Será que foi assim que ele me alertou? Nossos poderes se interligaram naquela hora durante o programa de TV? Isto era tão surreal, mas ao mesmo tempo tão excitante.

- É mais complicado do que isto… - falou e por segundos ficou quieto, como se estivesse prestando atenção em alguma coisa quando de repente…

- Sumiu! – a aperto sumiu do meu peito então isto quer dizer que a mãe do Tatsuha foi embora. – Não sinto mais ela.

- Ela se foi… por hoje. – por hoje? Quer dizer que ela fazia visitas constantes? Isto realmente era fascinante. Há quanto tempo isto acontecia com ele? Foi no segundo que ele nasceu? Aconteceu assim que a mãe morreu? Eu estava morrendo de curiosidade.

- Você disse que é mais complicado. O que é mais complicado? Você é igual a mim…

- Não sou. – ele me cortou bruscamente e eu senti a minha alegria por ter encontrado alguém igual a mim murchar. Como assim? Ele também sentia coisas estranhas como eu, então como poderia ser diferente? – Em partes. Você é um sensitivo Ryuichi… eu sou… – sensitivo? O que é isto? E se eu era um sensitivo e Tatsuha não, o que ele era então? – eu sou um mediador. – um o quê?

- Como?

- Você pode sentir fantasmas… eu posso senti-los, vê-los… tocá-los. – me senti aprisionado pelos seus olhos quando ele me explicou me encarando fixamente. Aparentemente o dom de Tatsuha estava a níveis muito mais elevados que os meus. E espera um momento… o que eu sinto são fantasmas? As presenças invisíveis é gente morta? Então…

- Então Kitazawa…

- Voltou do mundo dos mortos para assombrar o Tohma.

- E ele quer…

- Matar seu adorável amigo. – senti o sangue sumir do meu rosto e a minha respiração falhar. Matar o Tohma? – E eu preciso saber por que. – ele continuou falando em um tom firme e eu consegui captar claramente o que estava nas entrelinhas daquela pergunta. Se Tohma e Yuki nada contavam a ele, Tatsuha esperava que eu abrisse o bico. Pois ele poderia esperar sentado. Primeiro porque este segredo não era meu para ser contado, segundo porque eu não sabia da história a fundo embora estivesse na época em Nova Iorque quando tudo aconteceu.

- Eu não sei o que Tohma fez a Kitazawa… só sei o que ele fez ao Eiri. – ele não pareceu muito feliz diante do que eu disse pelo modo como me olhou.

- E o que ele fez ao Eiri? – me senti levemente mal só se lembrar o que aquele cretino tinha feito ao Eiri. E não poderia nem imaginar como o mesmo se sentia cada vez que se recordava disto.

- Eu não posso contar. Não é o meu segredo.

- Talvez eu não tenha esclarecido o suficiente as nossas posições aqui. Eu sou um mediador, Kitazawa um fantasma preso em plano terreno. Minha função é ajudar fantasmas a alcançar a luz. No caso de Kitazawa é mandá-lo a força para o outro mundo e para isso eu preciso saber qual o motivo dele ainda estar preso aqui e disposto a dar a Tohma o mesmo destino que ele teve.

- Tatsuha… - ele deu um passo à frente e eu prendi a respiração ao ver o modo como os seus olhos escurecidos miraram os meus como se quisessem desvendar a minha alma somente com isto. Senti meu sangue correr direto para as minhas bochechas ao perceber que perto deste jeito eu conseguia memorizar cada detalhe do seu rosto jovem e bonito, o calor de seu corpo parecia chegar ao meu diante da proximidade. Quando ele deu mais um passo a frente, inclinando-se sobre mim pude perceber o quanto ele era mais alto do que eu e como me fazia me sentir pequeno diante de sua postura imponente. E o pior que ao mesmo tempo em que meu rosto adquiria uma coloração rosada as minhas pernas resolveram perder a firmeza por causa deste simples gesto. O que este garoto tinha para me afetar tanto?

- Ryu-chi. – me segurei para não fechar os olhos ao ouvir o modo como ele falou o meu nome, como um amante sussurrando para o outro, mas não consegui evitar o tremor que percorreu o meu corpo. Eu não compreendia mais nada. Nunca uma mulher, por mais bela que fosse, mais sexy que fosse, conseguiu ter este efeito em mim. Um homem então, menos ainda. Mas Tatsuha… com Tatsuha a minha vontade era simplesmente me deixar levar e permitir que ele fizesse o que quisesse com a minha pobre pessoa. Por que disto? Por quê? – Por favor, me diga o que aconteceu. – ele sussurrou ao pé do meu ouvido e um gemido vergonhoso passou pelos meus lábios. O sangue que antes tinha corrido para o norte, para o meu rosto, agora descia em velocidade impressionante para o sul. Se ele continuasse a falar comigo desta maneira juro que contaria tudo, tim-tim por tim-tim, todos os meus segredos, todos os meus podres, era só ele mandar.

- Eu… - minhas mãos foram ao peito, apertando a minha camisa com força entre os dedos, tentando de um modo incitar meu coração descompassado a se controlar mas sem sucesso. – Eu tenho que ir! – e com isto girei sobre os pés e sumi do quarto dele, o que me trazia a situação atual de estar usando a porta do meu quarto como apoio, com o coração aos pulos no peito e com uma sensação incomoda entre as pernas e sendo oprimida pela calça jeans que usava. Um mero adolescente, era o que meu cérebro que voltava a funcionar aos poucos estava gritando para mim. O que um mero adolescente tinha para ser capaz de me enfraquecer deste jeito? Soltei um bufo, me afastando da porta e indo em direção a cama com as pernas ainda trêmulas, me deixando cair no colchão de bruços e ignorando a minha excitação ainda aprisionada pela calça.

Apertei o travesseiro com força entre os dedos, me segurando para não soltar um grito. Ele era um moleque e muito petulante achando que aquele joguinho de sedução barata me afetou. Eu vou lá naquele quarto para conversar coisas sérias e o que ele faz? Tenta arrancar uma história que não é minha para ser contada. Eu sei que Tohma está em perigo, meu cérebro começava aos poucos associar o fato de que a ameaça que persegue o meu amigo é o fantasma do Kitazawa, mas isto não quer dizer que vou sair por aí contando sobre a vida dos outros para um pirralho.

Me virei na cama, deitando de costas no colchão, o meu breve acesso de raiva por ter deixado a minha fraqueza transparecer e permitir que aquele garoto brincasse comigo foi o suficiente para que as conseqüências da nossa conversa se acalmasse dentro da minha calça. Agora era hora de remoer o que diabos ele quis dizer com eu ser um sensitivo e ele um mediador. Inclinei a cabeça para o lado, para o pequeno netbook que estava sobre a cômoda e que eu tinha trazido comigo para acelerar o trabalho. Só porque eu tinha me refugiado em Kyoto com Tohma não significava que nós pararíamos de produzir. Num salto levantei da cama e abri o computador, plugando nele assim que carregou a minha internet portátil. Em questão de minutos o navegador estava aberto e em um site de busca e eu digitei as palavras chaves.

As primeiras duas páginas do site apenas vieram com coisas relacionadas à sensibilidade, poemas, músicas, textos profissionais e outros. Na terceira página, no entanto, um link me chamou a atenção, ele levava para um site sobre o sobrenatural. Arqueei as sobrancelhas, este tipo de site nunca era 100 por cento confiável pois era mais baseado em teorias de alguns doidos que algo cientificamente provado. No entanto, cliquei sobre o link indo direto ao texto sobre sensitivos, o lendo em voz alta.

- Sensitivos são aquelas pessoas que possuem um sexto sentido elevado, acima do normal, capazes de prever eventos antes dos mesmos acontecerem, detectar atividades relacionadas ao sobrenatural e serem mais sintonizadas com o universo ao nosso redor. A história revela que este tipo de pessoa geralmente seguia uma carreira religiosa, como ser monge ou padre, pois as religiões são mais adeptas a aceitar a existência de outros planos do que a sociedade comum. – nisto eu não podia discordar, cansei de levar palmadas quando criança por dizer aos meus pais que havia coisas invisíveis rodando pela casa, às vezes os envergonhando na frente de uma visita ou alguém importante.

Depois disto resolvi dissecar o site e me surpreendi ao encontrar um pequeno texto sobre o que era um mediador.

- Mediador… considerado o topo da cadeia hierárquica da paranormalidade – quase ri diante do tom de adoração que o autor do texto empregou ao se referir ao mediador. Com certeza era algum fanático por acontecimentos estranhos. Ao menos dava a impressão de ser um daqueles que vivia vendo ÓVNIS pela janela do quarto. – o mediador é o único ser vivo que existe como ponte entre o plano terreno e o espiritual. Pouco se sabe sobre a capacidade de seus poderes e a existência destes, pois este conhecimento é mantido a sete chaves pelos mesmos. – e o texto acabava aí. Grande ajuda que ele foi, mas pelo que eu me lembro do que Tatsuha disse, um mediador pode ver, sentir e tocar um fantasma e pelo que compreendi o garoto queria saber a história do Kitazawa pois pretendia fazê-lo desencarnar a força.

Talvez fosse bom eu ter uma conversa séria com Tohma sobre revelar o que quer que tenha acontecido entre ele e Kitazawa antes do mesmo morrer. Acho que meu amigo ainda não tinha noção do perigo que corria ou registrado o fato de que estava sendo ameaçado de morte por um fantasma que, convenhamos, não teria nenhum temor do poder que Seguchi geralmente tem de manipular as pessoas visto que ele não tinha nada, literalmente, para perder. E aparentemente aquele moleque com truques de sedução barata para conseguir o que quer era o único capaz de nos ajudar, pois até esta noite eu nem sabia o que era ser um sensitivo, quanto mais um mediador, e creio que não dá para arrumar outro para o trabalho em tão pouco tempo. Não dá mesmo.