Capítulo VII
Eu me sentia um lixo. Acabado e destruído por causa de uma noite mal dormida. Soltei um grande bocejo enquanto largava a minha mochila ao lado do pé da cadeira da cozinha onde o restante da minha família tomava café. Devo dizer que era uma cena estranha de se ver. Tohma estava no fogão preparando a comida, conversando com Mika que o ajudava a encontrar os utensílios para usar no café da manhã. Shuichi sentava à mesa animado, esperando pelo desjejum e havia me desejado um bom dia todo sorrisos o qual eu respondi com um grunhido. Eiri estava ao lado dele, fumando e lendo o jornal que nosso pai deixara para trás. Meu pai com certeza já tinha comido há muito tempo e ido trabalhar no templo como o monge dedicado que era.
- Você está com uma cara horrível. – meu irmão era um amor de pessoa, juro! Olhei para ele com uma expressão contrariada, ele não precisava atestar o óbvio. Passei os dedos por entre os meus cabelos curtos, molhados e despenteados. Fazia algum tempo que eu estava deixando o corte mais curto, os tornando naturalmente arrepiados, do que longos. Cansei de ser chamado de cópia carbono do Eiri e acho que entendia como gêmeos idênticos se sentiam. Senti os olhos dourados dele percorrerem a minha figura e franzi a testa. Tinha alguma coisa errada com o meu uniforme? Mirei a camisa branca com os dois primeiros botões abertos para o blazer preto tradicional das escolas japonesas que estava completamente aberto. A calça estava impecável e o zíper estava fechado. Então o que havia de errado?
- Estou impressionado, você segue a regra de vestimenta da escola. – zombou e eu soltei um resmungo de escárnio, fingindo uma risada sem humor diante da piada sem graça dele. Uma cumbuca com miso foi colocada na minha frente e eu ergui a cabeça para ver Tohma parado ao meu lado me sorrindo com aquele sorriso dele assustador e sacudi a cabeça diante disto. O sujeito estava agindo como se nada de mais complexo ou estranho estivesse acontecendo na sua vida, como se ele não estivesse sendo perseguido por um poltergeist.
- Ah, já ia esquecendo! – tirei do bolso da calça um amuleto e estendi um para Tohma, que o pegou o mirando com curiosidade, repeti o gesto e joguei o outro na direção de Eiri que pegou o objeto no ar, me encarando como se perguntasse o que era aquilo. – Não dá para eu ficar todas as horas do dia grudado em vocês dois. O templo tem amuletos para espantar os maus espíritos, a casa também – óbvio que eu tinha cercado todo o perímetro com proteção contra poltergeist. Uma coisa era ser acordado no meio da noite por um fantasma inofensivo, outra por um perigoso. – Mas fora dessas paredes é cada um por si. Os amuletos são apenas uma questão de segurança…
- Você realmente acha que estamos sendo perseguidos por um fantasma? – Tohma me interrompeu com uma expressão curiosa. Mika tinha saído da cozinha e vindo para o lado do marido para assim participar da conversa. Prontamente eu fechei a cara. Depois de tudo o que aconteceu ele ainda duvidava disto? Só poderia estar de sacanagem comigo. Eu já tinha encontrado gente mais cética que aceitou mais rápido que o espírito de um ente querido queria entrar em contato. Mas Seguchi… ele simplesmente parecia em negação.
- Você 'tá de onda comigo, certo? – era impressionante a capacidade humana de somente crer naquilo que vê. Se eu pudesse, materializava o Kitazawa na frente dele só para ele parar com a palhaçada de ficar me questionando, mas eu não tinha o poder de forçar um fantasma a aparecer para um mero ser humano e não estava nem um pouco a fim de invocar um poltergeist para dentro da minha casa. – Depois de tudo o que aconteceu nos últimos dias você ainda tem dúvidas?
- Bem… não houve comprovação… - ele queria contestar o meu profissionalismo. Eu não acredito no tamanho da estupidez deste homem.
- Comprovação? Um refletor de vinte quilos caiu sobre você, o vidro a prova de balas da janela do seu escritório estourou sem nenhum motivo aparente e mensagens de ameaça surgiram em local público e no apartamento de Eiri… brotaram na parede… com sangue! Você quer mais comprovação do que isto? O que você quer? Ver o homem por si só? – pela cara que Tohma fez era exatamente isto o que ele queria e eu tive que rir, de gargalhar. – E pretende fazer o que se isto acontecer? Convencê-lo de seu erro, pedir para deixá-lo em paz? Suborná-lo? – toda esta conversa estava começando a me enojar e tirar o meu apetite. Lancei um olhar de desprezo para a cumbuca na minha frente e sacudi a cabeça, erguendo da cadeira e trazendo a minha mochila junto, a jogando por sobre um ombro. – Só para você saber e caso não tenha registrado nesta sua cabecinha oca – o cutuquei bem no meio da testa e ele me lançou uma expressão contrariada. – o único pagamento que Kitazawa quer é a sua vida e ainda sim estou começando a achar um mau negócio… pra ele. – resmunguei, dando as costas para o Sr. Negação e tomando meu caminho em direção a porta principal da casa.
- Tatsuha! – ouvi Mika me chamar quando eu tinha parado na entrada para calçar os meus sapatos e olhei por cima do ombro para ela, a minha expressão ainda contrariada pela conversa de mais cedo. Ela parecia incerta do que fazer e do nada estendeu as mãos para mim onde havia um enorme lenço colorido que embrulhava algo no formato de um retângulo, algo que eu reconheci como um bento. Quase recuei como se a inocente caixa fosse algum tipo de fera prestes a me atacar.
- O que é isto? – apontei para o objeto nas mãos dela e ela rolou os olhos para mim diante do óbvio.
- Seu almoço. – quase perguntei "meu o quê?", mas freei a tempo. Almoço? Eu não levava almoço para a escola desde que entrei no ginásio. Mika costumava prepará-lo quando eu ainda era do primário, quando ela ainda morava conosco antes de se casar. Depois disso, depois que todos se debandaram desta casa deixando somente meu pai e eu para trás ficou cada um por si. Eu cuidava das minhas coisas e meu pai cuidava das dele. Éramos mais como dois colegas de quarto dividindo o mesmo espaço do que pai e filho. Então este negócio de ter meu almoço pronto em caixas coloridas e todo enfeitado era novidade para mim. Mais ainda se foi Mika que cozinhou. Ela não era um completo desastre quando o assunto era forno e fogão, mas também não era um gênio da culinária. – Tohma ajudou a preparar se é isto o que você está pensando.
O que eu estou pensando é que agora que fiquei sabendo deste detalhe é que não como mesmo isto daí. Ouvi Eiri comentar uma vez que Tohma parecia ser a esposa em vez do marido, pois era melhor nas tarefas domésticas do que Mika, mas do jeito que o homem era sádico quem garante que ele não colocou cianureto em vez de sal na minha comida? Sem contar que a expressão ansiosa de Mika sobre eu aceitar ou não o bento me mandava alertas de que alguma coisa estava extremamente errada. Hesitante e contra a minha vontade, estendi a mão na direção do embrulho, o recolhendo das mãos dela e a vendo sorrir de satisfação pelo meu gesto.
- Obrigado. – agradeci e virei para partir antes que ela resolvesse começar alguma conversa da qual eu não estava disposto a participar.
- Volte para casa assim que sair da escola. – pausei abruptamente ao abrir a porta e me segurei para não encará-la com uma expressão incrédula. Ela só poderia estar de sacanagem comigo. Voltar depois da escola? Eu adoraria, mas geralmente o horário depois das aulas era reservado ou a dar atenção a alguma nova namorada, o que eu não tinha nesta semana, ou ir caçar fantasmas, o que ainda não tinha acontecido. Mas o dia mal começou não é mesmo? E eu tinha que começar a preparar as minhas estratégias de ataque para o Kitazawa e tentar descobrir alguma coisa, qualquer coisa que não consegui arrancar do Tohma e Eiri.
Resignado diante da inocência da minha irmã de achar que bastava voltar para casa por alguns dias e ela teria algum controle sobre os meus atos, eu segui o meu caminho para o ponto de ônibus, subindo no mesmo assim que ele chegou e me dirigindo a escola. O percurso de meia hora foi calmo, comigo tentando tirar um cochilo para compensar pela noite mal dormida. Já falei que eu sofria de insônia? Pois é. Quando queria eu conseguia cair no sono com extrema facilidade, mas quando o meu corpo estava bombeado de adrenalina por causa do aparecimento de fantasmas e mais um propenso trabalho como mediador, eu dificilmente conseguia dormir pela noite inteira, não até dispensar o espírito como manda o figurino.
Logo me vi dentro da escola, parado em frente ao armário de sapatos para trocar meu calçado de rua pelo calçado usado dentro do campus. Meus movimentos eram praticamente letárgicos e eu estava quase considerando dar meia volta e ir embora a procura de uma cama. Mas, por incrível que pareça, eu gostaria de me formar no colegial como uma pessoa normal. Ir para a escola, estudar, sair com os amigos era a única coisa que me possibilitava lembrar que entre fantasmas, exorcismos e derivados, eu ainda era um adolescente como qualquer outro.
- Você está horrível. – uma pessoa normal pularia de susto diante do aparecimento repentino de alguém ao seu lado, mas eu já estava tão acostumado com aparições e meu corpo estava tão cansado que eu nem me manifestei. Somente olhei de solaseio para a garota ao meu lado e soltei um suspiro. Eu não precisava disto a esta hora da manhã.
Lembra quando eu disse que possuía uma fama entre as meninas da minha escola? Lembra quando disse que fiquei sabendo deste fato por causa do espírito de uma garota? Pois é. Esta era ela. Mizuki aparentemente não desencarnou como eu esperava quando passei para a amiga dela o recado de que Mizuki a considerava uma puta por ter transado com o namorado dela. E eu que achava que este negócio de roubar amante alheio era exclusivo de homens. Mas de qualquer maneira ou este não era o assunto inacabado dela ou ela era uma guia espiritual, pois eu desconfiava que fantasmas que recebiam este cargo com assuntos inacabados ou não jamais desencarnavam. Era a única explicação para a minha mãe ainda estar me aporrinhando depois de anos. Então isto significava que deveria haver algum mediador perdido por aí. Bem que a Mizuki poderia me dizer quem era para assim nós dividirmos um pouco a tarefa de lidar com gente morta.
- Toda escola japonesa tem seus mistérios e história de fantasmas, mas você quebraria qualquer reputação das outras assombrações. – murmurei, virando lentamente a cabeça para vê-la vestida dos pés a cabeça como uma típica lolita gótica. Vestido preto com anáguas, babados, corpete, cabelo preso com fitas, luvas sem dedos, meias ¾ e sapato de boneca preto. – O que você faz aqui Mizuki? Por que ainda não seguiu a luz no fim do túnel? Você me faz sentir um profissional incompetente. – sem surpresa ela começou a rir de maneira afetada. Quando viva eu sempre mantive distância desta garota. Ela era de um ano abaixo do meu e na escola parecia uma perfeita nerd. Fiquei surpreso quando vi o seu espírito trajando tais roupas e confesso que levei um tempo para reconhecê-la fora da imagem do cabelo caindo no rosto e óculos escorregando pelo nariz.
- Eu quero saber se você tem tempo livre depois da aula. – impressão minha ou as bochechas dela ficaram vermelhas? Desde quando morto tinha sangue para colorir as bochechas?
- Pra quê? – perguntei em tom extremamente baixo e desconfiado, visto que outros alunos estavam aproximando-se dos armários perto do meu e não seria bom eles me verem falando sozinho.
- Sabe, quando viva eu sempre quis ter um encontro com você… - ela pareceu sem jeito de continuar e eu arregalei os olhos. Nunca pensei que em algum momento da minha vida eu chegaria ao fundo do poço, mas aparentemente este momento aconteceu. Eu estava sendo convidado para sair por um fantasma. Que decadente. Olhei a minha volta e percebi que estava sozinho novamente e voltei toda a minha atenção para Mizuki.
- Você quer que eu saia com você depois da aula? Mizuki querida, você tem consciência de que este relacionamento não tem futuro, não tem? Quero dizer, eu estou vivo e você… bem… você está morta. – ela fez uma carranca seguida de um tapa na minha cabeça que arrepiou mais o meu cabelo.
- Eu sei imbecil. Mas acontece que eu sinto falta de certas coisas que fazia quando era viva, ir ao shopping é uma delas e não tem graça ir sozinha e como você é o único que pode me ver e falar comigo…
- E quanto ao seu mediador? – a cortei bruscamente e ela fez uma expressão confusa. – Eu presumo que o único motivo para você ainda estar neste plano é porque você virou a guia de algum mediador novato. Então por que você não pede a ele…
- A minha mediadora só tem cinco anos, ainda muito nova para fazer essas coisas. Então…
- Você resolveu me torturar com isto. – Mizuki deu um sorriso que para ela poderia ser considerado inocente, mas para mim era mais no estilo predador. – Certo então. – até porque eu não tinha mais nada o que fazer mesmo além disto. Claro que existia o problema chamado Kitazawa, mas até ele aparecer de novo eu estava meio que à toa. – Só se você me fizer um favor. – ela me encarou desconfiada. – Preciso de informações sobre um tal de Y. Kitazawa. Eu sei que ele morou em Nova Iorque há uns sete anos e…
- Como mediador não era você a ter que procurar estas informações? Faz parte do seu trabalho…
- Não… meu trabalho é ajudar os espíritos a encontrar o caminho da luz. Seu trabalho como guia é guiar e isto significa conseguir informações. Não estava escrito isto no manual quando lhe foi designada esta função? – ela me encarou desconfiada. Eu estava blefando, claro, creio que a função de um guia era apenas orientar e não fazer o trabalho braçal. Ao menos eu acreditava que era assim senão a minha mãe teria que se explicar e muito para mim sobre não estar cumprindo direito com a sua função.
- Certo. Vou ver o que posso fazer. Desde que você me encontre as três e vinte na entrada do shopping.
- É um encontro então. – falei e ela sorriu para mim, desaparecendo em seguida.
O dia de aulas prosseguiu normal, com a primeira parte da manhã comigo recebendo o teste de matemática que fiz semana passada e descobrindo que tirei quarenta e oito, bem abaixo da média segundo o olhar reprovador do meu professor. Na hora do almoço eu dispensei o bento da minha irmã e resolvi aproveitar o tempo para tirar um cochilo que eu prolonguei durante a aula de inglês. Sorte a minha que antes do professor me pegar em flagrante meu colega da carteira de trás me cutucou entre as costelas me despertando. O último horário foi educação física com um jogo de vôlei e no máximo o que eu precisei fazer foi ficar parado no meio da quadra e impedir que a bola tocasse o chão e antes que pudesse perceber o sino da escola anunciava três da tarde e hora de ir embora.
Segui para o metrô e peguei o trem que ia para o centro comercial de Kyoto. As três e quinze estava na entrada do shopping e as três e vinte em ponto Mizuki surgiu ao meu lado, enganchando seu braço no meu e me obrigando a colocar as mãos nos bolsos da calça para disfarçar o fato que meu braço parecia estar sendo dobrado por alguma força invisível. Dei um relance para o lado como se estivesse vendo com interesse alguma vitrine, mas na verdade estava encarando a garota pendurada no meu braço.
- Ah eu esqueci, você não pode falar senão vai parecer maluco. – apenas fiz um leve gesto de erguer as sobrancelhas como resposta. – Pois bem então, por onde você quer começar? – rolei os olhos. Eu queria começar pelo importante, saber se ela descobriu alguma coisa do que eu pedi. Comecei a andar, a incitando a me acompanhar e esperando que ela captasse o que eu queria que ela fizesse. – Claro, você quer saber se eu descobri alguma coisa. – ela era esperta para uma lolita. – Bem… primeiramente Y. Kitazawa não é algo que dá para trabalhar, mas mesmo assim eu joguei o nome no departamento de imigração e vieram os seguintes resultados: Yumi Kitazawa, - fiz uma negativa com a cabeça. Yumi era nome de mulher. – Yuri Kitazawa – provavelmente poderia ser ele. – e Yuki Kitazawa. – parei de pronto, fazendo Mizuki tropeçar nos saltos e se não fosse pelo fato de que ela estava pendurada no meu braço com certeza iria de cara no chão.
- Yuki Kitazawa. – murmurei o nome. Era ele. Eiri assumiu o pseudônimo de Yuki pouco tempo depois de voltar dos EUA.
- Eu suspeitei. – Mizuki continuou depois de se recuperar da parada brusca e voltou a andar, me incitando a acompanhá-la. – Yumi Kitazawa é uma senhora de setenta anos, Yuri já retornou ao Japão e Yuki Kitazawa…
- Está morto. – completei em voz baixa, parando em frente a uma vitrine porque agora foi à vez de Mizuki frear bruscamente. Quase fiz uma careta ao perceber que estava na frente de uma loja de lingerie.
- Olha que linda! – ela gritou no meu ouvido, apontando para um conjunto de corpete e calcinha de renda rosa. Bem, na manequim parecia interessante, mas eu ainda iria preferir ver as peças em um modelo vivo. – De qualquer maneira – continuou, voltando a andar e me carregando junto. – Kitazawa tem uma ficha interessante. Antes de morrer ele foi professor de literatura em uma Universidade de Nova Iorque e por fora fazia trabalhos de pesquisa, consultoria e tutoria. Tem ficha na polícia por arruaça e brigas e uma vez foi flagrado com cem gramas de cocaína. – uau! Morto com histórico interessante. E foi com um sujeito desses que Tohma e meu irmão resolveram se envolver? – Há também prisão por dirigir embriagado. – e as qualidades do homem só aumentavam, pensei com escárnio.
- E? – falei, parando na praça central do shopping onde a decoração de Natal que foi mês passado ainda estava montada. Fiquei olhando desinteressado para a enorme árvore e os duendes mecânicos que se moviam com gestos robóticos, apertando botões e girando manivelas do que era a réplica de uma fábrica de brinquedos como vistos nos filmes sobre Papai Noel.
- E mais nada. – impossível. Tinha que ter alguma coisa, qualquer coisa que relacionasse as atitudes dele com o motivo de Eiri tê-lo matado e para ele odiar tanto o Tohma. – Bem, ao menos no nome dele não há mais nada… no entanto eu descobri uma coisa curiosa… - mas antes que ela pudesse falar um grito ecoou pelo primeiro piso do shopping e um arrepio cruzou o meu corpo. Mizuki me olhou com uma expressão extremamente fechada e eu não pude acreditar que isto estava acontecendo.
- TOHMA! – o quê? A voz era da Mika, eu reconheceria este grito histérico em qualquer lugar. Corri em direção a balbúrdia e vi que uma roda de pessoas começava a se formar em torno de um homem caído de joelhos no chão. Entre as brechas oferecidas pelos corpos pude divisar a figura de Tohma que tinha as mãos na garganta como se estivesse tentando desalojar algo de dentro dela. Ele ofegava em busca de ar, seus olhos estavam largos e lacrimosos, seu rosto estava pálido e os lábios ficando cada vez mais sem cor, quase roxos. – ALGUÉM CHAME A EMERGÊNCIA! – Mika gritou mais uma vez e vi várias pessoas sacando o celular para ligar para a emergência. Logo seguranças e funcionários do shopping abriram caminho pela multidão e quando tentaram se aproximar do homem caído foram arremessados com violência para trás. E então o pânico se instalou diante deste fenômeno estranho.
Alguns seguranças mais corajosos ainda persistiram em tentar alcançar o homem que parecia sufocar, mas novamente a força invisível os arremessou para longe impedindo que eles provessem socorro. Um dos seguranças voou contra a vitrine de uma loja, a quebrando em milhares de pedaços, outro foi lançado sobre a enorme árvore de Natal, arrancando vários enfeites diante do impacto. Troquei um olhar com Mizuki enquanto as pessoas corriam ao nosso redor, se afastando mais de Tohma. Mika ficava ainda mais desesperada, implorando por ajuda ao ver o sufoco que o marido estava passando, mas agora todos estavam apreensivos demais em se aproximar do casal.
Por meu lado eu rodei os olhos por entre as pessoas, tentando divisar o autor desta confusão e lá estava ele. De costas para mim e praticamente irradiando fúria enquanto a sua pele levemente brilhante o destacava dos seres humanos comuns. Larguei a minha mochila no chão e com agilidade fui abrindo caminho por entre as pessoas que fugiam, me aproximando silenciosamente na minha presa. Torci para que todos estivessem ocupados demais tomados pelos seus medos para repararem no que aconteceria a seguir. Não hesitei um segundo quando cheguei atrás de Kitazawa e sem aviso enganchei meu braço no pescoço dele, o fazendo soltar um grito de surpresa enquanto era arremessado contra um quiosque de sorvete. O choque que o corpo astral dele liberou diante do impacto fez todo o shopping tremer, aumentando ainda mais a confusão.
Para mim isto era ótimo, assim ninguém iria notar o adolescente que parecia estar brigando com o ar. Atordoado ele ergueu-se de sobre o quiosque que agora estava partido, literalmente, ao meio, com os atendentes brancos feito papel e com os olhos largos mirando o estrago que alguma coisa bem pesada e não visível causou a área deles de trabalho. O poltergeist me mirou com os olhos completamente negros de fúria e eu percebi que teria mais machucados para acrescentar a minha longa lista adquirida com os anos.
- Por que você esta fazendo isto Eiri? – ele rosnou para mim e eu rosnei de volta. Eu não era o Eiri porra, será que ele não conseguia ver isto? – Não vê que é tudo culpa dele! – apontou um dedo em riste na direção do Tohma que agora tentava recuperar o ar que lhe havia sido roubado. Normalmente eu tentaria papear um pouco com o infeliz, descobrir algo mais sobre esta história, mas o problema era que estávamos em lugar público e logo o esquadrão de resgate chegaria e acho que se o delegado de polícia vir a minha cara mais uma vez no distrito dele é capaz de me trancar para sempre em uma cela e jogar a chave fora.
Kitazawa bufou, pronto para ir para cima de Tohma e resolver isto fisicamente em vez de usar poderes sobrenaturais. Não sei se um fantasma era capaz de tocar um ser humano comum, nunca vi isto acontecer, mas não estava a fim de descobrir. No momento que ele insinuou partir para cima do Seguchi eu me pus no caminho, fechando a mão em um punho firme e desferindo um soco bem dado no meio da cara do sujeito. A satisfação correu pelo meu corpo. Fazia dias que eu estava a fim de bater em alguém, mas quando o vi voar na direção de uma loja e estourar o vidro da vitrine e somente parar quando abriu um buraco na parede dos fundos do lugar, causando outro tremor no shopping, percebi que agora a coisa ficaria feia.
Kitazawa ergueu-se de onde tinha caído com fogo saindo pelas orelhas, agora os olhos eram completamente negros, inclusive a parte do globo que deveria ser branca. Seu rosto contorcido de fúria virou-se na direção de um Tohma que era ajudado por Mika a se levantar. A árvore de Natal ao lado deles tremeu e meu coração deu um pulo. Aquele negócio deveria pesar uns cem quilos ou mais. Logo que ela começou a entortar na base eu agi. Com passadas largas corri na direção deles e arremessei o meu corpo contra os deles, os tirando do caminho no momento em que a árvore chocou-se contra o chão, soltando galhos e enfeites no processo.
- Você está começando a ser uma pedra no meu sapato, Eiri. – senti o ar ser impedido de chegar aos meus pulmões quando em um piscar de olhos Kitazawa se encontrava sobre mim e usando as suas mãos para me estrangular. Me debati contra ele, claro, e com toda a minha força e um chute bem empregado consegui tirá-lo de cima de mim e arremessá-lo para longe. Que maravilha, agora eu teria marcas no meu pescoço pelo resto da semana. Ele ergueu-se de onde tinha caído, um pouco zonzo diante do meu golpe. Eu falei que tinha uma força maior que a normal.
- Onde está o amuleto? – gritei para Mika e Tohma que olhavam eu brigar com o vazio com expressões estupefatas. – ONDE ESTÁ O AMULETO? – repeti para tirá-los de seu torpor e em gestos atrapalhados Mika revirou a bolsa que carregava, caçando de dentro dela o amuleto. Não quero nem imaginar porque diabos ele estava com Mika em vez do Tohma, mas engoli qualquer pergunta quando ela me arremessou o objeto no momento em que Kitazawa pulava mais uma vez sobre mim.
Espalmei a mão em seu peito, imprensando o amuleto contra a camisa dele e o homem soltou um ganido ensurdecedor de dor, o que fez os vidros restantes das lojas, os que não tinham quebrado com o pequeno terremoto causado pelo fantasma, partirem de vez. Rapidamente ele se afastou de mim, mirando horrorizado o buraco que o amuleto estava causando em sua camisa e queimando aos poucos a sua pele. Com outro grito de agonia ele desapareceu. Sei que isto iria inutilizá-lo por pouco tempo, mas seria o suficiente para planejar um contra ataque.
Me ergui do chão aos tropeços e senti meu tornozelo esquerdo protestar de dor pelo peso empregado sobre ele. Ótimo, uma torção era tudo o que eu precisava no momento. Rolei os ombros para tentar aliviar a tensão e rodei os olhos ao meu redor, avaliando o estrago que este embate tinha causado. Estou surpreso por ainda não estar ouvindo as sirenes características dos bombeiros e da polícia. O shopping estava simplesmente vazio, e se tivesse alguém aqui dentro com certeza estava escondido. Caminhei até onde Mika e Tohma ainda estavam parados estáticos e dei um sorriso de escárnio para Seguchi.
- E aí? Isto é prova o suficiente? – provoquei e ele me encarou pálido, engolindo em seco. – Vamos embora. Não quero bater o recorde de passagens pela polícia antes dos dezoito anos. – com isto fui mancando na direção dos elevadores, com certeza o casal ternurinha deveria ter vindo para cá de carro e eu não estava disposto a voltar de transporte público para casa. Eu estava dolorido, machucado e com uma bruta dor de cabeça. Dei um leve sorriso quando vi Mizuki estender a minha mochila assim que me aproximei dos elevadores e ignorei as exclamações surpresas da dupla atrás de mim ao verem minha bolsa flutuando no ar.
Assim que me encontrei dentro do elevador, soltei um suspiro de alívio e me recostei ao fundo da máquina, ignorando os olhares curiosos e chocados de Mika e Tohma. Mizuki surgiu ao meu lado e eu nem prezei em perguntar para onde ela tinha sumido quando Kitazawa apareceu. Fantasmas e poltergeists aparentemente não dividiam o mesmo espaço, poderia causar um desastre o embate entre os dois.
- Tudo isto e eu nem pude terminar de te contar o que descobri. – ela falou, sua voz sobrepondo-se a uma música qualquer que soava pelo elevador. – Eu não descobri nada mais sobre o Kitazawa. Mas descobri uma coisa envolvendo um Uesugi. – rapidamente desencostei da parede e fiquei mais ereto, a mirando firmemente. – Aparentemente há um processo contra Eiri Uesugi por assassinato. – interessante. Quer dizer que Tohma não conseguiu encobrir esta gafe de Eiri? No entanto, como é que meu irmão se livrou deste rolo? – Mas ele foi inocentado de todas as acusações. – disto eu sabia, pois ele estava aqui no Japão, na minha casa para ser mais exato, era um escritor famoso e a polícia internacional ainda não tinha batido na porta dele atrás de um bandido procurado. – Os argumentos da defesa foram de que Eiri agiu por reflexo adquirido do trauma infligido pelo morto e não estava em seu juízo perfeito. Sem contar que ele era menor de idade na época.
- Trauma infligido pelo morto? – comentei em voz alta e não dei atenção a tragada de ar que Tohma deu ao meu lado. As portas do elevador se abriram no andar onde estava estacionado o carro deles, mas eu não me movi.
- Ao que parece se não tivesse morrido Kitazawa teria mais uma acusação em sua ficha policial. – ela pausou, acho que pra criar um suspense. – A de abuso sexual. – todo o meu corpo congelou e acho que me cérebro pifou ao ouvir estas palavras.
- Como? – perguntei bestamente e Mizuki soltou um longo e sofrido suspiro.
- Eiri Uesugi é estatística. É mais um que foi violentado por alguém que confiava. – e então as palavras do meu irmão voltaram a minha mente. "Porque ele me traiu". Ah eu vou matar aquele fantasma desgraçado e depois dele eu vou estrangular Eiri e Tohma por terem escondido isto de mim. Mas no momento uma coisa de cada vez e agora a minha prioridade era dispensar Yuki Kitazawa para os quintos dos infernos, nem que fosse a última coisa que eu fizesse em vida.
