Interlúdio IV

Tohma

Eu ouvia Mika ao meu lado gritar histericamente pedindo por ajuda mas não conseguia associar nada. Um aperto em minha garganta impedia que o ar entrasse em meu corpo e o desespero começava a dominar o meu ser. Era impressionante em como em um momento como este que uma pessoa dava valor ao simples ato que era respirar. E em como neste momento eu teria que admitir que Tatsuha estava certo, apesar da loucura da situação, ele estava certo. Por dias eu tentei negar o óbvio. Quando aquele refletor caiu eu simplesmente associei o acidente a um defeito na estrutura do estúdio. Quando o vidro estourou imaginei que talvez o mesmo já estivesse com alguma rachadura prévia que não havia sido detectada pela equipe de manutenção predial da NG e a pressão do vento e o frio o fez explodir.

Quando aquela frase macabra surgiu na parede do salão de eventos na festa beneficente, achei que alguém estava pregando uma piada de extremo mau gosto em cima de mim e de Eiri e estava mais do que disposto a descobrir o autor daquilo e processá-lo até o último centavo. Mas então o incidente voltou a se repetir meia hora depois no apartamento de Eiri e no meio do meu torpor e choque eu só consegui registrar o que estava acontecendo quando senti Tatsuha me segurar pelo colarinho da camisa e me arremessar sofre o sofá, me prendendo contra as almofadas com o seu corpo maior sobre o meu.

O ar ficou preso na minha garganta e eu sei que meus olhos arregalaram de pavor. Talvez ele tenha interpretado isto como se eu estivesse com medo do que ele pudesse fazer, mas o meu pavor era porque meu corpo estava começando a reagir de maneira perigosa diante da proximidade dele. Não me entendam mal, eu amo a minha esposa, jamais a trocaria por nada deste mundo, mas não posso evitar de ao mesmo tempo dividir este amor com outra pessoa. E neste caso seria Eiri. Creio que me apaixonei por ele no segundo que o vi pela primeira vez quando fui apresentado à família de Mika. Óbvio que eu reprimi estes sentimentos. Primeiro porque ele era apenas uma criança, segundo que eu estava namorando a irmã dele e pretendia pedi-la em casamento como mandava os bons costumes. E era por isto que eu o paparicava tanto, o protegia tanto.

Claro que a culpa ocasionada por causa do incidente em Nova Iorque aumentava as minhas razões para querer envolver Eiri em uma bola de cristal, ainda mais que fui eu que contratei Kitazawa como tutor e deixei a vaidade por conseguir os serviços de um homem tão renomado no mundo acadêmico me fazer ignorar meu instinto básico: o de nunca confiar plenamente em alguém. Não investiguei a fundo o passado dele e os seus problemas. Kitazawa era tão bom ator que não deixava nada de errado com a sua personalidade transparecer. Por isso que quando ele fez o que fez eu fiquei tão chocado quanto Eiri, me senti tão traído quanto Eiri. Mika costuma dizer que depois de Nova Iorque a minha paixonite aguda pelo irmão dela pareceu aumentar, assim como a minha paranoia.

Não pensem que Mikarin é tola. Claro que não. Ela sabia o que eu sentia por Eiri, assim como sabia que eu nunca iria colocar estes sentimentos em prática. Que eu preferia ficar somente no posto de irmão mais velho, observando, cuidando dele. E enquanto assim permanecesse ela ficaria satisfeita. Até porque ela também se sentia culpada por não ver os defeitos de Kitazawa, ela também queria proteger Eiri tanto quanto eu. E envolvidos estávamos em guardar Eiri do mundo que parece que nos esquecemos da existência de Tatsuha. Eu ao menos tinha me esquecido, até senti-lo sobre mim me olhando com olhos enegrecidos de raiva e com o meu corpo começando a reagir de maneira vergonhosa diante desta proximidade.

O vendo de perto conseguia perceber que Mika estava errada. Tatsuha não se parecia em nada com o irmão fisicamente. O corte de cabelo diferente era uma coisa, os olhos negros eram intensos, cheios de vida e uma prova literal de ser a janela para a alma dele. Os lábios eram mais cheios, mais bem desenhados, o rosto adolescente era praticamente sem os pelos característicos da primeira barba. O nariz reto, as maçãs altas do rosto, os cílios longos e as sobrancelhas grossas eram o extremo oposto de Eiri que era a claridade e Tatsuha era a escuridão e ter conhecimento disto depois de tantos anos era apavorante. Eu não precisava de mais problemas ao me apaixonar por outro moleque.

Quando ele saiu de cima de mim quase soltei um suspiro de alívio e fiquei perdido no que dizer quando ele começou a exigir respostas sobre quem era Kitazawa. Hesitei e muito sobre o que falar, lançando um olhar de socorro para Mika e outro para um Eiri em choque. Talvez, apesar de novo, fosse uma boa hora de voltar a integrar Tatsuha nesta família. Agora que parecia que eu o tinha percebido pela primeira vez depois de anos fosse uma boa estender a minha asa de proteção para ele. Quando resolvi abrir a boca para contar a verdade, ou ao menos meia verdade, Eiri se adiantou e confessou quem era Kitazawa, mas sem entrar em detalhes. Isto não pareceu alegrar Tatsuha que em um piscar de olhos recolheu as suas coisas pronto para partir se não fosse Ryuichi começar uma conversa muito esquisita que parecia que somente Tatsuha compreendia o significado.

Por fim ele mudou de ideia e ordenou que todos nós arrumássemos as malas pois iríamos para Kyoto com ele. Não protestei, pois achei que no momento esta seria a melhor coisa a se fazer. Com isto K foi providenciar um meio de transporte, Noriko me informou que ficaria em Tóquio para lidar com a imprensa e eu tive que me meter no meio de uma discussão entre Tatsuha e Ryuichi pois o primeiro, por incrível que pareça, não queria que o meu amigo fosse conosco. Este garoto estava me surpreendendo a cada segundo, pois eu jurava que ele nunca iria perder a oportunidade de ter seu adorado ídolo tão perto de si, mas parecia que ele a estava dispensando sem pensar duas vezes. No fim Ryuichi acabou sendo integrado a nossa comitiva, pois eu não estava disposto a deixá-lo para trás já que o cantor era propenso a arrumar confusão simplesmente por estar parado no meio de uma sala vazia.

E então fomos para Kyoto e eu tentei explicar ao meu sogro com alguma história bem bolada do porque de estarmos ali e com isto fomos todos acomodados em nossos quartos. Na manhã seguinte acabei acordando cedo e me dirigindo a cozinha para preparar um bom café da manhã, não queria ser do tipo de hóspede aproveitador. Mika logo me acompanhou na minha empreitada e aos poucos a cozinha foi sendo preenchida por pessoas.

Primeiro foi Eiri, seguido de Shuichi e por fim Tatsuha. Novamente a minha respiração ficou presa na garganta quando o vi sentar com desleixo na cadeira. O uniforme do colegial não era diferente de tantos outros uniformes tradicionais de escolas japonesas, mas no corpo dele parecia lhe dar um charme a mais, o deixando quase inocente. Por reflexo coloquei o miso na cumbuca e o servi com o meu usual sorriso estampado no rosto como se nada de estranho tivesse acontecido na minha vida nos últimos dias.

- Ah, já ia esquecendo! – o vi tirar algo do bolso da calça e estender para mim. Por instinto peguei o objeto e percebi que ele arremessava um igual na direção de Eiri. – Não dá para eu ficar todas as horas do dia grudado em vocês dois. O templo tem amuletos para espantar os maus espíritos, a casa também – maus espíritos? Ele realmente estava falando sério? Ele acreditava que estávamos sendo assombrados pelo fantasma do Kitazawa? Sei que Mika estava começando a crer neste absurdo, Shindou havia comprado a história no mesmo segundo, Ryuichi… às vezes o que Ryuichi pensava era indecifrável para mim e Eiri, bem, Eiri também estava começando a crer nesta loucura. – Mas fora dessas paredes é cada um por si. Os amuletos são apenas uma questão de segurança…

- Você realmente acha que estamos sendo perseguidos por um fantasma? – tive que interrompê-lo. Eu era um homem de negócios, estatísticas, números, projeções, era nisto que eu acreditava. Coisas físicas, materiais, baseadas em estudos aprofundados e comprovados cientificamente. Fantasmas… eles eram histórias de terror para se contar em torno de uma fogueira em um acampamento de verão. Eu por exemplo conhecia várias.

- Você 'tá de onda comigo, certo? – o tom com que ele falou indicava que a paciência dele estava começando a se esvair. Sem contar que até agora eu estou esperando aquele tradicional sorriso matreiro surgir no rosto dele e ele gritar um "te peguei", provando que tudo isto não passou de uma brincadeira. Contudo, a cada minuto que passava com Tatsuha insistindo nesta história, com ele parecendo cada vez mais sério diante dos acontecimentos, começava a me fazer questionar algumas coisas. – Depois de tudo o que aconteceu nos últimos dias você ainda tem dúvidas?

- Bem… não houve comprovação… - tentei insistir, mas ele me interrompeu bruscamente com os olhos flamejando de raiva e frustração.

- Comprovação? Um refletor de vinte quilos caiu sobre você, o vidro a prova de balas da janela do seu escritório estourou sem nenhum motivo aparente e mensagens de ameaça surgiram em local público e no apartamento de Eiri… brotaram na parede… com sangue! Você quer mais comprovação do que isto? O que você quer? Ver o homem por si só? – bem, seria uma boa. – E pretende fazer o que se isto acontecer? Convencê-lo de seu erro, pedir para deixá-lo em paz? Suborná-lo? – bem, todos tinham o seu preço, até fantasmas, não? Pensei com escárnio. – Só para você saber e caso não tenha registrado nesta sua cabecinha oca – ele me cutucou bem no meio da testa. – o único pagamento que Kitazawa quer é a sua vida e ainda sim estou começando a achar um mau negócio… pra ele. – com isto ele deu as costas e foi embora.

- Eu não sei Seguchi-san – a voz de Shindou chamou a minha atenção para ele. – diante dos acontecimentos há de se convir que não tem explicação lógica para estes atentados misteriosos.

- E você prefere crer que é um fantasma? – retruquei contrariado, ainda achando isto ridículo e batendo com o amuleto sobre a mesa. – Faça-me o favor. – e voltei para a cozinha para terminar o café.

Minutos depois Ryuichi se uniu a nós com uma expressão no rosto de alguém que não teve uma noite bem dormida, mas não comentei nada. Em silêncio tomamos o nosso desjejum e logo depois peguei o meu celular, começando a fazer algumas ligações para resolver alguns negócios. Só porque estava longe fisicamente da NG não significava que eu tinha deixado der ser seu presidente. E então horas depois eu era tirado do meu trabalho por uma Mika entediada que resolveu pegar o carro do pai emprestado e me arrastar para o shopping mais próximo. E foi assim que eu me encontrei na situação atual.

Estávamos andando pelo shopping como um casal normal, com Mika entrando e saindo de lojas, aumentando ainda mais a fatura do meu cartão de crédito e desfalcando a cada minuto a minha conta bancária quando senti algo estranho acontecer. A sensação de ter um cubo de gelo descendo pelas costas, a mesma que eu tive na noite anterior na casa de Eiri, apoderou-se do meu corpo. Abruptamente virei para encarar minha esposa dentro da loja de roupas e o meu coração veio à boca quando vi no vidro da vitrine não apenas o meu reflexo, mas o de Yuki Kitazawa parado atrás de mim. Recuei aos tropeços e só tive tempo de soltar um fraco "Mikarin" antes de sentir a minha garganta fechar e começar a sufocar sem motivo aparente. Minhas pernas perderam a força, me fazendo cair de joelhos no chão e segundos depois Mika estava ao meu lado gritando o meu nome e pedindo por ajuda.

Através das lágrimas que brotavam de meus olhos pude ver funcionários e seguranças do shopping vir ao nosso auxílio. Mas quando eles chegaram perto o suficiente uma força invisível os arremessou para longe, os impedindo de me ajudar. Logo as pessoas que nos cercava assistindo a cena entraram em pânico diante deste acontecimento estranho e começaram a se afastar. Alguns seguranças mais corajosos tentaram mais uma vez me socorrer, mas novamente foram arremessados para longe. O desespero preenchia todo o meu corpo, eu me sentia como se estivesse me afogando no seco e os gestos frenéticos de Mika ao meu lado não estavam me ajudando em nada. Pontos escuros começaram a surgir em frente aos meus olhos e quando pensei que iria apagar de vez e partir desta para a melhor, a pressão em minha traqueia sumiu e o ar abençoado retornou aos meus pulmões.

- Tohma… - Mika me abraçou e pude perceber que ela tremia e chorava contra a minha nuca. Quis consolá-la mas estava ocupado demais reaprendendo a respirar e olhando a minha volta para o caos que acontecia. Um tremor sacudiu o chão do shopping e o barulho de explosão chegou aos meus ouvidos. Me virei na direção do som para ver Tatsuha colocar-se na minha linha de visão como se estivesse impedindo a passagem de alguém e fechar o punho firmemente, socando o ar. Estranhei este gesto mas quando a vitrine de uma loja estourou do outro lado do saguão e mais um tremor fez o shopping balançar eu senti como se tivesse levado um banho de água gelada.

Ele estava brigando com o Kitazawa. Ou o que seria o fantasma dele. Chocado nem percebi que agora Mika me ajudava a levantar, estava mais preocupado com o que eu tinha acabado de perceber. Era como se um véu que ocultava a minha vista tivesse sido retirado de frente dos meus olhos e a negação finalmente foi banida do meu cérebro. Percebi o perigo que corríamos quando Tatsuha veio em nossa direção e se arremessou contra nós, nos derrubando no chão de novo. Olhei por cima do ombro dele apenas para ver que o local onde estávamos agora era consumido pela gigante árvore de Natal e seus enfeites e galhos. Um som estrangulado surgiu da boca de Mika e eu mirei o mesmo local que ela olhava apenas para ver que agora o caçula dos Uesugi parecia brigar com uma força invisível que tentava esganá-lo e logo depois chutar a mesma para longe.

Vê-lo lutando com algo que aparentemente estava e não estava lá era surreal. Saber que esta criatura invisível era Kitazawa era ainda mais assustador.

- Onde está o amuleto? – ele gritou para mim e eu me senti perdido. Havia deixado o amuleto sobre a mesa da cozinha esta manhã simplesmente por não acreditar que ele fosse me servir de alguma coisa. Agora em pensar que se eu tivesse simplesmente o guardado sem protesto teria nos evitado esta confusão... E se Tatsuha não estivesse aqui para me salvar, o que teria acontecido? A probabilidade simplesmente fazia o meu coração parar. – ONDE ESTÁ O AMULETO? – ele repetiu e eu vi de canto de olho Mika revirar a própria bolsa e tirando de dentro dela o dito amuleto, o jogando para Tatsuha. Aparentemente a minha esposa não era tão estúpida quanto eu e levou as ameaças e atentados mais sério do que eu estava levando.

Tatsuha recolheu o amuleto no ar e pareceu espalmá-lo contra algo. Vi surpreso o objeto se desintegrar em chamas e quando isto aconteceu o restante das vidraças das lojas que ainda estavam intactas estouraram em milhares de pedaços, causando um som ensurdecedor. Quando o último caco de vidro caiu no chão, veio o silêncio. Ainda com o coração aos pulos e com uma Mika trêmula em meus braços, sobressaltei quando vi Tatsuha erguer-se do chão como se nada tivesse acontecido e fazer uma careta de dor. Automaticamente meus olhos correram pelo corpo dele e vi chocado que em seu pescoço havia marcas de dedos, o que comprovava mais uma vez que Kitazawa esteve aqui, foi o responsável por todo este estrago e que mesmo depois de morto ele não era capaz de nos deixar em paz.

- E aí? Isto é prova o suficiente? – ele provocou e tudo o que pude fazer foi encará-lo com o rosto provavelmente pálido de pavor e engolir em seco. – Vamos embora. Não quero bater o recorde de passagens pela polícia antes dos dezoito anos. – comentou e começou a mancar na direção do elevador.

Rapidamente ajudei Mika a se levantar, recuperando aos poucos o controle da situação visto que ela ainda estava em choque. Recolhi as bolsas de compras e segui o garoto, apenas para me surpreender mais uma vez ao vê-lo recolher a mochila que flutuava no ar. Apreensivo, entramos no elevador com Mika me abraçando pela cintura e escondendo o rosto na curva do meu pescoço. Ela estava mais afetiva que o normal, mas creio que foi o susto que a deixou assim, acho que ela estava tentando garantir a si mesma que eu ainda estava vivo.

Aos poucos o elevador foi subindo os andares em direção ao estacionamento enquanto eu observava de rabo de olho Tatsuha conversar com o nada, como se estivesse falando sozinho. E então uma frase dita por ele fez o ar sair em alta velocidade dos meus pulmões.

- Trauma infligido pelo morto? – arregalei os olhos e senti um arrepio descer pela espinha quando escuros olhos castanhos cravaram-se sobre a minha pessoa com um brilho peculiar nos mesmos. O elevador soltou um suave "plim", indicando que havíamos chegado ao nosso destino e calado Tatsuha saiu do mesmo, cruzando mancando o estacionamento em direção ao carro que havíamos pegado emprestado.

- Tatsuha... - o chamei, com Mika ainda silenciosa e pendurada em meu braço. Suas mãos estavam frias e tremiam e a pele continha um tom mais pálido que o usual. Suspirei. A minha adorada esposa que sempre foi uma parede de ferro intransponível parecia estar em choque.

- Nem uma palavra. - o rapaz sibilou entre dentes para mim como um animal raivoso. Percebi que a atitude dele não era o espelho de alguma fúria contida, mas sim de mágoa e sentimento de traição. Seja lá o que ele tenha descoberto da criatura invisível que lhe entregara a mochila não havia sido uma boa coisa e com certeza fizera com que os fracos laços que mantinham aquela família unida de maneira instável se romperem de vez.