Capítulo VIII
O olhar que recebi do meu pai quando passei pela soleira da porta foi mais do que normal em minha rotina. Aquele olhar desapontado, seguido pelo erguer de sobrancelha, o sacudir de cabeça, o cruzar de braços sobre o peito e o suave "tsc" sob a respiração. E sim, eu estou bem, obrigado por perguntar. Por se importar. Obrigado por notar meu tornozelo torcido e as marcas de estrangulamento em meu pescoço. Pensei com acidez enquanto via o velho dar as costas com os ombros arriados e sumir em um corredor da casa.
Tohma passou por mim em seguida, guiando uma Mika ainda pálida até o sofá e a acomodando sobre as almofadas. Rolei os olhos. Minha vontade era de afogá-la no lago sagrado do templo para ver se ela acordava deste estupor ridículo. Sinceramente, este choque por ter cruzado com um poltergeist estava durando tempo demais e não era característica da minha adorada irmã se deixar amedrontar por pouca coisa. Qual é, era apenas um fantasminha emputecido com a vida, nada demais. Normal até, já que eu costumo encarar um desses ao menos uma vez por semana.
É, bem vinda a minha vida oneesan.
- Está tudo bem Mikarin... - Seguchi ajoelhou-se em frente a ela, segurando as suas mãos trêmulas em um gesto de conforto.
- Por hora. - murmurei e parece que não foi baixo o bastante, pois os olhos claros do loiro me fuzilaram e Mika mirou-me com uma expressão horrorizada. - O quê? Acha que aquele amuleto mandou o fantasma grande e mau embora? - ri uma risada amarga, me jogando no sofá pois não aguentava mais ficar em pé sobre o tornozelo ferido. O mesmo estava começando a latejar. - Faça-me o favor.
- O que aconteceu? - ah, o trio parada dura resolveu dar o ar de sua graça. Eiri, Shuichi e Ryuichi surgiram na sala, com o meu irmão tragando o seu cigarro a tira colo e lançando suas perguntas com a mesma expressão de descaso de sempre, como se a resposta não lhe interessasse em nada. Se não estava a fim de saber, então por que perguntava? Idiota!
Parecia que eu estava sendo mais rude que o normal? Eu sei. Mas acabei de descobrir todos os podres da minha família, todos os seus segredos, através de uma lolita gótica que está morta em vez dos meus próprios parentes. E embora eu não tenha nenhum envolvimento com esta merda, sou eu que estou tendo que consertar a cagada, seja esta qual for, que o Seguchi fez.
- Resolvemos fazer um menage a troi. Faz tempos que eu estava querendo saber como era cometer um incesto e Seguchi tem a maior cara de uke que eu já vi. Mas como pode ver... parece que exageramos um pouco. - a reação foi imediata. Eiri arqueou as sobrancelhas desacreditado, Tohma soltou fumaça pelas orelhas de raiva, Shuichi ficou vermelho de vergonha, Mika acordou de seu estado de choque e gritou um "Tatsuha" ultrajada e Ryuichi... Ele foi curioso... Ele me olhou com uma expressão azeda que eu quase identifiquei como ciúmes mas achei por demais absurdo. Mal nos conhecíamos então não tínhamos bagagem sentimental o suficiente para ter tamanha possessividade um sobre o outro desta maneira.
- Muito engraçado. - Eiri soltou, mas não ria.
- Estou vendo você rir. - rebati igualmente azedo.
- Tohma... O que houve? - o tom de Sakuma-san foi mais sincero e o loiro voltou seu olhar para o vocalista, soltando um longo suspiro sofrido. Parecia que admitir a verdade era realmente doloroso para o orgulho de Seguchi. Sentei-me melhor no sofá, abandonando a pose largada de antes pois esta era uma cena que eu queria testemunhar. Não era todos os dias que Tohma Seguchi mordia a sua maldita língua venenosa e admitia que estava errado.
- Fomos... - pigarreei. Olha a mentira deslavada amigo. Até onde me lembro da cena você estava sufocando e Mika estava gritando feito uma hiena. - Fui... - ele prontamente se corrigiu, me olhando atravessado, e eu apenas lhe sorri inocentemente. - atacado. - os olhos azuis de Ryuichi ficaram largos.
- Por quem?
- Pelo que seria a pergunta exata. - interrompi e os ombros do tecladista encolheram e ele fez uma careta desgostosa. - Vamos cunhado amado, - zombei. - eu quero ouvir. E não deixe de fora nenhuma vírgula. - coloquei a mão em forma de concha sobre um de meus ouvidos, inclinando a cabeça em sua direção. Estava puto da vida, era um fato, e queria realmente cutucar a ferida. Estava na hora de alguém se ferrar mais nesta história além de mim.
- Por... - Tohma engoliu em seco e todos esperaram apreensivos. Mika voltou a ficar pálida e trêmula, Ryuichi franziu as sobrancelhas, com certeza seu instinto sensitivo já prevendo a resposta e Shuichi e Eiri continuaram boiando no assunto. - Yuki Kitazawa. - ah... A glória. Consigo até ouvir o canto gregoriano em meus ouvidos com o seu "aleluia".
- Isto é... - Eiri soltou um riso nervoso e eu o encarei com os olhos estreitos.
- Não é Eiri... Eu atestei, comprovei, que era o Kitazawa. - Tohma o interrompeu e eu pude quase ver o coral de anjos. Hoje era o dia dos milagres.
- Você o viu? - contestou o meu irmão teimosamente.
- Não.
- Então.
- Ah por Buda! - interrompi. - Olhe! - puxei a gola da minha camisa, mostrando para os olhos dourados as marcas roxas em meu pescoço em formato claro de dedos, indicando que alguém tentou me estrangular. - Seu amado Kitazawa mandou um oi. - praticamente cuspi o nome e Eiri retesou-se todo.
- Tatsuha... - Tohma me repreendeu, mas eu apenas o encarei com uma expressão enojada.
- Não venha com Tatsuha para cima de mim Seguchi! - explodi, começando a gesticular largamente. - Vocês todos mentiram para mim. Eu simplesmente deveria dar as costas e deixar vocês se fuderem. Deixar o Kitazawa te matar, porque com certeza do jeito que você é uma flor que não se cheira bem que merece ir para os quintos dos infernos! - lágrimas brotaram dos olhos de Mika diante das minhas palavras dura, Tohma encolheu-se como se tivesse levado uma bofetada, Eiri ficou branco e Shuichi grudou-se no braço dele procurando conforto, com certeza assustado diante desse lado nada amigável meu.
Ryuichi, ao contrário, me mirava com uma expressão extremamente fechada.
- Não é bem assim...
- Não é bem assim? - o interrompi antes que Seguchi pudesse se defender. - Quando vocês pensaram em me contar a verdade? Nunca, não é mesmo? É bem a cara de vocês esquecerem que existe mais um Uesugi nesta família. - acusei, passando as mãos pelos cabelos em um gesto extremamente frustrado. Todos sempre escondiam coisas de mim, Tohma vivia protegendo e mimando Eiri, Mika ia na onda, meu pai só olhava para mim com desapontamento e no fim a única companhia que eu tinha, a única família que me restava, era o fantasma da minha mãe morta.
Era legal e coisa e tal... Mas convenhamos que não era muito saudável, visto que eu era o único desta casa que podia vê-la.
- E o que você pretende fazer? - Ryuichi cortou o meu ataque de adolescente rebelde. - Abandoná-los e deixá-los a mercê do Kitazawa? - fez uma expressão enojada, com certeza me considerando o mais baixo dos homens seu eu ao menos pensasse nesta possibilidade.
- Não. - rolei os olhos e o cantor arqueou as sobrancelhas.
- Mas não está feliz em ajudá-los.
- Eu não estou feliz em ter que descobrir coisas sobre a minha família por terceiros, apenas isto. E além do mais, se eu não ajudá-los minha mãe vai ficar atazanando os meus ouvidos até eles sangrarem. E sinceramente eu não posso suportar o resto da minha vida com aquela mulher no meu pé. - Sakuma deu um meio sorriso.
- Não deveria falar assim da sua mãe.
- Até você falaria assim dela se a conhecesse como a conheço.
- Mamãe? - ops, esqueci onde estávamos e com quem estávamos. Virei-me para ver-me sob os olhares intrigados de Mika e Eiri.
- Pois é... Vocês já sacaram que eu não sou lá muito normal, não é mesmo? Então... Eu vejo fantasmas. - esperei por rostos surpresos, mas todos continuaram impassíveis. Acho que este barco já tinha zarpado faz tempos e não era mais nenhuma novidade esse negócio de fantasmas e o fato de eu ser entendido do assunto.
- Acho que você não está sendo justo Tatsuha. - mirei Ryuichi. - Reclama que a sua família não lhe conta nada, mas você não faz o mesmo? - estreitei os olhos. Ao que ele se referia? Pensei um pouco até que a luz se fez em minha mente. Espertinho. Ele falava sobre o fato de eu nunca ter contado a minha família sobre ser um mediador.
- Muito esperto. Apenas que há uma diferença nos casos... Eu fui instruído por forças maiores a manter segredo.
- Forças maiores? - ele me desafiou. - Quem? - sorri matreiro.
- Minha mãe. - a palavra novamente fez Mika e Eiri reagirem. - Ah por Buda! Sim, mamãe morreu, não, ela não seguiu a luz e sim eu vejo, converso e tenho que ouvir os sermões do fantasma dela. - lágrimas começaram a rolar dos olhos da minha irmã diante da minha confissão e juro que aniki tinha os orbes claros brilhando também por causa das lágrimas.
- Você vê a mamãe? - Mika ofegou, rodando os olhos pela sala a procura de algo.
- Ela não está aqui. - esclareci e o rosto dela adquiriu uma expressão decepcionada.
- Isso explica... - Eiri balbuciou.
- Explica o quê?
- Você nunca chorou pela morte da mamãe. Você nunca agiu como se ela tivesse morrido. Era extremamente estranho. Normalmente o caçula sente mais a perda, ainda mais que você era o mais apegado a ela. Estávamos preparados para isso, para tratamentos e psicólogos, mas você nunca apresentou nenhum quadro de perda. Na verdade você agia como se nada tivesse acontecido. - quis gargalhar e cruzei os braços sobre o peito. Era verdade, para mim nada tinha mudado. Mamãe continuava ao meu lado, apenas de maneira diferente. E mesmo que eu tentasse agir como se tivesse sofrido uma grande perda, nunca fui um bom ator.
- Ainda sim não explica... - Tohma entrou na conversa com uma cara de que estava prestes a estragar a interação amigável e fraternal que estávamos tendo. - Ryuichi parece ter a resposta do porquê você consegue ver e interagir com Kitazawa, algo que você ainda não nos disse. - todos concordaram com a cabeça, exceto Sakuma, e eu abri um largo sorriso.
- E continuarão sem saber.
- Tatsuha... - Mika começou e eu fechei a cara.
- É meu segredo, minha vida. Aliás, é a minha vida por anos e vocês só perceberam este detalhe sobre mim porque a minha vida infelizmente trombou com a de vocês. Senão, continuariam cegos como morcegos. Então não, não abrirei a minha boca. E se você ousar soltar um pio – mirei Sakuma ferozmente. - eu te exorcizo.
- Não estou morto, não pode me exorcizar. - meu sorriso ficou maldoso.
- Tudo que tem alma é exorcizável. Então não me teste. - o vi engoli em seco e ofegar e depois virei-me para Seguchi. - Okay... Kitazawa está puto, bem puto, e eu adoraria saber por que. Eiri o matou então a lógica seria ele querer arrancar o couro do meu adorado irmão então não entendo por que ele o quer. - fixei meu olhar sobre o loiro.
- Eu menos ainda. - Tohma deu de ombros e o encarei por longos segundos, o que o fez ficar incomodado e desviar o olhar. Suspirei. Parecia que ele falava a verdade e não tinha ideia do porquê Kitazawa querer a sua cabeça.
- Então teremos que partir para o plano B.
- Plano B? - Shuichi finalmente se pronunciou e eu fiquei surpreso, pois praticamente tinha esquecido da presença dele ali de tão quieto que estava.
- Estou cansado dos ataques surpresas do amiguinho de vocês. Já está na hora de um contra ataque. - murmurei irritado, começando a bolar altos planos em minha mente. Lancei um longo olhar para Ryuichi ao meu lado e sorri torto. - Me diga Sakuma-san... - sussurrei em seu ouvido e o vi tremer por inteiro. - Até onde vai o seu conhecimento religioso?
- Como? Por quê? - o mirei de cima a baixo.
- Porque você também está no plano B.
oOo
- Tem certeza de que isto vai dar certo? - desviei o olhar para o homem mais baixo ao meu lado que parecia mais do que nervoso, parecia prestes a desfalecer. Os cabelos loiros estavam escondidos sob o tradicional chapéu estilo Charles Chaplin que costumava usar, havia óculos escuros cobrindo os olhos claros, as mãos enluvados torciam os dedos um nos outros e ele encolhia-se sob o casaco com gola de plumas. Sacudi a cabeça. Tohma com certeza não tinha a palavra "discreto" no dicionário.
- Não. - respondi sinceramente. Se esta maluquice iria dar certo eu não fazi a mínima ideia. Rodei o olhar a minha volta, para o prédio interditado e que seria demolido em breve para tornar-se um centro comercial. Estávamos no pátio dos fundos do mesmo, em uma área aberta e bem longe de qualquer muro, coluna ou teto, para evitar qualquer tipo de acidente caso as coisas saíssem do controle. Afinal, estava com um civil ao meu lado. - Trouxe a foto?
Tohma assentiu com a cabeça, retirando a fotografia do bolso da calça e a estendendo para mim. Nela havia um homem de cabelos caramelos e olhos cinzentos que sorria ao lado de um adolescente loiro e de olhos dourados. Eiri. Na época em que ele ainda era feliz antes deste desgraçado arruinar com a vida dele. Rasguei a foto ao meio, retirando meu irmão da mesma e o devolvendo a Seguchi, ficando apenas com a imagem de Kitazawa.
Com isto, fui até o meio do pátio e retirei da bolsa que carregava os incensos, os colocando em suas bases e os acendendo. Prendi a fotografia em uma base também e coloquei dentro do círculo de incensos, me afastando do mesmo e começando os cânticos antigos, traçando com os dedos das mãos os mudras necessários para caracterizar os símbolos sagrados. Tohma me observava em silêncio e prendeu a respiração quando a fumaça soltada pelos incensos aumentou e a mesma começou a formar um círculo.
Vento soprou pelo pátio e uma forma começou a se materializar na minha frente até ficar completamente sólida e com uma expressão de poucos amigos no rosto. Encerrei os cânticos e sorri.
- Olá. - inclinei a cabeça para o lado enquanto Kitazawa me olhava atravessado.
- Eiri... - rosnou.
- Sensei... Eu queria pedir desculpas pela última vez. - disse suavemente e o rosto do fantasma foi desfazendo a expressão de desagrado aos poucos. Okay, eu disse que era um péssimo ator, mas isto foi quando eu era criança. A medida que fui crescendo meu talento evoluiu comigo. Se o defunto achava que eu era Eiri, então ele teria o Eiri.
- Por que me interrompeu Eiri? Seguchi merece morrer! - vociferou e o prédio atrás de nós tremeu nas bases, com Tohma imitando o edifício e se arrepiando todo. Frouxo. - E por que o trouxe aqui? Vai me dizer que finalmente irá permitir que eu... - um sorriso maldoso surgiu no rosto de Kitazawa e ele deu um passo a frente.
- Não! - estendi a mão, o parando, e coloquei um sorriso inocente no meu rosto. - Não foi por isso. Não por enquanto. - precisava ganhar tempo. Eu precisava entender. - Apenas não entendo sensei... O senhor...
- Você, Eiri. Quantas vezes eu tenho que repetir. - alarguei o meu sorriso.
- Desculpe. - disse coquete, sentindo vontade de me chutar na bunda. Lembro como Eiri era quando adolescente e fiz questão de torturar o meu irmão perguntando detalhe por detalhe de como era a relação dele com o professor aloprado. Como eles conversavam, como ele costumava chamar o homem, como ele costumava agir. O que ele sentia pelo psicótico e coisa e tal. Mas sinceramente, assumir o papel de um adolescente apaixonado não era para mim. Era por demais ridículo. - Você... - abaixei o rosto como se estivesse constrangido, mas na verdade eu estava era enojado. Meu irmão era um idiota aos quinze anos. Misericórdia. - tem consciência de que... - diminui o tom de voz e entrei na frente de Tohma, bloqueando a visão de Kitazawa para o loiro. - está morto? - sussurrei.
Kitazawa estreitou os olhos e rangeu os dentes, batendo o pé no chão e um tremor percorreu o solo trincado do pátio, abrindo mais fendas no mesmo.
- Por culpa dele! - vociferou, apontando para o loiro estático atrás de mim.
- Como? - ofeguei bestamente. - Mas sensei... Não lembra do que aconteceu? - forcei algumas lágrimas surgirem nos meus olhos, o que foi praticamente um parto conseguir tal feito. - Você... - funguei. - Você... - abaixei mais a cabeça e senti o homem atrás de mim fechar os dedos nas costas da minha jaqueta a procura de proteção e com certeza usando meu corpo maior como escudo.
- Eu sei o que fiz. - o tom sofrido me fez mirar o fantasma e vê-lo levar as mãos aos cabelos e puxá-los com força, começando a perambular de um lado para o outro. - Mas eu não tinha consciência do que fazia.
- O que ele está dizendo? - Tohma me perguntou e eu dei um breve resumo da conversa para ele. - É mentira! - defendeu-se o loiro ao fim do meu relato e eu o olhei por cima do ombro. Agora não era uma boa hora para ele adquirir culhões.
- NÃO SE META! - Kitazawa fez um gesto largo com o braço e eu senti as mãos se desprenderem da minha jaqueta e Seguchi voar baixo pelo pátio, indo chocar-se contra uma coluna de sustentação do prédio atrás de nós.
- Tohma! - me movi na intenção de socorrê-lo, mas a voz sibilada do fantasma me fez paralisar no lugar.
- Era sempre ele! Você sempre o colocava em primeiro lugar! - rosnou o poltergeist. - Poderíamos ter algo lindo. Poderíamos ser felizes! Então essa besta dos infernos se meteu em nosso caminho e por causa dele nos separamos. Você deu ouvidos a ele... Ouviu o que ele disse sobre ser errado, sobre ser muito novo, sobre não ser certo. - o sujeito era obcecado. Foi a conclusão ao qual cheguei. Yuki Kitazawa além de ser um viciado era cheio de problemas psicológicos. Com certeza ele ficou obcecado por Eiri e meu irmão com o seu jeito tolo e inocente de ser na adolescência fascinou-se pelo professor, paixonite de infância.
Então, Tohma Seguchi, o tubarão loiro, meteu-se na história, arruinando todos os planos de Kitazawa.
- Eu fiz o que fiz por desespero!
- Me vendeu como objeto de foda para os seus amigos marginais por desespero? - Kitazawa soltou um grito agoniado que fez as minhas orelhas doerem.
- Tohma ameaçou me despedir. - bem a cara do Tohma fazer isso. - Eu não podia ficar longe de você. - me segurei para não rolar os olhos e na minha cabeça só veio três palavras: rainha do drama.
- Mas eu atirei em você... - insisti.
- Por culpa do Seguchi. - o cara teimava em bater na mesma tecla. - Se ele não tivesse nos separado eu não teria feito o que fiz, não teria te traumatizado, não teria o incitado a me matar...
- E agora não estaria me atolando os ouvidos com toda esta merda. - agora rolei os olhos.
- Eiri! - ele gritou chocado. Cansei de bancar o adolescente babaca apaixonado. Deixaria isso para o meu irmão pois não tinha vocação para essas coisas.
- Então resumo da ópera... - puxei um maço de cigarro do bolso de trás da calça, levando um canudo a minha boca e o acendendo. - Tohma agiu como Tohma, sendo um babaca egoísta e você destrambelhou de vez porque não aguentou a pressão do tubarão loiro e resolveu descontar em cima de mim. No fim acho que até mereceu o tiro que dei nas suas fuças. Um merda a mais um a menos no mundo não faz diferença... - se um fantasma era capaz de ficar vermelho de raiva, coisa que eu sei que não acontecia, Kitazawa estava sendo o primeiro a quebrar este paradigma. - Mas ei! Tenho que te agradecer pelo menos. Por sua causa me transformei em um escritor podre de rico e agora tenho meu próprio brinquedo de foda e ele é muito mais interessante que você. - sorri torto na melhor imitação Eiri Uesugi. Ou melhor, Eiri Yuki.
Kitazawa rosnou como uma fera enlouquecida.
- Eiri...
- E para esclarecer apenas mais um ponto... - larguei o cigarro no chão, o amassando com a ponta da minha bota de combate. - Eu não sou o Eiri. - e parti para cima dele, desferindo um soco e o arremessando de volta para dentro do círculo de incensos.
- Miserável! - Kitazawa vociferou, fazendo todo o terreno sacudir e eu olhei por cima do ombro para um Tohma que usava a coluna como escora para se erguer.
- Hei! - gritei para ele, lhe chamando a atenção. - Não quero estragar a sua cesta, mas agora seria uma boa hora para começar. - os olhos piscaram por detrás das lentes coloridas dos óculos e eu senti um punho comprimir a minha barriga, me tirando o ar e me jogando longe. É... A briga desta vez seria boa e com direito a desencarnação e ossos partidos.
