Interlúdio V

Ryuichi

- Hei! Não quero estragar a sua cesta, mas agora seria uma boa hora para começar. - pisquei por detrás das lentes dos óculos coloridos, tirando os mesmos do meio do caminho e os guardando no bolso do casaco. Fiz o mesmo com o chapéu e me livrei da peruca loira logo em seguida. Ainda estava um pouco zonzo e dolorido e com movimentos lentos comecei a tatear os bolsos do casaco e depois da calça a procura do papel que Tatsuha havia me entregado mais cedo.

Encurtando uma longa história. Eu era o plano B. Tatsuha atraía Kitazawa se fazendo passar por Eiri, eu estaria com ele me fazendo passar por Tohma, apenas para garantir que o fantasma permanecesse no local e não fosse atrás do meu amigo, e enquanto o garoto distraía o poltergeist eu começaria o ritual de exorcismo. É, isso mesmo. Eu, Ryuichi Sakuma, cantor, ator e vocalista do Nittle Grasper, fazendo um exorcismo. Nunca em minha vida pensei que chegaria a tanto. Que emoção – note o sarcasmo – posso até colocar isto em meu currículo.

Vi Tatsuha ser arremessado longe por uma força invisível que presumi ser Kitazawa, pois os arrepios nada agradáveis que passavam pelo meu corpo era indicação clara da presença dele no local, e rapidamente percorri meus olhos pelos escritos na folha. Havia decorado os mudras, mas o cântico era algo mais complicado que me fugia um pouco da mente. Com isto, inspirando profundamente e mais nervoso que em estreia de turnê, me aproximei do círculo de incensos.

Pouco a pouco comecei a cantarolar. Eu podia fazer isso, era o que repetia para mim mesmo enquanto erguia os olhos e via Tatsuha sendo jogado de um lado para o outro o que fazia ferimentos surgirem na pele morena exposta. Mais um arremesso e ele trombou contra o muro dos fundos do terreno. Ofeguei, cessando o meu cântico e vendo quando ele cuspiu um bocado de sangue.

Quis correr até ele, socorrê-lo, mas um olhar dos olhos escuros me fez ficar paralisado no lugar e um franzir de sobrancelhas me obrigou a retornar as minhas tarefas. Retornei a cantar. Vento frio soprou e o céu de fim da tarde pareceu escurecer rapidamente. A fumaça dos incensos ficaram mais fortes, formando um rodamoinho de névoa e aroma de sândalo. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram quando acima do círculo um enorme buraco negro se abriu, sugando a fumaça para dentro do mesmo e qualquer coisa que estivesse em um raio de dez metros de proximidade.

- Tatsuha! - gritei e Tatsuha, que ainda parecia apanhar feio contra o muro de concreto, ergueu os olhos negros que brilharam de maneira ferina. Vi os punhos dele se fecharem fortemente e um sorriso maldoso brotar no rosto bonito. Uma mistura de temor e expectativa percorreu o meu corpo ao ver a expressão agressiva que ele ostentava e quando uma postura predatória tomou conta dele, prendi a respiração.

Não podia ver Kitazawa, mas creio que se fosse ele teria medo, muito medo, ainda mais quando Tatsuha desferiu um soco em pleno ar que acertou algo que não pude ver, mas percebi que a atmosfera a frente dele parecia ter se alterado e o som de vento soprando soou perto do meu ouvido. Um estouro ecoou pelo prédio inteiro que sacudiu ao mesmo tempo em que uma coluna de sustentação era partida ao meio por algo que fora de encontro a ela.

Como um raio Tatsuha correu até o local e fechou os dedos em alguma coisa e eu pude apenas imaginar, pela posição e pelo gesto, que ele estava, literalmente, arrastando Kitazawa pelos cabelos até o buraco negro acima dos incensos e esse não estava indo de bom grado pois o terreno todo tremia a nossa volta, o chão começava a apresentar veias de rachadura no concreto e o vento da noite soprava cada vez mais frio e assustador.

Dei um pulo quando uma parte da estrutura do edifício interditado se soltou diante de tanta balburdia e espatifou-se no chão ao mesmo tempo em que um jovem Uesugi impaciente, sangrando e coberto de hematomas desferia um chute no fantasma que trazia pelos cabelos, fazendo a situação ao nosso redor ficar ainda mais perigosa diante da fúria desprendida por Kitazawa. Finalmente eles chegaram a roda de incenso e com um gesto brusco de braço Tatsuha pareceu arremessar o poltergeist na mesma.

Um raio de luar perpassou uma nuvem e eu me surpreendi ao ver a luminosidade descer sobre o local e clarear a silhueta do homem que assombrou as nossas vidas nos últimos dias. Ele não era sólido como Tatsuha descrevera, como ele costumava ver, na verdade era quase transparente, mas mesmo assim ainda pude presenciar a névoa e a fumaça rodeá-lo e o aprisionando como poderosas correntes de ferro.

- Eiri! - ele gritou enfurecido e fiquei chocado ao perceber que podia ouvi-lo. - Por que Eiri? - uma lágrima translucida escorreu pela bochecha igualmente transparente e Tatsuha franziu a testa.

- Tatsuha... - sibilou irritado. - Meu nome é Tatsuha. - Kitazawa arregalou os olhos.

- O irmão mais novo. - Tatsuha pareceu surpreso ao saber que o fantasma o conhecia. Kitazawa fez uma expressão ainda mais azeda. - Eiri nunca calou a boca sobre você. Sempre tive vontade de conhecê-lo. O adorado irmão mais novo. - sorriu maldosamente e meu corpo todo formigou. Se eu pudesse, eu mesmo socava aquele sorriso para fora da cara dele.

- Que bom... Então espero que se lembre que o irmão mais novo também é o responsável por isto... - com isto Tatsuha cantarolou mais alguns cânticos que não pude compreender, fazendo uns mudras complicados com os dedos e a fumaça espremeu Kitazawa que soltou um grito estrangulado enquanto era sugado para o buraco negro. - Tenha uma boa viagem.

- Moleque desgraçado! Isso não vai ficar assim! - protestou enquanto desaparecia na passagem.

- Ah... - Tatsuha rolou os olhos em um gesto exasperado. - Vai pro inferno. - declarou e Kitazawa sumiu, com o buraco fechando assim que ele desapareceu e em questão de segundos tudo retornou ao normal.

- O que... - perguntei abobalhado enquanto Tatsuha levava um cigarro aos lábios feridos.

- Parabéns Sakuma-san... Você fez o seu primeiro exorcismo. Estou orgulhoso. - sorriu torto para mim e meu coração deu um pulo. Ele estava descabelado, a sua jaqueta tinha alguns rasgos e estava coberta de fuligem. Os lábios bem desenhados estavam vermelhos por causa do sangue e o canto esquerdo da boca tinha um ferimento nada bonito. O supercilio direito também continha um corte. Os nós dos dedos estavam feridos, as calças cobertas de poeira e mesmo assim eu tinha vontade de pular sobre ele e violar algumas leis de atentado ao pudor.

Ele arqueou uma sobrancelha, a que não estava ferida, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando e corei de pronto, desviando o olhar e exalando longamente.

- Melhor irmos... Tohma e Mika devem estar nos esperando. - mudei de assunto. Tecnicamente era para termos vindo sozinhos nesta missão, mas Tohma insistiu em nos acompanhar e observar de longe para caso alguma coisa desse errado, como se ele realmente pudesse ser de grande ajuda visto que era o alvo principal. Por isso, depois de muito discutir e a extremo contragosto, Tatsuha concordou com a sugestão, entregando ao casal amuletos protetores, montando em sua moto e seguindo para este prédio interditado.

Quis montar na moto atrás dele, mas um olhar atravessado das íris douradas de Eiri me fizeram colocar o rabo entre as pernas e ir derrotado para o carro de Tohma, me acomodando no banco de passageiros. E agora, com a adrenalina baixa, a confusão encerrada e o trabalho feito, não perderia a oportunidade de retornar para o templo colado a aquelas costas largas. Não quando não tinha um escritor para me olhar feio diante dos meus pensamentos nada puros.

- Vocês demoraram. - Tohma resmungou assim que nos viu chegar perto do carro.

- Tatsuha! - Mika soltou em um ganido que foi ecoado por outra voz desconhecida. Dei um pulo de susto. Ao lado da mulher de cabelos acobreados estava outra, translúcida, de olhos dourados e cabelos escuros e que se parecia com Mika e com alguns traços recordando Eiri e Tatsuha. Seu rosto bonito não parecia nada feliz e ela tinha as mãos na cintura esguia enquanto torcia os lábios pálidos em uma expressão desgostosa.

- Tat-Tat-Tatsuha... - gaguejei, apontando bestamente para a criatura transparente que eu reconhecia ser um fantasma. O rapaz fez uma expressão de pouco caso.

- Minha mãe. - murmurou. - Precisamos treinar esse seu radar sensitivo. Você precisa aprender a saber a diferença entre um fantasma inofensivo e um poltergeist. - continuou, estapeando a mão de Mika que ia na direção do seu rosto para longe. - Pare com isto Mika, eu estou bem.

- Bem... Bem! - a mãe de Tatsuha grasnou, indo até o moreno e apertando a sua bochecha, o que o fez dar uma careta de dor. - Você chama isso de bem? Rapazinho... Está de castigo! - não pude evitar a risada que passou pelos meus lábios ao ver o olhar chocado nos orbes escuros.

- Mãe... Olha o mico! Têm pessoas vendo.

- Ninguém está me vendo além de você. - Tohma e Mika estavam surpresos demais com a interação que não conseguiam visualizar para reagirem e eu apenas pigarreei.

- Discordo. Eu a vejo. - interrompi a discussão entre mãe e filho e ambos me lançaram olhares idênticos de descrença.

- Oh... - Reika Uesugi soltou. - Seus poderes estão evoluindo bem rápido.

- Pensei que ele pudesse apenas sentir fantasmas.

- Ver também. Mas não pode tocá-los como você querido. Para ele fantasmas são como nas lendas... incorpóreos e translúcidos. De qualquer maneira, estou orgulhosa de você, embora tenha sido uma burrice ter provocado o Kitazawa daquela maneira e...

- Não me venha com sermões Sra. Uesugi que ainda temos muito o que conversar. Ainda mais sobre segredinhos de família e informações pela metade que anda mantendo de mim. - ele a fuzilou com o olhar e Reika fez uma careta sem graça.

- Ah, olha só a hora. Eu tenho que ir. Muitas coisas para fazer, para resolver...

- Que coisas para resolver? - Tatsuha segurou no pulso dela. - Você está morta!

- Isso não me impede de ter uma vida. - ela rebateu e com um sorriso e um aceno de dedos desapareceu no ar.

- Ela sempre faz isso. Quando o assunto fica sério e eu cobro por respostas diretas... puf... desaparece. Bem estilo dela. - resmungou, cruzando os braços sobre o peito.

- E então... - Tohma falou depois de um tempo em que Tatsuha ficou resmungando consigo mesmo sobre as atitudes da mãe. - Resolvido o problema? - perguntou em um tom impessoal, como se o exorcismo de Kitazawa fosse mais um serviço terceirizado contratado pela NG Record. Tatsuha apenas fez uma cara de que não estava acreditando no que ouvia e deu um sorriso torto.

- Claro que sim Sr. Seguchi. - respondeu em um tom perigosamente doce. - E isto me lembra. - e antes que Mika e eu pudéssemos reagir, desceu o punho fechado no rosto do meu amigo, o socando e ferindo o canto da boca dele no processo, o derrubando no chão e o fazendo arregalar os olhos verdes. - Da próxima vez que você resolver manipular a vida de alguém a ponto de ferrá-la de tal maneira que o infeliz acabe morto... Eu vou deixá-lo te assombrar pelo resto dos seus míseros dias. E que se dane a minha mãe atazanando os meus ouvidos pedindo por ajuda. Esta é a primeira e última vez que eu limpo as suas cagadas Tohma! Você está me devendo, e uma bem grande. E acredite... - sibilou ameaçador. - Eu vou cobrar. - e deu meia volta, indo a passos largos para a moto negra estacionada a poucos metros de distância do carro.

- Er... - tentei dizer alguma coisa para o loiro caído no chão, alguma palavra de apoio ou consolo, mas Tatsuha tinha razão em alguns pontos. Essa confusão toda era resultado da personalidade manipuladora de Tohma e do superprotetorismo dele. O loiro um dia ainda teria que aprender que as pessoas precisavam resolver seus problemas sozinhas e que ele por mais que tentasse ainda não era um deus. - Nos encontramos no templo. - completei, indo correndo até a moto e parando ao lado do jovem que já estava montado na mesma.

- O que foi? - ele me mirou longamente.

- Me dá uma carona? - perguntei inocente e recebi um sorriso de canto de boca e um capacete reserva foi jogado em minha direção. Prontamente o coloquei sobre a cabeça e subi no selim atrás de Tatsuha.

- Segura firme. - ordenou e eu envolvi levemente os braços em torno da cintura dele. - Mais firme. - reiterou e sorri, apertando os braços na cintura sob a jaqueta e espalmando as mãos no peito dele, me acomodando contra as costas largas e encaixando os quadris dele entre as minhas coxas. O motor roncou e vibrou sob os nossos corpos e eu quase gemi de prazer, me aconchegando ainda mais contra a pele morna e sentindo a moto disparar rua abaixo.

Dizer que chegamos ao templo Uesugi em questões de minutos seria uma grande mentira, já que tínhamos partido do prédio interditado depois do pôr-do-sol e retornado ao templo ao nascer do mesmo. Com risadas cúmplices e passos leves, Tatsuha e eu andamos pela propriedade, alcançando a casa que ficava nos fundos e entrando na construção no mais absoluto silêncio. Entretanto tamanha quietude provou-se inútil, pois assim que cruzamos a porta pares de olhos caíram sobre nós de maneira acusadora.

Como um raio Eiri ergueu-se do sofá onde estava e só não avançou para cima de mim porque foi bem segurado por Mika e Tohma. Shuichi que cochilava apoiado no namorado acordara com o gesto brusco do mesmo e depois de um tempo, ainda desorientado pelo sono, levantou-se também para socorrer o casal Seguchi e ajudá-los a conter a fera que era o escritor. Tatsuha ao meu lado apenas fez uma expressão de descaso e passou pelo irmão inabalado, indo jogar-se no sofá com um longo suspiro.

- Onde vocês estavam? - Mika perguntou enquanto ainda batalhava com um Eiri que tentava a todo custo vir para cima de mim, mas como não conseguia contentava-se em me matar aos poucos apenas com o olhar dourado intenso.

- Levei Ryuichi para conhecer Kyoto. - foi a resposta de Tatsuha antes que eu pudesse abrir a boca. - Ele disse que nunca teve tempo de fazer um passeio turístico pela cidade em todas as vezes que esteve aqui. - Tohma cometeu o erro de soltar o braço de Eiri diante de sua surpresa pela resposta e o escritor desprendeu-se de Mika e Shuichi com violência, vindo em minha direção e me segurando pela gola da camisa. Ofeguei.

- Duvido que qualquer ponto turístico da cidade estivesse aberto durante a noite. Menos ainda na madrugada. - o homem acusou com um sibilo, aproximando sua face avermelhada do meu rosto que com certeza estava pálido de pavor. Tatsuha soltou um longo suspiro exasperado de onde estava no sofá e ergueu-se, vindo até o irmão e fechando os dedos no tecido da camisa dele, dando um puxão na mesma.

Os olhos dourados de Eiri abriram-se largamente ao sentir-se ser bruscamente arrancado de cima de mim e arremessado sobre uma poltrona como se fosse uma simples boneca de pano. O moleque, durante o tempo em que rodamos pela madrugada de Kyoto, paramos em um fast-food vinte e quatro horas, compramos um lanche, alguns medicamentos na farmácia para os ferimentos do rapaz e depois nos acomodamos em um mirante, havia me contado algumas coisas sobre ser um mediador. E uma dessas coisas era a força acima do comum assim como a grande resistência física. A segunda eu tinha atestado enquanto tratava dos cortes dele depois do encontro doloroso com Kitazawa.

A primeira comprovei ao vê-lo me salvar de Eiri e livrar-se do irmão como se ele não pesasse uma grama. Um arrepio de prazer desceu pela minha espinha ao vê-lo me defender desta maneira.

- Você está sendo ridículo Eiri. - Tatsuha suspirou e Eiri rosnou entre dentes.

- Ridículo? - os olhos estreitos me fizeram recuar um passo e procurar refúgio atrás de Shuichi, pois creio que se o escritor resolvesse partir para a agressão física não iria ferir o amado namorado.

- Sakuma-san e eu apenas conversamos, não que eu tenha que lhe dar satisfações. E sinceramente, estou surpreso que seja você tendo o ataque de chilique e não o Tohma. - um olhar foi divergido a Tohma. Sei porque o meu amigo não estava se manifestando. Creio que toda a situação com o Kitazawa o fez refletir bastante sobre as suas atitudes e perceber que precisava maneirar um pouco no protetorismo.

- Ryuichi Sakuma pode agir como uma criança retardada – quis protestar em minha defesa, mas achei melhor ficar quieto e não atrair a atenção da fera loira. Tatsuha era mais forte do que eu e tinha experiência em lidar com espíritos vingativos. Irmãos mais velhos descontrolados seria água com açúcar perto do que ele já enfrentou. - mas ainda é um homem... quinze anos mais velho do que você! - vociferou e o rosto bonito do adolescente contorceu-se em um meio sorriso.

- Entendo... - disse, cruzando os braços sobre o peito. - Não creio que nosso relacionamento chegue a tanto. Não no momento. - os olhos escuros me miraram de maneira intensa e não pude deixar de concordar com ele. No momento o que havia entre nós era uma atração física. Tatsuha me fascinava com todos os seus mistérios, sua sensualidade, o fato de ainda ser um moleque no corpo de um homem adulto, algo proibido e extremamente tentador, mas isto não significava que eu estava apaixonado por ele. Mal o conhecia. Não sabia os seus gostos, apesar de saber que era fã do NG, mas isso era detalhe de pouca importância. Shuichi também era fã do Nittle Grasper e eu o conhecia mais intimamente do que o outro adolescente.

Entretanto queria arriscar. Queria conhecê-lo. Não porque compartilhávamos algo em comum que eram os dons sobrenaturais, mas sim porque ele era interessante. Pela primeira vez, em todos os meus trinta anos de vida, algo me chamou a atenção muito mais do que a música. Contudo, Eiri não estava disposto a me deixar chegar perto do irmão dele de jeito maneira.

- Não sou você aniki. Sua história não vai se repetir, se é isto que te preocupa. - arregalei os olhos ao ouvir o que o garoto disse e franzi os lábios. Agora fiquei ofendido. Eiri achava que eu faria com Tatsuha o mesmo que aquele psicótico do Kitazawa fez com ele? - E além do mais... - uma risada marota perpassou os lábios dele e um olhar devasso vindo dos orbes escuros percorreu o meu corpo, me arrepiando todo. - Creio que os papéis estariam invertidos neste caso.

- Tatsuha! - desta vez Tohma se manifestou. - Você não ouse...

- Está me devendo Seguchi... - Tatsuha o cortou em um tom seco e o meu amigo fechou a boca em um estalo, arregalando os olhos verdes. - Isso mesmo... Nem um pio. - deveria me sentir novamente ofendido por perceber que estava sendo objeto de barganha, mas na verdade estava era me sentido excitado. Acho que os últimos acontecimentos soltaram os poucos parafusos que estavam fracamente atarraxados em meu cérebro, como Noriko costuma brincar.

- Ainda sim... - Eiri tentou protestar, tentou se impor, mas já era tarde. Tudo era tarde. Tatsuha havia crescido em frente aos olhos dele e nenhum dos dois irmãos notara antes e agora queriam compensar o tempo perdido. No entanto não tinha mais como. Não estavam lidando mais com uma criança, estavam lidando com um homem que já tinha enfrentado muito mais coisas aterrorizantes do que eles. Senti pena do escritor e compreensão.

- Em poucos meses eu me formo... e em mais alguns eu faço dezoito. - inspirei profundamente. - Logo... - outra olhada de Tatsuha que era capaz de me despir por inteiro me fez ofegar e o coração pular no peito. - Acho que até lá Sakuma-san e eu podemos ser grandes amigos. - amigos? Pensei com horror o ver as íris castanhas ficarem ainda mais escuras ao repousarem sobre a minha pessoa. Eu não aguentaria tanto tempo assim sendo somente amigos. E já podia me ver, futuramente, contando os dias para o aniversário de dezoito anos de Tatsuha.