Epílogo

Olhei pela décima vez para a pasta em minhas mãos e arqueei as sobrancelhas. Um diploma. Eu estava formado, graduado no colegial. Segurei a respiração. Nunca pensei que este dia chegaria. Na verdade achei que jamais chegaria vivo neste dia. Certo, estou sendo dramático. Se eu morresse antes de completar o segundo grau a minha mãe me pentelharia pelo resto da eternidade. Porém, agora que estou com o diploma nas mãos, com a cara mais tapada que pude colocar no rosto devido a surpresa por ter chegado tão longe, não tinha a mínima ideia do que iria fazer da minha vida.

Não havia feito nenhum exame para faculdade alguma, aliás, não cheguei nem a pensar em fazer faculdade. Reika, obviamente, está me azucrinando dia e noite sobre isso. Meu pai já desistiu de mim faz tempos e os meus irmãos... Surpreendentemente desde o incidente com Kitazawa nada mudou em minha família... Ou quase. Eiri continua o mesmo amor de criatura – sarcasmo – de sempre, com o diferencial que agora parece que havia se lembrado que era o meu irmão mais velho e virara uma ave de rapina irritante treinada para viver na minha cola.

E o por que disto?

Porque simplesmente agora eu tenho um adicional na minha vida: eu tenho Ryuichi Sakuma. Não menti quando disse que iria esperar e não apressar em nada a nossa relação, mesmo que às vezes tivesse vontade de jogá-lo contra a minha cama e fazê-lo gritar o meu nome até perder a voz. Ah, qual é, sou um adolescente saudável com necessidades saudáveis e Sakuma-san é sexy de morrer. Sem trocadilhos. Entretanto ele também é uma ótima companhia.

Fora dos palcos e da personalidade infantil descobri que Ryuichi tem uma personalidade sagaz e uma língua ferina, é extremamente observador e inteligente. Sempre dou várias risadas na presença dele e com os seus comentários. A diferença de idade entre nós parece irrelevante, isto porque ele não age como um homem de trinta e dois anos, apesar de ter muito mais conhecimento de vida do que eu. Na verdade ele é bem jovial e agradável de se estar. E eu... Bem, eu também não sou um adolescente normal então nos equilibramos.

E agora que me formei e apesar de não ter uma faculdade em vista, ainda sim tenho várias propostas a serem estudadas. Tohma conseguira com alguns contatos empregos para mim em Tóquio, sabendo que eu sempre tive vontade de me mudar para a nova capital. Embora Kyoto seja uma cidade fascinante com a sua história, ainda sim é uma cidade antiga... E cheia de fantasmas e sinceramente eu já estou de saco cheio dela. Está na hora de novos ares. Mika insiste que eu faça faculdade, ecoando os sermões de nossa mãe. Eu rebato dizendo que não tenho dinheiro para pagar, achando que assim venci a discussão, e então me ferro de vez...

Porque é aí que a minha irmã se lembra das suas obrigações de irmã mais velha e diz que irá bancar os meus estudos. E então eu tenho vontade de bater com a testa contra a parede para ver se dói. A ideia até que não era ruim, eu seria o primeiro Uesugi a ter um diploma do terceiro grau, mas não fazia a mínima noção do que iria estudar. Convenhamos, nunca tive interesse em nada e o meu único talento é o de exorcizar fantasmas. E creio que não há curso universitário para isto.

- É... você conseguiu. - Mizuki surgiu ao meu lado enquanto eu cruzava o pátio da escola, cumprimentando alguns colegas e seus familiares que vieram para a cerimônia de graduação. Tecnicamente a minha família deveria estar aqui, mas acho que esqueci – propositalmente é claro – de avisá-los sobre isto. - Que coisa... Se aquele maldito motorista não tivesse me acertado...

- Lembro que ele também morreu no acidente. - a causa da morte da Mizuki foi triste e trágica. O carro da família sofreu um acidente em um cruzamento, quando um motorista embriagado avançou o sinal. O motorista morreu na hora e Mizuki ficou alguns dias em coma no hospital até que veio a falecer.

- Bem merecido para aprender a respeitar as leis. Espero que esteja queimando no fogo do inferno. - rolei os olhos. Mizuki não guardava rancor pela sua morte, visto que o assunto inacabado que a prendia a terra já fora resolvido, por mim aliás, e o motivo de estar ainda aqui era porque ela era a guia de uma jovem mediadora, mas isso não a impedia de reclamar vez ou outra.

- Pensei que você se divertia em ser um fantasma... em assombrar a Umemura de vez em quando. - o rosto dela abriu-se em um sorriso divertido. Yumi Umemura era a amiga que dormiu com o namorado de Mizuki e na qual a fantasma gostava de pregar peças vez ou outra.

- E me divirto. Mas acontece que agora que você se formou perdi a minha companhia. - rolei os olhos. Esse era o problema dela. - Com quem irei em encontros daqui para frente? - ela fez um bico e me arrepiei. Não era ruim sair com a Mizuki. Quando estava entediado ela parecia pressentir isto e aparecia do nada me convidando para ir ao cinema ou dar uma volta. Era até lucro, já que não precisava bancar nada para ela, mas também não era lá muito saudável ter um relacionamento com uma garota morta.

- Mizuki-chan... Você sempre será a minha fantasma favorita... Mas eu já disse que essa nossa relação não tem futuro. - falei com pesar e ela gargalhou divertida.

- Eu sei. - seus olhos escuros brilharam de maneira brincalhona. - Até porque – ela piscou um olho para mim. - você arrumou algo muito melhor. - e fez um gesto com a cabeça, indicando a saída da escola. Virei-me na direção que ela apontava e vi a minha moto parada no meio fio. Normalmente eu não vinha com ela para a escola e por isso fiquei surpreso ao vê-la ali, mas o que mais me chocou foi ver quem estava recostado sobre o selim.

- Ryu... - balbuciei e Mizuki gargalhou mais alto ainda no meu ouvido.

- Vou sentir a sua falta Tatsuha. Foi divertido conviver com você. - ela murmurou no meu ouvido, me dando um beijo estalado na bochecha e desaparecendo no ar. Sacudi a cabeça para espantar o torpor diante da cena que estava vendo e me aproximei da moto, mas, principalmente, da pessoa recostada nela com a jeans abraçando deliciosamente as pernas delgadas, a camisa justa ao corpo, os óculos escuros cobrindo os olhos claros e os cabelos castanhos sendo balançados pelo vento.

- Quem era a sua amiga? - me perguntou assim que cheguei perto.

- Mizuki... Um fantasma que eu ajudei.

- E por que ela ainda está aqui?

- Virou guia de uma mediadora.

- Ah...

- O que faz aqui Ryuichi? - vi a silhueta dos olhos azuis atrás dos óculos desceram para o diploma em minhas mãos.

- Vim lhe dar os parabéns.

- Como soube...

- Tenho os meus métodos. - um sorriso de canto de boca fez os pelos do meu corpo se arrepiarem. - Bem... Você está formado. Parte da promessa está cumprida. Agora faltam quando tempo mesmo?

- Nove meses e nove dias... - murmurei, me aproximando dos lábios rosados.

- E enfim os dezoito anos. - Ryuichi ofegou contra a minha boca.

- E enfim os dezoito... - me afastei dele. - E então? Vamos comemorar? Não é todo dia que Tatsuha Uesugi completa o segundo grau. - ele gargalhou de maneira melodiosa e eu subi na moto, sentindo prontamente o corpo dele aconchegar-se atrás do meu e seus braços envolverem a minha cintura com força.

- E o que você tem em mente? - sussurrou em meu ouvido o que arrepiou os fios da minha nuca.

- Há essa casa na periferia que tem fama de ser mal assombrada... - outra gargalhada ao pé do meu ouvido.

- Você quer comemorar a sua graduação caçando fantasmas?

- Você ainda está em treinamento, precisa praticar, e eu passei as últimas semanas estudando... Estou com energia acumulada e como ainda faltam nove meses e...

- Nove dias. - Ryuichi completou com uma tragada de ar. - Onde é essa casa? - sorri.

- Se segura firme baby – os braços fecharam mais contra a minha cintura e as mãos quentes procuraram caminho sob a camisa do meu uniforme, espalmando em meu abdômen. Normalmente eu levaria um susto diante do gesto, mas carreguei Sakuma vezes o bastante na garupa da minha moto para já ter me acostumado com as atitudes de flerte dele que agora eram inconscientes. - Porque hoje a noite vai bombar. - e ronquei com o motor, disparando rua abaixo.

Pois é... Uma vez eu disse que a minha vida era ferrada e fudida. Mas de vez em quando as coisas tendiam a melhorar.

FIM