Os seus olhos observavam o horizonte. Estava sentado no alto de uma pilastra que, um dia, foi parte do que seria o portal do delfos. Não era uma escalada fácil, para ser sincero era impossível com as mãos limpas por não oferecer nada que servisse de apoio às mãos e aos pés. Somente seria possível com teleporte, uma habilidade que Quine aprendeu desde muito pequeno em Jamir, terra onde nasceu e cresceu, onde treinou por muitos anos com Mu e depois com Kiki.

Aquilo se tornou sua principal diversão – e também de suas 'artes' que geravam muitos castigos. Lembrar disso era nostálgico, principalmente porque diziam ter puxado sua mãe naquela habilidade em que ela se caracterizou por tão experiente. Ele sorriu ao pensar nela, tocando no livro em seu colo, o diário deixado por ela. Mais uma vez ele a abriu e leu sua dedicatória.

"Como está a paisagem aí em cima, Quine?", indagou alguém, fazendo ele fechar o livro e piscar aturdido. Estava sentado com uma perna para fora e outra cruzada, o que deu apoio para curvar o corpo para frente e ver Kiki mais abaixo olhando-o. O garoto sorriu de canto, colocando-se de pé e desaparecendo, surgindo instantaneamente ao lado do amigo. Kiki havia se tornado o dourado de Áries, trajando a armadura naquele momento. Apesar de estar apenas alguns dias no Santuário, conhecia bem a rotina e o amigo deveria estar fazendo alguma patrulha nas proximidades.

Depende de que ângulo vê as coisas. Por um lado vejo apenas ruínas, aí me viro e vejo as montanhas rochosas com a deusa Atena frente a estes zelando pelas 12 Casas Zodiacais. Aos pés do monte um monte de soldados e aspirantes treinando com chutes, socos, golpes... pff! Nada de interessante. – dizia com certo desinteresse, gesticulando com uma das mãos enquanto a outra um dedo marcava uma página do diário.

Por isso olhava para o norte, para o campo das Saintias? – perguntou Kiki com os braços cruzados e olhar de cinismo para o garoto.

Er... Campo das Saintias...? – disse com um sorriso congelado nos lábios, paralisados por alguns instantes por aquilo.

De fato, ele estava realmente sentado olhando em direção ao norte do Santuário, onde seria o campo de treinamento das mulheres, motivo que o levou subir até o alto da pilastra para melhor visualizar o caminho. Temendo que fosse erroneamente interpretado, balançou as mãos frente ao corpo para Kiki para que ele não pensasse qualquer algo negativo dele quanto aquilo.

NÃO PENSE BESTEIRAS! E-eu... Eu só... Eu só estava querendo saber onde era, nada mais que isso!

Eu imagino porque. Era onde certamente ela treinava e onde instruiu alguns cavaleiros. – comentou Kiki fechando momentaneamente os olhos e sorrindo com o jeito envergonhado de Quine. Sabia o quanto ele era sacana, mas pegá-lo daquele jeito era o que ele não esperava e isso que tornava a cena cômica. – Relaxa! Eu imaginei que o encontraria aqui... e com o diário.

Quine piscou, baixando os braços e tornando a ficar sério, mas ainda com um sorriso no rosto, Levantou a mão que segurava o diário marcado com o dedo e soltou um suspiro.

Ah sim. Estive compenetrado lendo de quando ela chegou aqui e como foi seu primeiro ano no Santuário, sobre o campo das Saintias, a máscara, os treinamentos... Sabia que ela comentava cada dia? – disse olhando para Kiki, sentindo-se um bobo e coçando a nuca. – Ao menos nos primeiros meses, depois por semana... Ela passava um tempo escrevendo um pouco sobre tudo, se é que me entende. Como se quisesse deixar algo... pra mim.

Aquelas últimas palavras foram um tanto embargadas, mas Quine respirou fundo engolindo algum vestígio de lágrima enquanto olhava ao seu redor. Cerrou os olhos, levando a mão à altura do fronte para bloquear o pouco do sol da tarde – uma vez que estava quase que de frente para posição que estava a se pôr e vendo alguém de cabelos compridos escuros parado mais adiante, trazendo uma urna nas costas.

Por alguns instante teve a impressão de que aquela pessoa os observava, voltando a caminhar em direção às Casas Zodiacais. Perguntou a Kiki quem ele era. O Carneiro dourado, que até então mantinha os braços cruzados, se virou e viu quem era. Descruzou os braços, deixando pendido para o lado.

Merikh, o Cavaleiro de Ouro de Câncer. Ele é o tipo 'lobo solitário', não se envolve com ninguém. Estava fora em missão, chegou hoje e estava a falara com ele quando o vi aqui. Olhando-o, lembrei que preciso voltar pra Casa de Áries. – Quine ficou a olhá-lo por alguns instantes antes de se voltar para Kiki, alternando entre o amigo e ao Campo das Saintias.

Era como se Kiki estivesse lendo seus pensamentos – e ele realmente podia, mas não era preciso fazer isso. – Não preciso lembrar que àquela área é de acesso restrito às Saintias. Embora esteja há poucos dias aqui, já conhece as regras... – disse apontando para o diário.

Mas se bem lembro, o treinamento começa antes do amanhecer, levando a concluir que ela se retiram cedo para descansar e pode acontecer dos novatos... se perderem?

Apenas os olhos de Quine giraram naquele momento fitando o amigo de soslaio – uma mão segurando o diário e a outra na altura da nuca. UM sorriso nasceu em seu rosto ao ouvir aquilo. Não era preciso dizer mais nada. Uma troca de olhares era o suficiente para que o recado fosse transmitido e Kiki seguiu caminhando até às Casas Zodiacais.

Quine brincou com um pedaço de pedra junto ao chão antes de chutá-lo longe, observando o horizonte, em direção ao Campo das Saintias. Tão logo o sol daria lugar a noite e o Santuário mergulharia no silêncio. Alguns poucos treinavam de fato, restando apenas os soldados fazendo patrulhas, o que não seria nenhum problema para ele. Dentro do rapaz havia um misto de ansiedade e curiosidade.

Abriu novamente o diário e viu as exatas coordenadas, algo da qual ele assimilava com perfeição. Não havia como errar o caminho. Esperava apenas que ainda existisse, que se encontrasse no local marcado.

Fechou os olhos e desapareceu, ressurgindo no copo da pilastra onde estava antes, mantendo-se de pé e olhando o campo das Saintias, depois para o céu e se sentou. Esperaria, aguardaria o tempo que precisasse. Sorriu, tocando na capa do diário. A cada página ele conhecia sua mãe que o deixara ainda muito cedo, mas que parecia ter deixado um guia para toda a vida.