Oxford, Inglaterra
Dezembro de 1869
Uma lua cheia suspensa no ar acima dos altos muros do colégio iluminava o caminho do jovem rapaz como faria qualquer lampião a gás.
Não que não houvesse, é claro, iluminação a gás. Havia. Mas o brilho da redonda lua branca tornava quase completamente supérflua a bruxuleante claridade amarelada das lâmpadas a gás. Mesmo que todas as lâmpadas da Inglaterra tivessem se apagado, as pessoas com negócios a resolver tarde da noite ainda conseguiriam andar pelas ruas com relativa facilidade, iluminados por essa lua extraordinária.
Ou, talvez, ele simplesmente estivesse bastante bêbado. Sim, era bem provável que essa Lua não fosse absolutamente diferente de nenhuma outra e que ele ainda estivesse excessivamente intoxicado por todo o uísque que bebera durante o jogo, e a razão de ter sido capaz de encontrar esse caminho tão facilmente em meio à noite escura nada tinha a ver com a luz da lua, mas com o fato de ele já ter feito este caminho muitas vezes.
Ele nem mesmo teve de olhar, de fato, para onde estava indo. Seus pés o levavam no rumo certo. Enquanto caminhava, conseguiu se concentrar em outras coisas – até onde ele, no estado em que estava apesar do frio considerável, era capaz de se fixar em algo -, especialmente onde raios conseguiria o dinheiro.
Não que se sentisse verdadeiramente obrigado a pagar. É claro que as cartas haviam sido marcadas. Como era possível ter perdido tanto em tão pouco tempo? Ele era um excelente jogador. Realmente excelente. As cartas com certeza haviam sido marcadas.
E isso era estranho, considerando que Slater estava convencido de que o jogo era limpo. Conhecia os melhores jogos na cidade. Jasper tivera sorte, sabia, por ter sido admitido nessa partida, sendo ele o que era, afinal, apenas um conde – título recém-adquirido. E o camarada de cabelos oleosos! Era um duque. Um maldito duque!
Naturalmente, não agira como tal. Especialmente quando, depois de perder outra rodada, Jazz disse que o jogo fora preparado. Em vez de rir da acusação, o que um duque de fato teria feito, o sujeito apontou-lhe uma pistola. Uma pistola de verdade! Jazz, é claro, já ouvira falar de coisas assim, mas não esperava que isso fosse acontecer com ele.
Graças a Deus que James estava lá, pois acalmou o outro e garantiu que Jazz não quis dizer aquilo, embora não fosse verdade. Mais tarde, quando estavam sozinhos, James explicou a Jasper que ele não podia acusar alguém de trapacear se não pudesse provar. E a única prova de que Jazz dispunha – o desenho no verso das cartas parecia estranho e ele nunca perdera daquela maneira – não era convincente.
"Ele havia tido sorte de ter escapado com vida", pensou. Parecia que meter uma bala na cabeça de um jogador era coisa que o tal duque fazia todo dia.
Levar um tiro na cara talvez fosse preferível àquilo que Jasper sabia que estava reservado para ele: tentar conseguir mil libras para pagar o que devia.
É claro que não poderia pedir a um banco. A fortuna que o pai lhe deixara, ao morrer havia pouco mais de um ano, só chegaria a suas mãos quando completasse vinte e um anos, e ainda faltavam dois anos. Não poderia tocar naquele dinheiro. Mas sabia que podia pegar um empréstimo, dando-o como garantia.
A dificuldade era: a quem pedir? Não a um banco. Eles informariam sua mãe, e ela ia querer saber para que precisava do dinheiro, e ele não poderia lhe dizer.
Sua irmã era uma possibilidade. Já era maior de idade e tomara posse de sua parte exatamente naquele mês. Poderia apelar a ela para conseguir um empréstimo. Também ia querer saber para que era o dinheiro, mas era bem fácil mentir para ela. Muito mais fácil do que para sua mãe.
E se Jasper aparecesse com uma historia bastante boa, por exemplo, alguma coisa ligada a crianças carentes doentes, ou animais sofrendo crueldade, já que a irmã era solidária com o sofrimento alheio, ele estava certo de conseguir quatrocentas ou quinhentas libras.
O problema era que Jazz não gostava de mentir para Isabella. Caçoar dela era uma coisa, mas mentir... era algo totalmente diferente. Mentir de modo tão ultrajante ofendia seus princípios morais, mesmo em casos como esse, para salvar a própria pele. O fato de que Bella certamente preferisse liquidar suas dívidas a perdê-lo não aliviava nem um pouco sua consciência. Não. Jasper sabia que teria de encontrar outra pessoa para lhe emprestar mil libras.
E enquanto percorria mentalmente uma lista com nomes de amigos e conhecidos, tentando lembrar se algum deles lhe devia algum favor, seus pés, que continuaram se movendo, levaram-no até o portão de sua faculdade. Ainda sem ter plena consciência do que estava fazendo, não se surpreendeu ao encontrar o portão fechado com segurança. Tinha de ser assim, é evidente, desde as nove horas, e agora já passava bastante da meia-noite.
Seus pés, de novo por conta própria, começaram a se deslocar novamente, dessa vez levando-o para além do portão e ao longo do alto muro de pedra que cercava os alojamentos que ele compartilhava com cerca de duzentos companheiros de faculdade. Ele continuava a repassar a sua lista de amigos sem refletir no que estava fazendo, porque aquilo se tornara um tanto habitual durante os últimos meses. É evidente que estava pulando o muro. Assim que chegou ao ponto onde havia uma reentrância na pedra, enfiou o pé nela.
Nenhum de seus colegas tinha dinheiro, ele sabia. Estavam na mesma situação dele... esperando pelo vigésimo primeiro aniversario e sua herança. Poucos pais ainda estavam vivos, e alguns dos rapazes ocasionalmente haviam recebido somas em dinheiro. Mas nenhum daqueles com quem tinha intimidade para pedir um empréstimo de mil libras havia recebido essa importância ultimamente.
Quando já estava para pular o muro, ouviu uma voz chamando seu nome. Jazz virou a cabeça e soltou uma imprecação. Tudo de que não precisava agora era que o vigia fosse alertado do fato de que o conde de Bartlett estivesse mais uma vez escalando o muro.
Ao se virar, viu que não se tratava do vigia, mas sim do grande asno do duque. O sujeito devia tê-lo seguido desde a taverna onde haviam estado jogando. Qualquer um poderia pensar que um duque tinha coisa melhor para fazer do que ficar seguindo condes por aí, mas aparentemente não era assim.
- Olhe – disse Jazz, deixando o pé onde estava e apoiando o cotovelo em um joelho. – Você receberá seu dinheiro, Vossa Alteza. Já não lhe disse isso? Não imediatamente, é claro, mas em breve...
- Não se trata de dinheiro – disse o duque. Na verdade ele não se parecia nada com um duque. Um duque prenderia seu cabelo daquele jeito? E aquele colete, embora fosse de veludo, não era um tanto brilhante?
- É sobre aquilo de que você me chamou – disse o duque, e só então Jazz notou que ele tinha alguma coisa na mão. E à brilhante e clara luz da lua Jazz conseguiu ver exatamente o que era.
- Do que o chamei? – subitamente Jazz desejou que sua conversa fosse ouvida. Pedia fervorosamente que o vigia os ouvisse, abrisse o portão e exigisse uma explicação. Muito melhor receber uma detenção por estar fora dos muros tarde da noite do que ter as entranhas atravessadas por uma bala – mesmo que isso talvez o livrasse da dívida.
- Certo – o Duque mantinha o cano da arma apontado para o peito de Jazz. – Trapaceiro. Foi do que me chamou. Bem, o Duque não faz isso, você sabe.
Jazz se deu conta de duas coisas ao mesmo tempo. A primeira, que parecia improvável que um duque – um verdadeiro duque – falasse daquela maneira. E a segunda, que ele ia morrer.
- Diga boa-noite, my lord – disse o homem que não era duque e, ainda apontando uma pistola na direção do peito de Jazz, puxou o gatilho.
Então, imediatamente, a brilhante luz da lua desapareceu, levando consigo os problemas de Jasper.
Espero que tenham gostado do prólogo, vai ser importante no final de tudo haha.
O livro chama "Aprendendo a Seduzir" e acabou de ser lançado aqui no Brasil e o 'Slater', lá do começo, é o sobrenome que eu deixei para o James (já que ele nao tem sobrenome).
Volto na quinta pra postar o primeiro capitulo, pra nao deixar todo mundo desinteressado haeuaheue.
Beiiijos e não se esqueçam de deixar reviewes emmm? ;**
