Londres, Inglaterra

Maio de 1870

Não havia no aposento outra luz senão a que vinha das chamas da lareira de mármore decorado. Havia pouco fogo, mas sua luz era suficiente para desenhar a silhueta do casal no divã. Mesmo assim, Isabella conseguiu ver suas feições.

Sabia que eram eles. Sabia realmente muito bem. Afinal, ela reconhecera a risada de seu noivo através da porta fechada e foi por isso a primeira que abriu.

Lamentavelmente, pareceu que devia ter batido antes, já que ela obviamente interrompeu um momento de extrema intimidade. E embora soubesse que devia sair dali – ou no mínimo denunciar sua presença -, percebeu que não conseguia se mover. Ficou paralisada ali, em pé, fixando os olhos, a contragosto, nos seios de Lady Victoria Sutherland, que, fora do decote de seu vestido, balançavam vigorosamente para cima e para baixo, no ritmo dos impulsos do quadril do homem estendido entre suas coxas.

Parada, com uma das mãos enluvadas na maçaneta e a outra agarrada ao batente da porta, ocorreu a Bella que seus próprios seios nunca haviam saltado com uma entrega tão selvagem.

Naturalmente, seus seios nem de longe eram tão grandes como os de Lady Victoria. Isso poderia explicar por que era Lady Victoria, e não ela, que estava de pernas abertas sobre o marquês de Winchilsea.

Bella não tinha idéia a predileção do noivo por seios avantajados. Pode ser que Lord Winchilsea não a achasse bem servida nessa categoria, por isso decidira procurar alguém mais apropriado a seus gostos. O que certamente era um direito dele, evidentemente. Ela só não conseguia deixar de pensar que ele poderia ter tido a gentileza de não fazer aquilo em um dos salões de estar de Dame Ashford, e durante um jantar de gala.

"Acho que vou desmaiar", pensou Bella, agarrando-se à maçaneta, caso o chão subitamente desaparecesse sob seus pés, como acontecia quase sempre nos romances que as criadas costumavam deixar pela casa e que às vezes ela pegava para ler.

Mas é claro que ela não desmaiou. Nunca havia acontecido isso com ela, nem mesmo quando caíra do cavalo e quebrara o braço em dois lugares. Preferiria ter desmaiado, porque assim, pelo menos, teria sido poupada de ver Lady Victoria enfiando o dedo na boca de James.

"Por que ela havia feito aquilo?", pensava Bella. Será que os homens gostavam de que as mulheres enfiassem o dedo em sua boca?

Era evidente que sim, porque o marquês começou a chupá-lo, fazendo barulho.

Por que ninguém jamais lhe contara isso? Se o marquês desejasse que Bella enfiasse o dedo em sua boca, ela certamente o faria, se isso o deixasse feliz. Realmente, era inteiramente desnecessário ele ter ido procurar Lady Victoria – com quem tinha pouca familiaridade – para uma coisa tão simples como essa.

Deitado sob Lady Victoria, o marquês de Winchilsea deixou escapar um gemido – meio abafado, por causa do dedo enfiado em sua boca. Bella viu sua mão se mover do quadril dela para um daqueles seios enormes. Também notou que ele não tirara o casaco nem a camisa. Bem, ela supunha que assim poderia voltar ao salão de jantar mais rapidamente. Mas com certeza com o fogo – sem falar do calor gerado pelo corpo de Lady Victoria – ele devia estar excessivamente quente.

No entanto, parecia que isso não lhe importava. A mão que envolvia o seio de Lady Victoria se deslocou para trás de seu pescoço logo, onde finas mechas de cabelo vermelho haviam escapado da complicada coroa de cachos no alto de sua cabeça. Então James puxou o rosto dela para baixo, até que seus lábios tocassem o dele. Ela teve de retirar o dedo de sua boca para melhor acomodar a própria língua, ocupando o lugar.

"Bom, então é assim", pensou Bella. "O casamento está mais do que definitivamente fora de cogitação."

Ela se indagava se deveria comunicar isso imediatamente. Tomar fôlego antes de interromper os amantes em seu abraço (se é que esse era o termo correto), fazer uma cena.

Mas então ela decidiu que simplesmente não seria capaz de suportar o que sem duvida viria em seguida: desculpas, recriminações, James proclamando seu amor por ela, Victoria em lágrimas. Se é que Lady Victoria conseguia chorar, coisa que Bella duvidava.

Na verdade, o que ela poderia fazer senão se virar e deixar o aposento tão silenciosamente como havia entrado? Desejando que James e Victoria estivessem muito preocupados para ouvir o clique da fechadura, ela fechou a porta com muito cuidado e, só então, respirou profundamente. E se perguntou o que deveria fazer a seguir.

Estava escuro no corredor bem diante da porta do salão de estar. Escuro e frio, diferente da tranqüilidade da casa de Dame Ashforth na cidade, que estava repleta de cerca de uma centena de hospedes e quase o mesmo número de criados. Não era muito provável que alguém tomasse esse caminho, enquanto houvesse champanhe, comida e musica no andar de baixo.

Ninguém, exceto noivas pateticamente abandonadas, como ela.

Sentindo uma fraqueza repentina nos joelhos, Bella desceu os três ou quatro degraus da estreita escada exatamente na frente da porta que ela havia fechado tão cuidadosamente. Ela sabia que não ia desmaiar, embora estivesse com um pouco de enjôo. Precisaria de um tempo para se recompor antes de voltar lá para baixo. Apoiando um cotovelo num joelho, Bella descansou a testa na mão e olhou para a porta através das finas e delicadas barras do corrimão, imaginando o que devia fazer.

Parecia-lhe que qualquer garota normal choraria. Afinal, ela acabara de ver o noivo nos braços – ou melhor, nas pernas – de outra mulher. Ela devia, por tudo que já lera em romances, estar chorando e se desesperando.

E ela queria isso, realmente. Tentou provocar algumas lágrimas, mas não derramou nenhuma.

"Acho", pensou Bella, "que não consigo chorar porque estou tremendamente zangada. Sim, deve ser isso. Estou lívida de raiva, e é por isso que não consigo chorar. Devia ir buscar uma pistola, voltar lá e atirar no coração de Lady Victoria. Isso é o que eu devia fazer."

Mas esse pensamento a deixou sentindo-se fisicamente mais fraca do que nunca, e estava quase contente por ter se sentado. Não gostava de armas e não conseguia ser imaginar atirando em alguém com uma – nem mesmo em Lady Victoria Sutherland, que bem o merecia.

"Por outro lado", dizia consigo mesma, "mesmo se eu pudesse atirar nela – o que certamente não conseguiria – não o faria." Bella sabia sobre a cadeia mais do que jamais quis saber, porque sua melhor amiga, Allie, era membro da Sociedade Londrina para o Sufrágio das Mulheres, e havia sido presa várias vezes por acorrentar-se a rodas de carruagens de diversos membros do Parlamento.

Bella não queria ir para a cadeia, que Allie lhe descrevera nos detalhes mais chocantes, do mesmo modo que jamais gostaria de meter uma bala em alguém.

"E supondo", pensou, "que me considerem culpada. Serei enforcada. E para quê? Por atirar em Lady Victoria?" Dificilmente isso iria valer a pena. Não tinha nada em particular contra Lady Victoria. Ela sempre fora perfeitamente educada com Bella.

Então, Bella decidiu: se ela fosse atirar em alguém – o que não iria fazer, claro -, teria de ser em James. Porque não fazia nem uma hora que ele estava suspirando no ouvido dela que não podia esperar até sua noite de núpcias, que seria dali a somente um mês.

Bem, evidentemente ele estava tão impaciente que se viu forçado a procurar outra pessoa com quem pudesse ensaiar.

"Bastardo trapaceiro!" Bella tentava se lembrar de outros nomes injuriosos que ouvira do irmão mais novo e seus amigos, quando se xingavam "Ah, sim, seu sacripanta!"

"Seria bem feito se eu atirasse naquele bastardo-trapaceiro-sacripanta."

Em seguida, sentiu uma onda de culpa só de pensar tal em coisa, porque sabia perfeitamente quanto ela devia a James. E não apenas pelo que havia feito com Jazz, mas porque, dentre todas as garotas de Londres, foi ela que ele escolheu para casar, para ser a única a receber aqueles beijos demorados e sedutores.

Ou pelo menos era isso que ela achava até muito pouco tempo atrás. Agora se dava conta de que não só não era a única a receber aqueles beijos, mas que os que ela vinha recebendo eram completamente diferentes daqueles que Lady Victoria, ao que parecia, costumava receber.

"Maldito!" Bella apoiou no joelho o outro cotovelo e descansou o queixo nas mãos. O que ia fazer?

Para James, a melhor coisa seria, evidentemente, desmarcar o casamento. O marquês era uma pessoa sempre correta em tudo – exceto com relação a isso, claro -, e assim Bella pensou que não era irrazoável esperar que pudesse ser ele quem rompesse o noivado, poupando a ela esse constrangimento. "Querida", ela imaginou-o dizendo, "sinto muito, mas veja, acontece que eu encontrei de quem gosto muitíssimo mais do que de você..."

Mas não. O marquês de Winchilsea era um homem bem-educado. Provavelmente diria algo como: "Isabella, não me peça que lhe explique por que, mas sinceramente não posso continuar com isso, minha flor".

E Bella diria que entendeu. Porque era uma flor. Lady Victoria era uma mulher charmosa, atraente, cantava e tocava harpa magnificamente, era tão talentosa como adorável. Seria uma maravilhosa esposa para qualquer homem, embora não tivesse dinheiro algum. Todo mundo sabia disso. Os Sutherlands – o pai de Lady Victoria fora o décimo quarto duque de Childes – eram uma família antiga e muito respeitada, mas não tinham dinheiro, apenas umas poucas mansões e um ou dois mosteiros.

Que James, cuja família era exatamente tão nobre, mas igualmente pobre, tivesse escolhido aliar-se aos Sutherlands não era de se surpreender, embora Bella não estivesse certa se essa fora a coisa mais prudente que ele já fizera. Onde ele e Lady Victoria imaginavam que iam morar? Porque, a menos que alugassem todas aquelas magníficas propriedades para alguns americanos ricos, não tinham nenhuma fonte de renda digna de menção.

Mas o que importava a renda para duas pessoas apaixonadas? De todo modo, não era da conta de Bella como o casal viveria. Seu problema era este: o que diria para sua mãe?

Lady Bartlett não veria isso com bons olhos, por mais incrível que fosse. De fato, as noticias lhe chegaram provavelmente em meio a um de seus infames ataques. Ela adorava James. Como não adorá-lo? Afinal, ele salvara a vida de seu único filho. A dívida que a família de Bella tinha com o marquês era enorme. Ao aceitar seu pedido de casamento, Bella esperava, mesmo que em pequena medida, retribuir sua bondade.

Mas agora estava bem claro que ganhar a mão de Bella não havia sido nenhuma conquista para o jovem marquês. Que humilhação!

E os convites já haviam sido enviados. Exatamente quinhentos. Quinhentas pessoas, a nata da sociedade londrina. Bella achava que teria de escrever a cada uma delas. Ao pensar nisso, começou a sentir que iria chorar. Quinhentas cartas. Era demais. Sua mão costumava ter câimbras depois de duas ou três.

"James é quem devia escrever as cartas", pensou ela com amargura. Afinal, foi ele quem quebrou as regras. Mas James, que era muito mais um homem comum do que um intelectual, jamais escrevera nada mais extenso do que um cheque, por isso Bella sabia que era uma grande tolice contar com qualquer ajuda dele nesse assunto.

Talvez ela pudesse simplesmente pôr um anúncio no jornal. Sim, isso mesmo. Alguma coisa de bom gosto, explicando que o casamento de Lady Isabella Marie Swan, filha única do primeiro conde de Bartlett e única irmã do segundo, e James Devenmore Slater, décimo marquês de Winchilsea, lamentavelmente fora desmarcado.

Desmarcado? Esse era o termo certo?

Senhor, que constrangimento! Desbancada por Lady Victoria Sutherland! O que as garotas da escola iriam dizer quando ela voltasse?

Bem, Bella se consolava. Poderia ter sido pior. Não conseguia pensar como, mas supunha que poderia.

E então, de repente, ficou pior.

Alguém vinha vindo. E não do salão de estar, mas do fim do corredor. Era alguém procurando Lady Victoria. Bella percebeu, assim que a luz do candelabro que ele estava segurando iluminou suas feições o suficiente para que ela as reconhecesse.

E quando isso aconteceu, seu coração parou de bater. Estava bem segura disso. Seu coração realmente havia parado de bater por um momento. Isso não havia acontecido quando ela abriu a porta do salão de estar e viu seu noivo fazendo amor com outra mulher. Não mesmo.

Mas havia parado agora.

Apesar do candelabro, ele bateu o pé na perna de uma pequena mesa na qual havia um vaso de flores desidratadas. Quando o pé de Edward Cullen bateu na mesa, o vaso balançou e caiu, fazendo que algumas pétalas secas se espalhassem pelo tapete. Ele praguejou baixinho e se inclinou na direção do vaso. Bella, olhando-o por entre as barras do corrimão, viu que ele parecia mais aborrecido do que devia para alguém que acidentalmente apenas batera em algumas flores secas.

"Ele sabe", pensou. "Meu Deus, ele sabe. Isso só podia terminar em violência e morte."

Meio automaticamente, ela se levantou e disse:

- Olá!

Só que sua voz saiu muito abafada, pela falta de ar.

- Quem está ai? – perguntou Edward Cullen, com um olhar severo.

- Sou eu – respondeu Bella. O que estava havendo com sua voz? Ela soava ridiculamente alto. Tentou abaixá-la. – Isabella Swan. Sentei-me perto de você no mês passado, no jantar na casa de Lady Chittenhouse. Provavelmente você não se lembra...

- Oh, Lady Isabella. Claro.

Não havia como negar o desapontamento na profunda voz dele. Enquanto ela falava, ele levantou o candelabro e a olhou. Ela sabia perfeitamente o que ele vira: uma mulher jovem, de peso e altura medianos, cujo cabelo não era nem ruivo nem negro, mas de uma tonalidade de mogno e cujos olhos não eram nem azuis nem verdes, porém enfaticamente castanhos. Bella sabia que não possuía nenhum atributo como os da estonteante beleza ruiva de Lady Victoria Sutherland, mas também sabia – porque seu irmão Jasper lhe dissera, e irmãos costumam ser bem honestos – que não era uma garota que passasse sem despertar um segundo olhar.

Mas Edward Cullen certamente a havia deixado passar, quase sem um segundo olhar. "Como se ele só tivesse olhos para si mesmo", pensou Bella, com alguma indignação. "Porco convencido!" Afinal ele estava longe de ser o modelo perfeito dos europeus, como James era. Enquanto o marquês de Winchilsea lembrava o sol – com seu cabelo louro perfeito, olhos azuis, a pele de aparência saudável, alto e de porte perfeito -, Edward Cullen era muito pálido, ombros largos e peito musculoso e um cabelo com a aparência de estar sempre precisando ser penteado, embora, Bella tinha certeza, tendo acabado de fazer isso. Pena que nada disso o deixava menos bonito.

Edward Cullen abaixou o candelabro e disse:

- Não acho que tenha visto Lady Victoria passar por aqui. Viu?

O olhar de Bella relanceou a porta da sala de estar. Não quis fazer isso. Não queria dirigir o olhar para nenhum lugar perto da porta, mas ele foi atraído para lá tão seguramente como a lua atrai a maré.

- Lady Victoria? – repetiu, como para ganhar tempo.

Bella se perguntava o que aconteceria se ela lhe dissesse que tinha visto Lady Victoria. Que ela estava, de fato, exatamente atrás daquela porta.

Porque Edward Cullen mataria James, pelo que Jasper lhe contara sobre o homem que ele chamava com admiração de "Cullen". E mais: como Cullen, que nascera em Seven Dials, o distrito londrino mais pobre e sujo, fizera fortuna no negócio de armas de fogo; como Cullen tão rude em sua vida pessoal como era em seus negócios; como Cullen era conhecido por considerar uma bala o meio mais rápido de lidar com problemas em qualquer área, por não causar só dano, em se tratando de alguém exímio no uso de uma pistola. Já James não conseguiria acertar uma parede de Westminster Abbey com uma pistola, mesmo que a jogasse nela.

- Sim – disse Edward Cullen, olhando-a com curiosidade. - Lady Victoria Sutherland. Certamente a conhece.

- Oh! – exclamou Bella. – Sim, eu a conheço...

- Bem – disse ele. O tom calmo de sua voz soou um tanto forçado. – Viu-a por aqui? Com um cavalheiro, talvez? Tenho razões para acreditar que ela não estava sozinha.

Isabella engoliu seco.

Como isso era detestável! Talvez muito mais para ele do que para ela. Porque naturalmente havia o fato de que Edward Cullen supostamente fora para a cama com mais mulheres que qualquer homem em Londres. Isso não foi algo que o irmão de Bella tivesse anunciado à mesa do café da manhã, mas coisa que ela já o ouvira discutindo com os amigos. Segundo Jasper, parecia que Edward tinha tantas amantes quanto o infame dom Juan. De fato, Jasper e os amigos o chamavam – com cara séria – de o Lothario* de Londres.

Só recentemente Lothario afinal havia sossegado e oferecido casamento à mais bela e completa mulher de toda a Inglaterra, Lady Victoria Sutherland, que nesse exato momento estava de pernas abertas com o noivo de Bella, o marquês de Winchilsea.

Imagine só que prazer sentiria autossuficiente como Edward Cullen, que era admirado por todos por suas habilidades como amante, quando descobrisse que sua própria noiva o traíra. E com o marquês de Winchilsea, entre todos, alguém que não tinha nenhum dinheiro, apenas um belo rosto com que viver. Porque tudo o que Bella tinha de fazer era dizer uma palavra – apenas uma palavra -, e ela não precisaria se preocupar de novo com o que escrever no anúncio do Times. Seu casamento com o marquês de Winchilsea teria de ser desmarcado por causa de sua morte prematura.

Ela sentiu um arrepio. Santo Deus!, no que estava pensando? Não poderia permitir que Edward Cullen atirasse em James. Não depois do modo como James salvara Jazz.

- Eu a vi – Bella finalmente admitiu, apontando na direção do fim do corredor. – Ela foi por ali.

A expressão de Edward Cullen endureceu. Tinha um rosto maravilhosamente bonito, com uma cicatriz profunda na sobrancelha direita, parecendo um ferimento feito por faca. A vida não o tratara bem.

Mas quando seu rosto endurecia com determinação, era quase assustador olhar para ele, era como olhar para o demônio escondido sob um rosto perfeito. Bella não conseguia imaginar o que as mulheres que ele havia levado para a cama fariam se o vissem com tal aparência. Ela olhava ao longe e se concentrava na imagem que guardava do rosto do marquês de Winchilsea, que era tão iluminado como a de Edward Cullen... não era.

- Ela estava com alguém?

Bella relanceou os olhos na direção dele e perguntou:

- Desculpe-me. O que disse?

- Perguntei... – disse, respirando profundamente, como se estivesse tentando ser paciente. - Lady Victoria estava com alguém? Um homem?

- Por quê? Sim, estava – respondeu Bella. Ali, disse consigo mesma. Devia se livrar dele depressa. E assim impedir que descobrisse a verdade, que estava exatamente atrás daquela porta, a poucos passos dali.

Os lábios de Edward Cullen se curvaram num sorriso que provocou um forte arrepio na espinha de Bella. Parecia tão satisfeito, tão diabolicamente satisfeito, que por um instante a respiração da jovem ficou presa em seu pulmão. Porque ele realmente era um demônio!

- Obrigado, Lady Isabella – disse ele, num tom bem mais cordial do que havia usado antes. E então começou a seguir pelo corredor, e a moça tentava voltar a respirar.

E descobriu que não conseguia. No mínimo, aquilo era assustador. Mas ela estava determinada a não deixar que Edward Cullen percebesse seu problema. O importante não era o fato de ela não conseguir respirar, mas sim que ele fosse embora para longe, bem longe, para que James pudesse ter a chance de escapar.

Parecia que os esforços que fazia para esconder seu desconforto não se mostraram muito eficientes porque, ao passar pela escada em que estava Bella, Edward Cullen se virou e olhou novamente para ela de modo inquisitivo.

- Lady Isabella, está tudo bem com a senhorita?

Ele sabia, embora ela não soubesse como. Ela não emitira nenhum som. Como poderia? Nem conseguia respirar.

- Perfeitamente bem – ela assentiu energicamente, mas ofegante. – É melhor se apressar ou não vai alcançá-la.

Mas Edward Cullen não se apressou. Parecia estar gostando de ficar ali. No entanto, em vez de ficar onde estava, olhando para ela de um jeito que, ela não tivesse notado um vislumbre daquele sorriso perverso, teria pensado que era preocupação.

Mas ninguém com um sorriso tão mau como aquele poderia ser capaz de ficar preocupado.

- Acho que está mentindo – disse Edward, e Bella sentiu que o coração poderia explodir.

"Ela sabe", ela pensou, temerosa. "Oh, Deus, ele sabe! E agora vai matar James, e sereia a culpada!"

Então ele disse:

- A senhorita não está muito bem. Seu rosto está pálido e parece que está com dificuldade para respirar.

- Bobagem! – respondeu, embora evidentemente estivesse mentindo. Estava engolindo muito ar, só que realmente parecia que nada chegava até seus pulmões.

- Não é bobagem – Edward Cullen retrocedeu alguns passos. Quando chegou ao degrau onde Bella estava, inclinou-se e colocou a mão em sua nuca, exatamente como, instantes atrás, Bella vira o marquês de Winchilsea segurar o pescoço de Lady Victoria.

O coração de Bella, que tinha deixado de pulsar por um segundo quando ela vira Edward Cullen vir andando pelo corredor, agora começou a bater tão rápido que ela estava certa de que ele poderia explodir. "Deus meu!", ela invocava irracionalmente. Ele vai me beijar. Vai fazer comigo o mesmo que tem feito com todas aquelas mulheres com quem deve ter-se deitado. E eu seria inteiramente incapaz de impedi-lo, porque ele é o Lothario de Londres.

Estranhamente, Bella se deu conta de que não achava a idéia de ser beijada por Edward Cullen um abuso.

Só que, em vez de inclinar a cabeça dela para beijá-la, o Lothario de Londres disse, autoritariamente:

- Sente-se!

Bella estava tão assustada, que se sentiu sem questionar. Ela não supunha que houvesse muita gente que se atreveria a desobedecer a uma ordem dada pelo grande Cullen, razão pela qual ele era sem dúvida tão bem-sucedido não só como homem de negócios, mas também como amante.

A mão de Edward lhe apertava o pescoço e, de modo incrível, ele empurrou a cabeça de Bella para baixo, até deixá-la entre seus joelhos.

- Assim – disse ele, com certa satisfação. – Fique assim, e você logo vai se sentir melhor.

Bella, com os olhos arregalados grudados na saia, disse, com a voz abafada pelo cetim branco:

- Hummm... obrigada, senhor Cullen.

Seu desapontamento por ele não ter tentado beijá-la ou incomodá-la de alguma maneira, apesar da antipatia que sentia por ele, era profundo. E perturbador.

- Não foi nada – disse Edward Cullen.

"Sacripanta!", pensou Bella, enquanto permanecia de olhos fixos no próprio colo. "Acho que não sou suficientemente boa para seduzir. Afinal, quem sou eu? Apenas a filha do primeiro conde de Bartlett. Uma ninguém. Certamente não sou aquela beleza, como Lady Victoria Sutherland e não tenho nenhuma mansão em Lake District.

"Mas há uma coisa que me alegro de ter e que Lady Victoria não tem: a decência de não ir para a cama com o noivo de outra mulher." E acrescentou: "... E um bocado de dinheiro também, é claro."

Ela ficou esperando que ele fosse embora, mas Edward ficou ali. A mão forte ainda continuava em seu pescoço. E estava surpreendentemente quente.

- Coisa ridícula esses espartilhos! – Edward lançou, para iniciar uma conversa. – Deviam ser abolidos.

Bella, completamente atônita pelo fato de que um homem tão grande como Edward Cullen estivessem em pé ali naquele corredor, com a mão em seu pescoço – e mais surpresa ainda por ele ter trazido à baila um assunto tão íntimo como seu espartilho -, de seu colo disse:

- Suponho que algumas pessoas pensam assim.

Seria isso, ela imaginava, um preâmbulo para que ela tirasse o espartilho e então...- Deus do céu! – a seduzisse?

Mas Edward Cullen apenas disse:

- Surpreende-me que a senhorita use um. Afinal, não mantém amizade com Lady Alice Brandom?

Essa era uma pergunta tão inesperada que Bella ouviu-se dizendo:

- O senhor conhece Allie?

- Todo mundo conhece Lady Alice. Ela ganhou muito má fama por se envolver no movimento pelo sufrágio feminino. Presumi que, como amiga dela, a senhorita também fizesse parte dele.

- Oh! – disse Bella de dentro de sua saia. – Eu faço. Quero dizer, não participo de manifestações ou qualquer coisa assim. Não aprecio isso. É bem melhor ficar em casa com um livro do que sair gritando pelas ruas, até perder a voz e acorrentar-se a coisas!

- Vejo que a senhorita é, de coração, uma defensora da liberdade, Lady Isabella – observou secamente.

- Oh! – fez Bella, percebendo o quão tola devia ter soado para ele. – Mas ofereço apoio à causa, o senhor sabe. No mês passado, paguei suas penalidades com o tribunal por duas vezes, pois seu pai não vai mais fazer isso. E uso o espartilho porque, bem, porque acho que fico mais bonita com um do que sem.

- Entendo – disse num tom divertido. – Suas inclinações sufragistas terminam onde começam o conforto e a vaidade. Pelo menos a senhorita é honesta o suficiente para admitir isso.

Ele estava se divertindo com ela. Soube disso nesse momento. Assim, ele certamente não tentava seduzi-la. Bella não sabia muito sobre os homens, mas suspeitava fortemente que eles não seduziriam uma garota de quem estivessem zombando. Acho até que ficara aliviada. Mas era um pequeno insulto pelo qual ela jamais passara. Afinal, se ele já havia seduzido todas as garotas de Londres, por que não ela? Bella sabia que era aquela beleza estonteante, mas certamente devia ter seus admiradores. Inclusive, naquela mesma manhã, um homem jovem – completamente estranho – que a perseguira por quase todo o quarteirão da cidade, depois que ela o criticara duramente por ter desnecessariamente chicoteado seu cavalo, apenas tocou o chapéu e disse que seu sorriso era muito mais brilhante e bonito que um pônei novinho, e que nunca mais bateria num cavalo.

Mas Edward Cullen aparentemente não notara seu sorriso.

Então, a lembrança do motivo por que perdera a respiração da primeira vez subitamente lhe ocorreu. Durante todo o tempo em que conversavam no corredor sobre seu espartilho, James estivera correndo risco mortal de ser descoberto. Em que ela podeia estar pensando?

- Não é melhor que o senhor se vá, senhor Cullen? – perguntou Bella, tentando disfarçar o nervosismo em sua voz. – Quer dizer, se deseja encontrar Lady Victoria.

- Sim – disse ele. Já não havia delicadeza em sua voz. – Bem, estou certo de que agora já não há nenhuma chance disso.

- Nenhuma chance do quê? – perguntou Bella, assustada. – De encontrá-la? Oh, o senhor está muito enganado. Tenho certeza de que ela ainda está perto. – Então, percebendo o que havia dito, apontou para a extremidade oposta do corredor. – Estou certa de que se o senhor seguir...

- Não há como – disse Edward, desanimado. Então, acrescentou, quase como para si mesmo. – Perdi toda a chance que poderia ter tido e pegá-la em seu joguinho, ao escolher o rumo errado há dez minutos, tendo ido parar na cozinha.

- Joguinho? – quis saber Bella.

Falando como alguém que estivesse lembrando a si mesmo de algo, Edward Cullen respondeu:

- Não importa. Está se sentindo melhor agora?

Bella inspirou. Suas têmporas anunciavam o início de uma dor de cabeça, mas surpreendentemente ela descobriu que podia respirar normalmente de novo.

- Muito melhor – disse. – Obrigada – Preocupada porque ele poderia ficar sabendo de mais detalhes sobre a infidelidade de sua noiva, como a identidade de seu amante secreto, ela acrescentou: - Estou certa de que o senhor está enganado, senhor Cullen, sobre sua futura noiva. Ela certamente não está envolvida em nenhum... joguinho. Com ninguém.

A risada que Edward Cullen deu foi muito mais diabólica do que quando ela lhe contou – por que, por que ela tinha de ter contado a ele? – que ela havia visto sua noiva com outro homem.

- Que natureza boa tem a senhorita, Lady Isabella – disse ele, num tom que não era nem um pouco lisonjeiro. – Mas permita-me assegurar-lhe que sua confiança em Lady Victoria é extremamente mal empregada. E quando eu conseguir o nome do sujeito, ficarei muito feliz em provar isso num tribunal, se necessário. A senhorita poderia dizer isso a ele na próxima vez que o vir?

Completamente boquiaberta com essa extraordinária declaração – e ante a idéia de que ela e Victoria Sutherland apenas se conhecerem de longe -, Bella lutava para achar alguma resposta.

No entanto, ela foi poupada de fazer isso, quando a porta da sala-de-estar privada de Dame Ashforth de abriu e o marquês de Winchilsea saiu para o corredor.

- Oh! – fez Bella, finalmente achando sua voz. – Querido!

...

*Nome de um personagem da obra de Nicholas Rowe, The FairPenitent [O penitente justo], de 1703, que seduzia e enganava mulheres. (N.T.)


Então, o que acharam do primeiro capitulo? Eu, particularmente, amo essa tensãozinha que fica no final.

E... viram?, Jasper não morreu! *-* haha. ah, e tem Alice também, o que acharam dessa idéia dela ficar lutando pelo direito feminino em 1870? uaehuheaue

Volto na segunda, ou na terça, com o segundo capitulo, e vou estar esperando pelas reviews de voces!

Beiiijos amorzinhos *;