Por coincidência, Lady Isabella e sua mãe não eram as únicas pessoas que já não podiam ouvir o nome de Edward Cullen. Ele próprio estava cansado disso.

Quando, na manhã seguinte, ele abriu o Times e descobriu que estava lendo uma historia sobre ele mesmo, teve um leve estremecimento e deixou o jornal de lado. É claro que houve um tempo em que, ao ver seu nome no Times – particularmente acompanhado, como estava nesta manhã, das palavras "rico industrial" – sentia uma certa excitação. Afinal, ele nem sempre fora rico e ostentara o título de "industrial". Era uma vez um tempo – muitos anos atrás, mas ainda vivos em sua memória – em que ele era completamente pobre e tinha o apelido de Dead Eye, dado pelos garotos com quem perambulava diariamente pelas ruas de Londres, em busca de travessuras. Chamavam-no assim não porque fosse cego de um olho, mas porque, aos cinco anos de idade, arrancara o de um rato com um estilingue e uma pedra a uma distância de cinqüenta passos.

Desde esse celebre dia, ele raramente olhava para trás, mas agora não se importava em fazer isso. Também não se incomodava de, necessariamente, falar de seu atual sucesso. Afinal, muitos dos que o bajulavam hoje eram os mesmos que poucos anos atrás o vilipendiavam. Ele sabia que não era um gênio, como hoje o consideravam, nem fracassado, como afirmavam que ele era então. A verdade, Edward decidira isso havia muito tempo, estava em algum lugar no meio, e era melhor simplesmente não insistir nisso.

Assim, ele recolheu a correspondência que seu secretario deixara em cima de sua mesa de trabalho e começou a lê-la.

Uma batida na porta de seu escritório particular o interrompeu antes que ele terminasse a primeira linha. Levantou a cabeça e disse, de modo tolerante:

- Entre.

Seth "Weasel"* Clearwater, que trazia dobrada debaixo do braço uma cópia do mesmo jornal que Edward estivera olhando poucos instantes antes, deslizou para dentro do escritório e fechou a porta atrás de si, como alguém que estivesse tentando parecer o mais discreto possível para quem quer que estivesse no outro aposento.

- Desculpe pela intromissão, Dead** - disse ele, assim que fechou com segurança o trinco da porta. - mas ela está aqui.

Edward não precisou perguntar quem era "ela". Disse apenas, num tom de surpresa:

- Com certeza é muito cedo para ela. Só passa um pouco das dez.

- Ela está usando suas plumas - Seth disse, passeando pelo quarto e desabando pesadamente num dos assentos de couro do outro lado da pesada escrivaninha do patrão. - Você sabe, aquelas que ela usa quando vai às compras.

- Ah – disse Edward. - Isso explica tudo.

- Certo. - Weasel pegou o jornal que tinha debaixo do braço e disse, casualmente: - Então, você viu o jornal hoje, Dead?

- Vi - Edward respondeu, com sua voz grave.

- Leu? - Seth enrolou o jornal de modo a destacar a seção em que o patrão aparecia. - Viu essa parte aqui?

- Sim, li - Edward disse.

- É chamada de "elegante". - Seth virou o jornal para si, a fim de ler de novo, alto e nada fluentemente, mas com uma voz que tremia de excitação, apesar de sua aparente indiferença: - "Chega ao mercado, criada pelo inventor do revolver de carregamento pela culatra, essa elegante pistola nova, que promete ser este ano o mais desejado modelo para o colecionador de armas perspicaz." - Weasel relanceou os olhos na direção do patrão. – Se incomoda em ouvir quantos pedidos foram feitos só esta manhã?

- Diria que muito poucos – disse Edward. - Lembre-me, Seth, de mandar para o autor dessa matéria uma caixa de conhaque.

- E isso não é tudo - o secretario não estava se saindo bem na tarefa de esconder sua excitação. Ansioso, inclinou-se para a frente na poltrona, dobrando as paginas que segurava. – De quem o senhor acha que recebemos um pedido há pouco tempo? Quem o senhor pensa que é, Dead?

- Nem poderia imaginar - disse Edward, com um perceptível desinteresse na voz arrastada.

- O Príncipe de Gales, Dead. – O rosto de Seth estava corado, seus olhos brilhavam. – O Príncipe de Gales vai carregar uma pistola Cullen esta temporada!

- O Príncipe de Gales. – disse Edward, voltando para sua correspondência – "precisa" de uma pistola Cullen...

- Dead – Seth se levantou e foi se inclinar sobre a escrivaninha do amigo, já esquecera o jornal, amassado na mão fechada. - Dead, o que há com você? Acaba de receber a mais entusiástica recomendação para uma de suas armas, e no Times de Londres, o Times, homem, lido por mais em todo mundo do que qualquer outro jornal, e você fica aí sentado e age como se isso não fosse nada. Em nome de Deus, o que está errado?

- Não seja estúpido, Weasel - Edward o agarrou pelas lapelas do casaco de corte impecável. – Não há nada de errado. Só estou um pouco esgotado esta manhã. A noite foi longa, você não sabe.

Weasel riu. Poucos homens teriam tido a coragem de rir diante do grande Cullen, mas Seth Clearwater tinha a vantagem de vinte anos de amizade com o homem. Porque, ele havia esfregado o nariz de Edward Cullen na sujeira mais vezes do que ele poderia contar. Isso, naturalmente, fora bem antes que o amigo o tivesse tirado da frente do Dials; antes que sua carreira tivesse tomado esse rumo meteórico até o estagio presente; e bem antes que Edward Cullen tivesse a altura atual, muitos centímetros acima de 1,80 m.

Apesar disso, Weasel, mesmo sendo muito mais baixo, não tinha nenhum escrúpulo em provocar seu melhor amigo e patrão.

- Oh! – fez ele. – Estamos cansados de correr atrás de Lady Vic até tarde da noite, não estamos?

- Isso não é da sua conta, "Weasel". - Edward rosnou como resposta.

Weasel riu de novo, dessa vez ao se lembrar de como ganhara seu apelido, e voltou à carga:

- Bem, então teve sorte?

- Se você quer saber se descobri a identidade do homem com quem minha noiva está tendo um caso ilícito, a resposta é não - Edward disse. - Pelo menos, nada que pudesse ser admitido num tribunal, se ela me processar por quebra de promessa...

- Se ela processar você? - Weasel gritou. - Você acha que se, você rompesse o compromisso com ela, Vic Sutherland não ia processar você por tudo que conseguiu? Deus meu! Só falta um mês para o casamento.

- Estou bem ciente disso, Weasel - disse Edward secamente.

Weasel baixou a voz de modo conspiratório ao dizer:

- Tenho ouvido dizer de juízes que estão arbitrando milhares de libras a noivas cujos sujeitos desistiram de repente, alguns deles um sólido ano antes do abençoado dia. E você acha que pode se mandar sem que ela o processe?

- Sei que ela vai me processar - disse Edward, com cuidadosa paciência -, e sei também que ela vai vencer, a menos que eu tenha melhor prova de sua infidelidade do que desaparecimentos mal explicados, como o da noite passada, e esses rumores infernais que têm circulado por aí.

- Rumores – disse Weasel, com desagrado, balançando a cabeça. - Você pensaria que tínhamos voltado ao Dials, pelo modo como aqueles destruidores falavam um com o outro. Apesar disso, você não pode provar nada com rumores.

- É por isso – disse Edward – que a tenho mantido sob vigilância.

- E os rapazes ainda não descobriram nada?

- Ah, tudo bem, há um homem - Edward disse, com ar sério. - Mas ou os rapazes perderam a pista dele, ou o sujeito é um fantasma. Parece que ele consegue se fundir com as sombras e se perder no meio de multidões quase como se...

- ...Ele fosse um de nós - Weasel concluiu para seu patrão. Ele deu um assovio, lento e longo. - Acha que ele poderia ser...

- Claro que não - disse Edward. - Como a filha de um duque se envolveria com um sujeito do Dials?

- Além de você, quer dizer?

Edward, com dificuldade, reprimiu o riso diante dessa pergunta.

- Obviamente - disse devagar. - Estou achando que o sujeito é casado e está querendo evitar que a mulher descubra.

- Ou você, mais provavelmente - Weasel disse. – Quem sabe não está querendo que sua bela cabecinha vá pelos ares. Apesar de tudo, Dead, não seria mais simples deixar que ela o processasse? Você é muito rico, sabe disso. Pode facilmente arcar com o desperdício de alguns milhares de libras e acabar com isso.

O sorriso desapareceu do rosto de Edward.

- Não, não penso assim - disse tão educadamente como se recusasse uma xícara de chá. - Não vou legar nenhuma uma moedinha a mais para Lady Victória Sutherland do que as que já tenho que dar. Não dessa maneira.

Weasel levantou as sobrancelhas. Edward supunha que não podia culpá-lo. Sua recusa a simplesmente "resolver tudo" com Victória Sutherland confundiu até ele próprio. O qu estava claramente em jogo aí era o orgulho. Seu orgulho, que ele jamais havia considerado tão frágil, era algo que até uma mulher poderia abalar

Mas ele jamais se apaixonara.

A culpa era dele. Ele ficara tão encantado de que aquela mulher linda, educada e – isso também se poderia admitir – bem-nascida pudesse se interessar por ele, que se rendeu a ela, intoxicado por tudo o que ela representava, em vez de vê-la como ela era.

Ele aprendera muito cedo. Seu noivado mal fora oficializado e Vic já começou a se mostrar desatenta, não estando onde havia dito que iria estar ou chegando muito tarde aos encontros que marcara com ele, e parecendo... bem, como uma mulher que tivesse sido levada para a cama, e não por ele. Foi então que Edward começou a perceber que fora negligente, não levando em consideração o fato de que Victória, embora linda e de origem nobre, continuava sendo apenas uma mulher, tão capaz de fraquezas como qualquer outra vagabunda lá do Dials.

Que tolo fora ele por não ter percebido isso antes que tivessem postado o anúncio do noivado.

Weasel suspirou.

- É uma vergonha gritante, eu lhe digo. Em que mundo estamos, no qual um homem como Edward Cullen, o Lothario de Londres, não consegue evitar que sua própria noiva o traia? É quase... que nome dão a isso? Ah, sim, justiça poética.

Edward olhou para o velho amigo com um sorriso torto.

- Seus toques mordazes sobre as ironias de minha vida são inúteis, Weasel. No entanto, em vez de ficar aí parado, falando sobre elas, não seria melhor mandar Sua Senhoria entrar? Não há como saber o que Call e Ulley poderiam estar aprontando lá fora, tentando impressioná-la.

- Está certo – disse Weasel, queixoso -, vou mandá-la entrar. Mas devo lhe dizer exatamente agora, Edward, não gosto disso. Nunca o vi assim. Não por causa de uma mulher. Ela não vale a pena, você sabe. Pode ter um título, mas é a prostituta mais ágil que já vi.

- Cuidado, senhor Clearwater - Edward disse, de modo displicente. - É da minha futura esposa que está falando.

Weasel revirou os olhos, dizendo:

- Só vou acreditar vendo.

- Vá, Seth - disse Edward, sentindo-se mais cansado do que nunca. – Mande que ela entre. E me consiga um café, pode ser? Minha cabeça parece ter sido apertada num torno.

Weasel fungou ao ser dispensado.

- Como Vossa Serena Alteza pede. - Então, de cabeça erguida, embora os lábios traíssem uma clara tendência a se curvar para cima nos cantos, o secretário saiu da sala.

Depois que ele saiu, Edward sentou-se por um momento e pôs-se a olhar para fora pela janela, à esquerda de sua escrivaninha. A vista da movimentada Bond Street era uma das mais bonitas à venda em Londres, mas, mesmo assim, Edward não a tinha via naquele momento. Em vez disso, como sempre ocorria quando estava perturbado com alguma coisa, ele via o rosto de sua mãe, como ele era antes que a doença que a levara desta vida tivesse devastado suas belas feições. Aqueles poucos anos antes de sua morte haviam sido os mais felizes na memória de Edward. E depois ela se fora...

Oh, seu pai tentara. Mas Esme Cullen havia sido a luz na vida de Carlisle Cullen, assim como na de seu filho, e depois que ela se foi o velho se transformou na sombra do homem vigoroso que era, meio louco, costumava desaparecer durante dias, deixando Edward sozinho com os tios muito afetuosos, mas pouco cuidadosos. Havia sido por algum milagre que ele fora parar no meio daquela gente desagradável?

Graças a Deus havia lá pelo menos um homem para resgatá-lo daquilo em que ele podia ter-se transformado...

Era naqueles dias antes da morte de sua mãe que Edward sempre pensava que sua carreira dava outro dramático impulso, como estava fazendo aquela manhã. Porque ele se dera conta, a partir do momento em que havia conseguido suas reais cem libras – e quão espantosa lhe parecera então essa soma -, que aquilo não importava. Não importava quanto dinheiro ganhasse. O dinheiro não importava. Nem todo o dinheiro do mundo teria salvado sua mãe.

E nem todo o dinheiro do mundo a traria de volta.

- Edward – disse uma voz sonora e muito refinada. -, o que você está olhando tão fixamente?

Edward estremeceu e se mostrou apenas levemente surpreso ao descobrir que não se encontrava no quarto em que crescera, mas sim no escritório confortável que mantinha na Bond Street, não muito distante da casa de Mayfair em qual vivia. E a mulher que se dirigia a ele não era sua mãe, que sofrera uma prolongada e dolorosa morte vinte anos antes, mas a bem viva Lady Victória Sutherland, cuja bela figura e ainda mais belo rosto eram, naqueles dias, os mais admirados em Londres.

- Estou com ciúme - disse Victória, provocando-o, enquanto estendia a mão enluvada por cima da mesa para que ele a beijasse. - Quem é ela?

Ele a encarou. Ela estava usando um conjunto novo, que ele ainda não vira, enfeitado com muitas penas. Edward mal conseguia ver seu rosto, com todas aquelas plumas envolvendo-a.

- Ela? - repetiu, tomando sua mão e quase automaticamente depositando nela um beijo.

- Sim, bobo. Aquela em quem você estava pensando, sentado aí. Não tente me dizer que não se tratava de uma mulher. - Victória sentou-se presunçosamente na beira da escrivaninha, esquecida do modo como sua crinolina se enviesava perigosamente para cima quando fazia isso. No entanto, ela devia estar perfeitamente ciente do que estava fazendo, esperando exibir as novas pantalonas. Estava muito coquete.

- Era uma mulher - disse Edward, devagar, sentando-se novamente. Ele se levantara assim que percebeu que ela entrara, como deve fazer um cavalheiro. Embora ele não estivesse convencido de que, para dizer a verdade, ela fosse uma dama. Pelo nascimento, sim, era, mas não por natureza. O que havia sido, durante certo tempo, parte de seu atrativo: ser filha de um duque e decididamente não considerar nada de mais se comportar de modo indecoroso. O que mais poderia um homem almejar numa esposa?

Muito pouco, Edward estava descobrindo, se essa mulher escolhe se comportar indecorosamente com outro e não apenas com o marido.

Ou futuro marido, como no caso.

- Estou com ciúme - disse Victória, com seu lábio inferior se projetando para frente. - Quem é ela? Diga-me agora. Você sabe que criatura possessiva horrível eu sou, Cullen. E você tem aquela reputação! Conheço um montão de mulheres que estiveram apaixonadas por você. Diga com quem você andou e acrescentou a sua lista agora.

Edward nada disse. Ele raramente precisava falar, quando Victória estava em seu quarto. Ela falava o suficiente pelos dois.

- Deixe-me ver – disse, encostando um dedo na lateral do queixo. - Com quem o vi conversando na noite passada? Bem, com Dame Ashforth, é claro, mas ela é muito velha. Sei que está completamente encantada por você, mas não é o tipo de mulher com quem um homem se sentaria para fazer quase nada. Assim, Dame Ashforth não. Quem mais estava lá? Ah, sim. A pequena garota Swan. Mas ela é muito comum para um homem de gosto seletivo como o seu. Quem poderia ser, Cullen? Desisto.

- Você desiste muito facilmente - disse ele com voz calma. - Mas vou lhe dizer mesmo assim. Era minha mãe.

- Oh! - exclamou Victória, fazendo cara de desapontamento. - Jamais teria adivinhado isso. Você nunca fala dela.

- Não. Não falo - Edward disse. - Não para ela. Não agora. Nem nunca. – É isso, my lady. Suponho que vá me dizer o que eu teria feito para merecer a honra de sua presença tão cedo aqui. Até certo ponto tenho alguma autoridade nisso, tendo passado noites suficientes com você para saber, que só uma razão das mais vitais a obrigaria a sair da cama antes do meio-dia.

Victória sorriu para ele de modo travesso, perguntando:

- Então você que me conhece bem, senhor Cullen? É bem possível, sabe, que eu ainda tenha alguns segredos.

- Oh! Edward exclamou. - Sei que tem. E quando eu a apanhar num deles, minha querida, vou fazer de meu advogado um homem prodigiosamente feliz.

O sorriso de Victória desapareceu.

- O... quê? - gaguejou. Sob o leve blush, ela ficou visivelmente pálida. - Do que está falando, meu bichinho?

Edward, lamentando ter falado de modo muito petulante – e absolutamente inseguro quanto a ter sido ele o causador aquele mal-estar, arquivou a pontada de irritação que sentira ante as palavras indelicadas que ela dirigiu a Lady Isabella Swan, uma garota que ele tinha conhecera apenas ligeiramente e na qual ele certamente não tinha nenhum interesse –, disse rapidamente:

- Peço desculpas, my lady - a última coisa de que ele precisava era que ela aprofundasse suas suspeitas e ficasse mais cuidadosa ao combinar seus encontros com o amante. – Falei de brincadeira, mas agora percebo que ela talvez não tenha sido de bom gosto. Então, a que devo a honra desta visita logo de manhã?

Victória continuou olhando para ele um tanto incomodada, mas seu comportamento, que de propósito ele mantinha gentil, parecia tê-la desarmado, e logo a cor voltou a sua face. Quando se recuperou completamente, ela gritou, alegremente:

- Oh, Cullen querido, é a mais coisa estranha, mas Bree Tanner está com uma daqueles complicados resfriados de primavera, e parece que ela tem um compromisso hoje com o senhor. Biers. Bem, você sabe que eu não poderia conseguir nada, por causa do... bem, àquele incidente, da última vez que estive com o senhor Biers, sobre o crédito de papai. Mas Bree me disse que eu poderia usar o dela, e você sabe, Edward, eu quero muito ter a aparência do tipo de esposa que um homem importante como você merece, mas meu enxoval dificilmente seria apropriado até para a mulher de um negociante de coisas usadas, quanto mais para a de alguém como...

Edward levou a mão ao bolso do colete.

- De quanto você precisa?

- Oh! - fez Victória, parecendo alegre, mas ficando em seguida pensativa. - Bem, preciso de simplesmente tudo: chapéus, capas, luvas, sapatos, meias, para não falar das coisas mais íntimas... Creio que isso será mais do que suficiente – disse, exibindo entre o dedo indicador e o polegar de sua mão direita um espaço de cerca de 1,5 cm.

Edward entregou a ela uma pilha cujo volume se aproximava da medida que ela indicara.

- Cumprimente o senhor Biers por mim. - Melhor isso agora, pensou, do que milhares mais tarde em cobrança judicial.

- Oh, obrigada, querido - Victória se inclinou por cima da escrivaninha, com os lábios preparados para aceitar um beijo dele, com o dinheiro já metido dentro da bolsa. Edward levantou o rosto, com a intenção de roçar de leve os lábios dela, num rápido beijo de despedida. Mas Victória evidentemente tinha outras idéias. Estendeu os braços e o agarrou pela lapela, puxando-o para si. Atrevidamente enfiou a língua entre os lábios dele enquanto pressionava os seios contra ele, sem constrangimento.

Edward, que no passado desfrutava inteiramente dos modos avançados de Lady Victória no passado, agora já não os apreciava tanto. De um lado as plumas era um tanto problemáticas, sempre voando de lá pra cá, fazendo cócegas em seu nariz. De outro, sabia muito bem que ele não era o único homem com quem ela os punha em prática.

Por isso era tão vitalmente importante que ele descobrisse alguma prova de sua traição, e a levasse para o senhor Lightwood –, que era quem cuidaria do processo de quebra de compromisso que ela sem dúvida poria em ação imediatamente, tão logo ele terminasse o noivado.

- Bem - disse ele depois que Victória finalmente se afastou de novo, interrompendo o beijo. - Isto foi... legal.

- Legal? - disse Victória afastando-se da mesa e olhando para ele zangada. - Não há nada "legal" planejado. Foi bem o contrário, para dizer a verdade. Realmente, Edward, mas eu acho que você mudou.

- Mudei? - Edward não pode deixar de rir diante disso. - Eu mudei?

- Sim, mudou. Você sabe que faz um mês – ou cerca disso – que... bem, passamos a noite juntos?

- Mas, Victória – disse calmamente -, você sabe que as coisas são diferentes agora que estamos noivos. Não podemos ser tão impetuosos como éramos. As pessoas vão falar.

- Você não costumava se importar com o que as pessoas pensam - Victória disse com amargura. - De fato, se me lembro bem, seu lema costumava ser: "Estou me lixando para o que as pessoas pensam".

- Sim - disse Edward com cuidado. - Mas isso era quando só tinha que me preocupar com minha reputação e não com a de minha futura mulher.

Ela suspirou, e olhando para a cima disse:

- Bem, se você acaso mudar de idéia - disse ela, ao se encaminhar para a porta. - sabe onde me encontrar.

E então se foi. Mas deixou para trás vasta evidência de sua presença, na forma de nuvem de perfume com aroma de rosas, e alguns fios de penas, caídas como folhas no outono sobre sua escrivaninha.

Como se estivesse esperando ansioso que a noiva de Edward se fosse, entrou no escritório seu pai, com um Seth Clearwater muito irritado logo atrás.

- Edward, meu garoto - gritou Carlisle Cullen, com um braço aberto num cumprimento e o outro apertando um familiar livro de capa de couro. - Parabéns!

- Parabéns? - Edward olhou para Seth, que só conseguia balançar a cabeça. As ordens dadas eram que o senhor Cullen fosse admitido no escritório do filho quando quisesse... embora geralmente se tentasse anunciá-lo.

Naquele dia, no entanto, Carlisle Cullen estava claramente muito excitado para esperar essas formalidades.

- Vai me dizer que ainda não ouviu! - Carlisle sentou-se numa das poltronas de couro na frente da escrivaninha de Edward. – Vi que Lady Victória acabou de sair. Espero que não se incomode por eu ter compartilhado as boas notícias com ela.

Edward afundou de novo em sua cadeira, da qual ele educadamente ele levantara para se despedir da noiva. Ele estava cansado e sua cabeça ainda doía. Ele se perguntava o que teria acontecido com o café que Weasel ficara de lhe trazer.

- Que notícias? - perguntou, sem muito interesse.

- As que eu ouvi esta manhã. Estão circulando por toda a cidade. Por causa da matéria do jornal, sobre aquela sua nova arma.

- O que há sobre ela? - Edward perguntou.

- Oh! – Enquanto a conta do filho crescia no banco, o inverso ocorria com a cintura de Carlisle Cullen, que se mexia na cadeira. Sem dúvida estava subnutrido. Porém, ele sempre fora um homem magro, que tinha passado a maior parte da vida indo para cama com um pouco de fome, e o peso que ele perdeu - ainda mais - com o passar dos anos, de vez em quando ainda o surpreendia. Afinal, ele estava mais bem-alimentado do que já fora em toda a sua vida. – Então não sabe? Bem, dizem que com certeza até o final do ao vão lhe oferecer uma carta patente***. Muito provavelmente um título de baronete. - Carlisle balançou a cabeça sonhadoramente. - Imagine. Meu filho, um baronete. E casado com a filha de um duque! Meus netinhos terão sangue azul nas veias, assim como um título antes do nome. Um homem não poderia pedir mais para sua descendência.

Edward arregalou os olhos para o pai. Depois da morte da mãe de Edward, o velho ficara meio ruim da cabeça, mas sua loucura sempre fora mais excentricidade do que qualquer outra coisa. Por exemplo, fantasiava que havia inventado uma geringonça na qual um homem podia voar, ou uma poção que poderia torná-lo invisível. A fixação mais recente de Carlisle Cullen com a nobreza – como mostra o livro sobre nobiliarquia que trazia nas mãos – parecia inofensiva em comparação com as outras. Edward se perguntava agora se não deveria ter se preocupado mais com isso.

- Um baronato? - Edward repetiu. – Não creio.

- Oh, sim. Sim, é verdade – assegurou-lhe o pai. – Parece que foi sugestão do Príncipe de Gales. Bem, o negócio do carregamento pela culatra foi o que começou tudo. E agora essa nova arma, a Cullen, bem, todo mundo esta falando sobre isso. Porque ouvi que o jovem duque de Rawlings atirou num colega em Oxford com uma, exatamente na semana passada. Agora, deixe-me ver - abriu o livro no colo e folheou-o até sua página favorita, aquela que listava os nascimentos e mortes dos Sutherlands. A família de Lady Victória, aquela na qual, numa futura edição, apareceria o nome de seu filho, ou seja, se Edward fosse adiante com aquilo. - Espero que você de um jeito de receber o título antes do casamento. Então o registro seria "Victória, única filha do décimo quarto duque de Childes, casada com Edward Cullen, baronete, vinte e nove de junho de mil oitocentos e setenta..."

Edward percebeu, com algo parecido com horror, que não havia loucura nisso. Absolutamente nenhuma. Seu pai estava dizendo a honesta verdade de Deus.

Seth, ainda de pé na soleira da porta, perguntou com extrema educação:

- Ainda quer que eu lhe traga aquele café, my lord?

- Sim - disse Edward, com uma voz estranha. - E com um pouco de uísque, por favor.

. . .

* Furão, animal carnívoro, que popularmente designa individuo espertalhão, oportunista, como era apelidado Seth.

** Era assim que, às vezes, Seth o chamava

*** Tipo de documento legal, em forma de carta aberta, entregue por um monarca ou pelo governo, que garante um ofício, um direito, um monopólio, um título ou um status à uma pessoa ou à alguma entidade, como uma corporação.


Aqui estou eu, às duas da manha, conseguindo finalmente editar o documento que o fanfiction nao estava deixando -.- auheuaehuehaue

Estou morrendo de sono e só quero dizer que espero que gostem (pra variar) de ver as coisas pelo ponto de vista do Edward, conhecer o pai dele, o trabalho e tudo mais.

Quarta feira tem mais.

Beiijoss fofinhas.

ps: onde estao as reviewsss? :/