3.
Na manhã seguinte tudo parecia normal e, se algum dos alunos na classe de literatura de Scott Summers notou o professor um pouco distraído durante as dissertações, não fez nenhum comentário.
Scott planejara voltar mais tarde ao Owns Road (era esse o nome do bar, afinal) para buscar o carro, mas, quando entrou na garagem mais cedo para certificar-se de que uma certa moto ainda estava por ali, (ele andara desconfiado de que Logan podia muito bem acabar pegando a estrada, quando a realidade das revelações da noite anterior realmente o atingisse) viu que o veículo já estava lá.
Logan...
Lembrava que o canadense jogara a chave do carro para ele antes de voltarem ao Instituto, mas também se lembrava de que, quando despira as roupas para dormir, não achara a chave em seu bolso. Não tinha dado importância á isso, claro, dadas as circunstâncias, mas ao que parecia Logan não era apenas um excelente lutador...era também um ladrão habilidoso...e um homem gentil.
- Você está atrasado.
Logan ergueu uma sobrancelha para Ororo, que o esperava em frente da porta da Sala de Perigo, os braços cruzados na frente dos seios (que, ele já notara mais de uma vez, eram belamente volumosos) e uma expressão severa no rosto.
- Foram só cinco minutos.
- A disciplina tem que ser seguida, Logan. – disse ela, virando-lhe as costas para acionar o botão de entrada. – Nós devemos dar o exemplo se quisermos que as crianças sigam nossas orientações de maneira correta. O que elas dirão se um professor chega atrasado em uma aula?
- Que esse professor tem mais o que fazer do que ficar pajeando um bando de garotos mimados?
Ororo lançou-lhe um olhar irritado e ambos entraram na Sala de Perigo, onde os jovens mutantes já estavam reunidos, conversando agitadamente em rodinhas, exatamente como qualquer turma de adolescentes.
- Muito bem, classe. – disse ela, dirigindo-se aos alunos, que rapidamente postaram-se em fila a sua frente, obedientes e atentos, afinal a senhorita Munroe era uma das professoras mais respeitadas da escola...e também a mais famosa por dar bastante trabalho de casa se notasse que os estudantes não estavam dedicando-se o bastante ás suas aulas. – Hoje vocês terão uma aula de sobrevivência na selva com o professor Logan e espero que prestem muita atenção tanto á prática quanto á teoria. Kitty, pode me passar o programa, por favor?
Kitty Pride, a Lince Negra, adiantou-se e entregou uma prancheta para a professora enquanto Logan franzia o cenho. Programa? Ele não precisava de programa! E essa história de teoria não estava dentro de sua idéia de uma aula sobre sobrevivência.
- Aqui está, Logan. – Ororo entregou-lhe a prancheta e interpretou erradamente o olhar confuso que ele lançou aos papéis. – Hank e eu esquematizamos os pontos principais para a aula teórica, então não precisa se preocupar com nada. Sabemos que é a sua primeira vez como instrutor, mas não há como se perder.
Logan ergueu lentamente o olhar, da prancheta para a bela africana, mas ela nem notou a animosidade contida naqueles olhos castanhos, pois já estava indo para a porta.
- Comportem-se, crianças...e isso vale pra você, também, Logan. – disse ela com um sorriso. – Vejo vocês em duas horas.
Assim que ela desapareceu por trás da porta deslizante, e Logan notou os risinhos á sua frente, ele se empertigou e olhou demoradamente para cada um deles. Aquele olhar era um aviso: Vocês acham que tem que ter medo DELA? Bem, vocês não viram nada ainda, gurizada.
Um a um os risinhos, os olhares de zombaria e as conversas paralelas foram morrendo diante daquele olhar duro. Dava pra ouvir, entretanto, um ou outro aluno engolindo em seco.
- Muito bem, vamos ver o que vocês acham que sabem sobre sobrevivência. – Logan varreu a turma com o olhar e parou em Bobby. O rapaz estremeceu. – Você, cubo de gelo. O que vocês andaram aprendendo até agora, além de fazer nós de escoteiro?
- Ahn...bem...senhor Logan...- Bobby encolheu os ombros. – Essencialmente, sabemos fazer nós de escoteiro e...fogueiras...sem a ajuda do Pyro, aliás...- John riu ao lado do Homem de Gelo, mas parou rapidinho quando o mutante de garras de adamantium virou para ele um olhar rápido como uma chicotada. – E sobre abrigos, também, claro...
- Senhor Logan?
Kitty tinha erguido a mão e o olhava de maneira expectante. Jubileu murmurou algo como "essa CDF não dá um tempo, cara" e se calou.
- Sim, ahn...Kitty, certo?
- Sim, senhor.
- Pode falar, Kitty.
A jovem sorriu e deu um passo á frente.
- Nós também sabemos como identificar ervas venenosas no meio das comestíveis, como fazer armadilhas para caçar animais e sabemos também prestar os primeiros socorros em caso de acidentes.
- Obrigado, Kitty. – disse Logan, gentilmente, e a garota voltou ao seu lugar com um sorriso enorme nos lábios. – Estou vendo que vocês não viram nada que preste, afinal...
- Perdão?? – disse Kitty, o sorriso vacilando um pouco.
- Mas essas são...- começou Bobby, mas Logan não o deixou terminar.
- As coisas que menos vão importar na hora em que vocês realmente estiverem sozinhos e tendo que se virar, seja numa floresta ou numa cidade, se tiver um ou uma pá de inimigo no calcanhar de vocês. – Logan olhou novamente para a prancheta e franziu os lábios. – Quero ver se alguém vai parar pra fazer nós de escoteiro, armadilha ou fogueirinha quando tiver sendo caçado por uma porrada de nego armado até os dentes.
Logan viu os olhares confusos e desconcertados dos alunos e decidiu que era bom que eles ficassem chocados ali, com ele, do que lá fora enfrentando a realidade. O mutante canadense destacou os papéis da prancheta, jogou-a de lado e começou a rasgar as folhas metodicamente enquanto andava para o painel de controle manual na extremidade da sala, deixando os pedaços esvoaçarem em sua esteira.
- Vamos começar a aula.
- Scott?
Scott virou-se no corredor, a pasta com os trabalhos dos alunos na mão, e sorriu para Jean.
- Olá, Jean. Pensei que estivesse com Hank no laboratório, nesse horário.
Ela também sorria e parecia ainda mais bonita do que ele se lembrava, se é que isso era possível. Não se admirava de ter se apaixonado por ela á primeira vista quando chegara ao Instituto. Fora há tanto tempo atrás e agora...acabara. Não havia arrependimento, porém, e podia sentir que também ela não se arrependera do final do relacionamento. Scott sabia disso porque os dois tinham ainda aquela conexão mental profunda, ainda que o amor que sentiam um pelo outro agora fosse o que amigos sentiam um pelo outro...talvez irmão e irmã.
Ela balançou a cabeça e os cabelos ruivos caíram em cascata sobre os ombros. Com a mão delicada ela afastou-os de volta á posição original.
- Hank está em um de seus experimentos especiais e eu não quis atrapalhá-lo. Além disso, você não me contou o que aconteceu a noite passada, não é?
- O que você quer dizer? – Scott ficou ligeiramente abalado, mas ninguém diria isso se passasse por ali e visse sua postura serena. Jean, é claro, não precisava interpretar nenhum tipo de linguagem corporal quando se tratava de Scott Summers.
- Scott, não me venha com isso. Você sabe muito bem do que estou falando! – ela avançou e encaixou o braço no dele, puxando-o pelo corredor animadamente, imensamente divertida em perceber o quanto ele estava surpreso e constrangido. – Fui eu que dei a dica sobre o bar, então eu quero saber tudo o que aconteceu depois que você foi até lá encontrar o Logan.
Scott olhava para ela com a incredulidade estampada no rosto. Ela estava falando sério?? Queria mesmo saber o que tinha acontecido, como se Scott não fosse seu ex-namorado há menos de um dia, e sim alguma amiga apaixonada, e Jean estivesse ansiosa para saber detalhes do novo relacionamento dessa amiga????
- Jean!!
- Scott!! – ela imitou o tom indignado dele e riu da cara aborrecida do jovem líder dos X-Men. Ás vezes Scott parecia aquele menino tímido e arredio que entrara, anos atrás, pelas portas do Instituto, receoso e cheio de pavor...de si mesmo e dos outros. Jean amava aquele garoto, e amava o homem que ele se tornara, embora soubesse que há anos aquele amor tornara-se diferente da paixão que sentira nos primeiros anos em que se descobriram, pela primeira vez, apaixonados um pelo outro. – Não faça essa cara, Scott Summers, e não pense que assim vai se livrar de responder minhas perguntas!
Scott suspirou, balançou a cabeça ainda sem acreditar que aquilo estava MESMO acontecendo, então riu. Era tão raro aquele som que Jean por um momento ficou parada, apenas contemplando aquela maravilha. Scott não era consciente do quanto era bonito, e não desconfiava absolutamente do quanto podia parecer ao mesmo tempo sedutor e inocente quando sorria e, como agora, quando ria. Oh, aquelas covinhas!! Jean duvidava que Logan pudesse ficar indiferente se visse aquelas covinhas!!
- Muito bem, então, senhorita Grey. Se é o que quer, é o que vai ter! – ele abriu a porta de seu escritório e os dois entraram. Ele a fez sentar-se em uma grande e confortável poltrona junto da lareira apagada e sentou-se na frente dela, no chão, as pernas cruzadas á maneira dos índios.
- O que quer saber, então?
- Tudo. – disse ela, simplesmente.
- Você descobriria mais rápido se lesse minha mente.
- Você sabe que não gosto de fazer isso nem quando é necessário, Scott. – ela disse, com um suspiro profundo que o fez erguer a mão para afagar a dela, carinhosamente.
- Eu sei, desculpe-me. – pediu ele, e ela assentiu. – Como posso explicar o que aconteceu? – disse Scott, suspirando também, ao lembrar do fiasco da noite anterior. – Eu fui até lá...você tinha que ver aquele lugar, Jean...um verdadeiro pardieiro, com o perdão da palavra...não faço idéia como alguém pode gostar de se enfiar num lugar como...- o olhar dela fez com que Scott se interrompesse. – Bem...como eu ia dizendo...Fui até lá e não consegui falar, não da maneira como eu queria...
Scott contou tudo, entrando em detalhes quando Jean achava que ele estava sendo vago demais ou se achasse que ele queria lhe esconder algo, por timidez. Quando ele acabou e deixou-se cair para trás no tapete, estirado como um menino na grama de uma colina, fitando o teto com uma expressão desalentada, Jean ficou em silêncio, pensando.
- E então? – perguntou ele, sem se mover, a voz cansada e triste. – Foi ou não foi um fiasco? Eu juro, Jean, já tive idéias ruins antes, mas essa realmente superou todas as outras de longe...
- Eu acho que você é um idiota que não enxerga um palmo diante do nariz, Scott Summers.
Scott ergueu a cabeça tão rapidamente que os músculos de seu pescoço protestaram. Ele não estava certo de que ouvira realmente aquilo. Não podia ter ouvido aquilo dos lábios de Jean Grey. Entretanto, ao olhar em sua direção viu que ela o encarava com irritação e impaciência.
- Jean...?
- Você não percebeu que ele não fez nenhuma objeção ao que lhe contou? Que ele não se mostrou desgostoso nem por um momento depois da sua revelação...e que até te agarrou na garagem, Scott, querendo uma definição do que deveria fazer???
- Como é?? Me agarrou na gara...- subitamente Scott sentiu-se quase a ponto de desmaiar. Não se dera conta de que Logan o tinha "agarrado"...não no contexto em que Jean agora lhe indicava. Logan tinha mesmo feito isso, entretanto, e mais...aproximara-se tanto de Scott que quase o beijara. E Scott tinha...tinha...
- Sim, você bancou o idiota. – disse Jean.
Scott torceu os lábios.
- Pensei que você não gostasse de ler mentes nem quando necessário. – disse ele.
- Bem, quando o pensamento é tão alto e a situação é óbvia não há como evitar. – ela respondeu serenamente, então continuou. – Scott, você estava tão preocupado com a vergonha que estava sentindo e tão certo da rejeição que nem reparou que Logan também está atraído por você!
- Ele está? –Jean o fuzilou com o olhar e ele engoliu em seco. – Ele podia estar apenas zombando de mim, Jean! Apenas jogando para ver se eu caia e então...então ele simplesmente iria rir e...e...
Jean percebeu o que estava acontecendo. O garoto rejeitado, o menino que fora abandonado na rua á própria sorte e enfrentara abusos durante anos estava emergindo novamente. E isso não podia acontecer; isso quase matara as chances dela e de Scott no passado...não podia deixar que acontecesse novamente. Scott merecia ser feliz e tinha que deixar para trás essa insegurança. Já!
- Scott...- ela murmurou, quando ele apoiou a cabeça nas mãos, tenso, sem olhar para ela. – Scott...Logan nunca faria isso. Ele não é esse tipo de homem.
- Mas ele...ele disse que eu não fui homem o suficiente pra você!!
Scott estava começando a alterar a voz, num quase histerismo, então Jean se ajoelhou e o abraçou com força.
- Ele queria te provocar, fazer você por pra fora o que realmente estava sentindo. Ele queria conhecer você, Scott...e fez isso da única maneira que sabe.
O jovem líder dos X-Men conteve as lágrimas que ameaçavam irromper e considerou aquilo com cuidado.
Jean estava certa, claro. Era uma telepata habilidosa, mas também era uma mulher inteligente e sensível. Ela sempre captava a essência verdadeira das pessoas e a palavra dela era o suficiente pra ele. Scott afastou-se um pouco e sorriu.
- Não faz nem um dia inteiro que sou gay e já estou bancando a mulher histérica.
- Scott!!
- Jean!!
Os dois riram e se abraçaram novamente.
Alguém bateu á porta e imediatamente Scott se ergueu, aprumando-se. Jean voltou a sentar-se na poltrona um segundo antes da porta se abrir e Ororo entrar. Ela olhou de um pra outro rapidamente e hesitou.
- Desculpe. Estou interrompendo...?
Scott quase riu. Ao invés disso falou com sua voz calma e controlada de sempre:
- Não, Ororo. Algum problema?
- Não sei ao certo. - a bela africana parecia um pouco irritada ao responder. Como Jean e Scott erguessem as sobrancelhas, sem entender, ela resolveu explicar. – A aula de Logan terminou há meia hora e os alunos estão transbordantes de felicidade. Parece que andaram contando aos outros colegas sobre a aula e agora todas as outras turmas querem participar também!
- Isso não é bom? – Jean inclinou a cabeça de lado como um passarinho de penugem avermelhada. – Quero dizer...se ele fez um bom trabalho nós devíamos estar felizes pelas crianças poderem aprender com tanto prazer, não?
Pela maneira como contraiu os lábios, Ororo parecia achar que não.
Scott permaneceu em silêncio. Sabia porque Ororo estava preocupada. Se os alunos tinham gostado tanto da aula isso significava que Logan, nem de longe, seguira as regras estabelecidas no programa que havia sido preparado. Provavelmente, pensou ele, de volta em sua persona de líder dos X-Men, o senhor Wolverine os fizera andar por aí no mato como animais selvagens, uivando, espreitando ou algo do gênero...e as crianças sempre adoravam quebrar as regras; era algo natural, em sua opinião, mas que não significava que devia ser aceita.
- Eu vou falar com ele. – disse Scott, mas Jean se ergueu e segurou-o pelo braço. – Jean...
- Não, não vai. – Jean foi firme. – Primeiro vamos ver as gravações da aula na Sala de Perigo e depois vamos falar com ele...isso se algo realmente estiver errado. Certo, Ororo?
Ororo franziu ainda mais os lábios, tanto que sua voz saiu meio murmurante através deles.
- Ele apagou as gravações.
- Ele o quê?? – gritou Scott, incrédulo. – Como??
- Acho que com a ajuda de um dos alunos, mas ninguém disse nada a respeito, claro.
Jean voltou a segurar firmemente o braço de Scott. Ele se virou para ela, determinado.
- Jean, isso não está certo. Apagar as gravações é uma grave infração...se ele estiver fazendo algo que ponha as crianças em perigo na Sala...
- Você acha que ele faria algo assim, Scott, a sério? – ponderou Jean, ainda segurando o ex-namorado para que ele não corresse dali e fosse arruinar qualquer chance de se acertar com Logan futuramente, só para fazer seu papel de líder. – Vamos deixar as coisas assim...tenho certeza de que o Professor poderia falar com ele a respeito disso sem maiores danos.
- Perdão, Jean...- interrompeu a Rainha dos Ventos. – Mas sem maiores danos á quê? Scott é o Líder dos X-Men e provavelmente é o melhor para lidar com essa situação já que os treinamentos na Sala de Perigo estão sob sua supervisão.
- Ela tem razão, Jean. Eu deveria...
- Você deveria estar pensando na resposta que vai dar á ele mais tarde, isso sim, senhor Summers! – sussurrou ela, sorrindo. – Agora pare com toda essa pose e deixe que eu e Ororo cuidemos disso.
Jean desvencilhou-se do rapaz e arrastou uma confusa Tempestade para fora do escritório; antes de sair piscou para Scott e fez contato mental.
Aliás, já pensou no que vai dizer á ele, Scott?
Scott abriu a boca para falar, mas nada saiu. Jean era mesmo impossível.
- Você está distraído, sabe.
Logan ergueu os olhos da moto que estava polindo (a moto de Scott Summers, claro) e encarou os olhos castanhos de Vampira. Marie, corrigiu-se mentalmente, apesar de saber que ela não gostava que usassem seu verdadeiro nome com freqüência. Era algo intimo, só reservado para as pessoas em que ela realmente confiava; e uma dessas pessoas era Logan.
- Do que está falando, guria? – disse, voltando a baixar o olhar para os cromados que estava polindo com tanto cuidado, parando só um instante para bater as cinzas do charuto ali ao lado.
A garota deu de ombros.
- Quero dizer que hoje você parece meio longe. Parece mesmo que você está pensando em alguma coisa com muita, muita força, e isso te deixa com esse olhar perdido, aí. Então eu fiquei meio que preocupada...
- Obrigado pela preocupação, gatinha, mas não é nada com o que você deva se importar. Aliás – ele disse, erguendo os olhos novamente para ela, um meio sorriso nos lábios. – Você não tem aula agora? Não devia estar lá dentro aprendendo álgebra, geografia e sei lá o quê?
Vampira fez uma careta e se agachou do outro lado da moto, observando o trabalho do canadense. – Nah, eu até gosto de estudar, mas tem coisas que não sei pra que agente tem que aprender. Não faz diferença pra vida real, certo? Pra um confronto de verdade, como você falou na Sala de Perigo hoje cedo.
Oh-oh. Logan sabia que isso ia acontecer, e já sabia exatamente o que dizer.
- Escute, guria...- ele limpou as mãos num trapo limpo e o jogou na caixa de ferramentas ao lado da moto, a expressão séria. – O que eu disse lá serve pra situações de perigo e emergência, mas você precisa de muito mais do que isso pra se dar bem na vida.
- Você está vivo até hoje, não está? E vai indo bem, pelo que eu vejo. – respondeu ela, teimosamente.
- É...muito bem. – disse Logan sombriamente. – Rodando de um lugar pra outro, nunca me adaptando á lugar nenhum porque não sou o tipo de cara que se tolera por muito tempo, nem que tolera os outros por muito tempo, também...sem caminho, sem futuro ou conhecimento maior do que o que se deve fazer pra sobreviver.
- Isso é ruim?
- Eu não sei quem eu sou, guria, e desconfio que é por causa do tipo de vida que eu sempre levei...não sei, não dá pra saber...mas uma coisa é certa: crianças como vocês tem que aprender como viver, não apenas como sobreviver, e é isso que o Chuck e o bando X está tentando fazer. E eles estão muito certos na minha opinião.
- Eu não sou criança!
O protesto enfurecido saíra tão parecido com o resmungo de uma criancinha que Logan quase riu. Mas ele não faria isso; jamais riria de Vampira...a garota já passara por poucas e boas pra tão pouca idade e não merecia ser tratada com zombarias.
- Ok, como quiser, mas vá para sua aula, ok. Não quero o Summers na minha orelha por você estar cabulando.
- Você ainda não me disse no que está pensando. Ou em quem...
Logan deu uma olhada rápida para a garota, desconfiando de que ela talvez tivesse adivinhado algo...mas não podia ser. Ela tinha dito aquilo, logo após ele mencionar Scott, por pura coincidência.
- Já disse pra ir pra aula, guria.
- É na Dra. Grey, não é? Você está caído por ela...
Logan suspirou.
Se fosse assim tão fácil...
- Hei! Vampira!!
A voz de Bobby chegou até eles vinda do pátio. Vampira se levantou.
- Eu não sei o que você viu nela, sabe. – disse, então acenou para Bobby e correu para juntar-se a ele e Pyro, deixando o mutante sem saber se ria ou rosnava para tamanha ironia.
Logan então ergueu a cabeça e fitou atentamente a janela do segundo andar. De onde estava podia ver as altas janelas francesas do escritório de Summers, mas as cortinas estavam parcialmente cerradas, ondulando suavemente ao vento.
Você está me devendo uma resposta, guri.
TBC...
