-Yue, chame Zero. Não consigo encontrá-la.
Yue arregalou os olhos.

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Eu não conseguia entender. Eu só tenho quatorze anos. Foi o medo que me levou a fazer essa loucura? Foi a pior coisa que eu poderia ter feito em toda minha vida. Foi uma coisa meio grave. Eu dormi com ele. Foi o medo, não tem outra explicação.

Eu estava ali na cama dele. Estava tudo escuro.. Sentia os lençóis de seda sobre meu corpo. Sentia o peito dele sobre minha face e a mão dele sobre a minha. Apesar de estar raciocinando bem, não estava acordada ainda. Durante todo o acontecido, ele não deu uma palavra, e apenas me guiava. Eu não consigo entender nada.

O que ele quer de mim, afinal? Falou que apenas se aproveitaria, mas foi tão.. (odeio usar essas palavras) Carinhoso, atencioso. Mas o silêncio dele havia me incomodado.. Eu não sei o que fazer, as ações dele me deixaram tão confusa. E eu sei que ele está acordado, pois ele tem insônia. Mas por que ele ainda não saiu da cama? Por que não tirou a mão dele sobre a minha? A respiração dele estava lenta. Eu tentava me mexer, mas meu corpo não queria sair de perto do dele. E ainda sentia sono. Optei por dormir, sentindo o contato daquela pele macia e quente.

-Yue, e agora? E agora? – Sora andava desesperada de um lado para o outro – Ele conseguiu encontrá-la sem ser visto. Sabe a gravidade disso?

-Então.. Isso significa que o nível de treinamento dele aumentou? – Ele e Zero estavam sentados, observando pacientemente Sora.

-Sim, exatamente. Mas talvez não o treinamento físico, e sim o treinamento psicológico. – Ela parou, e olhou para ele aterrorizada.

-Se for este o caso, estamos ferrados.

-Acho que posso resolver isso. – Zero disse.

-Zero, não. Temos que pedir ajuda pro Tsuki.

-Não vamos pedir ajuda para aquele idiota. – Ele reclamou com raiva.

-Zero, você sabe que não pode lutar contra Loki sozinho. Nenhum de nós tem capacidade suficiente para lutar contra ele.- Sora recomeçou a andar.

-Podemos pedir ajuda para o resto. Para Akira, por exemplo.

Quatro segundos de total silêncio.

Sora parou, e se virou aterrorizada.

-Meu Deus. - Ela arregalou os olhos. - Onde está Akira?

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(Narração de Akira.)

Eram problemas demais para mim. Eu não havia pedido isso. Eu não havia pedido para simplesmente abandonar meu mundo, e correr atrás de uma garotinha fútil, que nem sabe o perigo que corre. E agora eu estou aqui, num bar. Bebendo vodka, que é uma das poucas coisas que sei fazer. Eu já estava até me sentindo mais leve... Não tenho nem dinheiro. Sou uma drogada que nem trabalha para conseguir sustentar o próprio vício. Roubar, é só isso que faço nesse mundo. Dei adeus á minha antiga vidinha de assassina.. Eu era tão feliz..

-Você vai entrar em coma alcoólica. – O homem que disse isso sentou na minha mesa, e sorriu. Não era bonito, mas havia alguma coisa nele que me chamava a atenção.

-Não garanto. – Respondi grossa.

-Vamos dar uma volta? – Ele não era inocente. Vi nos olhos dele exatamente o que ele iria fazer.

-O que me dá em troca?- Sim, interesseira e com orgulho.

-Isso. – Ele me mostrou um bolo de dinheiro segurado por um elástico.

Peguei e me levantei.

-Vamos. – Ele sorriu e me seguiu.

Passados alguns minutos, nós conversávamos sobre algumas coisas inúteis, até que me deparei com um beco sem saída. Eu sabia.

-Vem aqui. – Eu fui, e ele me agarrou com força. Fui deixando, até que consegui que minha mão esquerda ficasse livre. Desprendi meu punhal da cinta-liga, e enfiei no peito daquele idiota. - Humanos.

A quantia em dinheiro era boa. Eu estava de certa forma, feliz.
O corpo dele caiu no chão. O aroma do sangue invadiu minhas narinas. Me agachei e toquei no sangue que estava sobre o cimento. Fechei os olhos, e quase me deixei levar.

-Não. Não vou fazer isso. – Eu disse em voz alta. Somente para ter certeza de que ainda estava consciente.

Acendi um cigarro, e fui em direção a saída. –Alguns vícios substituem outros.

-Sangue humano é tentador, não? É realmente uma pena que você não saiba se controlar..- Tsuki, andava em direção a mim, enquanto eu me afastava em direção a saída.

-Tsuki, quantos humanos já matou hoje?

-Muitos. – Ele gargalhou e eu vi uma parede crescer lentamente, impedindo minha saída daquele beco.

-Não. Por favor, Não. – Eu implorei. A mão dele estava banhada de sangue, e eu já não estava mais me segurando. Ele me encurralou e estendeu a mão para a minha boca. Era tentação demais. Meu consciente já havia me deixado há muito tempo. Eu só ouvia as risadas dele, enquanto me deliciava com aquele saboroso liquido vermelho.

-
Sora, Zero e Yue, deslizavam pelas esquinas, seguindo o cheiro de Akira. Não estavam com um bom pressentimento, pois havia também um cheiro de sangue fortíssimo.

Yue passou por um muro de tijolos avermelhados, e parou.

-Sora, por favor. – Ele indicou a parede de tijolos vermelhos com a cabeça.

Ela passou o dedo indicador sobre alguns tijolos, e o muro ficou branco.

-Gesso. - Arregalou os olhos mais uma vez. – TSUKI.

Zero deu um chute, e o muro desabou. E única coisa que eles conseguiram encontrar, foi um cadáver humano, sem uma gota de sangue sequer.

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(Narração de Asuna)

Acordei pela manhã. Não era cedo. Umas dez ou onze horas, talvez. Loki não estava mais na cama. Levantei-me e fui até a porta. Fui rapidamente fazendo o caminho até meu quarto. Eu só precisava andar uns dois corredores até chegar lá.

Em meio caminho do segundo corredor, deparei-me com ele, que mantinha a expressão dura e fria. E então ele parou e me olhou de cima a baixo. Coisa que não entendi muito no ínicio, mas depois me lembrei de um importante fato. Eu não estava com roupas. Ele se virou e continuou seu caminho. Talvez ele não tenha me visto corar. Pela primeira vez na vida, senti vergonha ao repensar naquela pequena palavra. "Talvez".

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Talvez, todos sejamos iguais por dentro e por fora, de alguma forma. Todos nós nos deprimimos, todos nós sentimos felicidade. Mesmo que por motivos totalmente distintos.

-Eu a quero para mim. Somente para mim.