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Era verão, mas uma leve chuva caía limpando o ar e a vegetação ao redor do castelo, e até as próprias pedras do castelo. Severus olhava através da janela a chuva que caía, fitava as nuvens cinzentas e pensava que ele também se sentia assim: cinza e sem força. Começava a sentir saudades da sua enfermeira. Não que ele tivesse algum apreço especial pela jovem, mas... ninguém tinha ido visitá-lo. Inclusive Minerva tinha deixado de ir vê-lo, porém, ele não a culpava; sabia exatamente quanto trabalho implicava ser Diretor de Hogwarts por experiência própria, e além do mais... bem, ninguém estaria ansioso para ver uma pessoa como ele. Então ele estava resignado a esperar por sua enfermeira.

- Olá professor. Como se sente hoje?

Severus escutou a voz de Hermione e se alegrou, ficou feliz com a volta dela. Claro que não ia deixá-la notar, mas isso não significada que não tinha se alegrado sinceramente.

- Tarde hoje, senhorita Granger?

- Não, não é tarde. Tive aula. A maioria dos meus professores decidiram dar-me leituras e exercícios para concluir meus estudos, porém tem duas aulas que preciso estar presente: Defesa Contras as Artes das Trevas e Poções.

- E quem está lecionando Poções? - perguntou Severus com aborrecimento. Apesar de não dar aulas de Poções há dois anos não pôde evitar sentir como se alguém estivesse se metendo em seu território.

- O professor Slughorn.

Severus fez uma cara de incredulidade e Hermione continuou explicando.

- Ninguém mais quis ficar no seu lugar. A professora McGonagall me disse que não queria contratá-lo,depois de ter visto como ele se comportou durante a batalha, mas agora há um rumor de que o cargo é amaldiçoado como era Defesa Contras as Artes das Trevas.

- E quem acham que amaldiçoou o cargo de Professor de Poções? - Snape perguntou um tanto confuso. Voldemort já estava morto, os Comensais fugidos... quem iria querer fazer algo assim?

Hermione se afastou da cama fingindo que necessitava de algo da mesinha. Nestes casos, a localização sempre era o mais importante.

- O senhor professor, quem mais?

Severus a olhou incrédulo e logo começou a rir, mas um sorriso amargo. É que jamais iam … não diremos perdoar, porém.... deixá-lo em paz? Hermione queria dar-lhe alguma palavra de consolo, dizer o que sentia, que não deveria se importar, mas sabia que era melhor manter-se calada. E para preencher o momento de constrangimento começou a balbuciar sobre seus estudos.

- Preciso de aulas de Defesa porque é um ramo eminentemente prático. Claro que aprendi muito com Harry e com a guerra, mas.... – suspirou – … e bem poções. Por alguma razão sigo tendo certos problemas com essa matéria. - Abriu uma estante que havia no quarto e começou retirar frascos de poções e ungüentos para a ferida – Hoje por exemplo ficou difícil engrossar a minha poção Anti-hemorrágica.

- Moeu a baia do sabugueiro?

- Não, as piquei como disse o livro.

O professor arqueou uma sobrancelha, pegou sua varinha que estava sobre o móvel.

- Existem certas coisas que podem ser melhoradas nesse livro. Accio Moste Potente Potions!

Severus levantou uma mão e esperou que o livro que Hermione havia deixado sobre a mesa se movesse, mas não se moveu.

- Oh! - Hermione soltou uma exclamação ao compreender o que acontecia.

- Accio Moste Potente Potions!

Nada.

O professor deixou o braço cair sobre a almofada e fechou os olhos.

- Sabia disso também?

- Não. Não creio que ninguém saiba. Se Madame Pomfrey soubesse teria me dito.

- Nem uma palavra, compreende?

Hermione soltou os frascos e se sentou na beira da cama. Qualquer outro paciente ela teria segurado a mão para confortá-lo, mas não com Severus.

- Professor tudo isso deve ser temporário. A incapacidade de caminhar, a falta de... - as palavras morreram em sua boca – Li que em algumas ocasiões quando um bruxo passa por uma situação como a sua, quando há uma enfermidade grave, uma depressão profunda, qualquer situação que acarrete um estresse anormalmente grande, a magia pode abandonar o mago. Porém, uma vez superado o problema inicial a magia volta – sussurrou – devemos esperar, a magia voltará.

Ainda afundado entre as almofadas e com os olhos apertados, Severus falou entre os dentes:

- E se tem relação com a lesão na minha coluna? Ficarei aqui para sempre, incapaz de caminhar, incapaz de fazer magia?

Hermione sorriu. Havia algo que ela sabia e ele não.

- Professor, o senhor é perfeitamente capaz de caminhar.

Ele tratou de sentar e falar subitamente com os olhos arregalados, mas ela o deteve colocando a mão sobre o peito dele.

- Os medibruxos curaram a lesão. Houve uma certa inflamação na medula espinhal, inevitável, mas está sanada. Seu corpo recuperará a habilidade de caminhar assim que você der a ordem. Contudo, para isso é o senhor quem deve ser consciente de que pode e não somente isso, mas que que deve estar disposto a fazê-lo.

Ele abriu a boca para falar, mas não encontrou as palavras e ficou assim, abrindo e fechando a boca como um peixe fora da água. Ela sorriu ante a cena. Um Snape aturdido não era uma visão que tinha tido o prazer de ver antes. Se conseguisse uma Penseira seria uma linda imagem para mostrar aos garotos.

- Eu sei, professor. Não é algo comum de acontecer com bruxos. Os Trouxas sofrem destas coisas com mais frequência. Eles recebem ajuda psicológica, mas os bruxos não tem nada de semelhante. Então terá que lidar com isso sozinho. - Hermione levantou para sair da cama, porém sentiu uma garra de ferro fechando-se sobre seu pulso, prendendo-a.

- Jure para mim senhorita Granger, que não vai contar nada disso a ninguém. A ninguém. Nem mesmo aos seus... "amiguinhos".

Seus olhos escuros cravaram nos dela, dois poços profundos, hipnóticos. Algo dentro dela fez 'clic'. Ele confiava nela, por mais incrível que pudesse parecer. Ele estava em suas mãos agora.

- Juro professor. - Respondeu sustentando o olhar e acrescentou – Juro quer vou ajudá-lo a sair dessa.

Severus suspirou aliviado. Podia confiar na Sabe-Tudo, sempre conseguia encontrar uma solução para os problemas mais difíceis. Acomodou-se nos travesseiros e fechou os olhos. Esperando que a jovem fizesse seu trabalho.

Os dias passavam sem muita variação. Uma quinta-feira ou um sábado era a mesma coisa, ela sempre estava perto. E quando não estava, sentia falta. Havia se acostumado com o som da voz dela, sua quieta presença enquanto estudava calmamente num canto. Ela levava livros e biscoitos de chocolate para ele, que eram ambos suas fraquezas. E mesmo que ele não falasse muito, deixava-a tagarelar quando acabava de estudar. Não que ela falasse coisas sem importância, ela não era como suas contemporâneas que ficavam falando de garotos e de modas; ela falava mais de livros, feitiços, poções, e do futuro que a esperava como medibruxa. Graças a ela conheceu alguns autores Trouxas que de outra maneira teria desprezado e se sentiu particularmente tocado a ler A Balada do Cárcere de Reading* de Oscar Wilde.

E uma manhã, quando ela aproximou-se para cuidar de sua ferida, que havia diminuído, mas não fechado; ele notou algo particular no dedo anelar da mão direita dela.

- Senhorita Granger! - disse com um falso tom de admiração enquanto segurava a mão contra sua vontade – Noto algo diferente nesta mão. Um rubi? Que grifinório. Potter?

- Rony. - ela o corrigiu retirando sua mão suavemente com o olhar baixo.

"Modéstia?, pensou Severus. "Não", se corrigiu, "não é modéstia, é vergonha!"

- Não havia me contado que tinha um namorado tão sério.

- Não me pareceu apropriado.

- Quando será o feliz acontecimento?

- Depois dos NIEMs.

Severus arqueou a sobrancelha esquerda.

- Logo então. Muito perto. Tem algum problema em particular?

Hermione se sentiu indignada por causa da indireta.

- Não estou grávida! - gritou.

- E qual é o problema então? Ainda são muito jovens e por alguma razão a senhorita não se encaixa no perfil das jovens que querem casar logo que terminam o colégio.

- Rony... ofereceram a ele um cargo no Chudley Cannons e quer começar sua própria família. Sonha em ter filhos...

- E seu treinamento em St. Mungus? E seus sonhos de se tornar uma pesquisadora?

Ela respirou fundo antes de responder.

- Posso fazer tudo isso, embora os filhos tenham que esperar um pouco.

- E claro ele está de acordo com tudo isso.

Hermione ficou em silêncio.

Snape riu.

- Eu espero que a senhorita espere um pouco mais antes de amarrar o laço.

- O senhor...o senhor não é ninguém para dar aula de conselhos – ela disse tremendo de raiva – O senhor esperou demais pelo visto. Não conheço nenhuma senhora Snape e duvido que vou conhecer.

O sorriso sarcástico morreu nos lábios de Severus.

- O senhorita não tem a menor ideia das razões pelas quais eu decidi não formar uma família. - Respondeu com uma voz baixa, com um tom ameaçador que gelava o sangue e um olhar sombrio.

Porém, Hermione negou-se a se sentir intimidada. Levantou o rosto, mirando os olhos dele e falou tratando de imitar o mesmo tom de voz:

- Vi suas lembranças, senhor. Harry me mostrou.

Snape estava furioso com a fato da garota tê-lo pego em sua própria armadilha e de não ter se sentido intimidada com seu melhor tom de ameaça.

- Agradeceria se não falasse desse assunto nunca mais. - Concluiu sem quebrar o contato visual. Pelo menos nisso não se deixaria vencer.

- Igualmente senhor. - Respondeu ela com um sorriso forçado.

E não falaram mais do assunto. Mas Severus estava convencido de que Hermione cometeria o pior erro da sua vida casando-se com Ronald Weasley. Primeiro, o rapaz estava longe de pertencer a mesma categoria intelectual de Granger. Claro, o garoto tinha um mente analítica formidável, contudo a sede de conhecimento de Hermione se situava em outro nível. E pensando melhor, não havia outro rapaz em Hogwarts que pudesse estar no mesmo nível que ela. Um Corvinal, talvez, mas os Corvinais careciam de espírito e valentia que exalava dela de cada poro de seu corpo. E pensar que logo estaria cheia de ruivos, preocupada em trocar fraldas e cozinhar... que desperdício, por Merlin! Qualquer tola poderia parir dez filhos e alimentá-los, mas... que desperdício. Severus encolhia os ombros mentalmente cada vez que o pensamento o assaltava, dizendo a si mesmo que se era isso que ela queria para própria vida, pois então estava tudo bem. Mas ele sabia que não era isso que ela realmente queira...e isso o incomodava como uma pedra no sapato. Bem, supondo que ele usasse sapato.

Hermione do seu lado estava preocupada com outras coisas. O professor não estava fazendo nenhum progresso e naquele passo ficaria o resto de sua vida deitado naquela cama incapaz de fazer magia ou caminhar.

"Tenho que tirá-lo daqui", ela pensava desesperada. O ficar trancado dentro daquele quarto só estava condenando-o a perpetuar seu estado depressivo. Talvez se o levasse ao seu antigo laboratório de Poções recuperaria a vontade de se mexer, da fazer algo por si mesmo... mas como movê-lo? Não faria um Levicorpus para levá-lo flutuando pelo meio de Hogwarts, pelo menos se não quisesse chegar velha. Sabia que o professor morreria antes de suportar semelhante humilhação; tivera semelhante experiência com os Comensais, mesmo que no seu caso flutuasse de cabeça para baixo. Talvez seria melhor falar com professor Flitwick...

E foi assim que Hermione se apresentou uma manhã no quarto do professor Snape levando...

- Que diabos é isso, senhorita Granger?

Hermione estalou a língua.

- Professor...uma mente tão analítica como a sua... qualquer um diria que poderia chegar a um conclusão por si mesmo.

- Uma cadeira de rodas!?

Mas não era uma cadeira de rodas comum como a dos Trouxas. Em primeiro lugar era uma maravilhosa peça de carpintaria confeccionada em madeira de ébano, elaboradamente esculpida, tinha um belo estofado marrom escuro repleto de pergaminhos dourados. Estava encantada para subir e descer escadas e qualquer obstáculo que se pusesse em seu caminho, e também para obedecer a vontade mágica de quem a usasse, mas... teriam que adiar esse recurso por agora.

- O que aconteceu Granger, bateu a cabeça?, caiu da vassoura? Não vou utilizar semelhante traste. Leve isso, não quero vê-la.

- Bem, e então, o que pretende fazer professor? Ficar deitado nessa cama pelo resto dos seus dias? - exclamou ela exasperada, as mãos na cintura, erguendo-se ameaçadoramente sobre ele. Severus ficou atônito, nunca nenhum estudante havia tido coragem para enfrentá-lo assim. Muito menos ia se deixar repreender por uma aprendiz...ou por ninguém.

Sentou-se imediatamente na cama, mostrando sua melhor cara de vampiro amargo e seu tom de voz mais intimidante:

- Não vou passear por aí nessa coisa para que os alunos riam de mim!

- Notícias, professor! Os alunos sempre riram do senhor e não deixaram de fazer! E isso o senhor sabe perfeitamente. - Hermione parou e o olhou direto nos olhos, a poucos centímetros do rosto dele. - Morcego seboso das masmorras, estúpido, Batman!

- BASTA GRANGER! - ele gritou tapando a boca da jovem com a mão**, frustrado de não poder fazer mais para detê-la.

A garota nem sequer parou para pensar em nada, simplesmente agarrou a mão e a tirou de sua boca.

- Não finja como se não soubesse! - ela cuspiu com raiva – E ninguém se importa a mínima se o senhor caminha, se se arrasta, voa ou dorme pendurado na barra do guarda-roupa.

- E então por que você se importa?

- É uma excelente pergunta professor, não vejo porque deveria importar-me se nem você mesmo se importa. - Bufou e logo respirou fundo para acalmar-se . - Não deveria me importar, mas me importo – concluiu com tristeza.

O silêncio caiu como uma pedra entre os dois. Não havia nada mais o que dizer naquele momento. Severus se sentia abalado em pensar que pelo menos para alguém era importante se vivia ou se apodrecia em um poço. Contudo Hermione se sentia derrotada e impotente.

Ela se dirigiu para porta com um passo cansado e pegou sua bolsa com os livros do chão.

Esforçando-se ao máximo, Severus perguntou:

- Até amanhã, senhorita Granger?

Hermione parou por um momento e pensou. Não tinha ideia do que fazer. E saiu do quarto sem virar ou se despedir.

Continuará.

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Notas da autora

* A Balada do Cárcere de Reading foi a obra mais comovente de Oscar Wilde, que a escreveu enquanto cumpria uma condenação de dois anos de trabalho forçado pelo crime de sodomia. Depois de escrever isto jamais voltou a escrever nem uma palavra (literariamente, claro) e pouco tempo depois morreu.

Já não vestia o casaco vermelho

pois o sangue o vinho vermelhos são,

e sangue e vinho estavam em suas mãos

quando o encontraram com a morta

com a mísera morta que ele tinha amado

e aquela que ele assassinou em seu leito.

Se usarem um pouquinho da imaginação saberão porque Severus se comoveu tanto com este poema.

** Rs... aposto que estavam achando que ele ia calar Hermione com um beijo...não,não,não Severus é um pouco mais complexo que isso garotas.

N/T: Hermione pegou pesado quando citou sobre as lembranças dele, mas o morcegão retribuiu agora no fim do capítulo. Acho que eles estão empatados. Sorry pelos erros. Todos os créditos para June Magic. O ffnet acaba com as configurações:S

Bjoks para Pathy Potter, Ana Paula Prince, Afrodite *-*, June Magic ^^, Lady Malfoy, Larissa Potter, Moe Greenishrage, ashleyfisc.c, Lilian Granger^-^.