Era uma lápide de mármore branco, onde um jovem escritor repousava. Estava em um campo florido, nos fundos de uma cabana de madeira na beira de um lago. O dia estava lindo, céu anil e brisa suave e refrescante, assim como no dia em que ele se fora. O homem que ali estava sentado em frente ao amado não mais chorava; as lágrimas a muito já se foram.

- Meu amor... – Ikki sentia os olhos úmidos, mesmo que não passasse mais disso – O que aconteceu de verdade? Eu sinto como se eu tivesse te traído, entende?- Ikki suspirou, ficou em silêncio por um tempo e continuou o monólogo – O Shun me recomendou que eu me abrisse e não sei para quem mais posso me abrir além de você...

Ikki se acomodou de onde estava sentado, suspirando fundo antes de começar o monólogo.

- Eu fiquei desolado quando você se foi. Fiquei em luto por muito tempo, até Esmeralda me convencer a seguir a vida, que era isso que você gostaria que eu fizesse. Quando eu me mudei da Inglaterra onde morávamos para estudar História na Alemanha, tinha o intento de me manter longe de você, de alguma forma. Mas não foi isso que aconteceu.

"Não fiquei muito tempo em paz lá. Nos primeiros dias de aula fomos visitar a antiga Mansão Heinstein. Você era fascinado com aquele lugar e na tive dúvidas sobre qual cômodo eu iria visitar assim que tivesse um tempo de folga. Assim que eu pude fui lá, mesmo que fosse de madrugada."

"Talvez tudo fosse fruto da saudade, ou eu estava ficando louco. O fato é que eu te vi, sentado na poltrona, vestindo roupas antigas e lendo um livro. Você me olhou como se eu fosse alguma aparição e eu senti um misto de euforia e medo. Você não deveria estar."

"Eu ia conversar alguma coisa com você quando Shiryu chegou na porta e me chamou para ir dormir, por que o dia seguinte seria cheio. Eu disse que estava indo e dei as costas. Quando me virei para olhá-lo mais uma vez, você já tinha desaparecido. Assumi que era só minha imaginação, sabe?"

"Quando fui dormir, sonhei com você e o dia que nos conhecemos, quando eu ainda namorava a Esmeralda. Lembra?"

Chovia muito. A chuva tinha um efeito ensurdecedor nas telhas de amianto da quadra de esportes. Dois times de vôlei da faculdade – o do curso de letras e o do curso de medicina – jogavam no momento e a torcida só contribuía para que se comunicar fosse tarefa impossível.

Ikki estava sentado ao lado de Esmeralda na escada em forma de caracol que levava até uma salinha escondida que guardava equipamentos. Ele a abraçava pela cintura e vez ou outra a beijava com ternura.

Eles não estavam sós; Shaka, Camus e Shiryu dividiam um banco de madeira que ficava ao pé da escada, ao lado das arquibancadas. O loiro olhava insistentemente para Ikki, a quem tinha acabado de conhecer.

Um vento mais forte passou, acariciando os cabelos do moreno, como que em uma resposta. Ele sorriu tristemente, consternado.

"No outro dia, eu andava a cavalo no campo perto da Mansão quando te vi novamente. Você ainda usava roupas antigas e tinha uma postura totalmente diferente daquela que conhecia. Você parecia estar com medo de mim, eu vi isso em seus olhos. Fui em sua direção; eu teria que falar com você dessa vez. Te vi descendo do cavalo e o fiz também."

Ikki estava nos campos ao redor da Mansão cavalgando em direção ao grupo de estudos, que ia longe. O sol batia frio e a brisa gélida cortava. Marchava com calma e sem desviar o caminho, quando sentiu que o cavalo reagiu diferente, como se outro animal estivesse por ali.

Foi quando Ikki olhou para frente e encontrou aqueles olhos azuis novamente. Eles estavam assustados, acuados e curiosos e ainda assim altivos. O moreno desceu da cela, indo em direção ao loiro, vendo que ele fazia o mesmo. No caminho, sentiu um calafrio.

Quando estavam perto o suficiente para sentirem o cheiro um do outro, ficaram em silêncio por poucos segundos, que soaram como uma eternidade.

Eram poucos segundos em que tudo parecia normal novamente; em que todos os anos rebobinaram como uma velha fita cassete e era possível revivê-los como se vê um filme pela segunda vez.

- Você não existe, não deveria estar aqui.

O moreno franziu a testa como que irritado com as lembranças que surgiram e não pôde evitar que um sorriso surgisse. Ele então deu as costas para o espectro que revivia suas lembranças, montou no cavalo e voltou a cavalgar.

"Não podia ser uma ilusão. Era tão real... Seu cheiro, seu rosto... Eu conseguia ver cada imperfeição, cada detalhe dos seus lábios... Passei o resto do dia pensando em você e percebi que não me perdoaria se não te visse novamente e escutasse sua voz."

"Era tudo o que eu precisava".

Ikki sentou-se ao pé do pessegueiro quando o sol ainda estava alto. Sorriu mentalmente quando viu Shaka voltando no mesmo cavalo de antes, em direção à mansão. Assim que o loiro passava perto de si, levantou-se.

- Passei a tarde te esperando, loiro.

- Não te dei liberdades para que me chame assim. – era a primeira vez que Ikki ouvia a voz de Shaka em muito tempo. Aos seus ouvidos ela soava como sinos tilintando em harmonia. Sorriu.

- Eu não sabia que fantasmas tinham personalidade.

Apenas ter ouvido novamente aquela voz era suficiente para fazer valer todas aquelas horas na espera. Era suficiente por todas as lágrimas já derramadas, todas as noites de insônia, toda a saudade sufocada no peito.

Reconfortava, aliviava. Dava uma sensação de flutuação, de felicidade extrema.

Só de ouvir aquela voz, valia a pena.

- Quero falar com você, loiro.

- Em primeiro lugar, eu tenho nome, não me chame de loiro. Em segundo lugar, você por duas vezes afirmou que eu não existia ou não deveria fazê-lo. Por que motivo então conversas comigo?

- Se você tivesse me dito seu nome eu te chamava por ele.

- Shaka.

- O meu é Ikki. Prazer em te conhecer, Shaka.

- Bem, Shaka, o que é você?

Uma lembrança?

- Sou um homem.

- É, eu não esperava mesmo que você dissesse que era algum tipo de materialização de minha imaginação fértil. Antes que você pergunte, também acho que sou um homem e que sou real, certo?

- O que quer comigo?

- Conversar, já que te encontrei outras três vezes desde essa madrugada.

- Também te vi nessas três vezes e nem por isso puxaria papo com algo que só eu vejo. Se era só isso, com sua licença.

Shaka fez menção de sair, sendo seguro por Ikki.

"Shaka, entenda, eu tinha que prolongar aquela conversa um pouco mais. Eu não esperava tudo aquilo e não perderia a oportunidade por nada."

- Tive uma idéia; me veja como sua consciência. Não há problema nenhum em conversar com a própria consciência.

- Minha consciência saberia meu nome, não acha?

Shaka se desvencilhou de vez de Ikki, cavalgando para longe. Os longos cabelos loiros balançavam ao sabor do vento. Volta e meia ele olhava para trás, fitando outros olhos azuis que ainda estavam a sua espera.

"Nessa noite, Shaka, sonhei com você outra vez. Dessa vez sonhei com nossa cabana, no dia que Shun sofreu o acidente..."

A cabana branca cheirava a tinta fresca, que se misturava com o cheiro das flores silvestres e de grama fresca. Os peixes pulavam no lago, borbulhando. Algumas gaivotas voavam pelos céus denunciando o litoral próximo. A brisa marítima soprava fresca, agridoce.

Eles estavam abraçados em um banco de madeira com pequenos ramos de flores entalhados, adornando toda a extensão da peça. Era tudo tão detalhado que o cheiro que permeava o ambiente parecia sair delas.

- Shaka, eu nunca imaginei que minha vida pudesse ser tão perfeita.

Se beijaram de leve. Era um beijo quente, com gosto de melaço.

- Até parece um sonho, não acha?

- Volto logo.

O abraço ficou um pouco mais forte, antes de Ikki adentrar a cabana habilmente decorada. Ele passou pela sala de estar e entrou na cozinha, onde demorou um pouco, preparando duas canecas de chocolate quente.

Sorriu ao ver a foto da parede, enquanto esperava que o leite fervesse;

Era toda a turma.

Apenas Camus, Esmeralda, Afrodite, Aiolos e Shaka em pé.

Apenas a viagem deles que acabou.

Quando voltou para a companhia do amado, beberam em silêncio. Ikki sentiu o frio metálico do cordão do irmão no peito e teve uma sensação ruim. Se levantou para levar as canecas de volta para a cozinha, quando atendeu o telefone e seu mundo desabou.

Então eles estavam no carro, indo para o hospital.

Ikki dirigia, em meio ao medo de perder o irmão. Estavam em silêncio e Ikki sentia a mão de Shaka segurando a sua, transmitindo confiança, mesmo que o outro estivesse ainda mais transtornado com tudo aquilo.

Pediu informação para a atendente e correu em direção ao quarto que o irmão estava. Chegou rápido lá.

Já havia feito aquele caminho antes, quando não era um sonho.

"Era tudo tão nítido, Shaka, que era como viver de novo. Eu senti de novo tudo o que tinha sentido naquele dia. Tudo."

- Estou com medo, Shaka.

- Não precisa ter medo. Vai dar tudo certo.

Ikki suplicava por ajuda com os olhos. Não tinha por hábito suplicar. Era assustador se sentir tão acuado, com tanto medo de perder alguém.

- Shaka, foi por isso que o Shun me deu o colar antes de irmos para a cabana. – o moreno já chorava, involuntariamente – Ele sabia que aconteceria.

Então se abraçaram e choraram.

"Shaka, eu não consegui dormir mais naquela noite. Eu acordei com meu rosto inchado e a sensação de que tinha chorado o dia inteiro. Também não conseguia parar de chorar."

"Eu não podia fazer nada além de andar pela Mansão Heinstein, onde estávamos hospedados. Andei às cegas, segurando uma lanterna, para não acender as luzes e acordar alguém que eu não gostaria de encontrar."

"Foi quando vi uma porta maior e mais bem trabalhada. Senti de novo um calafrio passando por mim e entrei. Quando passei pela porta, te vi sentado na cama, olhando para mim."

Shaka se levantou da cama assim que viu que 'seu' espectro estava na porta de seu quarto. Foi até ele e enxugou suas lágrimas com o indicador.

- Todas elas são pelo seu irmão? – Shaka perguntou, confuso – Ele faleceu na ocasião?

- Não. – Ikki respondeu, num sussurro – Meu irmão não morreu.

- Ikki... – Shaka se afastou do outro, se sentando na cama – O que está acontecendo? Esse sonho... era uma lembrança sua?

Ikki ficou incomodado com a pergunta e secou as lágrimas que restavam com as costas da mão – É, são lembranças minhas.

- Então por que eu sonhei com elas?

"Shaka, eu estava muito confuso com tudo aquilo; era você, mas era um você que não tinha vivido tudo aquilo comigo. Era como se, de alguma forma, você tivesse perdido sua memória."

- Você me conhece?

Poucas perguntas teriam deixado o moreno mais transtornado. Como respondê-la? Dizer que conheceu um Shaka, na realidade que aceitava? Que sim, o conhecia?

Eram dois mundos; esse Shaka acreditava que era e o outro Shaka realmente foi. Eram o mesmo, mas eram diferentes.

Como dizer então se o conhecia?

- Conheci outro igual a você.

"Shaka, eu não podia dizer ao outro Shaka que o conhecia. Ele não era você, ele não compartilhava cada momento, cada lembrança que nós passamos juntos."

"Mas admito que o fato dele estar compartilhando meus sonhos, minhas lembranças me incomodou. Era como se todo o universo quisesse te substituir. Transformar outro Shaka em você."

- Por isso então conversas comigo? – Shaka franziu a sobrancelha em dúvida – Mesmo só você me vendo, admitindo isso? Por que apenas eu te vejo.

Ikki se aproximou de Shaka então. Chegou bem perto, tocando os narizes. O cheiro inebriante do outro o confortava. Não agüentou e segurou as mãos do loiro, aproximando ainda mais os rostos.

E se beijaram.

Tocaram os lábios em uma dança sensual e envolvente. Foi tudo muito devagar, para saborear cada instante mágico daquele momento. As línguas se abraçavam e logo as mãos caminhavam para aproximar ainda mais os corpos, como se fossem um.

Quando estavam sem fôlego, se separaram.

Ikki fechou os olhos, controlando a respiração. Quando os abriu, ele não estava mais lá.

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Esse capítulo é um pouquiiiiinho menor que o primeiro, mas é uma tendência dos capítulos-ikki: eles são quase uma releitura do anterior na visão do Fenixzinho e tendem a ser mais sucintos, para evitar a famosíssima sensação de que já leu esse capítulo antes e evitar ficar chato de ler.

Espero ter correspondido às expectativas. Fiquei muito feliz com cada review que recebi e agradeço de coração a todos vocês.

Beijos!