Levantei-me da cama assim que vi Ikki em pé, ao lado da porta. Ele parecia tão desolado, tão triste. Como se fosse apenas um corpo, uma carcaça que estava ali. As lágrimas rolavam abundantes. Ele apenas olhava para mim e chorava, parado no mesmo lugar.

Todo o meu coração me dizia para andar em direção a ele e confortá-lo, e foi o que eu fiz. Cheguei perto dele e enxuguei as lágrimas que desciam com meu indicador.

Todas elas são pelo seu irmão? Ele faleceu na ocasião?

Tinha algo de diferente nos sonhos que tive com ele. Era como se fosse real. Então, se eu estava sonhando com as lembranças dele, as lágrimas não poderiam ser pelo irmão?

Não. Meu irmão não morreu.

Ele respondeu tão baixo, que eu mais intui o que de alguma forma já sabia do que realmente ouvi as palavras que ele dissera

Ikki... O que está acontecendo? Esse sonho... Era uma lembrança sua?

Eu estava assustado e me afastei, sentando na cama. Ele se incomodou com minha pergunta. Mesmo se ele não respondesse, eu já sabia a resposta. Ele se recompôs, secando as lágrimas com as costas da mão, me respondendo.

É, são lembranças minhas.

Então por que eu sonhei com elas?

Ele não me respondeu. Continuou me olhando, pensando.

Você me conhece?

Eu me sentia dele. Tudo nele me era familiar. Os sonhos, o jeito de andar, de falar, o cheiro, a cicatriz na testa. Ele me parecia uma lembrança que criou asas e fugiu da minha mente, para não mais causar dor.

Ele ficou transtornado com a pergunta e demorou a responder.

Conheci outro igual a você.

Hoje eu entendo, mas na época a resposta dele não fazia o menor sentido.

Por isso então conversas comigo? Mesmo só você me vendo, admitindo isso? Por que apenas eu te vejo.

Eu estava com muitas dúvidas. Sobre ele, os sonhos, o outro eu que ele disse que conhecia. Eram tantas. Mas, ao invés de me responder (me parece que ele tem gosto por me deixar sem resposta), ele se aproximou de mim, bem pertinho. Nossos narizes se tocavam e eu pude ver bem os olhos azuis profundos que ele tinha.

Sem que eu pudesse esperar, ele me beijou.

Digo, ele começou o beijo.

Por que por um momento eu sentia que não era eu. Sentia como se fosse mais um dos milhares de beijos que já tinha trocado com Ikki.

Não, não mais um.

Era um beijo cheio de saudade. Um beijo que selava uma distância de anos. Um beijo cheio de amor, carinho, paixão. Tinha gosto quente de melaço, como no sonho. Era um beijo como o que nunca beijaria minha esposa.

Não me ressabiei por Ikki ser um homem. Estranhei isso, na verdade, mas não tive muito tempo de pensar enquanto aproveitava cada gota daquela sensação.

Quando já estávamos sem fôlego, nos separamos.

Ikki fechou os olhos e eu o vi sumir, como se fosse fumaça.

Pandora entrou pela porta do quarto instantes antes de Ikki esvanecer, tendo apenas visto Shaka pasmo, em pé ao pé da cama.

– Shaka, o que aconteceu?

Ela indagou com uma falsa preocupação. Shaka deu alguns passos e a respondeu quando estava prestes a sair do quarto.

– Não é nada. Qualquer coisa que necessitar, estarei na biblioteca.

Depois de encontrar com Pandora, fui para a biblioteca, lugar primeiro onde encontrei Ikki e onde eu esperava o encontrar novamente.

Aconteceu. Assim que cheguei lá, o vi sentado na mesma poltrona que eu estava quando ele me apareceu pela primeira vez.

Ele logo se levantou quando cheguei, com os olhos ardentes de paixão.

Shaka...

Eu não soube dizer nada. Sentia que ele esperava que eu fosse outra pessoa. Ele me abraçou de repente e eu não pude evitar abraçá-lo também.

Não sou o Shaka que você conheceu, Ikki.

Ele se afastou de mim, me olhando bem nos olhos.

Você é, Shaka. – ele sorriu – Meu Shaka não está comigo mais. Mas você é.

Suspirei. Não tinha entendido o que ele quis dizer. Sentei-me na poltrona ao lado e indiquei para que ele se sentasse também, sendo atendido.

Temos muito que conversar, Ikki.

Passamos longos minutos em silêncio. Ele me contemplava e eu não podia fazer nada além de me morder de curiosidade, até que ele resolveu falar.

Não sei como eu posso resolver suas dúvidas, Shaka.

Para começar, poderia falar sobre o Shaka igual a mim e que não está mais com você.

De repente toda a dor e tristeza do mundo pareceram pairar sobre os olhos de Ikki. Ele suspirou pesadamente e desviou o olhar de mim, antes de responder.

Ele morreu.

Isso era estranho. Ele dizia que um outro eu que ele conheceu e que provavelmente era o homem das lembranças que eu havia sonhado tinha morrido. Eu só podia estar louco de acreditar em uma anedota como essa.

Mas eu acreditava, mesmo sendo tão absurdo.

Então seu Shaka morreu?

É.

Como?

Não quero falar sobre isso.

Ele ainda não tinha me olhado nos olhos desde que perguntei sobre mim. Peguei o queixo dele e o fiz olhar para meu rosto, apertando um pouco. Incrivelmente, ele sorriu com isso.

O Shaka também fazia a mesma coisa.

Rolei os olhos. É muito confuso o ouvir falando de Shaka sem esse ser eu.

Ele também fazia isso – Ikki sorriu novamente. Agora parecia estar mais disposto a conversar – Shaka, eu realmente não sei em quê posso te ajudar.

Mas parece ter mais informações sobre o que acontece do que eu.

Meu Shaka morreu em um incêndio. Nossa cabana pegou fogo. Foi criminoso e não só ele partiu.

Você acha que eu sou ele?

De alguma forma você é. Seja do inferno, do céu ou de um mundo paralelo.

Eu não acho que eu estou morto, Ikki.

Ikki novamente se calou. Ficou outros longos minutos em silêncio, dessa vez fazendo tudo exceto olhar para mim.

Por que nós nos vemos, Shaka?

Me espantei com a pergunta dele. Eu não sabia responder e ainda cogitava a possibilidade de estar louco ou solitário. Na verdade, até hoje espero que essa seja a verdade.

Não sei. Você sumiu quando minha esposa chegou ao quarto, essa noite. E na primeira vez que falou comigo, passou por dentro de Camus.

Ele me olhou espantado. Sei que a comparação que vou fazer é por demais óbvia e até sem sentido na situação que estamos, mas ele realmente parecia ter visto um fantasma.

O que foi?

Pode ser uma coincidência mórbida, mas Camus morreu no incêndio que você morreu.

Acho que a saudade que ele sente do Shaka dele o faz me ver como se fosse, já que ele já está assumindo que de qualquer forma eu fui o amante dele.

Se existia um Shaka no seu mundo e um aqui, por que não pode ocorrer o mesmo com o Camus?

Se o Shaka e o Camus do meu mundo estão mortos e os do seu vivos, por que não?

Suspirei. Ele era difícil de se convencer.

Eu prefiro acreditar que eu não fui outra pessoa em outro mundo paralelo e vim parar aqui depois de morrer, seja lá onde aqui for.

Não vamos chegar a lugar nenhum com isso.

Eu nunca tinha ficado tanto tempo junto com ele, principalmente conversando. Assim que me dei conta disso, ele desapareceu.

Voltei para a cama, na intenção de dormir e, novamente, sonhei. Mas não com ele.

Depois da conversa um tanto intrigante com Ikki, Shaka saiu da biblioteca e foi em direção ao quarto. Lá, Pandora dormia pesadamente. O loiro apenas se deitou na cama e ficou um longo tempo olhando para o teto, sem sono.

Abraçou a esposa por trás, sentindo o cheiro dela, logo se afastando.

Demorou a dormir.

No sonho dessa noite, estávamos eu,Camus e outras três pessoas que eu não conheço, a mulher loira que Ikki estava abraçando no primeiro sonho e dois homens.

Estávamos na mesma cabana do sonho anterior. Estava de noite e o céu maravilhosamente estrelado.

Eu estava conversando com meus amigos – por que todos eles eram meus amigos – quando um grupo de homens entrou na cabana.

Eu não conhecia aqueles homens; na verdade, fiquei assustado quando eles entraram.

Eu vi os rostos deles muito bem.

Um deles tinha uma franja escura e espessa cobrindo os olhos. Outro o cabelo loiro e sobrancelhas grossas e peludas. Ainda haviam outros – um de longos cabelos pretos, por exemplo – mas foi nesses dois que eu mais foquei minha visão.

Rapidamente o grupo nos imobilizou e nos amarrou nas cadeiras da cozinha e, tão rápido como entraram, saíram.

Shaka, o que está acontecendo?

Eu não sei, Afrodite.

Então veio uma explosão e o cheiro de fumaça. Eu não troquei mais palavras com as pessoas que estavam comigo. Ocupei-me em tentar me desamarrar, para que de alguma forma eu pudesse sair dali e salvar os outros.

Mas nada deu certo.

Nada do que eu fiz foi suficiente para me soltar. Vi que Camus tinha conseguido e até tentou sair da cozinha, mas isso já havia se tornado tarefa impossível.

Ele não nos soltou, havia caído uma ripa entre a cadeira que ele estava e o resto de nós. Camus colocou um pano na boca para respirar melhor e foi procurar alguma coisa para ajudar-nos a sair dali.

Eu já estava ficando sem ar, pela fumaça, pelo calor e pelo esforço que ainda fazia. Quando olhei para os lados, vi a garota já desmaiada.

Minha visão começou a ficar turva e respirar era tarefa cada vez mais difícil. Afrodite e o outro homem também estavam desmaiados e Camus ainda tentava nos salvar de alguma forma.

Foi a última coisa que eu vi, antes de morrer.

Shaka acordou assustado com o sol alto. Respirou fundo várias vezes , até se deitar, abraçar o travesseiro e começar a chorar compulsivamente. No meio disso, Pandora chegou.

– Vim te acordar, mas já vi que está acordado – ela se assustou ao ver como Shaka estava - O que foi, Shaka?

– Não é nada, só um pesadelo.

Shaka respondeu, secando as lágrimas e tentando parar de chorar. Pandora o olhou torto e fez bico, antes de sair de casa batendo o pé.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Achei que tinha sonhado com as lembranças de Ikki, mas não era possível, se ele não estava no sonho.

Ou eu estava me lembrando do acontecido em alguma vida passada, ou estava ficando louco.

Nunca tinha me sentido tão desolado na vida e queria de verdade que Ikki aparecesse. Mas, antes que eu pudesse me levantar ou me recuperar do pesadelo, dormi e sonhei de novo.

Era algo pouco antes de eu morrer. Eu estava em uma cozinha também, mas de um apartamento em uma cidade grande e barulhenta.

Eu estava sentado na mesa e comia uma espécie de sanduíche. Ikki se sentava à minha frente, comendo o mesmo.

Ikki, o que você vai fazer quando eu morrer?

Ele riu e lambeu os lábios sujos de um molho avermelhado – Como o que eu vou fazer? Você não vai morrer.

Um dia eu vou morrer, Ikki.

Não agora.

Eu sorri e continuei depois de dar uma mordida – Jura que se você não vai morrer antes de mim?

Que espécie de conversa é essa? – Ikki arqueou a sobrancelha, largando o sanduíche – Você não vai morrer agora, amor.

Agora pode ser que não, mas um dia com certeza.

Eu prometo, está se sentindo melhor?

Sorri em confirmação, para depois continuar falando – Você acredita em vida após a morte? Mundos paralelos?

Nunca parei para pensar nisso.

Eu acredito que sim.

Ele me olhou com raiva, querendo mudar de assunto – O que deu em você, Shaka?

Eu prefiro acreditar que existe. Eu não suportaria não te ter mais depois de morrer.

Que garantia você tem que teremos um ao outro em outra vida em um mundo paralelo?

Nenhuma, na verdade.

Então.

Comemos em silêncio. Ele parecia nervoso comigo e eu até me divertia com isso.

Eu juro, Shaka. Juro que não vou morrer antes de você.

Então eu acordei, mas não estava em meu quarto.

Notas finais do capítulo

TCHÃNÃNÃNÃ!
E aí, povo o/

Participaçãozinha dos espectros. Sei que está faltando um juiz aí, mas isso tem uma justificativa bastante pessoal: eu confundo (sempre confundi!) o Minos e o Aiacos: eu não sei quem foi que eu descrevi -.-... O que está faltando descrever teve sua imagem completamente decepada da minha mente: eu simplesmente não me lembro como ele é. Sem contar que existe a possibilidade bem alta de eu ter misturado a aparência do Garuda e do Griffon (eu decoro o nome das sapuris, mas não a aparência... -.-).

Aliás, a demora na postagem não tem nada a ver com falta de inspiração ou tempo pra digitar; essa fanfiction está completinha, digitada em outro site (meu Nick é o mesmo, é o Nyah!), só que acontece que eu estou sem ter como postar, tipo, ando meio incomunicável em termos de internet xDD

Beijão, obrigada por cada review e pelo carinho de vocês!