"Eu estava com tanta saudade de te beijar, te tocar... E o beijo dele, Shaka... Tinha o mesmo gosto do seu, mas era diferente. Era meio curioso e inocente, entende? Mas... Eu sentia que de alguma forma ele era você."
Ikki olhou para o vazio que era o quarto principal da antiga mansão. Ele deu meia volta, indo para a biblioteca. Ao chegar lá, sentou-se na poltrona que Shaka estava na primeira vez que o viu, esperando que ele viesse, o que não demorou muito.
O moreno logo se levantou, ardente de paixão, e abraçou Shaka, cheio de saudades. O loiro parecia confuso, mas retribuiu o gesto.
– Não sou o Shaka que você conheceu, Ikki. – disse Shaka, se afastando.
– Você é, Shaka. – Ikki sorriu docemente, como há muito não sorria – Meu Shaka não está comigo mais. Mas você é.
Shaka suspirou como se tivesse ouvido uma piada e não entendido. O loiro se sentou e indicou um lugar para que Ikki se sentasse também.
– Temos muito que conversar, Ikki.
Ficaram longos minutos em silêncio, Ikki contemplando Shaka e este curioso.
– Não sei como eu posso resolver suas dúvidas, Shaka.
– Para começar, poderia falar sobre o Shaka igual a mim e que não está mais com você.
"Eu fiquei triste quando ele disse isso dessa maneira. Não pude evitar transmitir a minha tristeza, mesmo que eu realmente não quisesse que ele visse."
– Ele morreu.
– Então seu Shaka morreu?
– É.
– Como?
– Não quero falar sobre isso.
"Eu não tinha coragem de olhar para ele e confrontar os fantasmas do meu passado. Já me era suficientemente doloroso olhar para ele enquanto eu não me lembrava da sua morte."
"Eu estava triste, e me surpreendi quando ele pegou no meu queixo, apertou um pouco e me fez olhar para os olhos dele. Igual você fazia, amor. Então eu sorri."
– O Shaka também fazia a mesma coisa.
"Então ele rolou os olhos, igualzinho você fazia. Meu sorriso só fez aumentar."
– Ele também fazia isso. Shaka, eu realmente não sei em quê posso te ajudar.
– Mas parece ter mais informações sobre o que acontece do que eu.
– Meu Shaka morreu em um incêndio. Nossa cabana pegou fogo. Foi criminoso e não só ele partiu.
– Você acha que eu sou ele?
– De alguma forma você é. Seja do inferno, do céu ou de um mundo paralelo.
– Eu não acho que eu estou morto, Ikki.
Ficaram novamente longos minutos em silêncio e não se olhavam.
– Por que nós nos vemos, Shaka?
"Essa pergunta estava entalada na minha garganta há muito. Eu sentia que ele era de verdade, e não um fruto da minha imaginação. Mas é por demais doloroso me ver apaixonando por outra pessoa, Shaka, mesmo se esse pessoa de alguma forma seja você. Eu sinto que estou te traindo. No fundo, eu ainda torcia para que o outro Shaka fosse apenas minha mente insana. E, na verdade, até preferia essa hipótese."
– Não sei. Você sumiu quando minha esposa chegou ao quarto, essa noite. E na primeira vez que falou comigo, passou por dentro de Camus.
Ikki olhou espantado para Shaka; só podia ser muita coincidência.
– O que foi?
– Pode ser uma coincidência mórbida, mas Camus morreu no incêndio que você morreu.
– Se existia um Shaka no seu mundo e um aqui, por que não pode ocorrer o mesmo com o Camus?
– Se o Shaka e o Camus do meu mundo estão mortos e os do seu vivos, por que não?
Shaka suspirou pesadamente, já cansado de tentar convencer Ikki de qualquer coisa.
– Eu prefiro acreditar que eu não fui outra pessoa em outro mundo paralelo e vim parar aqui depois de morrer, seja lá onde aqui for.
– Não vamos chegar a lugar nenhum com isso.
Imediatamente após terminar a frase, Ikki viu Shaka sumir no ar, como fumaça.
"Depois dessa longa conversa que eu tive com ele, fui até o quarto que eu estava hospedado e tratei de dormir. A noite já estava quase acabando e eu tinha que descansar para o dia seguinte. Qual não foi minha surpresa ao sonhar com você de novo, Shaka."
Eu estava em casa, arrumando as malas para ir para o chalé. Você tinha ido mais cedo com o Camus, o Afrodite, o Aiolos e a Esmeralda, já que vocês trabalhavam juntos. Eu fiquei de ir com Shiryu, Shunrei, Shun e Aiolia, já que por causa do trabalho eu demoraria a sair e eles eram os últimos a partir.
Eles estavam me esperando na sala, enquanto eu trazia as malas. De repente, me veio uma angústia, uma solidão e uma incessante vontade de te ver, te abraçar, te beijar. Senti falta de ar e muito calor. Era como se eu estivesse morrendo e, de alguma forma, eu estava mesmo.
E desmaiei.
Quando acordei, estava na minha sala e meus amigos em volta, me esperando para sair.
– Está melhor, Ikki? O que aconteceu? – Shiryu me perguntou, preocupado. Eu dei de ombros.
– Não é nada.
Sei que eles não acreditaram em mim de verdade, mas eu não falaria nada de qualquer maneira.
– Então vamos, irmão!
Durante toda a viagem, o aperto no peito não passou, pelo contrário. A cada passo, ficava mais forte. A angústia, o coração apertado, a falta de ar, o calor.
Eu não achava que a dor poderia ficar mais forte, então chegamos ao nosso destino.
Tudo não passava de cinzas. Tinham muitos carros lá, de todos os nossos amigos. Mas nada disso me interessava. Eu só queria ver você.
As lágrimas já rolavam do meu rosto. Eu só queria ver você.
Engraçado como o sonho foi diferente em certa parte. No sonho eu fui direto onde estava seu corpo, ainda amarrado na cadeira da cozinha, intacto, junto com os corpos de Esmeralda, Afrodite, Aiolos e o de Camus, no chão. Ao contrário da realidade, onde eu fiquei sabendo pela boca de Mu o que acontecera antes de me desesperar e invadir a cozinha e ver a imagem que me persegue até hoje.
Fato que meus olhos pareciam duas cachoeiras. Aiolia me seguiu até a cozinha e lá nós encontramos Milo e Máscara da Morte.
Aí que eu percebi que não só eu havia perdido alguém que eu amava. Todos estávamos sofrendo, seja pelo amante ou pelos amigos.
– Milo, o que aconteceu? Já ligaram para a polícia?
Milo me olhou com os olhos inchados. Ele estava perto do local onde o corpo de Camus estava.
– Já ligamos sim, eles vão demorar, aqui é bem longe de qualquer lugar de qualquer maneira. Eu não sei como começou. Quando nós chegamos nos carros estava chovendo e a chuva estava apagando o fogo.
– Como aconteceu?
– EU NÃO SEI, TÁ LEGAL?
Milo explodiu em lágrimas novamente. Máscara estava um pouco distante, perto de onde estava Afrodite, e veio em defesa.
– Dá um tempo para ele, Ikki. – ele tragou o cigarro e continuou – Mas eu acho que sei quem foi.
– Quem? – Aiolia se manifestou pela primeira vez na conversa – Eu juro que se eu descubro quem foi o desgraçado...
– Você não vai fazer nada, Aiolia – Máscara interrompeu Aiolia – Acho que o alvo não era realmente o Afrodite, o Shaka ou qualquer um dos que morreu aqui. Acho que eu era o alvo.
– Filho da puta, nem tudo gira a seu redor, sabia? – Aiolia estava irritado e já começara a insinuar briga para o lado de Máscara da Morte.
– Aiolia, vou explicar bem devagar para você entender – Máscara da Morte apagou o cigarro. Eu continuei calado, observando, enquanto Milo velava o corpo de Camus – Eu fui jurado de morte quando saí da cadeia. Foi o Hades, um maníaco que controla o narcotráfico aqui na Inglaterra. Ele jurou que me mataria, e eu não duvido que o incêndio tenha sido ordem dele. Além do mais, era para eu ter chegado aqui pela tarde.
Eu esperava que Aiolia fosse estourar e voar no pescoço do Máscara, mas foi o Milo que fez isso. Máscara apenas o pegou com uma mão e o jogou longe. O tumulto chamou a atenção dos outros, que vieram ver o que estava acontecendo.
– Não é como se eu gostasse de saber que a culpa da morte do meu marido é minha!
Não sei o que se passou no resto da discussão entre os dois; eu saí em direção ao lago. Me sentei na beirada, com os pés dentro d'água.
E de repente eu estava na cozinha de nosso apartamento em Londres.
"Engraçado como o Máscara estava certo sobre os autores do incêndio, não é, Shaka?"
Era uma semana antes de você morrer. Sei lá, é até meio clichê, mas você sabia que ia morrer, não sabia?
Eu comia um x-burger e você também. O apartamento todo estava uma bagunça, mesmo para os meus padrões, já que você tinha resolvido dar uma faxina, daquelas suas caprichadas de três dias. Lembro bem que você não estava com paciência e coragem de ir pro fogão cozinhar e eu te convenci a ligar para a lanchonete.
Você raramente comia fast-food e ficava lindo comendo algo "não-saudável" e "não-natural". Sempre gostei de te ver pagando língua, com a cara deliciosa comendo, como você mesmo gostava de dizer, "enfarto comestível".
– Ikki, o que você vai fazer quando eu morrer?
Você sempre teve disso, de vir com uma indagação filosófica do nada. Como daquela vez em que você me fez parar o carro para me perguntar qual o sentido de tudo isso. Nem dei muita bola para a pergunta, conhecendo você como eu conheço.
Lambi meus lábios sujos de ketchup e respondi – Como o que eu vou fazer? Você não vai morrer.
– Um dia eu vou morrer, Ikki.
– Não agora.
Você sorriu, como sempre sorria quando estava feliz - – Jura que se você não vai morrer antes de mim?
– Que espécie de conversa é essa? – Eu não estava gostando do rumo da conversa. Larguei o x-burger na mesa e respondi o com a maior calma possível – Você não vai morrer agora, amor.
– Agora pode ser que não, mas um dia com certeza.
– Eu prometo, está se sentindo melhor?
A melhor forma de te fazer calar era sempre concordar com você. Te prometi uma promessa meio vazia e, admito, o fiz nessa hora só para você calar a boca.
Você sorriu e eu tenho certeza que sabia o que eu estava pensando – Você acredita em vida após a morte? Mundos paralelos?
– Nunca parei para pensar nisso.
– Eu acredito que sim.
Eu fiquei com raiva. Eu nunca gostei de tocar nesse tipo de assunto e hoje você tinha passado o dia me aporrinhando – O que deu em você, Shaka?
– Eu prefiro acreditar que existe. Eu não suportaria não te ter mais depois de morrer.
– Que garantia você tem que teremos um ao outro em outra vida em um mundo paralelo?
– Nenhuma, na verdade.
– Então.
Eu fiquei nervoso com você. Comi em silêncio, por pirraça, e você também estava calado, apenas sorrindo, se divertindo com minha raiva.
Percebi que você estava falando sério sobre a promessa, mesmo com aquele sorriso devastador.
– Eu juro, Shaka. Juro que não vou morrer antes de você.
Eu acordei então. Eu estava na minha cama, nada fora do comum, além do fato de eu estar a minha frente.
Eu estava me observando.
-.-.-.-
Bem, antes de mais nada, peço desculpas. Eu queria colocar um certo padrão nos capítulos, e os capítulos-ikki deveriam ter os sonhos e os encontros dele com o Shaka narrados por um narrador, não pelo Ikki, mas eu não consegui -.- Achei melhor colocar como POV do Ikki, e por isso a maior parte desse capítulo saiu como POV do mesmo, certo?
Mudando de assunto... Acho que vocês já desconfiam quem o Shaka vai encontrar no próximo capítulo o/.
Mudando de assunto²... A cena do incêndio no POV do Ikki... Eu não queria policiais, bombeiros ou qualquer coisa lá na casa no momento em que eles chegaram, por que eu queria que o Ikki visse o Shaka, que o Milo estivesse "velando" o Camus e o MDM perto do Afrodite (falando nisso, não achei muito legal a reação do Milo não... o que vocês acham?). Daí a falta de policiais na cena (mesmo que a cabana realmente fique a uma boa distância de qualquer civilização). Antes que eu me esqueça: ninguém ligou para o Ikki avisando por que ele já ia para a cabana de qualquer maneira.
Esse é o capítulo-meio da fanfiction, o que significa que a partir de agora é a reta final o/ Vamos ter um capítulo-shaka, um capítulo-ikki e o epílogo, se tudo sair conforme o planejado. Espero que estejam gostando, eu estou amando digitar! s2
Obrigada por todos os reviews, de coração!
