Quando eu acordei, estava em um jardim, em algum lugar montanhoso. O chão estava forrado de pétalas cor-de-rosa, no céu as estrelas brilhavam constantemente. No alto de um pequeno morro, duas arvores idênticas, de onde as pétalas choviam.
De alguma forma, eu conhecia aquele lugar. Não sabia como, onde ou quando, mas sentia que uma parte mais que importante da minha vida foi passada ali.
Comecei a andar e, observando o lugar, percebi que o jardim era fechado por um portão imenso, que dava em uma espécie de templo. Olhei para onde as árvores estavam e vi um homem sentado lá. Ele vestia algo como uma armadura, dourada. Ele tinha os olhos fechados e uma pintinha vermelha na testa, acho que um terceiro olho.
Me aproximei dele, sem reconhecê-lo, mesmo achando que eu conhecia aquela figura única, que me transmitia serenidade e me fazia sentir pequeno. Qual foi minha surpresa ao ver que o homem era eu mesmo.
Eu não pude expressar nada. Fiquei boquiaberto. Dessa vez, eu tinha certeza que tinha ficado louco.
– Você é o Shaka do Ikki? – eu perguntei, quando me recuperei do choque.
– Sou um Shaka de um Ikki, mas não o seu e nem o que você vê.
O cavaleiro de Virgem se levantou da posição de flor-de-lótus que estava, ficando frente a frente com seu eu paralelo. Abriu os olhos azul celeste, fitando a face confusa do outro.
– O que você... O que eu...
– Percebo que eu não costumo mesmo ser muito eloqüente. – Virgem riu de lado – Quando conversei com meu eu que morrera no incêndio, o Shaka de sua visão, ele teve uma resposta muito parecida com a sua.
– O problema é com você então.
É desconcertante, apavorante, conversar com você mesmo, frente a frente. Mas, mesmo assim, acho que não é só por esse fato que eu me sentia tão apavorado perto daquele Shaka. Acho que é pela força, pela presença, pelo poder que ele emanava. Ele parecia tão divino... Era tão sagrado que parecia quase inalcansável.
– Talvez o problema seja comigo então. – ele voltou a ficar sério, fechando os olhos – De qualquer maneira, Shaka, quero ter uma conversa séria com você.
– Ultimamente tudo o que eu faço é ter conversas sérias com fantasmas.
– Era para eu ter me ofendido, mas estou morto mesmo – arregalei os olhos. Eu não esperava que o segundo Shaka de quem eu tivera notícia também estivesse morto – Eu morri exatamente onde estou, debaixo dessas salas gêmeas. Eu tive um Ikki neste meu mundo. Ele continua vivo, sem mim.
– Não sei como me sentir em relação a ele.
– Nós e Ikki somos almas gêmeas, Shaka. Você tem a metade que lhe pertence, apenas não a conheceu ainda.
– E pelo visto vou morrer antes dele.
– Eu não agüentaria ver o Ikki morto, e acredito que você também não. O Ikki tem uma capacidade de superação muito mais forte que a nossa, eu não suportaria viver sem ele.
Era estranho vê-lo falar tão apaixonadamente sobre alguém. Ele parecia aquele tipo de pessoa que não liga para sentimentos.
– Como você morreu?
– É uma longa história – ele virou de costas e eu vi uma lágrima descer solitária pelo rosto dele – Mas o fato é que você não pode ficar sofrendo por uma vida que não é sua. Não é certo as lembranças do Shaka, do que morreu no incêndio, saltarem para você.
– Por que isso acontece?
– Por que ainda existe alguma coisa que o outro Shaka quer falar para o Ikki que pertence a ele, e ele está te usando para isso.
– Ele não disse nada ainda.
– Mas quando disser, você vai parar de ver o Ikki. Por isso te trouxe aqui parar conversar com você.
– E por que você, e não outro?
– Por que eu sou o único que posso e o único que sempre soube.
Me senti meio invadido pela maneira que ele disse. Parecia que ele sabia de exatamente tudo o que ocorreu na minha vida. E, mesmo que ele fosse eu, não me sinto à vontade em dividir certos momentos com outra pessoa.
– Então você também não sofreria por uma vida que não é sua?
– Não é como se eu tivesse uma escolha.
– Só isso que você queria me falar?
– Você não acredita na falta que ele lhe fará. Agora tenho algo a fazer.
Então tudo começou a mudar. O mundo ficou distorcido, até revelar meu quarto, na mansão Heinstein.
Olhei para frente e vi Ikki, com um dos pulsos pingando sangue.
E tudo ficou preto.
Não sei quanto tempo se passou. Senti como se eu tivesse desmaiado ou pegado no sono, mas nada disso acontecera. Era algo mais fundo, como se alguém tivesse tomado conta do meu corpo.
Quando voltei a mim, eu estava em pé, com os lábios colados ao de Ikki.
– Já é o outro você, não é? – Ikki me perguntou, se afastando.
– Nem sei mais quem eu sou.
– Acho que essa é a última vez que nós nos vemos.
– Você conversou com seu Shaka, não é?
– É.
Não tivemos tempo de despedidas melosas ou qualquer coisa assim. Ele começou a desaparecer, num sorriso. Não demorou muito e ele já não existia no meu mundo mais.
Depois daquela vez, nunca mais o vi e já se passaram cinco anos. No início, eu jurava que o veria novamente. O sentimento foi se transformando e eu já conjecturava a possibilidade de tudo ter sido obra da minha imaginação.
Mas a saudade foi crescendo e tudo o que eu queria era vê-lo novamente.
Aquele Shaka com a armadura tinha razão. Eu não tinha noção da falta que apenas um fantasma do Ikki poderia me fazer.
Eu nunca encontrei o Ikki que de fato me pertence e já não importo se ele existe. Eu só faço me agarrar nas lembranças que tenho do que me apareceu, lembrar do beijo, dos sonhos e imaginar outros fatos da vida dele como seu eu fosse o Shaka que morreu no incêndio.
Não me importo se ele não passa de um fruto da minha imaginação, se ele é real ou não.
Ele é meu, só meu. Eu o amo...
... E isso basta.
Shaka fechou o diário, pegando-o junto com a vela. Andou em direção às escadas, indo ao quarto que lhe pertencia.
Chegando lá, guardou o caderno na gaveta da escrivaninha e deitou na cama. Depois de tudo o que passou, sua insônia piorara.
Pandora acordou com o marido se deitando – Insônia novamente?
– É.
Shaka olhou para a esposa, que já voltara a dormir, tomando uma decisão que já deveria ter tomado. Havia mentido para si mesmo. Já não bastava.
Pegou novamente o diário, rasgando a última folha e pegando a caneta-tinteiro.
E quando os raios de sol beijavam a noite, trazendo um novo dia, foi deixado um caderno preto, em cima da escrivaninha, com um bilhete, escrito com uma caligrafia fina, em cima.
Desculpe, Pandora, mas menti. Estou à procura do homem de meus sonhos.
EXCELSO -.-.-.-.-.-.-.-.- EXCELSO
"O outro Ikki, Shaka, parecia tão diferente de mim. Ele era mais corpudo, mais austero, mesmo parecendo mais jovem que eu. Também usava uma espécie de armadura, em tons de laranja. Ele se aproximou de mim, devagar. Depois olhou nos meus olhos e começou a falar."
– Você não tem o direito, moleque. – Fênix franziu as sobrancelhas, pegando o pulso do outro e apertando – Você não tem o direito de fazer o Shaka sofrer por sua causa.
"Eu não tive tempo de responder. Na verdade, ele era consideravelmente mais forte e não me dava margem de resposta."
– O seu Shaka já se foi. É nossa sina. Você não tem o direito de fazer outro Shaka sofrer por sua causa.
– Mas eu NUNCA pedi para vê-lo novamente.
Ikki apertou ainda mais o pulso do outro, fazendo gotas de sangue pingar.
– Eu sei que você nunca pediu, moleque insolente. Mas você está o fazendo sofrer por uma coisa que ele ainda não viveu. Eu sei quanta falta o seu Shaka lhe faz, e mesmo que seja confortante tê-lo novamente de alguma forma, aquele não é seu. O seu já se foi.
– Quer dizer que eu não vou vê-lo de novo?
– Não sei. Meu Shaka está projetando minha imagem para que eu possa conversar com você e te dar uns tabefes. O santinho lá é poderoso mesmo depois de morto. Eu não sei responder nada que você puder me perguntar. Só sei de uma coisa e vai ser a última coisa que você vai ouvir de mim: aquele Shaka não merece sofrer por uma vida que não é dele. Mesmo que você não tenha pedido, mesmo que você não tivesse intenção, você está passando sua dor para ele, seu Shaka está passando a dor dele para ele. Ele tem que viver a própria vida e por sua causa isso não vai mais acontecer, até que ele encontre a outra metade da alma que lhe é de direito.
"Aquele Ikki parecia louco. Foi mesmo como ele disse, assim que ele fechou a boca, sumiu no ar. Eu não sabia o que fazer, amor, então fui até o quarto que era de Shaka na mansão Heinstein. Quando cheguei lá, com o pulso pingando, vi Shaka em pé, olhando para mim com um olhar vago. De repente, o olhar dele mudou e você deve saber o que aconteceu."
O olhar vago de Shaka mudou para um jubiloso, cheio de saudade. Shaka pulou nos braços de Ikki, apertando, fazendo o moreno gemer de dor.
– Desculpe,Ikki.
– Não foi nada. – Ikki se afastou do amado, olhando diretamente nos olhos dele – É você, Shaka?
– O seu por direito. – o olhar do moreno saltitou de felicidade, mas o loiro controlou os impulsos do outro com um gesto com as mãos. – Mas eu estou aqui só para te falar uma coisa.
– Como?
Ikki ficou confuso, mas foi silenciado por Shaka.
– Eu te amo mais que tudo, Ikki. Mas não culpe o Máscara pela minha morte, não foi culpa dele.
– Você veio até aqui só para dizer isso?
– Não. Vim te pedir para não fazer o que está pensando.
Dito isso, Shaka colou seus lábios nos de Ikki, e já não era ele mesmo.
O outro Shaka voltou a si confuso. Ikki se afastou, começando a falar.
– Já é o outro você, não é?
– Nem sei mais quem eu sou.
– Acho que essa é a última vez que nós nos vemos.
– Você conversou com seu Shaka, não é?
– É.
"Entenda, Shaka, o outro você sumiu de repente e eu não tive tempo de me despedir dele. Depois desse dia, voltei imediatamente aqui para a Inglaterra e vim direto até seu túmulo. Na verdade, não tem uma semana que tudo aconteceu. Eu não sei o que pensar disso tudo. Não sei se tudo aconteceu de verdade, se foi minha imaginação."
"Mas não posso fazer o que me pediu. Sua falta me corrói, me machuca. Eu já tinha me decidido sobre o que fazer, assim que cheguei na Alemanha. Aquilo que aconteceu só me fez adiar minha decisão."
Ikki se levantou, recebendo uma lufada dos ventos como resposta. Abanou a poeira das roupas, dando as costas e proferindo umas últimas palavras.
– Até logo, Shaka.
Ikki deu alguns passos, subindo em uma moto que estava estacionada. Começou a correr, sem capacete, apenas sentindo o vento balançar seus cabelos. Andou durante alguns minutos, até chegar a um penhasco, que dava direto ao mar.
Deixou a moto meio afastada e andou até a beirada. Abriu os braços, sentindo o vazio à sua frente.
Fechos os olhos e pulou.
Já não era.
-.-.-
Essa é a conclusão-Shaka-Ikki. o/ Gostaram?
Agora aproveitem! Eu ia postá-las separadamente, mas juntei por que ambas ficaram diminutas. Como eu ia postar junto, pensei que não tinha problema de verdade deixar tudo junto, mesmo que eu realmente não quisesse fazer isso, por um problema puramente estilístico.
Beijos e até o próximo capítulo!
