Estava tudo branco, silencioso, exceto por um barulho contínuo e fragmentado. A claridade batia nos meus olhos, fazendo-os doer. Senti alguma coisa em meu rosto e uma espécie de tubo entrando pelo meu nariz. Também havia algo no meu braço, preso. O cheio era algo de farmácia, éter talvez. Minha boca estava seca, com gosto de meia. Forcei minha visão e pude ver a silhueta de uma janela, com cortinas claras voando ao sabor do vento. Vi também uma poltrona perto de onde eu estava e alguém sentado nela, acho que dormindo.

A pessoa concertou a posição torta em que se encontrava, acordando. Olhou para mim, sorriu e começou a falar comigo.

– Que bom que acordou, Ikki. Você nos deu o maior susto. – Hyoga levantou da poltrona azul que estava e andou em direção ao amigo – Você ficou três dias dormindo, Bela Adormecida.

– O que aconteceu? – Ikki estava confuso, sua cabeça latejava e não se lembrava dos últimos momentos que vivera – A última coisa que me lembro é de estar no túmulo do Shaka...

– Milo tinha ido lá visitar o túmulo do Camus e te viu sair de moto para o penhasco e te seguiu. Achei que você pudesse responder como foi parar misteriosamente no mar, no meio das pedras e no mar revolto, para depois ir parar na praia, já que o Milo não soube responder.

– Sem ironia, Hyoga.

– Você tentou se matar, Ikki. Você tem idéia do quanto ficamos preocupados quando ficamos sabendo? Você sabe o quanto o Shun sofreu por isso? Ele está em casa agora, dormindo depois de noites em claro, e só por que o Shiryu deu calmantes para ele.

Hyoga estava alterado e já falava em voz alta. Gesticulava fortemente, sem se lembrar que estava em um hospital e que estava falando com alguém que estava hospitalizado.

– Eu...

– Shaka não gostaria de te ver morto desta maneira imbecil, Ikki.

As últimas palavras de Hyoga funcionaram como um gatilho na mente de Ikki, que ficou límpida, mesmo que seu corpo não respondesse à altura. Tentou esbravejar com o amigo, mas a voz não passou de um fino sussurro.

– Você não sabe nada do Shaka, Hyoga.

– O conheço o suficiente para saber que ele não gostaria que você se matasse.

Hyoga tinha razão e Ikki sabia disso. O leonino desviou o olhar o máximo que pôde, mas não conseguiu fugir do olhar incisivo do aquariano.

– Me deixe sozinho, Hyoga.

Não passou de um fio de voz, mas Alexei entendeu o recado e saiu do quarto, caso contrário ia acabar estourando com o amigo ali mesmo.

As memórias de Ikki então começaram a voltar, como uma avalanche, todas de uma vez, movidas pela solidão.

Eu estava caindo. Não havia nada em que eu pudesse me sustentar, abaixo de mim o oceano rochoso e acima apenas o céu azul. Me senti livre, mais vivo que nunca, capaz de qualquer coisa que imaginasse. Por um momento, me arrependi de ter pulado, mas logo a dor que morava em meu coração voltou com toda a força e não senti mais medo de encontrar as rochas.

A queda durou apenas alguns segundos, que pareciam uma eternidade. As pedras ficaram mais próximas, convidativas. Fechei meus olhos, esperando o final de toda a dor que sentia, mas não foi isso que aconteceu.

Alguém me segurou por trás, uma mão delicada e firme, que caiu junto comigo nas águas turbulentas, me segurando como se eu fosse um bem precioso.

As águas geladas do mar e a correnteza de alguma forma me afastaram das pedras, levando-me para o mar aberto. A pessoa ainda me segurava, mas não tive coragem de abrir os olhos para ver quem era.

Senti minhas pernas pesadas como chumbo e meu corpo começava a se contrair, pela falta de ar. Abri os olhos e, no meio da água turva e do círculo de luz que via através da superfície, vi um anjo de cabelos loiros esvoaçantes, me puxando para cima com toda a força que possuía.

Logo as ondas me levavam para a praia, e eu pude ver a figura que me salvara antes de me entregar ao sono que me possuía.

Era Shaka.

Não sei qual deles, se o meu, o do meu eu que conheci, o que eu via, outro ou ainda todos eles. Ele apenas sorriu para mim. Não disse nada, mas me abraçou com força e com os olhos lacrimosos, antes que eu desmaiasse.

Shaka não ia gostar que eu morresse assim, Hyoga tem razão.

Tenho que seguir em frente e, um dia, o encontrarei de novo.

E iremos juntos, rumo à eternidade.

S&I4ever-S&I4ever

Shaka estava sentado em um banco, no balcão de uma taverna. Em uma mesa mais afastada, vários homens jogavam carteado. Um deles parecia ter roubado no jogo, já que de repente começaram uma briga, que teve que ser apartada por homens de uma mesa próxima. Ao lado de Shaka, uma mulher com poucos trajes jogou charme para um homem bêbado. Os dois subiram as escadarias não muito depois.

Era a terceira caneca de chope que Shaka já tomava. Não era dado a bebidas, mas depois de tanto procurar, já não tinha esperanças. Já se passaram três anos de procuras, de falsas esperanças, de sonhos e de ilusões.

Suspirou fundo, sorvendo o restante da caneca.

Era duro ter que passar por tudo o que passou para ganhar dinheiro, depois que o que trouxe de casa acabara. A única coisa que não fizera foi vender o próprio corpo, do resto já tinha feito de tudo.

Estava com as roupas, antes finas e caras, maltrapilhas. Os sapatos estavam gastos de tanto andar e a capa já servira muitas vezes como cobertor. A cor viva já estava desbotada pelo tempo e suja de poeira e lama.

Não era nem sombra do homem que foi um dia. E, se porventura achasse seu Ikki...

– Ele nem olharia para mim, comigo desse jeito.

O atendente encheu novamente a caneca e Shaka tomou outro gole, quando viu um rapaz sentar-se ao seu lado.

Ele tinha feições delicadas, cabelos castanhos que batiam no ombro e vivos olhos verdes. A pele era alva e os olhos ligeiramente puxados.

Shaka não pôde evitar encarar o garoto, que ficou com medo de ver um mendigo o encarando de tal maneira.

– Deseja alguma coisa, senhor?

– Parece que eu já te vi.

Dos meus sonhos.

– Sou Shaka.

– Shun.

O garoto respondeu por educação, mas não voltou sua atenção à Shaka. Voltou-se ao barman e pediu que o mesmo pegasse um pacote, que seu irmão havia pedido que deixassem ali.

E era tudo o que Shaka precisava ouvir.

Shun saiu do estabelecimento, sendo seguido pelo loiro, e logo começou a prender o pesado pacote na charrete. Em cima do cavalo baio que puxava a carroça, um homem alto, moreno, de profundos olhos azuis e uma cicatriz entre os olhos.

Os olhos de Shaka marejaram quando encontrara aqueles olhos penetrantes. Viu-se sendo observado e que Ikki descia do cavalo em sua direção. O olhar era duro e terno ao mesmo tempo. As roupas eram simples e as passadas cansadas de tanto cavalgar.

– O que quer?

Shaka apenas sorriu. Era bom ouvir aquela voz novamente. Era bom saber que as palavras eram dirigidas, de verdade, a ele.

Era bom ver Ikki.

E viveria sua própria história de amor agora.

S&I4ever-S&I4ever

Fênix estava sentado na própria cama, no aposento de cavaleiros de bronze no santuário. Não conseguia dormir mais depois que a Guerra Santa acabara e a situação só piorou depois que Shaka resolveu aparecer como fantasma e pedir para que Ikki parecesse para ele mesmo em um mundo paralelo, pedindo para que conversasse com ele mesmo, por que outro Shaka estava fazendo outro Shaka sofrer por causa de outro Ikki que nem tinha conhecido ainda.

Eram muitos Ikkis e muitos Shakas na sua cabeça.

Não podia mentir. Era bom ver Shaka novamente, depois que ele morreu. Não era a mesma coisa de vê-lo fisicamente, de tê-lo, de sentir o gosto dos lábios, abraçar e dormir juntinho, mas matava a saudade, um pouco dela, pelo menos.

Tornava a dor mais suportável.

– Você devia dormir mais, Ikki.

Era a suave voz de Shaka. Só isso, a voz, baixinha, como se o vento na janela estivesse cantando. Por vezes Ikki achava que era só sua consciência materializando Shaka de alguma forma, ou que era o amor vendo Shaka em todos os lugares.

Mas, ah, era mais gostoso pensar que o próprio Shaka quem conversava consigo. E era bom saber que em algum lugar do universo ele e Shaka estavam juntos.

Sorriu, como só sorria quando estava com seu Shaka.

Ele amara de verdade na vida, e, mesmo que seu amor já tenha partido, foi como um herói, foi por amor, foi amando. Teria que fazer jus aos esforços de Shaka, também seria um herói, faria mais pela humanidade do que já fez, seria mais forte do que é. E, enquanto ele, Ikki Amamiya, estivesse vivo, enquanto sua alma estivesse viva, Shaka também continuaria, aqui dentro. Era mais que suficiente.

E voltou a sorrir.


Oi, queridos leitores! Gostaram do desfecho? Gosto muito de saber suas opiniões, sério! (e me perdoem a demora, é que eu esqueci de postar, sério!)
No próximo capítulo, o último de verdade (decidi fazer apenas um capítulo extra) eu coloco o nome da fanfiction de Harry Potter que eu disse no primeiro capítulo, lembram?

Até!