Gina

Eu cheguei a uma conclusão: o querer destrói.

Não destrói no sentido de levar a morte, mas destrói a alma, a paixão, o melhor e mais vivo do que existe nas pessoas.

E o querer pode ser por medo ou o desejo. No medo, você não quer. Quando você deseja, você quer.

Você pode ter um medo terrível de algo se concretizar, então não quer que aconteça. E esse não querer, o temor, consome sua sanidade, seu tempo, sua vida... E você vive em função dele. A todo o momento, você procura sinais que o seu temor virá a tona, que vai acontecer, então procura manter os olhos abertos para qualquer coisa. E isso enlouquece. Uma simples folha que cai de uma árvore se transforma no precursor de uma catástrofe. É um sinal, tudo é sinal. Assim, vive em função do medo, e já se perdeu de si mesmo. Você está destruído.

O desejo, a vontade, o querer talvez seja pior. Talvez. Você quer algo com toda paixão, e o fato de nunca conseguir te despedaça. Cai um pedaço aqui hoje, outro ali amanhã e, um dia, você percebe que há um buraco, um vazio. E aí é tarde demais para você voltar atrás. Não há jeito, é irremediável. Irreversível. Você nunca terá seu desejo realizado. Seu querer não acontece. Há um vazio no peito, a esperança acabou. Quando ela chega ao fim, você ri, parece feliz, cumprimenta as pessoas com um sorriso enorme no rosto, mas é tudo aparência. Você está acabado por dentro, e fingir que tudo está bem é terrível.

O que me destrói não é o querer e nem o não querer. São ambos. Para algumas pessoas, penso que algumas poucas, os dois levam a destruição.

Porque você quer tão desesperadamente... E também não quer, porque se isso acontecer...

É o fim.

Eu cheguei a essa conclusão durante a noite que antecedeu aquela manhã de quarta-feira. Era primavera e ainda estava frio. Os dias e noites muitas vezes me enchiam de uma melancolia dolorosa. E nesses momentos eu ficava pensando.

Como eu poderia querer tanto tê-lo e, ao mesmo tempo, não querer? Porque eu não queria, não queria, a idéia era horrível e asquerosa. Causava culpa e nojo de mim mesma. Mas se eu o amo tanto, tanto por que nunca poderei tê-lo? É tão injusto! Uma parte de mim quer, a outra não quer, e com isso algo em mim se apaga, se esgota, morre.

- Gina!

O grito de mamãe chegou lá de baixo. Provavelmente ela estava na cozinha, fazendo o café da manhã com papai. Era um costume eles prepararem essa refeição juntos, o que me agradava. Porque depois de quase 20 anos de casados, eles ainda se amavam muito. E eu nunca teria um amor assim, nunca...

Não, não, não!

Era melhor desviar os pensamentos para assuntos mais práticos. Tomar banho e café. Eram cerca de sete da manhã e as oito tinha de estar na escola.

Quando desci, o cheiro de panqueca doce estava por toda a cozinha. Só então percebi como estava faminta.

- Vá chamar seu irmão, Gina – Mamãe pediu assim que dei a primeira garfada em minhas panquecas.

- O Harry ainda não acordou, Lily?

- Não, James, apesar de eu já ter ido chamá-lo duas vezes. Ele...

Quieta, apenas comendo, acompanhei a conversa dos dois sobre Harry. Não disseram nada novo ou interessante, e logo o assunto mudou para a Páscoa, a gasolina do carro, a viagem planejada para o verão, o fim de semana... As coisas que toda família discutem.

Família.

Para mim, papai e mamãe são minha família. Harry não.

Subi quando terminei. "Não se esqueça de chamar o Harry", mamãe me lembrou.

Quando entrei em seu quarto, que fica exatamente de frente para o meu, ele ainda estava esparramado na cama, dormindo.

São nesses momentos, nesses momentos pequenos, que eu quase esqueço que ele é meu... irmão. Meu coração se encheu de amor por aquele emaranhado de cabelos negros jogados na cama.

- Harry? Acorda.

Lentamente tentei chamá-lo, mas já sabia que teria de sacudir e falar alto.

Ele se espreguiçou e bocejou ao acordar. Sorriu ao me ver sentada em sua cama.

- Bom dia - ele disse.

Lá de baixo, mamãe e papai gritaram uma despedida, ela me lembrando novamente de chamar Harry.

- Bom dia.

- Vem cá.

Ele me abraçou e me puxou para perto dele. Deitada em seu peito, sentindo seu coração bater sob minha mão, eu esqueço de tudo.

- Seu cabelo está molhado. E com cheiro um bom. Dá vontade de comer.

- É o shampoo. – Eu estava quase dormindo, apertada entre seus braços embaixo das cobertas, minha perna nua sobre a dele – É de pêssego.

- Meu pequeno pêssego. – percebi o riso em sua voz, e sorri - Abra os olhos.

Quando o fitei, deitada ali, consciente da casa vazia, me senti feliz. E ele estava feliz também.

- Você não dormiu bem, Gina.

- Não.

Ele beijou minha testa.

- Você devia ter tomado um chá.

- Eu tomei.

- Então devia ter tomado um remédio.

- Remédios não resolvem meu problema, Harry. Você sabe disso.

O silêncio entre nós sempre foi como o que surgiu naquele momento. Um silêncio cúmplice, onde tanto é dito no olhar.

Eu sei. E eu sinto tanto quanto você. Tanto quanto. Era isso o que seus olhos me diziam.

Ele me abraçou mais forte, e me deitei totalmente em cima dele, enlaçando-o pelo pescoço. Com o ouvido em seu peito, prestava atenção no batimento de seu coração, que parecia pesado.

Harry mexia em meus cabelos de um jeito bom. Vindo dele, é sempre bom.

- Você sabe que eu te amo, não é?

- Sei. – respondi – Eu te amo também.

- E esse amor nos mata.

- Não mata. – olhei em seus olhos - Destrói.

Permanecemos deitamos por mais alguns instantes, então Harry foi tomar banho, enquanto fui buscar seu café da manhã. Quando voltei a sua suíte, me atirei sobre a cama.

- Trouxe seu café – gritei para ele ouvir, já que estava com o chuveiro ligado. – Está na sua escrivaninha.

- Obrigado!

Olhando ao redor, vi que Harry já tinha arrumado a mochila e escolhido a roupa para a escola. Tínhamos de chegar lá em pouco mais de 20 minutos.

- Eu quero passar na locadora na volta para a casa. – comentei ao entrar em seu banheiro - Mas a gente tem que ir naquela locadora boa que fica no shopping do centro, porque a perto daqui não tem os filmes que quero.

- Você já procurou aqui? – ele perguntou, atrás do boxe fechado.

Eu estava escovando os dentes, então demorei um pouco a responder.

- Liguei para lá ontem a noite, não tem. - abri o boxe - Toma. Aproveita e escova os dentes também.

- Obrigado.

Instantes depois, ouvi o chuveiro ser fechado. Eu estava penteando os cabelos de frente para o espelho.

- Esse seu roupão está muito curto, Gina. – ele disse, depois de secar-se e vestir seu próprio roupão – Você devia se vestir de forma mais decente quando sair do banho. Chega pra lá. Preciso fazer a barba.

- Não vai dar tempo! São quase oito horas, Harry!

- Merda!

Ele correu para comer. Ainda bem que eu havia trago suas panquecas e todo o resto aqui para cima.

Enquanto ele engolia o café, eu sequei o banheiro que ele havia molhado. Harry era tão típico! Toalha molhada no chão, a escova de dentes equilibrada na beirada na banheira.

- Vai vestir uma roupa para gente sair, Gina.

- Já to indo! Guardei sua escova no lugar de sempre. Vê se não vai se confundir e escovar seus dentes com a minha!

- Se você não deixasse sua escova aqui, eu não iria me confundir nunca.

- Se eu também tivesse um banheiro no meu quarto, não deixaria. Você tem privilégios só porque é mais velho.

- O banheiro do corredor é só seu. Você não o usa porque não quer.

- O seu tem mais atrativos. – novamente no quarto, sorri para ele – E eu sei que você adora ter minhas coisas aqui.

Ele não disse nada, apenas riu.

Voltei pra o meu quarto e joguei tudo que precisaria dentro da mochila. Com as portas abertas, eu ouvi Harry abrir seu guarda roupa. Estava trocando de roupa, assim como eu.

- Vamos?

Ele entrou em meu quarto instantes depois, com as meias e os tênis nas mãos.

- Ainda preciso vestir uma blusa.

- Você é tão lerda!

- Eu?

- Eu acordei depois de você e já estou pronto. Só falta amarrar os cadarços.

- Você está pronto porque eu te acordei e eu levei o café para você. E você nem arrumou a cama!

- A empregada faz isso.

- Folgado. Merda! – não consegui abotoar o sutiã as minhas costas – Abotoa pra mim.

Me aproximei da cama, onde ele estava sentado. Quando Harry fechou a peça, me abraçou pela cintura e beijou a linha de minha coluna.

Aquilo me causou um arrepio.

- Harry...

- Você tem um cheiro tão bom.

- A gente precisa ir...

Ainda abraçado a mim, ele suspirou.

- É verdade.

Apertei suas mãos sobre minha barriga.

- Então vamos, Gina – ele falou depois de um instante. Se pos de pé e deu um beijo rápido em meu ombro antes de sair.

Vesti uma blusa e casaco qualquer e o segui.

Querer e não querer.

ooOoOoOoOoOoo

De carro, a gente chega na escola em 5 minutos. Mas pela falta de tempo, Harry andava a alta velocidade.

- Eu acho melhor a gente deixar os filmes para amanhã, Gina. Eu queria vê-los também, mas tenho que terminar meu trabalho sobre o Apanhador no Campo de Centeio, que é para amanhã.

- Mas amanhã é quinta e você tem futebol, a gente sai mais tarde da escola. E também vai ter uma maratona de Twin Peaks na TV, e eu queria ver...

No curto trajeto de casa a escola, quando vamos de carro, normalmente ficamos ouvindo música e conversando sobre coisas sem importância. Assim, aquele dia começou como mais um entre muitos, sem nada de especial.

No colégio, nada relevante aconteceu. Mas na hora do primeiro intervalo entre as aulas cruzei com Hermione Granger, uma amiga de cabelos castanhos e cacheados, no corredor.

- Sabe o que descobri?

Mas se eu sabia ou não, não pude descobrir, pois tínhamos de ir para a aula. Foi só na hora do almoço que descobri o quê Hermione tinha a dizer.

- É sobre a Luna.

- Luna Lovegood?

Luna era a minha amiga desde sempre. Ela é linda de um jeito único, com seus cabelos loiros claros e ar sonhador. Eu curso algumas disciplinas com ela - ambas estamos no mesmo ano - e Hermione cursa algumas com Harry – eles estão um ano a nossa frente.

- É.

- Não sabia que você era dada a fofocas, Hermione.

- Não sou, mas isso me espantou.

- O que é?

Não era nada. Luna tinha começado a namorar o neto do professor de biologia, o Sr. Scamander.

- Ele até que é bem bonitinho. E simpático.

- Gina, mas ele é velho para ela!

- Ele tem uns 22 anos e ela 16, a difer...

- Não! Ele tem 26.

- Mentira?!

- É sério.

- Nossa, mas ele parece ser tão mais novo, Hermione. Quando ele chegar aos 40 vai estar super inteiro ainda.

- Isso é um absurdo, não é? – ela parecia falar consigo mesma.

Oops. Algo errado.

- Eu não diria isso. Vai ver que é coisa de genética.

- Não, não ele parecer mais novo. Mas a diferença de idade.

Ah, sim. O problema era esse.

- Dez anos não é muita coisa, Hermione. Se ela tivesse 10 e ele 20, aí sim a gente poderia estranhar. Mas ele até parece ter menos do que 26.

- Gina, você está louca! A diferença de idade é muito grande sim! Se ela tivesse 21 e ele 31, ou 25 e 35, tudo certo. Mas a Luna ainda é menor de idade!

Hermione falou disso o almoço todo. Me incomodou. Não por causa daqueles 10 anos, mas porque minha amiga era muito racional. Se ela já estava enlouquecendo pelo fato da Luna ser menor de idade e seu namorado ser um pouco mais velho, uma diferença que não era nem óbvia, imagine se ela descobrisse... O que eu sinto.

Para Hermione as coisas eram fáceis. O relacionamento amoroso dela não tinha complicações. O namorado dela se chamava Rony Weasley e era um rapaz ruivo e divertido, que também estudava no colégio. Ele, Hermione e Harry eram bons amigos e se conheciam desde a infância.

Tentei fazer Hermione se colocar no lugar da Luna, mas ela estava irredutível.

- Era só esperar alguns anos, Gina.

Mas Hermione não esperaria, se fosse Luna. Era fácil falar quando não era com ela. Qual o problema, se eles se amavam?

Hermione me deprimiu. Ela aumentou as coisas de forma a tudo parecer terrível. Se ela soubesse... Se a escolha de Luna era tão problemática, o que ela não diria da minha? Será que ela ainda falaria comigo, ainda andaria comigo? E com Harry? Explicitaria nossos supostos erros para os outros?

- Olá.

Perdida em meus pensamentos, tomei um susto com aquela voz que me fez pular da cadeira. Era Rony, seguido de Harry. Mesmo sem fome alguma depois de ouvir Hermione, fingi interesse na comida. Se eu olhasse nos olhos de Harry, iria desabar.

- Falando sobre o que, meninas?

- A Luna, Rony.

- Ainda, Hermione?! Será que esse assunto não deu o que tinha que dar?

Me desliguei novamente dos sons ao meu redor. Preocupação, culpa, vergonha... Até quando? Por que isso? Por que comigo, com a gente?

Pelo canto dos olhos, vi Harry se aproximar. Sai o mais rápido possível e corri para o banheiro.

O café da manhã e as poucas garfadas que dei no almoço reviravam em meu estômago. E mesmo depois que coloquei tudo para fora, ele continuava dando cambalhotas.

Dentro da mochila, meu celular avisou do recebimento de uma nova mensagem de texto. Sentada no chão do banheiro, vi o nome do remetente: Harry.

Vc ta bem? Saiu estranha. Responde, to preocupado. Bjss.

Peguei a escova e a pasta na mochila e escovei os dentes. Lavei o rosto, usei o banheiro, fiz tudo bem lentamente.

O celular sobre a mochila soou com o recebimento de outra mensagem. Ignorei. Depois de um instante, ele começou a tocar. Era Harry, eu sabia pelo toque.

Não atendi, e o telefone continuava a tocar e tocar. Recusei a ligação a vi a nova mensagem.

To te procurando em td o lugar! A escola é grd, mas vou t achar. Onde vc ta? Oq aconteceu? Me responde, gina!!!!

Se eu não respondesse, Harry logo colocaria a escola toda atrás de mim.

To no banheiro atrás do refeitório, oq nunca tem ning. Ta td ok, ñ se preocupe. A gente conversa mais tarde. Te amo.

Pronto, assim ele se acalmaria.

Outra mensagem.

- Droga!

Pq vc demorou tanto a responder?

Pq eu to no banheiro, harry. Eu t disse.

Oq vc ta fazendo aí?

Q pergunta! Oq se faz em um banheiro?

Vc ñ ta escondida chorando ñ, neh?

Ele me conhecia tão bem!

Ñ, ñ se preocupe. A gente c vê depois, bjss. To indo pra aula.

Lavei o rosto mais uma vez, então saí.

Tentei esquecer de tudo e me concentrar na aula de química. O professor é Severo Snape, um implicante, e eu sou uma boa aula, o que parece irritá-lo ainda mais.

Na hora de tomar a presença, ele chamou alto pelo meu nome, como é de costume. Acho que ele sempre tem esperanças de me ver pular da carteira, em uma auto denúncia por estar fazendo algo errado.

- Ginevra Lily Potter?

Droga! Eu detestava que me chamassem de Ginevra! Gina era tão mais bonito.

- Presente, Sr. Snape.

Ele também dá aulas a Harry. Certa vez, quando comentei a péssima mania do professor com ele, Harry me disse:

- Comigo é a mesma coisa. Toda vez que chega ao meu nome, é "Harry James Potter" em um tom em que parece que eu poderia estar cometendo um assassinato.

O problema de Snape era que ele era muito ranzinza. Não com todos os alunos, claro. Para os protegidos dele, ele era um ótimo professor. E para mamãe também. Eles se conheciam desde a infância, tinham até namorado na adolescência, e reclamar dele para ela era ouvir muito de volta.

- Vocês não gostam dele porque ele é um professor que exige do aluno. – Mamãe costuma dizer nesses momentos - Vocês só gostam de quem dá moleza, como aquela Sibila Trelawney.

E nem adiantava discutir.

O sinal tocou exatamente quando Snape estava se aproximando da minha carteira, certamente para dar uma olhada se eu estava fazendo ou não os exercícios que ele pediu.

Assim que coloquei os pés para fora da sala vi Harry.

- Oi. – ele me cumprimentou.

- Ei.

Caminhamos em silêncio até o estacionamento. Foi só quando viramos a esquina da escola que ele tocou no assunto.

- O que aconteceu?

Olhei para ele. Estava tão bonito, com a luz da tarde batendo em seus cabelos. Não pude resistir a esticar a mão e toca-los. A beleza dele doía em meu peito. Os cabelos tão negros, os olhos tão verdes, mais visíveis agora, que ele usava lentes de contato. O rosto de galã de cinema francês, de beleza rebuscada.

- Nada.

Ele virou a cabeça, mal tirando os olhos da direção, e beijou a palma da minha mão. O gesto doce, carinhoso, trouxe lágrimas aos meus olhos.

- Mentira, Gina.

- Nada importante.

- Então me diga o que é sem importância.

E eu contei, porque a gente não tem segredos. Nenhum. Todas as coisas, das mais engraçadas e ridículas àquelas vergonhosas e embaraçosas, nós dividimos um com o outro.

- A Hermione falou disso comigo e com o Rony também. – ele comentou quando terminei - Mas não vejo o porquê de você ter ficado mal pela Hermione ficar falando da Luna.

- Eu não fiquei mal por isso. Eu nem fiquei realmente mal, você sabe. Eu só pensei que, se a Hermione acha a escolha da Luna errada, mesmo sem ser, imagine o que ela não acharia da minha escolha. Da nossa.

Harry não respondeu, só suspirou e se concentrou no trânsito, mas percebi que ele ficou desconfortável com a possibilidade.

- Esquece, Harry. Desculpa. Eu não quis colocar coisas na sua cabeça.

- Só vamos mudar de assunto, Gina. Por favor.

Mudar de assunto.

Pra gente não enlouquecer, tínhamos que pensar o menos possível. O que nem sempre era fácil.