Gina
Da janela do meu quarto eu posso ver nosso quintal dos fundos. Naquela tarde de sábado, incrivelmente quente para maio, eu estava olhando lá para baixo e observando Harry atirado na grama verde. Ele tinha jogado bola com o Jeremy e o Peter, uns menininhos que são nossos vizinhos, mas naquele momento estava esparramado sob o sol, só de bermuda. Ele era realmente bonito, porém não era sobre sua beleza que eu estava pensando. Eu estava pensando na conversa com ele que eu havia adiado, a conversa que teríamos que ter. Talvez fosse hora para ela.
Enquanto saía do quarto e descia, fiquei refletindo sobre a tal conversa. Eu estava tão confusa, tão perdida... Não sabia se conseguiria colocar os pensamentos em ordem e resolver alguma coisa. Só que se eu ficasse adiando seria pior. Eu já estava evitando aquilo tinha quase uma semana. Era naquele momento ou nunca.
Então, determinada, bebi um copo de água antes de sair para o quintal, com outro copo cheio na mão. Era um dia realmente quente. Mamãe estava no quarto, fazendo qualquer coisa no computador, e papai estava assistindo televisão. Meus pais estavam ocupados, logo eu e Harry poderíamos conversar sem interrupções.
Sempre silenciosa, parei ao lado dele, que estava de olhos fechados. Perdi mais um momento analisando-o e imaginando no que Harry estava pensando, depois derramei um gole da água gelada bem em cima do seu estômago.
- Porra!
Ele se sentou em um segundo, a cara amarrada. Eu ri e me joguei ao lado dele.
- Porra, Gina, por que você fez isso?
- Eu estava entediada – sorri. Na verdade, dei meu melhor sorriso e Harry pareceu menos bravo.
Ele tomou o copo de água da minha mão e bebeu ("Só para garantir que você não vai me molhar de novo"). Em seguida voltou a se deitar como antes - os braços e pernas abertos, os olhos fechados - sob o sol.
Nesse exato momento eu quis me deitar sobre ele e beijá-lo, mas também não quis. Eu andava realmente confusa.
Por fim me deitei ao lado dele e tentei fitar o sol. Era impossível, porque o sol estava forte e iria me cegar antes que eu conseguisse ficar com os olhos bem abertos virados para ele.
- Harry, vamos conversar?
- Sobre o quê?
Havia alguma coisa na voz dele. Se eu conhecia bem Harry, e eu conhecia, ele só estava tão calado ali porque estava refletindo sobre algo.
- Sobre nós.
Ele abriu os olhos e me encarou.
- Oh, claro.
Nossa, ele tinha os olhos tão verdes, tão luminosos! Daquela vez me deu vontade de abraçá-lo e mandá-lo esquecer de tudo, deixar tudo para lá, porque estava tudo bem novamente. Mas tudo que fiz foi fechar os olhos e virar o rosto para cima, para o sol forte, e falar:
- O verão desse ano vai ser terrivelmente quente.
- Vai sim.
- Se você quer ficar bronzeado, é melhor ir ao cube do que ficar aqui.
- Não quero ficar bronzeado, só me deitei um pouco no sol. Fortalece os ossos.
- Quem disse?
- A avó Potter, quando ainda estava viva. Lembra?
Eu não lembrava praticamente nada dos meus avós, que agora estavam todos mortos. Não sei como Harry conseguia lembrar dessas coisas.
- Não.
Senti algo na barra do meu vestido e abri os olhos só para ver que era a mão do Harry. Ele estava puxando a barra para baixo, porque eu tinha deitado de qualquer jeito e o vestido estava na altura dos meus quadris. O gesto não durou mais do que poucos segundos, logo eu estava novamente com os olhos fechados, mas a mão do Harry ficou ali, em cima do meu joelho. O polegar dele descrevia círculos na minha pele e milhões de pensamentos passaram pela minha mente: Harry e Cho juntos, no baile do colégio; a gente se beijando em casa e no jardim público; as noites que a gente dormia junto; as mãos firmes dele em mim... e todo tipode coisa indecente – esses últimos pensamentos andavam mais insistentes do que nunca.
Me levantei e fui até a cozinha, onde bebi mais água, não sei se por sede ou para ter uma desculpa para sair de perto de Harry. Quando voltei lá para fora, ele ainda estava deitado, mas seus olhos estavam pregados em mim.
- Harry – falei, quando me deitei de novo ao seu lado –, nós precisamos conversar.
Ele estava me cobrando a conversa desde segunda, mas agora que eu estava ali, cobrando-a dele, ele não parecia saber o que dizer.
- Me desculpe.
Bufei, porque ele estava se desculpando mais uma vez por tudo que tinha acontecido entre ele e Cho. Ele já havia se desculpado bilhões de vezes.
- Desculpe mesmo – continuou Harry. – Eu realmente lamento.
- Eu também – falei, fitando-o -, mas já passou. Agora está tudo diferente.
- Eu sei - E realmente sabia. Ele estava respeitando muito bem, a não ser por uma eventual mão no joelho ou coisa do tipo, minha decisão de sermos apenas irmãos. – Nunca mais vai ser como antes?
- Harry...
- Tudo bem, tudo bem! Não vou insistir.
Ali no quintal, sob o sol quente, estiquei minha mão e apertei a dele.
- Eu vou sempre estar aqui. Só não sei como estarei, se como sua irmã ou... como o que.
Era tão bom viver livre de qualquer sentimento de culpa, mas tão ruim sentir saudades do Harry e do que a gente tinha antes.
- E enquanto estamos separados, o que vamos fazer? Viver nossas vidas como se fossemos um casal normal de irmãos?
- Exato.
- E isso quer dizer...?
- Quer dizer que a gente não precisa mais temer nada, que podemos nos divertir juntos, passear, conversar e coisas do tipo, como amigos. Podemos até sair com algumas pessoas – ele se sentou, soltando a minha mão – só para saber como é.
- O quê?!
Deu para ver que minha idéia não o agradou nem um pouco, mas me mantive firme. Eu tinha pensado sobre aquilo nos últimos dias.
- A gente é livre. Podemos sair com quem quisermos.
Eu estava dizendo a verdade: não havia mais nada entre nós. Éramos livres para fazermos o que quiséssemos. Se nunca mais voltássemos a ficar juntos, seria ilógico pensar que não sairíamos com outras pessoas. Se eu não ficasse com Harry novamente, se não conseguisse isso, talvez até gostasse um pouquinho de alguém um dia. Mas ao mesmo tempo eu sabia que ele era o único para mim.
Harry voltou a se deitar e ficamos alguns minutos em silêncio.
- Mas – ele disse por fim – se isso acontecer, você não vai ficar chateada?
- Não – eu ia ficar um pouco chateada sim, e com ciúmes, mas não disse.
- Bem, eu vou. Não gosto disso.
- Olha quem diz! Você já marcou outro encontro com a Cho – Harry me olhou surpreso; devia estar se questionando sobre como eu sabia daquilo. – Eu sei que combinaram de sair em junho
- Eu ia te contar, Gina – apressou-se em dizer.
- Quando? No dia do encontro?
Eu havia ficado chateada, quando descobri do encontro, por Harry não ter me falado nada, mas não brava. Eu entendia porque ele não quis me contar, eu mesma não havia contado a ele sobre ter saído com Dino. Porém, tudo isso não me impedia de detestar ainda mais Cho.
- Não, eu nem pretendo sair com ela! Eu vou dar uma desculpa qualquer, Gina, garanto que vou, e... Espera aí! Como você sabe disso? – "disso" significava seu encontro – Eu não contei para ninguém!
- Eu ouvi Cho e aquela amiga dela, Marieta não-sei-o-quê, conversando um dia desses, na escola, sobre o que vocês marcaram.
Me senti estranha, meio fora de mim, não sei porquê. Como se eu estivesse lá no céu, mas controlando meu corpo aqui na Terra. Como se eu fosse fazer algo que exigia muita coragem e isso me entorpecesse. Como se eu tivesse tomado alguma droga, apesar de estar totalmente sóbria. Meu coração estava disparado sem motivo. Eu me sentia fora do tom, como se não me reconhecesse, mas era eu mesma ali. Acho que tinha mudado um pouco nos últimos dias, mas era eu mesma ali.
- Eu juro, juro que não pretendia sair com ela – Harry continuou defendendo-se. - Eu ia... Eu vou dar uma desculpa e cancelar a coisa toda. Gina, eu não te contei porque pensei... Pensei que você ficaria chateada, sei que tem motivos para isso.
- Não estou chateada – garanti com sinceridade. Eu tinha ficado chateada, mas não estava mais. Harry não pareceu acreditar em mim.
- Ah, não?! – seu tom foi bem descrente.
- Não. Não me importo que você saia com ela. Somos só irmãos. Por que você não poderia sair com a Cho? Você pode sair com quem quiser, assim como eu.
- Ah! – ele quase gritou, era como se tivesse acabado de fazer a descoberta do século – Você está saindo com alguém! Duvido que sexta passada você foi se encontrar com a Luna.
Harry ficou furioso, mas continuou apenas me encarando. Foi a vez de eu me sentar.
- Eu saí com um cara, mas...
- Quem? – seu tom foi bem rude.
Tive vontade de gritar com Harry. Eu só tinha ido ao cinema com Dino! Não era como se eu tivesse deixado alguém enfiar as mãos dentro das minhas calças.
- Isso não é da sua conta.
- Isso é da minha conta sim! Eu sou seu...
- O quê? – cortei-o.
- Seu irmão. Tenho o direito de saber.
- Então ta, irmão. Eu saí com Dino Thomas. E antes quase saí com Miguel Corner. Mas nada aconteceu – me apressei em explicar, porque Harry já tinha se levantado com raiva, andando de um lado para o outro.
- Claro que não, imagine! – debochou ele.
- Nada aconteceu, Harry. Eu juro.
Ele parou de andar e me encarou. No instante seguinte já estava na minha frente, me segurando forte pelo braço.
- Você jura? Jura? Nada, nada aconteceu, nem um beijo?
- Juro, Harry.
Ele deve ter percebido que eu estava dizendo a verdade, porque me soltou e voltou a se sentar na grama. O sol estava começando a abrandar.
- O que aconteceu então se nem um beijo rolou? Você viu que os dois eram uns idiotas e saiu correndo?
- Mais ou menos isso – foi tudo que disse sobre o assunto. – Ao contrário de você, não precisei deixar ninguém enfiar as mãos dentro das minhas calças.
Ele abaixou a bola. Sabia que não podia me cobrar nada, principalmente agora.
- Eu já me desculpei, Gina.
É, era verdade, mas não queria voltar àquele assunto.
- De qualquer forma, como eu estava dizendo, não me importo que saia com a Cho.
- Claro, porque se eu sair com ela, você vai poder sair com quem quiser também – havia ressentimento na voz dele.
- Não. Eu posso sair com quem eu quiser – desafiei-o - você saindo com a Cho ou não. Isso sou eu quem resolvo.
A expressão do Harry foi cheia de dor, e tive vontade de abraçá-lo e retirar o que disse, porém me mantive firme.
- Harry, pode ser bom nós conhecermos gente nova.
- Por quê?
- Porque podemos viver novas experiências, sentir coisas novas, ver como é.
- Por que – ele insistiu – você quer isso?
- Porque – era tão doloroso de dizer, soava tão mal - eu não posso ter isso com você e quero experimentar essas coisas. Por favor, entenda. Você pode fazer o mesmo, Harry. Vou me importar, é claro, mas vou aprender a lidar com a situação.
- Ta, podemos fazer tudo isso, porque estamos separados. Mas e se um dia a gente voltar, como vai ser?
Suspirei.
- Não sei. Estou confusa, já disse.
- Você... – a voz dele saiu meio rouca – Você não quer mais saber de mim.
- Não, errado! Eu gosto tanto de você! Sempre vou gostar, mas não posso ficar com você e viver isso escondido, então não ter minhas próprias experiências. A gente... – suspirei - Por mais que as coisas voltem a ser como eram antes, nós nunca vamos ter um relacionamento convencional. É melhor seguir em frente, conhecer outras pessoas do que...
- Se a gente voltar, Gina, toda essa conversa de sair com outras pessoas vai ter sido inútil! Vamos esquecer isso e...
- Não, não, Harry! Se as coisas voltarem a ser como antes, a gente vai continuar saindo com outras pessoas.
- Não.
- Sim.
- Por quê? Quero dizer... Se estamos um com o outro, não precisamos de mais ninguém.
- Ah, não? Então quer dizer que se a gente voltar você vai morrer virgem? Porque certamente eu – abaixei a voz nesse ponto, só para garantir que ninguém ouviria mesmo – nunca vou transar com você. Então, vai morrer virgem?
Harry não respondeu. Ah, eu tinha marcado ponto!
- Mas eu não quero sair com alguém por sair – ele falou momentos depois. – Eu não vou sair transado por aí.
- Claro que não, concordo. Mas se nós voltássemos seria como um relacionamento aberto, sabe? Se você achasse alguém que gostasse um pouco, então... Poderia sair com ela.
- E você não ia ficar com ciúmes?
- Morreria de ciúmes. Mas no fim você sempre voltaria para mim, não?
Ele esticou a mão e tocou meu rosto, em um gesto carinhoso. Senti que iria derreter, então, para garantir que não perderia o controle, afastei sua mão.
- Não quero te dividir com ninguém, Gina.
E eu não queria dividi-lo, mas sabia que se voltássemos seria melhor deixar a relação aberta a ser traída de novo. Assim talvez as coisas funcionassem.
- Não quero que ninguém chegue perto de você – Harry continuou. – Não posso suportar a idéia de chegar em casa um dia e descobrir que você está apresentando um cara a James e Lily.
- Mas, em segredo, a gente ainda teria um ao outro – tentei fazê-lo compreender a situação hipotética. – Harry, a gente não pode ignorar que há um mundo lá fora. As pessoas da nossa idade saem umas com as outras, se nunca fizéssemos o mesmo seria estranho. Teríamos que disfarçar, você sabe. Sem contar que não podemos fingir que nunca iríamos querer mais ninguém, já que não podemos ter um ao outro. Se a gente pudesse nos beijar, nos tocar, transar, seria diferente... Mas a gente não pode, e eu, pelo menos, vou querer fazer tudo isso antes de morrer – voltei a me deitar. – Quero ter minhas próprias experiências, e não falo só de sexo, mas de sair por aí de mãos dadas, abraçar, sentar lado a lado sem medo... Essas coisas simples.
- Você está tão diferente. Acho que nem te conheço mais.
Às vezes eu pensava o mesmo. Mas havia refletido muito durante o tempo em que me afastei de Harry e percebi que tinha idéias muito tolas antes. Agora eu estava mais prática e sabia que Harry, que negava tanto o que eu sugeria, adoraria colocar tudo aquilo em prática. Não era exatamente isso que havia feito com Cho?
- Você é suficiente para mim – ele ainda disse.
- Mas também sou inalcançável! Eu sei que foi por isso que você ficou com a Cho, porque eu não tinha o que te oferecer, e ela tinha. Se a gente não pode ficar um com o outro, a gente pode ficar os outros, com todas as outras pessoas que quisermos.
- Eu não quero ficar com mais ninguém.
- Você diz isso agora, mas na hora de se agarrar com a Cho, se agarra – Tive vontade de chorar, mas me segurei. Harry estava cutucando a grama e nem notou. – A verdade é que você quer que eu fique com você, te oferecendo o que posso, e o resto, sexo e tudo isso, você consegue com qualquer outra.
Harry negou, mas foi uma negativa que não me convenceu. Desconfio que nem convenceu a ele mesmo, porque era exatamente isso: ele podia aceitar a idéia dele sair com outras garotas, mas não podia aceitar a idéia de eu sair com outros garotos.
- Ei, olha para mim – pedi, e ele me olhou. - Eu só quero viver o que nunca vou poder viver com você. Eu quero me sentir normal, Harry.
- Faça o que quiser, Gina, eu não posso te impedir de nada. Só quero te ver feliz – ele esticou a mão e tocou numa mecha dos meus cabelos. – A gente está discutindo isso à toa. Não estamos juntos nem nada.
- É, não estamos – doeu admitir, doeu muito. – Vamos discutir isso se um dia voltarmos a ficar juntos.
- E não há mesmo esperanças para nós? Quero dizer... De ser como antes.
Dei de ombros. Eu não sabia, sinceramente.
- Não sei o que quero. Mas a esperança é a última que morre, não é?
ooOoOoOoOoOoo
Depois que conversei com Harry me senti mais leve. O engraçado que é nossa conversa não tinha sido como eu havia imaginado; tive a impressão de que não tínhamos conversado nada do que eu queria. Só que eu nem sabia o que queria discutir exatamente. Acho que só queria dizer a ele o que andava pensando, sobre como as coisas seriam de agora em diante e como seriam se voltássemos a ficar juntos. Então, depois disso, me senti melhor. Curioso.
Nós estávamos nos dando realmente bem, apesar de estarmos um pouco distantes. Eventualmente eu pegava Harry calado e pensativo, assim como eventualmente sentia uma falta imensa do que tinha com ele antes. Era uma saudade que parecia me apertar de dentro para fora, destruindo tudo no caminho. Eu queria tanto voltar para ele, tanto... Mas ao mesmo tempo algo me impedia.
Sem contar aqueles pensamentos que eu tinha. Pensamentos nada respeitosos sobre Harry. Parei momentaneamente de pedir perdão a Deus por isso, porque eu nem queria mais que Ele me ouvisse - queria mesmo é que ignorasse minha existência. Vez ou outra eu me pegava com esses pensamentos eróticos e me repreendia terrivelmente, mas os pensamentos sempre voltavam. Eu já nem achava que beijar Harry, só beijar, era assim tão errado...
Todavia, entre a escola, as lições, meus passeios com Luna, Hermione e mamãe, os livros que lia e todo o resto, eu pensava muito mais na minha situação e na de Harry, em como estávamos e no que éramos, do que em nós nos agarrados sobre uma cama. Eu via, a cada dia, que estava me acostumando a ele novamente e que desejava sua companhia. Eu queria que Harry estivesse sempre em minha vida.
No domingo seguinte à nossa conversa, eu e minha família estávamos na casa do Remo e da Tonks Lupin quando me dei conta disso definitivamente. Deixei os adultos na sala de jantar discutindo a viagem que fariam para o casamento, que seria na França, de Gui Weasley e Fleur Delacour e subi até o quarto do Ted, o filhinho dos Lupin, para chamar Harry para almoçar. Ele estava lá em cima com o menino, tomando conta dele e mimando-o, já que era seu padrinho. Ted era bem pequeno, acho que tinha cerca de seis meses.
Antes de entrar, parei por um momento na porta e fiquei observando os dois sem ser notada. Harry segurava Ted nos braços com todo o cuidado do mundo, cheio de ternura - ele adora crianças -, e conversava com ele, mesmo que o bebê não pudesse responder.
Eu esqueci por um instante o que nós éramos e desejei que Harry fosse o pai dos meus filhos, porque ele daria um pai maravilhoso. Então lembrei o que éramos e meu coração ficou pequeno e meus olhos cheios de lágrimas. Nesse momento saí da porta e refugiei-me no corredor, chorando em silêncio.
Harry nunca seria o pai dos meus filhos e nós nunca seríamos uma família. Nunca. Eu já sabia disso, mas o fato não me impediu de chorar. Chorei rios de lágrimas silenciosas, mas enfim parei. Depois de ir ao banheiro e lavar o rosto, voltei ao quarto.
- Hora do almoço – informei a Harry, como se nada tivesse acontecido. Agora ele estava sentado numa poltrona, com Ted adormecido ainda em seus braços.
- Já vou.
Mas ele nem se mexeu. Eu fui até lá e me sentei no braço da poltrona. Foi nesse instante que desejei que Harry estivesse sempre em minha vida, não importava que tipo de relação tivéssemos.
- Você quer ter filhos um dia? – perguntei. Se ainda estivéssemos juntos ele diria que não, mas como não estávamos, esperei por uma resposta diferente.
- Não sei, acho que sim – ele se levantou e colocou Ted no berço. Lá de baixo, a voz da mamãe nos chamou para almoçar. – Esse carinha está ficando muito esperto. Já está enorme.
- Verdade - Ted era um bebê adorável.
Harry sentou novamente na poltrona e continuou:
- Mas, sabe, eu não preciso de filhos para ser feliz nem nada do tipo. Não me importo de não ter uma família convencional.
Em outras palavras, ele estava dizendo que abriria mão de tudo para ficar comigo. Mas não era justo, e o fato de estarmos separados era bom por isso: podíamos viver nossas vidas como todo mundo, o que incluía a possibilidade se casar e ter filhos um dia.
- Você daria um pai maravilhoso. Pode ter uma família e tudo um dia.
- Talvez.
Levei a mão ao rosto dele, acariciando sua face, e Harry segurou minha cintura e me puxou do braço da poltrona para o colo dele. Não foi um gesto sensual - foi mais carinhoso. Nós ficamos ali, fitando um ao outro, por um momento. Eu sabia o quão absurdo era aquilo (olha onde estávamos!), mas meu corpo não me obedeceu quando tentei me mover. Não vinha som algum do corredor, o que significava que todos ainda estavam lá embaixo.
Harry estava imóvel me segurando. Eu fui a primeira a mexer: minhas mãos passearam lentamente pelo rosto dele no que me pareceu uma eternidade – toquei suas sobrancelhas, suas pálpebras, seu nariz, sua bochecha, seu queixo, seus lábios... Seus lábios. Eu sentia saudade daqueles lábios.
Então uma das mãos dele subiu da minha cintura para o meu cabelo, bem devagar, e os lábios que eu antes admirava alcançaram meu pescoço.
- Harry – murmurei, não sei se em protesto ou em um gemido de prazer. Senti que tudo acontecia em câmera lenta, porque cada gesto nosso era muito suave e vagaroso.
Afastei-o quando seus lábios tentaram alcançar minha boca. Fiquei observando Harry por alguns segundos ainda e, depois, tirei as mão deles de mim – não de uma forma rude, mas muito zelosa – e me levantei.
Não sabia onde estava com a cabeça... Ou melhor, eu sabia: em Harry. Meus pensamentos foram anulados por ele por alguns minutos. Que loucura! Nós estávamos no quarto de Teddy, na casa dos Lupin!
- Desculpe – Harry disse.
Eu, de costas para ele, quase havia esquecido de sua presença ali.
Lá de baixo, novamente alguém nos chamou para almoçar. Nem prestei atenção na voz, nem sei quem gritou.
- Não, Harry, não se desculpe. Foi minha culpa também. Sinto muito.
- Eu não.
Encarei-o. Realmente ele não parecia se lamentar. Então de repente Harry estava ali, próximo, o peito quase colado ao meu.
- Sinto sua falta e não acredito que não sinta a minha – sua voz era quase sussurrada; meu coração disparou – Não é possível, não depois de tudo.
- Harry, eu...
- Eu te amo. E sei que você me ama. Vamos esquecer tudo...
- Harry...
- ...e ficar juntos. Podemos fugir agora, se você quiser. Pegamos o dinheiro das nossas poupanças, nos enfiamos em uma cidade onde ninguém nos conheça e que ninguém nos ache. Aí seremos livres.
- Nunca vamos ser livres, Harry.
Ele me fez encará-lo.
- Eu te amo.
- Isso é loucura, esse plano todo.
- Nosso amor é uma loucura. Vamos embora, vamos sair daqui. A gente pode passar em casa, pegar uma muda de roupa e...
Calei-o. Coloquei minha mão sobre sua boca e o impedi de falar. O pior daquele plano todo é que eu ainda ficava tentada a aceitar. Talvez fosse tão louca quanto ele.
- Não quero ouvir nada – eu falava baixo também, em parte porque havia um monte de gente lá embaixo, em parte porque não tinha força para falar mais alto. - Acabou, Harry.
- Nunca vai acabar. Por quanto tempo vai ficar mentindo para si mesma?
Saí de lá. Afastei-me dele e saí do quarto com o coração na mão, em pedaços. Mas não dei mais do que alguns passos, porque Harry segurou meu braço e me puxou de volta. Ele trancou a porta do quarto e me colocou contra ela. Ted era o único que podia nos ver, mas ele dormia. E mesmo que estivesse acordado não entenderia nada, era apenas um bebê.
- Eu quero sair – protestei sem entusiasmo. Não fitava Harry, preferi desviar os olhos dos dele, me concentrar em outras coisas, como a porta as minhas costas e o cheiro de talco no ar. Sabia que se olhasse em seus olhos algo aconteceria e, naquele momento, eu estava mais perdida, confusa e indecisa do que nunca para reagir. - Eu quero sair. Abre a porta.
- Não quer não – ele sussurrou em meu ouvido, e meus olhos se fecharam como se não me obedecessem. – Você quer ficar aqui comigo.
- Não. Não sei... Harry! – tentei afastá-lo, tentei mesmo, mas ele era mais forte. Ele tinha recomeçado a beijar meu pescoço, o que tirou minha concentração. Queria e não queria que seus beijos parassem. – Para.
- Não, Gina.
Como ele conseguia me desarmar com tanta facilidade? Como? Bastava ele fazer aquilo, me abraçar, beijar meu pescoço, me acariciar, que eu esquecia minhas decisões e todo o resto.
- Harry, por favor – senti-o virar meu rosto para ele, mas não abri os olhos. – Por favor.
- Abra os olhos – abri; ele estava tão próximo. – Vamos voltar, por favor.
- Não.
- Por favor. Pelo menos pense nisso.
- Não – mas eu já nem sabia o que estava negando, porque ele estava tão perto de mim, segurando meu rosto daquele jeito.
- É minha última tentativa, Gina, eu juro. Então pense nisso. Depois de hoje não vou insistir nesse assunto. Então pense, por favor. Agora vamos descer para almoçar.
No segundo seguinte ele tinha me soltado e me afastado da porta, que abriu e atravessou. Eu fiquei parada no quarto de Ted por um minuto ainda, me recuperando do que tinha acabado de acontecer. Estava meio espantada com a saída súbita dele.
Quando senti que já tinha novamente o controle de mim, também desci para enfim almoçar.
Aos leitores:
Bem, eu disse que esse capítulo seria maior e melhor. Maior ele foi, melhor, não sei. Isso são vocês que vão me dizer. Estão gostando do rumo da fic nessa nova fase? Ou está meio entediante?
Sobre esse capítulo, achei-o um pouco confuso na parte da conversa que aconteceu no quintal entre o Harry e a Gina. Foi muito difícil achar um diálogo adequado entre os dois para que o Harry pudesse saber o que a Gina andava pensando e, mesmo depois do capítulo estar finalizado, sinto que não consegui lapidar a cena para ser mais precisa e chegar a algo que me agradasse completamente. Mas o mais importante está aqui, e no fim a Gina conseguiu falar com Harry o que (eu) queria.
Acho que vão gostar do próximo capítulo, não sei... Algumas coisas vão acontecer com os protagonistas. O que acha que virão por aí, hein?
Abraços,
Lanni.
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Respostas às reviews:
ooo Oraculo: É, H e G "meio que se acertaram", mas a situação não está muito agradável para nenhum dos dois. Quero dizer, o H não desistiu dela, e a G está meio sem saber o que fazer, ela não sabe mesmo o que quer, como disse tanto nesse capítulo. Beijo!
ooo Anna Weasley Potter: É, a G mudou, mas não sei se posso dizer o mesmo do H. De qualquer forma, ela não consegue resistir a ele ainda, viu nesse capítulo? Tsc, tsc... Mas eles não voltaram nem anda. Será que isso vai acontecer?
Eu disse que a fic vai mudar um pouco porque a relação dos dois vai mudar também, devagarzinho, mas vai. Beijo!
ooo Jazz.C: É, espero mesmo que seja sempre bom ler a fic. Não sei se as pessoas vão gostar de como a fic está sendo/será desenvolvida. Beijo!
ooo Patty Carvalho: É "deprê" mesmo... Mas ao mesmo tempo em que o H não está muito animado, a G está (argh, estou cansada dessa palavra) confusa. Esse novo capítulo não foi gigante, eu não disse que seria, mas foi maior. Você gostou? Pode ser sincera - aliás, deve ser sincera. Beijo!
ooo Kellysds: Oi! Estou melhor agora, esse capítulo já foi mais fácil de escrever, apesar de não ter me agradado totalmente.
Não sei se você ia gostar da minha "opção" caso todos detestassem essa fic e todo universo que criei. Nesse caso, eu iria matar os dois no fim, o que não vai acontecer. Pelo menos isso eu posso dizer, rs. Beijo!
ooo anneborges: Puxa, que bom que criou sua conta! Agora pode mandar reviews sempre. * smile *
Quando eu li sua review, fique: "Hã, slash?! Como assim?", mas aí percebi que você quis dizer incesto. De qualquer forma, tem livros muito bons sobre o tema, acho que talvez vc devesse se arriscar um pouco nesse caminho.
Eu também acho que às vezes soa como se o H e a G não fossem irmãos, mas eles são e isso é uma sombra constante para nós, leitores e autora, e para os personagens, que vivem tudo. Bem, muito obrigada pela review e pelas palavras! Não suma! Beijo.
ooo Marcia B. S.: É, sim, eles iniciaram uma reconciliação, e o H quer mais, deu para ver. Mas agora ele vai mesmo deixar a G pensar e decidir o que ela quer. Beijo!
ooo fairy malfoy: Puxa, que bom. Eu também gosto dos capítulos do Harry, mas às vezes sinto como se estivesse escrevendo-os todos errado, porque soa meio parecido com os capítulos da Gina. Mas isso é porque, apesar de tudo, eles são muito parecidos e o H é um cara bem sensível. Obrigada pela review, realmente gostei dela. Beijo!
ooo Pedro Henrique Freitas: Pedro, Pedro... vc sempre sabe o que dizer para me animar. Gosto muito das suas reviews.
A Gina está perdidinha, mais do que uma agulha num palheiro, mas agora o Harry vai dar um tempo para ela respirar e decidir o que quer definitivamente.
"Eles decidem, realmente decidem, ser apenas irmãos e amigos. Creio que esta decisão seja a divisora de águas, não?" Mas será que essa decisão vai mesmo durar? Quer dizer, foi mais uma decisão unilateral (da Gina) e tudo. E eles ainda gostam um do outro, é claro.
Eu também estou para te mandar um e-mail há semanas, mas sempre esqueço. Decidi deixar Vermelho de lado momentaneamente, para poder me concentrar nas fics aqui do site. Beijo!
ooo jaqueline . sign: Bem, dessa vez vc não precisou checar seus favoritos "por décadas", o capítulo novo veio rapidinho. Sobre os capítulo dos Harry, eu também gosto deles, mas às vezes sinto que não estou fazendo-os direito. Mas o H é bastante sensível e é um rapaz incomum, então nem dá para diferenciar drasticamente os capítulos deles do da G. Sem contar que os dois são parecidos, pensam parecidos e tudo. É isso. Não some, tá? Beijo!
